E para a alegria de Sofia, reencontrou Defteros outras vezes, sempre naquele mesmo lugar escondido. Aos poucos se conheciam melhor - ela falando com muita facilidade e sem nunca deixar de ouvi-lo, ele um tanto hesitante porém ouvindo-a com vontade - e falavam de todas as coisas da vida. Até que um dia, Sofia teve a ideia de pedir que Defteros treinasse com ela. A aprendiz de amazona já sabia que ele treinava por conta própria e podia apostar que não devia nada para seu irmão, por mais que não fosse um cavaleiro. Então seria uma ótima ideia treinar com ele, não é?
De início Defteros recusou, dizendo que não servia para treinar ninguém, mas Sofia foi tão persuasiva com seus argumentos que ele não teve remédio senão ceder. E ela viu que estava certa sobre ele... Tão certa que ainda não havia conseguido acertá-lo.
Ele havia dito que não aliviaria as coisas para ela, já que o treino devia ser sério, e ela concordou, nada mais justo. Mas ela não previu que ficaria constantemente encontrando o chão, enquanto Defteros não estaria nem suando. Má ideia... Má... ideia...
Ela tornou a se levantar frustrada, sem saber se pelo cansaço ou pela vergonha, tentando ignorar os múltiplos arranhões que acumulava de tanto cair. Olhou para Defteros, que se mantinha impassível. Cada um com sua máscara. No que ele estaria pensando?
"Vamos, Sofia!", ele chamou. Ela correu para atacá-lo, e mais uma vez não conseguiu nada. E ele não havia saído da posição de defesa.
Defteros insistia para que Sofia atacasse, enquanto ele se esquivava e contra-atacava. Tinha medo de não medir bem sua força, que obviamente era muito maior do que a da aprendiz, então esperava que ela atacasse para adaptar seu ataque ao dela - afinal se não fizesse isso poderia machucá-la seriamente. Apesar disso, insistia para que o treinamento continuasse, porque se Sofia quisesse de fato se fortalecer, teria que aguentar muitas pancadas ainda. Rebateu outro golpe dela, que de novo foi ao chão. "Vamos parar. Você está cansada demais".
Sofia caiu de um jeito que afrouxou a máscara em seu rosto, e ela acabou por tirá-la - um pequeno alívio, já que estava muito ofegante. Olhou para Defteros, que tinha um olhar duro digno de um mestre do Santuário. Ficou grata pela pausa, que lhe daria o tempo de gravar bem na memória os motivos para nunca repetir aquela experiência de novo. Mas antes que pudesse começar a se sentir ridícula, viu que ele olhava para outra direção. Ficando em pé (com alguma dificuldade), ela olhou para o mesmo ponto e viu uma arena de combate, não muito longe dali. Era possível distinguir amazonas lutando. E pela precisão de seus golpes, era possível dizer que nenhuma delas era uma aprendiz inexperiente. Mas Sofia não ficou admirando-as, porque seu olhar estava preso em Defteros. Por que ele olhava tanto para lá?
"Treine bastante, Sofia. Treine bastante para ficar como elas. Não é isso o que você quer?".
Sofia sentiu com espanto alguma coisa doer, e não era nenhuma de suas feridas. Viu nos olhos de Defteros, no jeito como eles se demoravam naquela cena, uma admiração por uma beleza que não era só a da técnica das amazonas. Elas eram, além de certeiras, lindas. Isso era fácil de constatar.
"Será uma bela amazona quando chegar a esse nível", ele continuou ainda sem olhá-la. "Bela amazona"... Sofia o olhou com um espanto ainda maior. Então era isso o que ele queria dizer: que ela não tinha nem técnica nem beleza? Que só teria essas duas coisas quando enfim se tornasse uma amazona, isso se chegasse lá? "Então é isso o que você acha", ela disse com a voz estrangulada pelo choro contra o qual tinha que lutar.
Defteros a olhou desconcertado. Sofia parecia irritada mas ao mesmo tempo parecia querer chorar. "Muito bem então. Não precisa dizer mais nada", ela disse e saiu em disparada. Foi o tempo que teve para fugir com suas lágrimas. Levava em uma das mãos a máscara, mas desejou esquece-la pelo caminho. Não queria pensar no que ela significava.
"Sofia!", Defteros chamou, e só teve tempo para isso. Sentiu-se preso pela sua própria confusão, e além do mais algo lhe dizia que correr atrás dela agora não adiantaria nada. Precisava entender o que havia acontecido. O que dissera de errado?
Sofia recolheu-se mais cedo em seu quarto, fugindo dos olhares de todos. Metida na camisola, fez o trajeto até sua cama tentando ordenar a si mesma que parasse de chorar, mas não teve sucesso. Sentou-se no colchão ainda fungando e com algumas lágrimas insistentes no rosto. Odiava-se nesse estado - e ainda mais depois que passou a fazer parte do Santuário, onde não era tolerável demonstrar fraqueza. Desta vez odiava-se um pouco além do normal, porque havia se permitido pensar que um homem como Defteros, que estaria apto a substituir seu irmão como cavaleiro de ouro caso alguma coisa acontecesse, se interessaria por ela, que nem sequer amazona era. Que nem sequer tinha a beleza das amazonas ainda. Olhou para as suas pernas - achava as coxas grossas demais. Sempre achara. E agora de vez em quando comparava-as com as das veteranas do Santuário. Sabia que não era justo consigo mesma comparar seu corpo, que tinha apenas meses de treinamento, com corpos que já tinham anos de exercício constante. Mas não conseguia evitar. Também não era justo que Defteros a considerasse desse prisma. Só porque não era tão bonita...
Tentou parar de pensar nisso, mas não conseguiu. Brincou nervosamente com o lenço que tinha nas mãos enquanto esperava retornar ao seu velho eu contido. Mas hoje seria extremamente difícil... Alternava-se entre lágrimas remanescentes e soluços fingindo indiferença, quando de repente sentiu braços fortes envolvendo-a por trás. O invasor beijou-lhe os cabelos.
"Menina boba", ouviu Defteros sussurrar carinhosamente. Ele havia entrado sem fazer um só barulho.
"O que está fazendo aqui?", ela inquiriu tentando dar alguma firmeza à voz trêmula.
"Vim me acertar com você", ele respondeu tranquilamente. Ela limpou os traços de lágrimas do rosto, mas não se virou para vê-lo. "O que há para acertar? Eu já entendi", disse em tom ressentido.
Defteros aos poucos tirou os braços ao redor de Sofia. "Não, você entendeu tudo errado. E foi um pouco difícil entender o que você pensou".
Sofia permaneceu imóvel. "Você me entendeu mal. Eu só disse aquilo para te estimular a continuar se esforçando", ele disse pondo uma mecha dos cabelos dela atrás da orelha, "'Bela amazona' foi no sentido de técnica. Não tem nada a ver com a sua aparência. Você é bonita, Sofia. Muito bonita".
Apesar do choque, Sofia não se moveu. Apenas arregalou os olhos incrédulos diante daquela frase. "Não acredita em mim?", Defteros perguntou. Como ela não respondeu, ele suspirou e se pôs diante dela, ficando de cócoras. "Você é bonita, Sofia".
A aprendiz de amazona ainda não acreditava no que estava ouvindo, porém Defteros continuou, levando uma das mãos às madeixas dela: "Gosto do seu cabelo. Da cor que ele tem quando está debaixo do sol. Gosto dos seus olhos, do brilho curioso que eles têm", disse passando a mão para o rosto dela, "E do jeito afável do seu sorriso".
Ela não teve como não sorrir encabulada. "Em suma, você é bonita", Defteros completou.
"Obrigada", ela disse baixinho.
"Não tem de quê".
"Desculpe a confusão que eu armei".
"Não se desculpe. Se a confusão está desfeita, fico feliz".
Ela baixou o olhar, voltando a mirar as suas pernas. Já não a incomodavam mais. Com o treino, ficariam iguais às de qualquer amazona.
"E não se preocupe. Seu corpo é tão bonito quanto seu rosto", ela o ouviu dizer. Sorriu voltando a encontrar o olhar dele, que tinha aquele ar tranquilo que ela vira poucas vezes, mas que já adorava. E Sofia de repente se deu conta - não soube se só agora havia reparado ou se antes não havia aquilo - que um calor um tanto intenso vinha do corpo de Defteros. Ela se aproximou pondo a mão sobre a fronte dele, e foi recebida com uma leve risada. "Ah sim, tenho um pouco de febre", ele disse.
"Então por que veio para cá? Deveria ter ido descansar", ela disse em uma preocupação suave.
"Não é nada. Já passei por febres piores", ele respondeu tranquilo e contou da febre que teve enquanto seu irmão o levava para fora do santuário debaixo de uma tremenda chuva quando eram crianças. Sofia ouviu atentamente, e concluiu que de fato a febre atual não era nada, mas perguntou se ele não queria um pano úmido para aliviar o calor.
"Não é preciso, mas se não se importar gostaria de me livrar disso", ele sorriu puxando a gola da blusa.
"Não, claro que não", ela se apressou em responder antes que tivesse a chance de ruborizar. Defteros tirou a blusa revelando o torso perfeitamente esculpido. Ela já havia visto alguns aprendizes de cavaleiro treinando com o peito à mostra antes, mas nunca vira linhas tão bem desenhadas assim de perto. Engoliu em seco e tentou não ficar olhando. Teve a impressão de que se estendesse a mão e tocasse aquelas linhas, seria como tocar os traços de mármore de alguma estátua grega.
"Vou me deitar perto da janela, essa brisa já alivia o calor", ele disse com o mesmo sorriso.
"Ah, mas então fique mais confortável", Sofia disse fazendo com que ele se deitasse em seu colo, tentando disfarçar a pequena euforia que a invadia.
"Quanta hospitalidade", ele disse com um riso na voz, e ela quase riu. Entre a brisa que vinha da janela brincando com as mangas curtas de sua camisola, seu cabelo e o cabelo de Defteros, as réstias de lua e a calmaria, aquilo parecia um pedaço de sonho. Conversaram sobre mais trivialidades, sem uma única preocupação no mundo, até que Defteros foi fechando os olhos e aparentemente dormiu. Sua temperatura parecia voltar ao normal. E aí veio a única preocupação de Sofia: o quanto o achava bonito.
Palavras que nunca sairiam de sua garganta. Como dizer que achava que ele era como Apolo? Que irradiava uma luz mesmo andando nas sombras? Que, melhor dizendo, tinha uma beleza tão intensa quanto a de Apolo, ainda que seu cabelo fosse azul como o céu e o de Apolo loiro como o sol? Como não parecer uma louca poética? Não sabia. Então melhor não dizer nada. Levou de novo a mão à fronte de Defteros tão leve quanto conseguiu, e teve certeza de que a febre passara. Pouco depois disso, ele acabou acordando.
"É melhor eu ir andando", disse tranquilamente, "Já está ficando tarde".
Não foi sem frustração que Sofia o viu levantar-se e vestir de novo sua camisa. No entanto, quando ele ia pôr a máscara, assim quase sem querer ela disse:
"Sabe, acho que você deveria se livrar dessa máscara".
Ele a olhou de soslaio. "Quero dizer, se... você já anda nas sombras, que... diferença faz uma máscara?", ela começou a se explicar quase gaguejando. Ele sorriu divertindo-se com aquele raciocínio. "E, além do mais... você é... muito bonito para usar essa máscara".
Nem mesmo com o olhar de Defteros sobre si Sofia se arrependeu do que disse, mas tinha certeza de que estava corando. "Obrigado, mas acho que você exagera", Defteros respondeu com um sorriso.
"Você diz isso agora. Quero ver quando estiver sem essa máscara e aos olhos de todos, se as mulheres não vão enlouquecer", ela rebateu já bem mais segura.
Ele riu. "Não acho que isso vá acontecer. Não tão cedo".
"Um dia você vai ter que deixar essa máscara..."
"Um dia", ele respondeu sorrindo.
"Por que você não dorme aqui mesmo?", Sofia acabou perguntando depois de um momento de hesitação. "Com um pouco de esforço, cabem dois nessa cama".
"Não, você ficaria incômoda demais", ele disse. "É melhor eu ir agora".
Sofia ficou um pouco triste, mas não iria impedi-lo. E de fato, não seria tão pouco esforço assim caberem dois naquela cama... Uma pena. Defteros se aproximou da janela e já ia saltá-la, quando Sofia disse: "Então boa noite".
Apesar de ele já estar com a máscara, ela pôde dizer que ele sorria. "Boa noite", ele retribuiu e saltou na escuridão. Sofia logo o perdeu de vista. Deitou e tratou de dormir, e ao contrário do que achava, não demorou muito até adormecer.
Os raios do sol vieram despertá-la com a manhã que já se instalava no céu. Ela sentou-se, aos poucos espantando o sono dos olhos depois de parecer ter dormido bem mais do que algumas horas. Percorreu o quarto com os olhos, e deparou-se com algo estranho sobre a sua mesinha: era alguma coisa branca e arredondada. Chegou mais perto e constatou com alegria que se tratava de um biscoitinho que tinha uma massa incrivelmente macia e era coberto de açúcar, muito popular por aquelas bandas. E debaixo dele, havia uma nota que dizia:
"Para a menina mais doce que conheço".
Sofia sorriu sentindo-se, como ela descreveria, entre levemente encabulada e incrivelmente feliz. Estava mais leve do que uma nuvem. Apertou a nota junto ao peito, e se lambuzou com o docinho.
P.S.: o docinho se chama Kourabiedes, e é típico do período em que a história se passa (Grécia Otomana). Ainda existe hoje, e é uma receita tradicionalíssima.
