I
Chad suspirou pesadamente olhando para o celular mudo. Já fazia algumas horas que ligara para conversar com seu melhor amigo e antigo alfa. Mas Jared não lhe dera uma resposta. Ainda estava ansioso esperando uma ligação respondendo afirmativamente ao seu pedido, mas nada do aparelho tocar. Chad guardou o celular no bolso e olhou para o lobo mutilado na maca ao seu lado. Jeffrey ainda não havia voltado à forma humana. Chad sentou-se ao seu lado e esperou. Se Jared concordasse em mandar Jensen de volta à Matilha do Sul, os lobos brancos estariam salvos, caso contrário, seria o fim.
Mesmo se Jensen viesse, nada garantiria que Jeffrey voltasse a si. As feridas eram terríveis sim, mas a dor de ver as filhas e os netos mortos fora o golpe fatal para sua sanidade. Mesmo que o mais antigo dos betas dos lobos brancos fosse um cara descolado que aparentava pouco apêgo à matilha e à família, no fundo, e nem tão no fundo assim, ele era um pai amoroso e um avô apaixonado. A perda de parte de sua família havia sido um golpe terrível. Chad esperava que ele, Dabria e Madeline que era casada com um lobo de outra matilha e tinha dois filhos lobos pudessem ser o suficiente para que jeffrey quisesse continuar a viver.
– Chad!
Chad se virou para olhar Josh parado a porta. O não lobo vinha exercendo um papel crucial naquele momento crítico da vila. Além de manter Dabria focada, Josh buscara em sua velha casa na cidade, sua coleção de armas e ensinou às mulheres sobreviventes a disparar. Ele e elas seriam a última linha de defesa da vila, caso os lobos falhassem. Isso serviria para impedir que nova tragédia acontecesse. E como a maioria dos lobos estava ferida, Josh estava meio que agindo como o xerife dali, indicando quais partes da vila deveriam ser reconstruídas e como as provisões deveriam ser estocadas como prevenção de um possível período de cerco.
– O que foi, Josh? – Chad perguntou já cansado.
– O Jensen está aí. – seu tom de voz era estranho, mas chad levantou-se empolgado assim que ouviu suas palavras.
– Graças a Deus!
– Mas Chad… – Josh parecia constrangido.
– Que foi? – Chad não compreendia a reação do não lobo.
– Ele já chegou… Bem… – Josh pareceu meio envergonhado. – Ele chegou dando ordens. Como se fosse o alfa...
– E…? – Chad não compreendia a reação de Josh. Afinal ele e Jensen eram irmãos.
– Ele não é o alfa. – Josh afirmou. – E pelo que me explicaram, quando o alfa e o primeiro beta estão incapacitados, é o segundo beta que dá as ordens. –Josh o encarava. – Você é o segundo beta.
– Ah, Josh! – Chad colocou a mão em seu ombro e apertou. – Obrigado pela consideração, mas você deve ter percebido que os outros lobos e até mesmo as mulheres têm certa resistência em seguir minhas ordens.
– Sim, mas isso é idiotice. – Ele disse irritado. – Você é o beta.
– Sim, eu sou o beta, mas sou também um lobo madeira. – explicou – Até bem pouco tempo nossas matilhas eram rivais. Ainda que haja uma trégua, restou muito preconceito e mágoa para que a questão da minha raça seja colocada de lado em tão pouco tempo. Talvez um dia…
– Mas… – Josh tentou protestar.
– Eu entendo você. E fico grato por sua lealdade, mas, no momento, Jensen é aquele de que a matilha precisa.
– Certo. – Josh baixou a cabeça.– Ele está esperando lá fora, mas mandou reunir os lobos que estiverem em condições na sala de reuniões.
– Obrigado. – Chad já ia se afastando quando lembrou-se de perguntar. – E como está o seu pai e as meninas?
– O alfa está na mesma. – Chad observou que Josh não chamou o alfa de pai. – Continua inconsciente e na forma de lobo. Kenzie não queria sair do lado dele, mas eu a mandei ir para a reunião. A Dabria estava trancada no quarto do pai, mas também a fiz sair. Elas não estão bem…
– Entendo. – Chad suspirou pesadamente. – Ainda bem que você está aqui conosco.
Dizendo isso ele hora de encontrar-se com Jensen.
II
Jensen olhou ao redor e mal pôde acreditar em seus olhos. O lugar que via parecia mais um eco distorcido da vila em que nascera do que qualquer outra coisa. As ruas estavam anormalmente vazias, como se o lugar fosse uma vila fantasmas e as casas de mesmo formato, mas cores diferentes, estavam apagadas, mortas…
Chad o esperava na entrada do Centro Social, o "castelinho" como gostava de chamar. Não trocaram palavras, não precisavam, apenas se olharam nos olhos em silêncio por um breve espaço de tempo antes de seguirem lado a lado rumo à sala de reuniões. Os demais lobos da matilha em condições de lutar os aguardavam.
Jensen não falou nada, apenas olhou nos rostos sofridos de cada um e se sentou na ponta da mesa, no lugar do alfa, seu lugar de direito.
– Entrei em contato com os remanescentes da matilha de Everett. – disse num tom firme. – Eles se juntarão à nossa matilha.
Jason, então abriu um volumosos livro. Aquela não era sua função. Era a função de Mark Pellegrino, mas esse morrera no ataque.
– Pelas nossas leis, para aceitá-los temos que fazer um ritual…
– Esqueça o ritual. – Jensen disse com firmeza. – Agora estamos em guerra. Teremos tempo para rituais quando estivermos em paz.
– Certo. – Jason corou ao guardar o livro.
– Vamos tratar do assunto mais urgente. – Jensen cruzou os braços e recostou-se na enorme cadeira do alfa. – Red Wolf e os malditos lobos cinza estão trabalhando juntos e ainda estão com os humanos. O alfa de Stª. Bárbara descobriu que a empresa Glover Genetic mantêm as mulheres de Everett presas. Como eles não raptaram nenhuma das mulheres dos lobos madeira, presumo que o interesse deles é nas mulheres dos lobos brancos. – Kenzie se remexeu em seu lugar. Todos viam direto da mente de Jensen a conversa que tivera com o filho do beta Jim. – No passado, os humanos roubaram nossa magia e tornaram-se shifters atrapalhando o equilíbrio natural da guarda da noite. Agora a abominação se repete por meio da tecnologia. Não iremos permitir. – Jensen encarou cada lobo. – Não iremos permitir. A história não irá se repetir. Nós não permitiremos. Vamos lutar até o último lobo e resgatar nossas mulheres para que a magia que corre em nossas veias seja preservada.
Todos ficaram de pé e estenderam o punho direito em direção ao centro da mesa.
– Pela Guarda da Noite, mais uma vez! – Jensen disse.
– Pela Guarda da Noite, mais uma vez! – os lobos responderam em coro.
III
Ao fim da reunião, Chad seguiu Jensen até o posto médico onde o alfa encontrava-se em coma, ainda em sua forma lobo, e lutando para sobreviver. Jensen sentou-se na cadeira ao lado da maca onde o alfa estava e escondeu o rosto entre as mãos. Chad sentiu um aperto no peito. Ao menos Jeffrey estava acordado. Estava em forma de lobo e seu lado humano estava inconsciente, é verdade, mas ao meno seu olho se abriu.
– Jensen, se houver algo que eu possa fazer…? – Chad sabia que não havia nada a fazer, mas mesmo assim se colocou à disposição.
– Você já fez muito, Chad. – Jensen descobriu o rosto para olhá-lo. Seus olhos estavam vermelhos e inchados. – Não sei o que seria da matilha sem você…
– Bem… – Chad já ia falar do papel de Josh, quando o não lobo entrou na sala. – Ah, Josh! Eu já ia contar ao Jensen tudo o que você fez…
– Não foi nada. – Josh deu de ombros. – Mas acho que deveriamos fazer algumas mudanças na segurança. Alguém já pensou em muros, cercas elétricas e câmeras de vigilância?
Jensen e Chad se entreolharam,antes de Chad se voltar para o homem.
– Bem, Josh. O que você não entende é que somos lobos. – Chad explicou calmamente – Como lobos, não gostamos muito da ideia de ficarmos cercados…
– Certo, então… – Josh deu de ombros. – Quem sou eu para deixar os lobos desconfortáveis. Sou apenas um não lobo… – Havia sarcasmo em suas palavras. – Mas eu preferia ficar desconfortável a ver minha mulher e meus filhos em perigo.
Chad e Jensen trocaram olhares. O laço entre eles não existia. Talvez fosse se formar quando ambos estivessem em forma de lobo… Mas mesmo assim, um sabia o que o outro pensara sobre as palavras de Josh.
– Certo, Josh. – Chad cedeu. – Qual é a sua ideia?
– Eu vou mostrar. – Josh abriu um rolo de papel que vinha escondendo às costas para os lobos verem. Ele havia desenhado um mapa da vila e esboçara os muros, portões, cercas, guaritas e outros meios de segurança.
– Isso parece caro. – Chad gemeu.
– A matilha tem dinheiro. – Jensen afirmou. – Quantos lobos são precisos para fazer o serviço rapidamente?
– Lobos? – Josh o olhou incrédulo. – Pensei em contratar uma empresa de segurança…
– Não. – Jensen foi taxativo. – Tem humanos nos caçando. O que os impediria de vir até nós disfarçados ou que roubassem as cópias dos nossos planos de segurança da empresa contratada? Os lobos de Everett farão isso sob sua supervisão. Eles já devem estar chegando.
– Por que os lobos de Everett? – Chad quis saber.
– Porque os daqui estão cansados e, ainda assim, vão vigiar a vila enquanto os lobos de Everett trabalham.
– Certo. – Chad e Josh responderam juntos.
– Os mortos já foram enterrados?
– Ainda não. – Chad respondeu.
– Ótimo. Não os enterrem. Queimem.
– Queimar? – Chad pareceu surpreso.
– Não quero arriscar que sobre alguma coisa para os tais cientistas humanos usarem.
– Certo.
– Reúna as mulheres da vila que possuem o sangue lobo mais forte.
– O quê?! – Chad impressionou-se. – Você pretende transformá-las?
– Na próxima lua negra… – Jensen respondeu baixinho, quase como se respondesse a si mesmo.
Chad guardou silêncio. A situação da vila era complicada. Seria necessário um milagre para salvá-los de outro ataque. Um milagre que talvez Jensen pudesse fazer, de novo…
IV
Quando Chad voltou para o lado de Jeffrey, Dabria estava ali. Chad sentiu-se meio culpado. Ele havia brigado com a moça para que ela fosse para casa descansar. Mas mesmo em casa ela não descansara. Às vezes era melhor ficar cansado, mas ao lado de quem amamos do que descansando e distante.
– Ele vai ficar bem. – Chad disse indo se sentar ao lado dela e a puxando para um abraço apertado. – Todos vamos ficar.
Estavam assim quando Jensen entrou. O lobo branco parou na porta para olhá-los, depois aproximou-se da maca onde Jeffrey, em forma de lobo, se encontrava e o tocou. Chad e Dabria levantaram-se na mesma hora e mal acreditaram no que viram. Gemendo e lutando para respirar, Jeffrey Dean morgan, estava ali, em sua forma humana.
