I

Tory brincava com uma boneca estranha com cara de lobo enquanto Lucinda apontava para ela e ria. Em torno delas, outras crianças brincavam e de algum modo, Jeffrey sabia que aquelas crianças eram filhas de Tory e Lucinda, mas ali pareciam todas terem a mesma idade.

Jeffrey se sentou para assisti-las. Apenas de vê-las ali sãs e salvas, uma enorme paz se espalhava por seu peito. Estava distraído olhando as filhas brincando com seus netos, quando alguém tocou em seu ombro. Jeffrey se virou para olhá-lo e encontrou Jensen de pé ao seu lado.

– É hora de voltar, Jeffrey. – Jensen disse muito sério.

– Mas não quero voltar. – Jeffrey afastou a mão de Jensen. – Quero ficar aqui com minha família.

– A sua família aqui está bem, Jeff. – Jensen insistiu. – Aqui nada nem ninguém pode tocá-los. Mas a outra parte da sua família, Chad, Dabria, Madeline e seus netos Scott, Sophia e Pietro estão correndo perigo. Você precisa voltar. Precisa voltar por eles.

Jeffrey sabia que Jensen dizia a verdade, mas era tão doloroso pensar em partir, pensar em deixar parte de sua família para trás. Jeffrey sentiu as lágrimas molhando seu rosto e as enxugou com as costas da mão. Ele lançou um último olhar às crianças e viu que elas haviam parado de brincar e o encaravam. Uma a uma elas levantaram-se e acenaram para ele dando-lhe adeus. Jeffrey sorriu para as crianças. Ali elas estariam seguras para sempre.

– Vamos! – Jensen estendeu-lhe a mão e Jeffrey a aceitou.

II

Gemendo e lutando para respirar, Jeffrey Dean Morgan estava ali em sua forma humana. Lianne Balaban entrou correndo e começou a tentar conectar aparelhos nele, mas Jensen a afastou.

– Espere, Lianne. – Jensen disse a contendo. – Dê-lhe um tempo.

Lianne olhou para ele sem entender, mas logo seu olhar caiu sobre Jeffrey e ela viu que o beta começava a se recuperar sozinho. As terríveis feridas já estavam praticamente cicatrizadas e ele foi capaz de se sentar sozinho.

– Jeff... – Chad chamou baixinho entre lágrimas sem ter coragem de tocá-lo.

– Pai! – Dabria segurou suas mãos entre as delas e as beijou. – Ah, pai...

– Minha lobinha... – Jeffrey puxou a filha para seu peito e estendeu o braço para acolher o companheiro.

Chorando, Chad foi se aconchegar em seu peito. Lianne e Jensen saíram de fininho e deixaram os três sozinhos. Jeffrey deu um beijinho estalado na testa de Dabria e um beijo molhado na boca de Chad.

– Meus amores... – havia lágrimas em seus olhos. – Eu nunca mais vou deixa-los. Nunca mais... – e ao dizer isso, ele os apertou em seus braços.

– Pensei que havia perdido você. – Chad confessou.

– Nunca. – Jeffrey voltou a beijá-lo.

III

Kathryn Newton estava nervosa. Como toda filha de lobo, habituara-se a ideia de ser apenas a genetriz de um lobo, não o próprio lobo. Agora as coisas estavam diferentes. A matilha perdera muitos lobos, inclusive seu irmão, Stan. Como estavam sendo alvos de ataques de lobos cinza e lobos vermelhos, os lobos brancos tinham que reagir. Se os tempos fossem outros, a matilha seria dizimada, mas não. Aquele era outro tempo. Naquele tempo existia o Alfa Jensen Ackles que era capaz de transformar filhas de lobo em lobas.

– Está nervosa? – Katherine perguntou.

– Não. – Mentiu.

Estavam reunidas ali Kathryn e mais três amigas jovens que nunca haviam tido filhos: Katherine Ramdeen, Clarck Backo e Yadira Guevara. Além delas, havia as mulheres mais velhas como Lisa Berry, Ruth Conner, Felicia Day, Kim Rhodes e Samantha Smith. Todas eram mães de lobos.

Estavam de pé diante do lago da vila sob a lua negra esperando o alfa chegar. Ainda estavam nervosas e apreensivas quando viram Jensen Ackles aproximando-se ladeado por sua irmã, a loba Mackenzie; sua amiga também loba, Dabria Morgan; e o beta lobo madeira, Chad Murray.

Ele parou do outro lado do pequeno lago, diante delas. Sua irmã, Kenzie, mergulhou uma garrafa de vinho no lago enquanto Chad e Dabria iam até elas e lhes entregavam taças. Jensen se abaixou e tocou na garrafa que Kenzie ainda segurava sob a água. Quando ele se levantou e foi na direção delas, Kenzie puxou a garrafa e o seguiu.

Jensen parou diante de Kathryn e a moça sentiu que estava prestes a desmaiar.

– Sua taça. – Jensen disse. Nervosa, Kathryn ergueu a taça para que Kenzie lhe servisse o vinho. – Beba. – Jensen ordenou. Kathryn tomou tudo num gole só. Mal terminara de engolir o vinho e Jensen segurara seu rosto com as duas mãos e a beijara na boca.

Não foi um beijo de apaixonados. Jensen pressionou seus lábios contra os dela com força e depois a soltou. Kathryn sentiu-se imediatamente tonta como se, ao invés de uma taça de vinho, tivesse tomado uma garrafa.

O alfa afastou-se dela e fez o mesmo com Katherine e com as demais. Quando soltou Samantha que cambaleou no mesmo lugar, Jensen deu a volta no lago e voltou a ficar diante delas.

– De agora em diante, vocês não são mais filhas de lobos. – Jensen disse olhando para cada uma. Kenzie, Dabria e Chad haviam voltado para junto dele. – Agora vocês são lobas da Matilha do Sul!

As mulheres guardaram silêncio enquanto o olhavam com atenção. Kathryn arregalou os olhos quando Jensen começou a se despir sendo imitado por seus companheiros. Ao seu lado, Katherine começou a fazer o mesmo e as outras também. Não querendo ser a diferente, a moça começou a tirar as roupas ás pressas. Quando, finalmente, ficou nua, ela tentou esconder aqui e ali dos olhos de Chad e Jensen, mas parecia que os lobos não prestavam muita atenção nela.

– Pela Guarda da Noite! – Jensen bradou.

– Pela Guarda da Noite! – Chad, Dabria e Kenzie responderam.

Kathryn abriu a boca para responder, mas algo não deixou. Era como se ela tivesse o universo dentro dela e esse universo queria sair e saiu. Num instante Kathryn era ela mesma, no outro já não sabia quem era. Havia vozes em sua cabeça, medos, desejos, dúvidas, sensações e tormentos e nessa confusão ela não conseguia se encontrar. Estava ficando louca. Completamente louca, no entanto, do nada, veio a calma, a paz, a harmonia. Já não eram mais vozes, nem desejos, nem vontades. Era tudo uma coisa só. Uma única voz, um único desejo, uma única vontade. Ela já não era Kathryn Newton, ela era Jensen Ackles e Jensen Ackles era ela e todos ali.

IV

Jeffrey se olhou no espelho com seu único olho. Até que não ficara tão ruim caolho. O tapa-olho que ganhara de Chad era até sexy. Jeffrey ensaiou um sorriso, mas logo ele morreu.

Ainda que tentasse ver o lado positivo das coisas nada poderia substituir o que perdera. Lucinda, Tory e seus netos. Nada no mundo poderia devolver-lhe essas vidas. Nada. Perder um olho e três dedos não era nada. Nada comparado á perda de parte de sua família. E ainda havia perdido Roger. Não adiantava nem tentar, mas mesmo assim Jensen tentara. No entanto, Roger não iria voltar. Era mais caridoso não força-lo a voltar.

O velho lobo suspirou e voltou a se sentar na cama. Ainda bem que Jensen havia voltado. Sem Jensen, seria o fim da Matilha da Vila do Sul.

– Jeffrey, o que está fazendo? – Liane Balaban entrou apressada com uma bandeja com esparadrapos, gazes e faixas. – Você deve fazer repouso.

– Os lobos cinza e os lobos vermelhos não vão esperar eu descansar, queridinha. – Jeffrey deu-lhe seu melhor sorriso. – Meu lugar é ao lado de Jensen, Chad, Dabria e Kenzie.

– O seu lugar é defendendo a vila. – Josh que acabara de entrar, cruzou os braços e olhou feio para o lobo. – Jensen quer que você me ajude a manter as defesas da vila. Os tais lobos de Kevin já estão trabalhando nos muros e cercas, mas precisamos de mais que isso, meu velho.

– Josh, eu entendo... – Jeffrey tentou começar, mas Joshuan o interrompeu.

– Não, você não entende. Eu não sou um lobo. Não sei lidar com eles. Preciso de você.

Jeffrey suspirou pesadamente. Parecia que havia sido rebaixado de beta a babá de pedreiros.

– Tudo bem.

V

Havia bem poucos sobreviventes na Vila do Sul, mas com o reforço das sete mulheres que Jensen transformara e os cinco lobos oriundos de Everett, a matilha parecia forte novamente.

Os lobos estavam reunidos no grande salão. A defesa da vila ficara a cargo das câmeras de vigilância e das mulheres que não podiam ser transformadas. Josh agia como o chefe de segurança da vila, por isso, mesmo sem ser um lobo, estava presente á reunião.

Jensen, em seu lugar de alfa, tomou a palavra.

– Tenho notícias de Santa Bárbara. O Alfa Jared conseguiu reforços de Fox e Delta. Além disso, ele não divulgou a informação de que eu não sou mais seu ômega. Com isso, ele pretende atrair os atacantes para uma armadilha em Santa Bárbara.

– Com qual objetivo. – um lobo quis saber.

– Se Red Wolf e os lobos cinza estiverem em Santa Bárbara, teremos o caminho livre para invadir a Glover e assim recuperarmos as mulheres de Everett.

– E quando será isso? – Chad perguntou.

– Jared me dará um sinal. Estejam preparados.

– Iremos todos. – Dabria perguntou.

– Não. – Jensen se recostou em sua cadeira. – Você, Kenzie e as recém-transformadas ficarão aqui com Josh para protegerem a vila.

– Mas isso diminuirá nossa força de ataque. – Kenzie questionou.

– De fato. – Jensen concordou. – Mas também garante a continuidade da matilha, caso algo dê errado.

– Mas Jen... – Kenzie começou a questionar.

– Kenzie, não posso arriscar a extinção de nossa matilha. – Jensen olhou para ela com ternura. – Se tudo der errado, você pode começar uma matilha só com lobas. – Jensen sorriu. – Ia ser a primeira da história...

Kenzie deu-lhe um sorrisinho triste e baixou a cabeça.

– Agora basta esperar o sinal. – Jensen disse voltando á seriedade.

VI

O ancião, Zaci, estudou a enorme cerca elétrica que rodeava a Vila do Sul. Os lobos brancos deviam estar mesmo bem desesperados para tomarem uma atitude como aquela. De onde estava, ele viu as câmeras ao longe. Não poderia entrar sem ser visto como fizera tantas vezes.

Talvez pudesse apenas se aproximar e pedir para abrirem o portão. Não seria suspeito, afinal, ele sempre tivera passagem livre entre todas as matilhas, até mesmo entre os lobos brancos.

Se tivesse sorte, encontraria a Matilha do Sul tão minguada, que nem precisaria chamar os caçadores humanos que o aguardavam no meio da floresta para ajudar. Roger Ackles e Jeffrey Dean Morgan talvez até já estivessem mortos. Os demais lobos não seriam leais a um lobo madeira. Chad Murray não poderia comandá-los.

Zaci se preparava para ir para frente de uma das câmeras quando viu os portões abrindo-se e uma matilha de lobos irrompendo por eles. Que os lobos brancos ainda fossem tantos, já era surpreendente, mas o que mais surpreendeu Zaci foi sentir quem os comandava, quem era o alfa.

– Jensen... – Zaci cambaleou para trás.

Era impossível. Stoni, dos lobos cinza, e Simmon, dos lobos vermelhos, estavam, naquele exato momento, em Santa Bárbara para busca-lo. Zaci não acreditava no que estava acontecendo. Não era para Jensen voltar a sérum alfa. Jensen deveria permanecer como ômega de Jared até o momento em que Zaci fixaria Sirhan em sua carne para extraí-lo e toda a sua magia.

Não era para Jensen voltar a ser alfa. Não era para Jensen adormecer Sirhan novamente. Agora não tinha jeito. Zaci teria que interferi diretamente naquela guerra.