Só alguns esclarecimentos:
Este universo alternativo por mim criado se passa, neste capítulo, entre o cap. 145 e o 151 do mangá. Aproveito uma brecha em que aparentemente o Defteros volta ao Santuário junto com o Dohko e localizo minha história aí. Vocês vão ver que eu alonguei a estadia dele (pensando que ele e Dohko têm pressa), mas isso foi em nome da fic, então vocês me entendem né, hahaha... Eu desacelerei as coisas.
Esse capítulo é o mais dramático, e foi sendo elaborado durante meses. Apesar de uma certa dor no coração em algumas passagens, foi uma delícia escreve-lo. Espero que vocês aprovem. Ah! E recomendo ouvir "All I Ask", da Adele, enquanto leem - eu acho que cai como uma luva.
Aproveitem!
Passaram-se dois anos.
A guerra santa se abatia cada vez mais impiedosa sobre o Santuário. Já se contava cavaleiros de ouro entre os que haviam perecido. E o Lost Canvas pendia ameaçador do céu sobre as cabeças de todos. Sofia tentava olhar para aquela situação da maneira mais racional possível: estavam sofrendo grandes baixas, mas também infligiam grandes baixas ao exército inimigo, em uma espécie de movimento compensatório. Era o que acontecia em qualquer guerra equilibrada. E o fato de estar equilibrada – talvez não tão equilibrada assim por conta do Lost Canvas, mas no mínimo com dois exércitos muito fortes – era um bom sinal. Mas a verdade é que era guerra, e isso a assustava.
Se perguntava o que poderia fazer na qualidade de aprendiz de amazona, esperando que não tivessem que depender do seu auxílio em momentos decisivos... porque sinceramente não sabia se daria conta. Pensar em estragar tudo acabava sendo o seu alívio cômico. Mas pensava também em quais rostos não veria mais. Em quais vozes silenciariam, quais nomes não seriam mais falados... E nisso seu pensamento volta e meia se voltava a Defteros.
Havia desaparecido depois da morte de Aspros. Ela sabia de tudo: do drama que o levara a assassinar o irmão, de seu exílio voluntário na ilha Kanon, do "demônio da ilha Kanon" – um "demônio" que ela se orgulhava de conhecer bem. Procurava sempre saber o máximo possível de coisas sobre ele, mas era difícil porque desde que fora para a ilha Kanon era como se houvesse sumido. E ela sentia saudades... muitas saudades. Saudades que chegavam a afligi-la agora, porque estavam misturadas com o medo de nunca mais vê-lo de novo.
Por isso de vez em quando – e com muito mais frequência nos últimos dias – ela andava perto das doze casas lançando olhares para a casa de Gêmeos, na esperança de que um dia fosse ver Defteros surgir de lá de dentro, imponente e pronto para a batalha. Como será que ficaria com a armadura de Gêmeos? Sofia não podia deixar de imaginar...
E eis que em um desses dias, sem que levasse a máscara no rosto – o costume de violar discretamente aquela regra do Santuário quando tinha certeza de que ninguém a pegaria fazendo isso – em uma tarde que ia morrendo com os seus últimos raios de sol, ela o viu aparecer... não na casa de Gêmeos, mas pelo caminho no qual ela andava, um tanto resguardado do restante do Santuário.
A armadura havia lhe caído como uma luva. Tinha um caminhar confiante, seu rosto tinha aquela régia dignidade de um cavaleiro de ouro. Sentia-se até pequena perto dele. Esperava que aquela mudança de status houvesse feito tão bem a Defteros como aparentava ter feito.
Mal pôde crer quando ele ficou a apenas alguns metros de distância... O tempo transcorrido desde a última vez que o vira havia sido tanto, que ela teve medo de ter perdido brevemente a sanidade ao enxerga-lo ali. No entanto, estaria pronta para consolá-lo por tudo o que havia se passado, se fosse esse o caso. O espanto não a impediria. Só não estaria pronta para que ele a ignorasse.
Parou onde estava, vendo a figura dele tornar-se cada vez mais nítida. Foi quando ele lançou o olhar para ela.
O olhar rígido de Defteros se suavizou ao encontrar o de Sofia. O "segundo" podia ter se endurecido muito durante a estadia na ilha Kanon, mas sempre teria um olhar de carinho para aquela garota que havia ousado pôr em dúvida a profecia das pitonisas de maneira tão insistente e tão doce.
Parou a alguns passos de distância dela. Sofia, como se temesse estar diante de uma miragem, aproximou-se devagar. "Defteros...", sussurrou.
"Sofia", ele disse com um sorriso.
Ela continuou a contemplá-lo por alguns instantes, e então, voltando aos poucos a si disse com a voz ligeiramente trêmula: "Não ficou metido agora com a armadura, ficou?"
O cavaleiro deu uma risada. Sofia sorriu meio sem graça, sem saber se gracejos daquele tipo seriam apropriados para o Defteros que tinha agora diante de si. Tentou então se conter, mas não pôde. "Ah, Defteros!", disse alteando a voz e correndo ao encontro dele para um abraço.
"Sofia... minha querida Sofia...", ele disse circundando-a com os braços. Ela sentiu um arrepio correr pela espinha ao ouvir a palavra "querida" associada ao seu nome.
"Senti tanto a sua falta", ela disse deixando para lá toda a compostura que devesse ter diante de um cavaleiro de ouro, enquanto apertava o rosto contra o peitoral da armadura, "Por que teve que sumir?"
"Foi preciso", ele respondeu simplesmente, "Mas fico feliz de saber que sentiu minha falta".
"É claro que senti", ela disse em um tom óbvio. Ele nem poderia saber o quanto havia sentido... "Mas o que te trouxe de volta em primeiro lugar?"
"Uma convocação". Ele não precisava dizer mais nada. Ela no fundo já desconfiava da resposta, e a lembrança que isso trazia fez com que ela estremecesse. "Ah, sim...", disse fingindo tranquilidade. Tentou continuar casualmente. "E como você está?"
"Tão bem quanto se pode estar em uma guerra", Defteros respondeu genuinamente tranquilo. Havia sentido Sofia estremecer, por mais discreta que ela fosse. "Não sei se posso dizer o mesmo de você, a julgar por essa voz trêmula".
Sofia ficou surpresa. Achou que havia escondido bem sua inquietação, mas falhara. Este era Defteros, afinal de contas. Ele conhecia seus tons e como ela soava como hesitava.
Sofia era inexperiente. Ainda aprendiz e já tinha sua primeira guerra. Era normal que se sentisse assim, pensou Defteros. E ainda assim, era constrangedor ter que admitir o medo. Podia entende-la.
"Eu não disfarcei muito bem, não é?", ela perguntou tímida.
"Não. Mas está perfeitamente justificada", o cavaleiro disse gentilmente, "Só não deixe isso te abater".
Sofia assentiu imperceptivelmente, mesmo sem a menor ideia de como não se abater. "Todos querem se sentir encorajados, mas todos têm seus receios em uma guerra. É uma questão de ser mais forte do que isso", Defteros continuou.
"Por favor, não me fale disso!", Sofia o interrompeu agitada, "Não me fale da guerra!"
"Você sabe para que eu vim", ele respondeu serenamente olhando-a. Sofia não respondeu. Apertou mais o rosto contra a armadura, como se tivesse medo de que a qualquer instante Defteros fosse desaparecer. Ele continuou:
"Não há como fugir disto. Me tornei um cavaleiro de ouro, e devo lutar como tal. E se isso significar morrer..."
Sofia apertou os olhos. Não queria nem conceber tal ideia.
"Morrerei como um cavaleiro", ele concluiu com a mesma serenidade.
"Não! Por favor!", ela gritou, incapaz de conter-se.
"Sofia..."
"Eu não quero perde-lo!", a jovem aprendiz disse já em lágrimas abraçando Defteros com mais força. Ele trouxe-a mais para perto, sentando-se à beira do caminho em que estavam.
"Sofia", continuou com a voz gentil, "Não preciso explicar a você que uma guerra exige sacrifícios". Sofia se encolheu agarrando-se a Defteros. Não se orgulhava de suas lágrimas ou de sua falta de compostura, mas era como se toda a sua angústia estivesse desaguando ali, diante da possibilidade de que Defteros viesse a morrer lutando. Uma sensação tão ruim a invadia agora... uma apreensão misturada a um pesar e a uma estranha dor em seu coração, como se ele estivesse sendo comprimido... nunca a havia sentido antes, mas desconfiava do que se tratava.
"Eu sei", ela conseguiu enfim dizer com voz chorosa referindo-se ao que ele havia falado, "Mas é que... eu gosto muito de você, Defteros!"
Havia falado com toda a sinceridade de que era capaz, enquanto sentia mais lágrimas esquentarem o rosto aos borbotões. Gostava tanto de Defteros. Um tanto que ela nem sabia definir direito ainda. Mais do que uma simples amizade, menos do que um amor enlouquecedor. Um pouquinho mais à direita, um pouquinho mais à esquerda... pensava assim quando não sabia definir ao certo alguma coisa. Só o que pulsava com toda a certeza dentro dela era que queria muito àquele ex-renegado que antes cobria o rosto com uma máscara, e que agora tinha a face livre como um cavaleiro.
Defteros sorriu. "Não há nenhuma garantia de que eu volte vivo. Sinceramente, não acho que isso acontecerá". Ele continuou como se estivesse alheio às palavras de Sofia. "Mas não se preocupe por mim. Não tenho medo disso. Trate de ficar melhor".
Mas antes que Sofia, reprimindo alguns soluços, pudesse achar aquela resposta um tanto cruel, Defteros continuou:
"E quero que saiba de uma coisa: gosto demais de você. Demais", ele disse fechando o cerco do abraço. "De um jeito até confuso", sussurrou abaixando a cabeça para ficar ao nível de Sofia, como se contasse um segredo. "Não sei explica-lo ao certo".
Com essa última frase ela ficou mais surpresa ainda. A maneira com que ele havia falado era tão similar à como ela pensava os seus sentimentos por ele... nunca poderia imaginar isso. Defteros parecia ter incorporado tão bem a imagem de cavaleiro que sentimentos confusos como os que ela nutria pareciam passar longe da aura de confiança que ele emanava.
"E mesmo nos meus dias mais distantes na Ilha Kanon, eu jamais esqueci você", ele disse afastando-se para olhá-la nos olhos, pondo carinhosamente um dedo sobre o nariz dela. "Nem poderia", completou. Sofia repetia internamente a voz de Defteros. O "demais" dele era tão doce aos ouvidos... Ela teve que desviar um pouco os olhos para não parecer embasbacada demais. E além do mais, agora precisava acalmar a onda de euforia que a havia tomado. Suas lágrimas nem haviam secado quando Defteros disse:
"Mais uma coisa..."
Sofia pôs-se atenta. "Me daria mais um beijo, como aquele que me deu há dois anos atrás?", ele falou em voz baixa, encostando o queixo no cabelo dela. Sofia quase perdeu o ar. "É para dar coragem..."
Ela riu com o gracejo dele. Certamente coragem não era algo que estivesse lhe faltando. E ela derramou lágrimas contentes. Nunca haviam lhe pedido algo que concedesse com tanto gosto. "Sim, é claro", respondeu com a voz entrecortada por um riso. Subiu o rosto para pôr os seus lábios sobre os dele. Desta vez o beijo, embora tão doce quanto o anterior, era mais corajoso. Ambos ansiavam por ele.
Quando se separaram, Sofia parecia mais serena, voltando ao seu refúgio que era o peitoral da armadura de Gêmeos. Sentiu uma das mãos de Defteros sobre seu cabelo. "Está ficando tarde..."
Sofia levou algum tempo para compreender as palavras dele. "É verdade...", sussurrou sentindo que não havia expulsado ainda todas as lágrimas. Ficaria com os olhos inchados de tanto chorar, mas não se importava. Não eram as lágrimas o problema, mas aquela dor insistente que era quase um presságio: o de que quando aquela guerra passasse, estaria sozinha em um mundo vazio. Não teria mais conversas com Defteros, nem se cansaria de espera-lo voltar. Dolorosamente constatava que queria ter tido mais tempo para essas coisas tolas, tolas pelo menos de um ponto de vista de que aqueles que servem a deusa Atena devem se acostumar a um ciclo rápido de vida e morte, sem muitos intervalos. Claro, algo sempre lhe dissera que não havia nada de tolo em querer esses intervalos, mas o sentido daquilo era de que os tempos não eram propícios para pausas amenas. Estava ficando tarde para momentos doces. E não havia outro jeito. Só queria que isso não se parecesse com ter o coração esmagado no peito.
Quando as lágrimas deram um descanso, soube que havia ainda mais uma coisa que precisava dizer. E a urgência era tanta, que não ponderou, como normalmente faria, se realmente devia dizer aquilo ou não. Quando percebeu o que era, simplesmente tomou um pouco de coragem e disse: "Eu...", a voz falhou, mas ela continuou: "Eu acho que te amo...".
Um brevíssimo silêncio passou, e ela sentiu Defteros tomar a sua mão. "Então parece...", ele disse entrelaçando seus dedos, "que achamos a mesma coisa".
Sofia achou que suas lágrimas, sua respiração, e até seu coração pararam por um momento. Sentiu um imenso alívio, e permitiu-se sorrir – mesmo que aquele sorriso tivesse que sumir logo. As lágrimas voltaram a correr, porém agora calmas. Por um instante o futuro não a assustava.
"Desculpe se às vezes sou áspero ou duro... o tempo teve que me fazer assim", Defteros sussurrou, e ela assentiu imperceptivelmente.
E aos poucos a dor foi cedendo, como um gosto amargo que se tornasse agridoce na boca. O peito também deixava de pesar dolorido.
Os últimos raios de sol se foram, e a noite já se fazia notar. Defteros então disse: "Muito bem. Agora preciso ir".
Sofia o olhou alarmada, sentindo novamente a angústia ataca-la. O cavaleiro de Gêmeos sorriu, e continuou: "Mas se ainda quiser me ver... Vá lavar esse rosto, e me encontre naquele lugar escondido do mundo entre as árvores".
Não havia dúvida quanto a que lugar era aquele. Um lugar que só ela e ele poderiam saber.
"Está vendo?"
"Não... não estou"
Sofia havia corrido para tirar aquela vermelhidão de choro do rosto, acalmando-se aos poucos com o contato da água fria. Por fim conseguiu recompor-se, e correu mais uma vez para encontrar Defteros, ainda com medo de que a qualquer momento aquilo tudo poderia sumir, como se a menor demora fizesse com que acordasse de um sonho. Chegou ao lugar em que tantas vezes o encontrara, com a diferença de que desta vez ele reluzia com uma armadura de ouro. Agora olhavam para o céu noturno juntos, enquanto ele tentava lhe mostrar alguma coisa.
"Ali, bem ali"
"Não estou vendo", ela reclamou um pouco agoniada por não conseguir ver nada de diferente naquele ponto. Defteros riu, e achou melhor guiar a mão dela.
"Ali, está vendo?", perguntou desenhando com o dedo dela um certo grupo de estrelas.
"Ah, sim! Agora sim!"
"Aquela é a constelação de Gêmeos", ele explicou, "Quando sentir saudades de mim, olhe para ela... E eu estarei lá".
Sofia olhou para ele, sentindo novamente o coração comprimido. Mas dessa vez era de uma maneira bem mais mansa. Assentiu, esforçando-se para não chorar, mas percebeu que agora era o cansaço que tomava conta dela. Encostou a cabeça no ombro de Defteros, concentrando-se em olhar para ele. Não queria... não podia... dormir. Talvez se conseguisse manter os olhos abertos só mais um pouco... não... perderia nada... se pudesse... retê-lo... em suas pupilas... mais um pouco... só... mais um pouco...
Olhou para ele com os olhos pesados, teimando em não os fechar. Ele a olhou como se dissesse para que não lutasse contra o sono. E por fim ela cedeu. Ele a ergueu adormecida nos braços e foi até a área em que ela morava com os aprendizes do Santuário. Deitou-a em sua cama, e percebeu que ela segurava uma mecha de seu cabelo. Sorriu, e arrancou um pedaço da mecha para que ficasse com ela. Olhou para Sofia por uns bons minutos, tocando brevemente seu rosto.
"Eu amo você...", ele disse não com a voz, mas através de seu cosmo. Aproximou-se e deu um leve beijo em seus lábios. Afastou-se olhando-a ainda mais uma vez.
"... minha réstia de luz", disse da mesma forma saindo tão silenciosamente quanto havia entrado. E a noite quieta lá fora, como se nada houvesse se passado.
