Oi, gente! Pois é, nosso querido Defteros tombou em combate. Agora estamos em um intervalo entre o cap. 159 e o 160, só para situá-los =)
Sofia acordou do que pareceu ser o sono mais longo de sua vida. E quando se viu em sua cama, tudo o que havia acontecido veio em um fluxo à sua mente, sem deixar qualquer espaço para dúvida. Apesar da manhã despontar lá fora fingindo ser uma manhã qualquer, como se o mundo estivesse tranquilo, a dor que voltou a seu peito junto com todas as lembranças não a deixou esquecer de que tudo estava longe do comum. E nem do que ela havia perdido.
Afastou a dor com um suspiro. Não sentiu as lágrimas virem – mas não porque houvessem secado, e sim porque talvez por ora ela tivesse esgotado todo o seu estoque. De qualquer forma, não sentia que a dor precisasse ser acompanhada por elas agora. E depois, às vezes é preciso ignorar certas dores.
Isso ela já sabia por meio das dores físicas dos treinamentos – algumas delas devem ser ignoradas para se seguir adiante – mas que agora ela intuía em um outro sentido. Ficar parada remoendo as coisas não resolveria nada, e seria muito pior. Há que se seguir adiante. E, como ela percebia agora, mesmo que não se saiba muito bem como.
Ela tentava aplicar a lição das dores ao continuar treinando e se esforçando, mesmo que não fosse capaz de atuar na Guerra Santa. Mas ainda não era o suficiente. Afinal, ela podia treinar e treinar, mas sempre havia um pedaço de dor para ruminar. Como uma coisa indigesta que não desse para engolir.
Às vezes ela conseguia fingir que isso não vivia à sua espera, que sua cabeça não existia, treinando até ficar exausta ou simplesmente correndo antes de desabar na cama, mas às vezes... simplesmente não podia. Quando se aventurava a andar por aquele caminho escondido entre as árvores, não sentia nenhum consolo. Nem se sentando à beira daquele caminho, nem olhando para a constelação de Gêmeos, nem dando livre passagem às lágrimas para ver se isso aliviava alguma coisa. Por que é que ignorar aquela dor não podia ser como ignorar um corpo machucado durante o treino? Nem mesmo a urgência da guerra ou o sentimento de dever conseguiam surtir algum efeito... por que aquela dor tinha que ser tão difícil de estancar?
Talvez porque, diferente de um corpo machucado, ela fosse inacessível.
É, talvez fosse por isso. Mas não bastava saber o porquê. Afinal, a dor continuava lá. E mesmo aquele dia, de céu azul e um vento sereno, não conseguia distrair a mente dela. O céu que viria horas depois – o céu do meio-dia, com seu azul vibrante – a lembrava do que ela tentava não lembrar.
Não adiantava. Mesmo que ela não chamasse, as lembranças vinham. Como uma ferida que, mesmo escondida debaixo de ataduras, ainda pulsasse de dor. Apertou nas mãos a lembrança que ele havia lhe deixado, sentindo a visão dela, do céu e de tudo se borrar em lágrimas.
"Angele mou...", disse entre soluços aproximando a mecha do rosto. Se agarrava a ela como se estivesse ali o seu consolo. Mas mesmo com um pedacinho de céu na palma da mão, o céu parecia sempre distante.
Esperava que enfim a dor passasse, porque já não aguentava mais senti-la. Ainda que aquele tipo de dor fosse o mais difícil de ser curado, não conseguia ser paciente com ela.
Mas nem todo o seu desejo fazia com que as coisas mudassem. E tudo parecia durar tempo demais.
P.S.: Angele mou quer dizer "anjo meu" em grego. Lê-se "ánguele mu" ;)
