Olá! Agora não vou nos situar senão estrago a surpresa, porque teremos uma participação muito especial. Quem será?
Espero que quem tenha acompanhado até aqui esteja gostando, e quero dizer que apesar do longo hiato que pode haver daqui para frente entre os capítulos, eles sairão! É que algumas ideias ficam em banho maria até ficarem boas, e então elas dão as caras aqui. Até eu preciso ter paciência... mas vai valer a pena, eu garanto! E agora, vamos ao capítulo!
Aspros viu-se novamente no Santuário. Parece que, afinal de contas, o golpe do tal Yohma de Mefistófeles não o havia desintegrado, e sim transportado para outro lugar. E para sua desagradável surpresa, havia parado no lugar que fora o cenário da sua queda. Todo o Santuário havia visto como se corrompera e agora parecia encará-lo de maneira silenciosa, ainda que não houvesse viva alma à vista. Era o Santuário em si que sabia o que ele tinha feito. E para piorar as coisas, estava a alguns degraus da casa de Gêmeos. Agora sua própria constelação o encarava.
Começou a subir os degraus sem muita certeza do que fazer, quando viu surgir da casa de Gêmeos uma garota. Pelas roupas e pela idade, uma aprendiz de amazona. Que, curiosamente, não usava máscara. Ela o encarou assustada, e então sussurrou como se tivesse medo: "Defteros...?"
Foi a vez dele se assustar – então uma pessoa desconhecida conhecia o seu irmão? – mas antes que pudesse responder, ela mesma disse: "Não... não é ele. É..."
"Não... sou Aspros", ele completou. A menina espantou-se ainda mais – talvez já soubesse da sua história e estivesse pronta para gritar e sair correndo – e no entanto repetiu seu nome com uma estranha familiaridade: "Aspros...".
Ela ainda estava assustada, mas não do jeito que ele previra. Não parecia pronta a rejeitá-lo, mas sim com um semblante ao mesmo tempo entristecido e surpreso. "Então é você... Eu... conheci seu irmão...", ela disse conseguindo articular a frase lentamente e, mais ainda, se aproximando dele. As lágrimas pareciam petrificadas em seus olhos brilhantes.
"Conheceu Defteros?", ele perguntou surpreso. Ela assentiu, sem tirar os olhos dele. O olhar de Aspros se tornou sombrio. "Então sabe o que eu fiz".
Mas ela não titubeou, e chegou ainda mais perto. "Sim. Mas... não temo você", sussurrou. Aspros a olhou incrédulo. "Posso ver que... você mudou".
Como ela poderia saber? E por que confiava tanto? Mas antes que pudesse julgá-la melhor, a garota disse em tom de súplica, porém pela primeira vez falando com firmeza: "Poderia... me contar como foi a vida de vocês?"
Aspros não teve como dizer não. Alguma coisa naquela menina o atraía; sua confiança nele o desconcertava. Assim que apenas assentiu e perguntou: "Qual é o seu nome?"
"Sofia".
Então sentou-se com Sofia nos degraus da casa de Gêmeos, e primeiro lhe perguntou o que fazia lá. Ela respondeu que, para aliviar a saudade que sentia de Defteros, às vezes vagava perto da terceira casa zodiacal. E como ela havia pedido, lhe contou tudo desde o início: a sua infância e a de Defteros, a profecia, o Santuário, o treinamento... e como havia traído a promessa que fizera ao irmão. Contou inclusive sobre a gota de trevas lançada por Mefistófeles e como sequer se deu conta dela. Sofia escutava tudo sem tirar os olhos dele.
Ao terminar sua história, Aspros deu um longo suspiro, cansado pela narrativa cheia de partes que ele queria que nunca houvessem existido. Olhou de soslaio para a menina que tinha a seu lado, sem esperar sinceramente que ela o perdoasse. "Agora você tem bons motivos para me odiar".
Porém o semblante de Sofia continuava o mesmo, de fixa curiosidade com uma pontada de tristeza. Estava abismada com a dimensão daquela história, mas nem as partes mais terríveis haviam feito com que ela mudasse de ideia em relação a Aspros. E de novo, foi a vez dela de o surpreender, e disse com a voz frágil, porém firme: "Não. Eu vejo que você mudou".
Aspros a olhou espantado. Ela tocou sua mão, hesitou mas continuou com um sorriso: "E, na verdade... fico feliz de conhecer o irmão de Defteros. O irmão que ele admirava".
Ele foi atingido de uma maneira que não esperava. Sofia o mirava com os olhos líquidos já se desfazendo em algumas lágrimas. Ele se sentiu inesperadamente acolhido. Ela o abraçou, e ele retribuiu o abraço deixando que ela chorasse. Compartilhou ali a sua tristeza com ela.
Quando ficaram saciados de tristeza, já era noite. Sofia também havia lhe contado como conhecera Defteros, desde o dia em que o encontrou naquele caminho. Agora sorria serena e Aspros tinha o mesmo sorriso, sentindo-se livre de uma maneira quase inexplicável. Que poder tinha aquela garota... perguntou-se se Defteros também se sentia assim com ela.
"Já está tarde... a noite veio rápido", ela comentou, "Preciso ir".
"Eu a acompanho".
Aspros ficou por ali, uma área praticamente deserta como todo o resto do Santuário – havia visto pouquíssimos aprendizes por lá além de Sofia – vendo-se incapaz de ir embora, mesmo que tivesse que voltar para acertar as contas com Yohma. O espectro não havia mexido com qualquer um – e sim com o cavaleiro de Gêmeos, que conhecia muito bem técnicas com outras dimensões. Não daria muito trabalho descobrir como voltar. Por ora, poderia se demorar um pouco ali. Até porque, a verdade era essa, não conseguia deixar Sofia sozinha agora. Sentia uma necessidade de protege-la, mesmo que só por aquela noite. De estar com ela, de conhece-la um pouco mais. A havia conhecido há poucas horas atrás, mas já gostava tanto dela. Achou graça da situação. Que poder tinha aquela menina...
Como dispunha de pouco tempo, resolveu adentrar o quarto onde ela dormia, e onde por sorte não havia mais ninguém. Ela dormia serenamente perto da janela. Quanto tempo teria lhe custado para dormir assim, depois de tudo o que ela viveu em um espaço tão curto de tempo...
Aspros aproximou-se da forma adormecida de Sofia, sentando-se na beirada da cama. Ela aos poucos despertou, fazendo um esforço para identificar o que seus olhos viam na escuridão.
"Defteros?", ela perguntou em um sussurro incrédulo.
Aspros sorriu de uma maneira quase cansada. "Não, meu bem, não é ele", respondeu carinhosamente, como se quisesse ser sempre delicado com Sofia. Aquele tom soou de uma maneira inédita até a seus próprios ouvidos. "É Aspros".
"Aspros...", ela sussurrou refeita de um quase susto. Levantou-se um pouco na cama, tentando se recompor, e em pouco tempo já estava desperta.
"Que mania essa de vocês entrarem no quarto dos outros sem fazer barulho no meio da noite. É de família?", ela brincou em uma voz ainda sonolenta. Aspros sorriu mais. Esse senso de humor deve ter aliviado muito o peso que seu irmão carregava.
"Sim, é um mau hábito. Coisa de irmãos".
Sofia sorriu de volta. Estava feliz por Aspros ter vindo conversar com ela. Ali estava o irmão ao qual Defteros era tão ligado, e já gostava muito dele. Na verdade, já sentia com ele uma forte ligação, ainda que ela tivesse se iniciado naquele mesmo dia. E ela sabia que em breve teria que se despedir dele também.
A ideia trouxe uma pontada de dor, porém bem menos intensa do que aquela que havia sentido com Defteros. Decidiu que isso não a abalaria, e que faria o possível para se aproximar mais de Aspros nas poucas horas que restassem.
"Você... sente falta dele?", perguntou um tanto hesitante. Não havia necessidade de esclarecer de quem falava.
"Muita. Só agora reparo", Aspros respondeu com os olhos tristes, que logo ficaram resolutos, "Mas não posso me sentir triste agora, como se minha tristeza fosse resolver alguma coisa. Preciso honrar o que ele fez por mim".
"Entendo", Sofia respondeu desviando o olhar. Gostaria de dizer que tudo bem sentir a falta do irmão e desejar poder acertar as coisas com ele, mas entendia Aspros. Não havia tempo para sentir essas coisas agora. Se sentiu intrometendo-se naquela questão de irmãos, mas não viu nada de mal naquilo, nem Aspros fez qualquer objeção. Então continuou:
"Tenho certeza de que Defteros confiou em você quando doou sua vida", disse em seu melhor tom consolador, "E de que você voltou a ser o irmão que ele adorava".
Aspros sorriu de um jeito melancólico, mas que dizia um nítido "Obrigado". Sofia estava vendo algo dele que não permitiria mostrar a mais ninguém. Só poderia ser ela a vê-lo assim. "E eu tenho certeza de que você deixou os dias de Defteros bem mais suaves". Ela sorriu sem jeito, mas intimamente feliz com o comentário.
"Quem diria que tudo por causa de uma máscara tirada por uma amazona...", ele completou brincalhão.
"Ah, aquela máscara abafa demais o rosto...", ela respondeu no mesmo tom um tanto envergonhada, "E eu não gosto de conversar com ela na cara".
Aspros deu uma risadinha. "Está certo. É a primeira amazona que vejo ser tão sincera quanto a isso".
"Mas não devo ser a única", ela replicou triunfante.
"Sim, não deve ser", Aspros concedeu rindo. E emendou: "Cunhada". Sofia riu surpresa com aquela palavra, sentindo uma pequena alegria ao ouvi-la.
Fez-se um suave silêncio, em que os dois pareciam muito mais confortáveis um com o outro. Então Sofia teve uma ideia. Sem graça, não sabia se era conveniente, mas sentiu que não podia deixar de tentar.
"Eu...", disse ficando de pé, "sempre quis dançar com alguém". E reunindo a coragem, olhou para Aspros. "Dançaria... comigo?"
Aspros a olhou espantado diante do pedido, mas logo sua expressão suavizou-se. "É claro", disse ficando de pé e oferecendo uma mão a ela. "Será uma honra".
Sofia sorriu agradecida e aceitou a mão dele, instintivamente pondo a outra mão sobre seu ombro. "Mas não entendo muito de dança", Aspros preveniu.
"Ah, nem eu", Sofia respondeu desembaraçada. "Mesmo assim, dancemos".
Aspros então a conduziu em uma suave valsa, que havia aprendido por conta de uma de suas missões. Devagar eles descreviam círculos com os pés, em uma cena tão inusitada para o que acontecia lá fora, mas ao mesmo tempo tão singular que era imperturbável. Ao menos naquele momento, era uma dança apenas. Longe do mundo e de suas agruras.
Sorriam um para o outro como se estivessem em um plano etéreo. Sofia, em um certo momento, reclinou a cabeça no peito de Aspros, tranquila como há muito não se sentia. Aspros também sentia uma tranquilidade difícil de explicar. Havia ainda para eles um quê de dor, mas que se harmonizava com uma serenidade.
"Obrigada... cunhado", Sofia disse quando a dança se aproximava do fim, emocionada e arriscando um gracejo.
"Disponha, cunhada", Aspros devolveu no mesmo tom.
E o mundo, naquele momento fugaz, parecia se acalmar. Ao menos enquanto durasse aquela dança.
O sol não havia despontado completamente ainda enquanto Sofia se despedia de Aspros. Novamente ela tinha que se despedir de alguém. E novamente ela chorava, mas dessa vez ao menos a dor era mais suave. Era como se conhecer Aspros tivesse ajudado a aliviar todo o peso que sentia.
"Ora, mas o que é isso, cunhadinha!", ele disse em tom jocoso enquanto a abraçava de volta, "Nos veremos novamente".
Ambos sabiam que não era verdade, mas não havia porque enunciar isso. "É claro...", Sofia disse rindo em meio às lágrimas. "Nos veremos sim".
Agradeceu internamente pela confiança de Aspros, que a fazia mais leve em um momento como aquele. Olharam-se, cada um com um sorriso, como se dissessem "Foi um prazer". Silenciosamente ela desejou ao cavaleiro toda a sorte do mundo, e com o Outra Dimensão ela o viu partir.
Sofia ficou ali, olhando para a fenda no espaço que se fechou tão logo Aspros passou por ela, esperando que o seu desejo pudesse realmente valer alguma coisa.
