Continuando depois de muito tempo...


A guerra finalmente havia acabado. Parecia inacreditável não ver mais aquela pintura ameaçadora no céu, e chegava a ser estranho ver o mundo voltar ao normal. Pelo jeito, estar em uma guerra daquelas dimensões dá a impressão de que no fim não restará mais nada, se por um milagre no fim você estiver lá. Mas a Terra continuava firme depois de uma guerra que chegou até os céus. Essas eram as reflexões de Sofia.

Agora restava ajudar a reconstruir o Santuário, e isso acabava ajudando a aplacar a dor. A dor que todos sentiam, de haver perdido o que parecia ser... tudo. Haver perdido alguém, algum sonho, alguma ilusão. Mas acima de tudo isso, a referência. Qual era a referência agora? Muitos mestres se foram, muitos aprendizes, muitos guerreiros... o Santuário estava em uma calmaria, mas fora privado de muita coisa. Era difícil não se sentir desnorteado.

No entanto, a ideia de perder tudo era apenas uma impressão. Sofia podia ver agora. Todos que estavam ali tinham uns aos outros, tinham como compartilhar a dor e os desejos de um futuro bom, em uma corrente que era quase visível.

E contemplando um Santuário quase em ruínas porém apaziguado, Sofia se sentia tranquila. Depois da guerra, nada parecia tão ameaçador. Quando se aprende a digerir a dor, ela havia constatado, a vida ganha um pouco mais de força. Talvez muitos camaradas, como ela, também houvessem descoberto isso: surge uma força que antes nem sabíamos existir. Talvez fosse isso o que os cavaleiros que deram suas vidas na Guerra Santa queriam que entendessem: aos que ficam, virá a força. No meio da dor, é impossível entender isso. Mas agora, era claro como água.

Nisso, seus pensamentos foram até Defteros. O seu querido Defteros... já não andava com a mecha de seus cabelos nas mãos, agora ela ficava segura em seu quarto. Como um retrato que se gosta de olhar, e não uma dolorosa lembrança. Agora o céu do meio dia, ou mesmo o azul vibrante das águas do Egeu não traziam pontada nenhuma no peito, mas sim uma tranquila beleza, que parecia lhe dizer que sempre estaria ali para amenizar os dias ruins, ou mesmo os treinamentos duros com o opressivo calor grego. Isso era bom. Ela quase agradecia por viver rodeada por esse céu e esse mar... como esses não havia outros no mundo.

Uma terra bela... por vezes amena, por vezes dura. Não era assim a vida? É, talvez ela estivesse sintetizada ali. Uma beleza que insiste em pulsar depois da guerra, e que não deixará que ninguém sossegue até estar no seu esplendor de novo. Que coisa...

Voltou a pensar em Defteros. Agora que pensava com mais clareza, queria dar palavras para o que sentia por ele. Quaisquer palavras, não precisava ser uma só (o que ela achava, aliás, muito apressado). Mas não era fácil.

Como definir o que sentia por ele? Defteros havia sido como... como...

Você é o melhor que já me aconteceu,

Entre o mundano e o sagrado.

Lembrou-se de versos de uma música que andava esquecida em sua memória. Sim... entre o mundano e o sagrado, como havia sido naquela guerra santa. Era um bom jeito de definir. Combinou bem. E antes vinha:

Não penses que te irás

E irei me resignar

É, ela também não iria se resignar a chorar a perda. Isso era triste demais e vazio demais. Iria se agarrar com toda a força à lembrança vibrante dele. À vida que ele e os outros cavaleiros haviam deixado ali, impregnada nas pedras do Santuário. Mas, é claro, especialmente à dele.

Lembrou-se de como a cor de seus olhos se suavizava quando ele estava tranquilo. Era como vê-la naquele céu... sim, aquele azul simbolizava muitas coisas. Inclusive a saudade.

Horas mais tarde, com o céu já escuro, esperava o sono vir. Não demorou muito até sentir as pálpebras pesarem. Por alguma razão aquele dia a havia deixado cansada...

Foi então que...

Não soube dizer quando, mas em algum momento sentiu-se ser acordada pelo toque de uma mão. Uma mão que passeava carinhosamente por seu rosto. Abriu os olhos para sentir o coração parar. Era ele...

"Def...teros..."

Ele lhe sorria. Parecia mais bonito do que nunca, como se fosse uma figura etérea e não mundana. Resplandecia na armadura, tal como na última vez que ela o vira.

"Você andava me chamando", ele disse como se fosse a coisa mais simples do mundo.

Sofia não sentia nenhuma palavra se formar na boca. O espanto parecia secá-la, e aos poucos a única coisa que ameaçava se formar era um nó na garganta.

"É... mesmo... você?", conseguiu dizer enfim.

"Claro que sim", ele respondeu no mesmo tom, "Quem mais eu seria?"

Ela não conseguiu dizer mais nada. Ele riu, um riso levinho, vendo a condição dela.

"Sou eu", e emendou uma ordem suave: "Durma, angele mou".

Sofia abriu os olhos de novo. Dessa vez não viu ninguém em seu quarto. O mesmo céu escuro, a mesma música baixa dos grilos, a mesma noite. E a única prova de que algo havia acontecido: uma lágrima corria por seu rosto.

Aquilo havia sido real, de um jeito tão estranho que ela não sabia explicar. Seu peito arfava, como se perguntasse onde havia ido parar aquela imagem etérea, que não deixou nenhum rastro. Precisou deixar que a imensa emoção se dissipasse. Parecia que algo lhe havia sido arrancado, apenas para deixa-la confusa. A lágrima ainda corria por seu rosto. Teria sido... um sonho?