E na noite seguinte, antes que pudesse tirar qualquer conclusão, Sofia viu-se em um lugar que nunca tinha visto. Estava sobre um solo rochoso que era muito, muito quente, a ponto de parecer subir vapor do chão. Todo aquele calor subia diretamente à sua cabeça. Atordoada, conseguiu no entanto perceber que estava em uma ilha, e que corriam rios pela ilha. Mas não eram rios de água, e sim de magma.
Ouviu um rugido estrondoso. Olhou para cima e viu um vulcão. Teria ficado alarmada, se outra coisa não tivesse prendido seu olhar: um homem alto de cabelos azuis parado a alguns metros dali.
Nada naquela ilha parecia afetá-lo. Sofia tentou correr até ele, mas um vislumbre do seu semblante fez com que ela parasse. Ele parecia feroz. Não como um bicho, mas sim como um homem. De repente, ela soube de tudo o que ele havia passado: o isolamento naquela ilha, o poder forjado a ferro e fogo, um irmão à espera do combate com o outro... e aí tudo se foi.
Sofia acordou assustada. Outro sonho? Novamente não teve como responder, porque em pouco tempo viu Defteros de novo. Mas dessa vez era no quarto dela, e não na Ilha Kanon. Ele lhe sorria, como da outra vez. Abaixou-se até ficar à altura da sua cama. Ela aproximou a sua mão da dele, com medo de tocar o ar assim que a tocasse. Mas ao sentir a pele dele, uma onda de maravilhamento correu por seu corpo.
"Por favor, não vá".
"Não irei".
E assim eles ficaram. Sofia começou a brincar com os cabelos de Defteros, e só então percebeu o quanto sentia falta de admirá-los. Ele sentou-se de costas para que ela pudesse mexer mais à vontade. E ela ficou ali, deslizando os dedos pelas madeixas azuis, como se na verdade nunca houvesse parado de fazer isso. O tempo poderia escorrer entre elas que ela não perceberia.
Mas acabou se dando conta de que, em algum momento, Defteros sumiria de novo e sentiu o coração apertar. As lágrimas iam abrindo caminho até os olhos quando ele virou-se como mesmo sorriso.
"O que foi?"
"Não sei... se você vai voltar"
"Menina boba", ele disse do mesmo jeito carinhoso de anos atrás, "É claro que vou voltar"
Sofia o olhou um tanto incerta.
"Não confia em mim?"
"Confio", ela disse depois de alguns instantes, sentindo que precisava confiar.
"Então está bem", ele falou e de novo ela se viu sozinha. Mas dessa vez ao menos a agonia no peito era menor.
