E assim os dias transcorriam; quando caía a noite, Defteros vinha visita-la e conversar com ela – às vezes, vinha Aspros. A tranquilidade era insuspeita, até que um dia algo ocorreu a Sofia.
Aspros e Defteros eram dois dos cavaleiros mais poderosos de sua geração. Toda uma geração que havia se sacrificado sem pestanejar por Atena – e até a própria Atena também havia se sacrificado. Vidas sacrificadas com esplendor, com o que de havia de melhor nelas. Foi então que Sofia percebeu: não se via com a mesma coragem.
Se fosse ela que tivesse que dar a sua vida por Atena, não sabia se conseguiria. Nem sabia se tinha muito a oferecer, mas com certeza não concebia a ideia de não ter medo da morte a esse ponto. Isso a assustava, e muito. A morte em uma guerra, contra inimigos tão poderosos... talvez todos os aprendizes sentissem isso, mas havia dentre eles alguns muito corajosos, que já falavam em sacrificar suas vidas se necessário. Então não havia desculpa.
Aspros havia se sacrificado. Defteros também. E Sofia sentia medo. Como iria merecer Defteros? Como poderia ser digna dele assim?
Naquele dia, ela só conseguiu pensar nisso. E quando a noite chegou, não conseguiu dormir. Não soube dizer quanto tempo havia passado, mas teve a impressão de que ainda estava com os olhos abertos quando Defteros chegou. Ela nem conseguia olha-lo.
Ele não se incomodou. Sentou ao seu lado como sempre, enquanto ela continuava deitada. Ainda sem olha-lo, Sofia se aproximou até encostar a cabeça na perna dele. Defteros levou a mão aos cabelos dela e os acariciou. Prosseguiram em silêncio, até que Defteros o quebrou:
"O que foi? Por que está tão quietinha?"
Ela ainda hesitou antes de falar, mas por fim disse:
"Por que é tão difícil aceitar que alguém que você ame dê a vida pelo ideal em que acredita?"
Estava introduzindo o assunto. Tomando coragem para falar do que realmente incomodava.
"Bem, eu não dei a vida pelo ideal de cavaleiro... não exatamente. Mas acabei abraçando esse ideal porque ele fazia sentido para o meu motivo maior".
"M-mas mesmo assim...", ela continuou, "você deu a sua vida por ele também. Por que eu não consigo me imaginar fazendo isso, se esse ideal também deveria ser meu?"
Sofia quase achou que não conseguiria dizer a outra frase: "Eu não devia ter medo disso..."
Defteros parou a mão em seus cabelos. Sofia teve medo do que ele poderia pensar – ela era indigna de ser uma amazona? Por isso não falou mais nada. Estava triste consigo mesma. Mas depois de alguns instantes, sentiu que precisava dizer:
"Por que sou tão medrosa?"
Foi então que Defteros fez com que a encarasse. E seus olhos eram gentis.
"Porque esse ideal não é seu. Você apenas o conhece, é muito cedo ainda para que ele te pertença. Não pode sacrificar nada enquanto ele não for seu".
Sofia o olhou surpresa. "Mas e o meu medo..."
"Você não é medrosa, matia mou*. Está querendo dominar algo que nem te é familiar ainda. Só isso".
Sofia parou por um instante. Era isso? Estava querendo ir longe demais, sendo que ainda não entendia direito daquelas coisas? Não havia problema em sentir medo? O olhar de Defteros parecia responder tudo.
Ela se acalmou. Sim, fazia sentido... ela não podia dominar tudo o que um cavaleiro dominava, inclusive a falta de medo em se desprender da vida... mas com o tempo, talvez ela pudesse entender. Se permitiu sorrir aliviada, e um pouco envergonhada.
"Que bom. Achei que não pudesse servir Atena..."
"Que bobagem", ele disse com a mesma suavidade. Desta vez ela o olhava na altura dos olhos.
Mais alguns instantes se passaram. E agora sem que o silêncio guardasse algum medo. Sofia ainda sentia um pouco de vergonha por ter se enrolado com algo que Defteros havia desvendado com tanta facilidade. Ele tomou seus dedos e os beijou, como se dissesse que não havia do que se envergonhar.
"Estou te segurando aqui?", ela perguntou tímida. Afinal a noite já ia longe.
"Não. Temos todo o tempo do mundo".
Resolvi trazer essa questão da coragem, ela até aparece com um dos discípulos do El Cid no mangá e anime, e acho que vale muito a pena discutir...
Ah, e matia mou (lê-se "mátia mu) é outra expressão de carinho em grego, quer dizer "meus olhos", mas o sentido é que como os olhos são a parte mais delicada do corpo e com a qual mais se toma cuidado, chamar alguém assim é o mesmo que dizer que aquela pessoa é muito querida para você.
