Capítulo 1

Acordo com a cara encharcada pelas lágrimas, ainda sinto o calor emanado de Kyle. Me viro deitada de barriga para cima dou um suspiro e me levanto.

Bliss dormia tranquilamente abraçada em sua pelúcia (ela tem dezenove anos como eu), com seus cabelos dourados presos em duas tranças ela usava um baby doll com short cor- de - rosa rendado e parecia estar em um comercial de TV, daqueles que a mulher levanta maquiada, penteada e perfeita para o dia.

Chega a ser engraçado o fato de sermos melhores amigas, mas como os humanos dizem: os opostos se atraem. Eu vou ao banheiro e jogo uma água na cara, vejo meu reflexo no espelho e meus olhos negros estão vermelhos de chorar enquanto eu dormia, meus cabelos castanhos escuros estão bagunçados da cama e estou vestindo apenas uma camiseta escura para dormir.

Realmente é estranho, é como se eu fosse as nuvens escuras que trazem a chuva e Bliss é o sol que surge trazendo luz e formando um arco-íris. Ela está comigo desde que me entendo por gente e está ao meu lado sempre que eu preciso.

Bliss acordou com o meu barulho e está escorada no batente da porta me observando.

– Você está bem? – ela parece preocupada.

– Estou, foi só um sonho. – É claro que ela sabe que estou falando de Kyle, afinal essa é a Bliss!

– Sophie, já faz dois anos! Não acha que está na hora de seguir adiante? Vocês dois!

Enterro minha cabeça entre as mãos: – Agora não Bliss, eu prometo conversar sobre isso com você, mas temos treinamento daqui a pouco e eu gostaria de manter o pouco de ânimo que me resta.

Bliss ergue as mãos num gesto derrotado: – Tudo bem, agora se manda daqui que eu preciso da minha hora de beleza – Disse já me empurrando pra fora do banheiro, gesto que ajudou a melhorar o meu humor.

Eu estava saindo para almoçar quando uma voz melosa me chama:

– Sophia querida! – Valery está no fim do corredor abanando a mão acima da cabeça (como se não desse pra enxergar ela com seu vestido verde limão e seus cabelos acobreados se sacudindo com o movimento).

Dou um sorriso forçado e vou ao seu encontro

– Em que posso lhe ser útil Valery?– Digo. Ela me lança uma rápida olhada dos pés a cabeça e acho que ela não gostou muito da minha calça skinning preta com as botas coturnos de cano baixo, ou talvez tenha sido a minha camiseta preta com estampa do Cheshire.

Ela faz um biquinho dengoso – Pra quê toda essa formalidade Sophia? Bom, eu gostaria de lhe pedir um favor.

Só podia ser isso!

Eu e Bliss estudamos em uma universidade de artes, Bliss faz interpretação e eu faço escrita criativa, mas nós fazemos algumas aulas extras juntas como música, coral e dança. Valery faz a aula de dança com a gent garota mais famosa da faculdade por ser uma modelo parcialmente conhecida.

Ah! E eu não gosto dela.

O fato é que ela não gosta de mim também, acho que eu mancharia sua reputação se andasse comigo, mas ela vem falar comigo quando quer alguma coisa.

– Eu não posso te falar agora, mas gostaria de te ligar mais tarde, tudo bem? – Ela faz uma carinha de inocente dissimulada e eu me seguro ao máximo para não revirar os olhos.

– Claro.

Ela dá pulinhos, bate palmas e depois me abraça. Eu fico toda dura, não estou acostumada com outros me abraçando, exceto Bliss e Kyle.

– Excelente! Então te ligo mais tarde – E dito isso ela se foi.

No restaurante do campus Bliss estava me esperando, ela estava animada com o festival organizado pela universidade que está para acontecer. E eu já estava surtando de tanta coisa que tinha para fazer.

– Adivinha quem foi escalada para ser Helena em Sonho de uma noite de verão? Isso mesmo! Euzinha aqui! Agora nós temos que ir às compras para conseguir uns enfeites para o meu cabelo, sabe como é...

Ela nem me deixa sentar à mesa e já sai me metralhando com assuntos do dia. Eu dou um sorriso, e fico só ouvindo mesmo sabendo que até ela terminar de falar eu não vou me lembrar de quase nada do que ela disse que temos que fazer.

De repente o lugar fica mais frio, e eu sei o que isso significa. Olho em volta á procura de quem quer que esteja aqui, e no fundo bem atrás do balcão de comida eu a vejo.

Automaticamente as lágrimas vêm e eu cubro a boca segurando o choro.

– Sophie? O que houve? – A voz de Bliss meio que me desperta e eu me levanto indo em direção ao balcão.

Claire.

Claire está parada olhando para mim.

Não pode ser! Isso não está acontecendo! Eu a vi pela última vez há dois anos, quando deixei o clã, ela estava bem e saudável. Ela não podia estar morta.

Mas ela estava. E como eu sabia?

Esse é o meu talento, sou uma draki necromancer.

Claire se vira e sai correndo, eu acelero o passo e quando saímos do restaurante eu estou correndo também.

– Claire! Claire espere!

A esta altura já não me importo mais se tem gente olhando. A única coisa que invade a minha mente é: Claire está morta! Ela se foi! Mais um nome a acrescentar em sua lista de perdas!

As lágrimas já não saíam porque eu não queria acreditar. Claire virou á direita em um prédio e eu continuei a correr atrás dela e quando eu virei também eu me choquei com alguém.

Eu estava indo muito rápido e por isso voei para trás quando me choquei com o cara (só podia ser um cara pelo tamanho e força) e só não caí porque um par de mãos fortes me segurou.

– Opa! Calma aí! – Ele se assustou com a minha investida, mas agiu a tempo antes de eu cair de traseiro no chão.

– Desculpa! – Eu estava desesperada, olho por cima do ombro do sujeito (o que foi um pouco difícil já que ele era uns dez centímetros mais alto que eu) e Claire já havia desaparecido. Dou um suspiro. Eu a perdi.

Sinto uma vibração em meus braços e percebo que o cara ainda está me segurando e está rindo.

– Será que toda a vez em que nos encontrarmos você terá que bater em mim? – Ele diz, e sua voz é familiar.

Então eu olho para ele.

Seus cabelos pretos estão mais compridos do que ele normalmente usava e seus olhos negros pareciam mais maduros pela idade e suas íris com fios de púrpura enfeitando-os. Ele estava olhando diretamente nos meus olhos, estava mais velho, mas ainda tinha aquela expressão brincalhona que ele fazia quando falava comigo e seu nariz que um dia fora perfeito tinha indício de ter sido quebrado uma vez, por mim.

– Cassian!?