Capítulo 2
Isso não estava acontecendo, não podia estar. Cassian aqui? Como? Por quê? O clã dele é distante, ele ia assumir o comando, então o que ele está fazendo aqui?
A não ser que tenha acontecido alguma coisa, como aconteceu comigo.
– Você está bem? Parece que viu um fantasma. – Ele disse meio zombeteiro. Ele sempre brincava comigo fazendo essa pergunta, por causa do meu talento.
Só que dessa vez ele acertou.
Kyle não quer mais me ver. Claire está morta. Cassian está aqui. Tudo começa a correr pela minha cabeça e eu me sinto tonta, acho que vou desmaiar. Meu estômago começa a se revirar e eu estou prestes a passar mal.
– Sophie! – Ouço uma voz familiar me chamar, uma voz que traz luz à minha vida cercada por trevas e que já se tornou parte de mim.
Bliss aparece brilhando como o sol, com seu vestido amarelo e sandálias douradas virando o prédio e está ofegante, estava me procurando.
Ela empaca ao ver Cassian e dá um sorriso um pouco malicioso.
– Desculpa! Não queria interromper.
Como que despertando de um torpor as lágrimas explodem de mim, eu me ajoelho no chão e enterro a cabeça entre as mãos, Não me importo se Cassian está me vendo chorar (não gosto de chorar na frente dos outros), não me importo se estou parecendo uma louca para quem passa por perto. A verdade cai sobre mim e não há nada que se possa fazer. Eu perdi Claire, a razão pelo qual eu sobrevivi esses últimos anos.
Ouço o som dos saltos de Bliss se aproximarem, ela se abaixa ao meu lado e me abraça. Também sinto uma mão quente em minhas costas e penso em Kyle.
Mas não é ele.
Cassian também se ajoelhou e está com uma expressão preocupada e um tanto assustada.
– O que foi bebê? – Bliss me pergunta usando o apelido que ela me chamava há alguns anos.
Eu estava soluçando, como uma criança agarrada ao vestido dela.
– C-Claire... eu v-vi...- Não consigo falar direito entre os soluços.
Bliss fica tensa e em seguida aperta o abraço. – Oh, bebê eu sinto muito!
Tudo está ficando escuro e eu sinto que vou apagar a qualquer momento.
A última coisa que me lembro é de ouvir a voz de Bliss explicando para Cassian:
– A irmã dela.
Dizem que há três tipos de sonhos: os fisiológicos, que são aqueles que dramatizam algo que acontece com o nosso corpo enquanto estamos dormindo; os psicológicos que exprimem nossos estados íntimos (lembranças); e os espirituais, que são um resíduo de uma atividade desenvolvida pelo Espírito, afastado do corpo durante o sono.
Meus sonhos normalmente são espirituais. Tipo eu vejo gente morta, então é meio que óbvio que elas me visitem em sonhos, quando eu estou "semimorta" para bater um papinho de igual para igual.
Só que (pelo que eu acho ser a primeira vez) tenho um sonho psicológico.
Eu estou com doze anos e estou passando uns dias em outro clã junto com meu pai, algo sobre fazer uma aliança entre o nosso clã e o deles. Até então esta tudo dando certo, eu estava me divertindo bastante com os drakis daqui e eles pareciam não ter medo do meu talento (como a maioria dos drakis do meu clã), muito pelo contrário, eles adoravam.
Já faz quase uma semana que eu estou nesse lugar e estou morrendo de saudades de incomodar a Bliss. Enquanto passeio pela floresta ouço um soluço de trás de uma das árvores. Dou a volta e encontro uma garotinha com quase a minha idade sentada no chão com a cabeça escondida nos joelhos chorando.
– Você está bem? – Pergunto.
Ela ergue a cabeça um tanto assustada e eu me recordo dela. Tamra se eu não me engano é o nome dela, a irmã gêmea de Jacinda a Respira Fogo do clã. Ela está com os olhos inchados e vermelhos de tanto chorar e as mangas de sua camisa estão ensopadas com as lágrimas. Eu não a vejo muito, mas ás vezes ouço comentários a seu respeito, sobre sua condição, parece que ela ainda não se manifestou e por isso ela é tratada diferente aqui no clã.
O que eu acho uma idiotice total, já ouvi alguns garotos fazendo comentários maldosos a seu respeito antes de conhecê-la, mas me indignei e acabei entrando em uma pequena briga com eles. Nada muito grave, os meninos saíram um pouco machucados, mas não ousaram comentar com ninguém sobre o ocorrido para não sofrerem humilhação. E também eles nunca mais falaram nada a respeito dela.
Pelo menos na minha presença.
– E- eu...desculpe! – Não sei por que ela está se desculpando, mas ela parece surpresa de alguém vir falar com ela
Ergo uma sobrancelha – Desculpa por quê? Você fez algo errado que eu não sei?
– E- eu... – Ela parecia confusa – Não queria te incomodar.
Dessa vez eu franzo as sobrancelhas – Eu disse que estou incomodada?
– N-não é que eu pensei... – Acho que foi a conversa mais longa que eu já tive com ela.
– Bom, você não está me incomodando, mas eu gostaria de saber, porque está chorando?
Ela fala algo sussurrado, inaudível, e eu não entendo coisa nenhuma.
– O quê? – Pergunto.
– Cassian.
Oh! Entendi! O principezinho capeta mostrou as garrinhas. Eu sabia que aquela carinha bonita não me enganava. O fato é que ele só estava querendo agradar os convidados, mas eu sabia que por baixo daquela fachada estava um garoto mimado, mandão, possessivo e arrogante. Tá certo que ás vezes a gente se divertia junto fazendo palhaçadas e jogando. Mas vendo o estado de Tamra me deixou com raiva dele.
É óbvio que Cassian tem uma paixonite por Jacinda, e que sua irmã, Tamra, tem uma paixonite por Cassian. Isso todo mundo sabe.
Inclusive ele próprio.
Não falo mais nada, apenas me viro e saio dali pisando duro, indignada. Não me importa o motivo: se Cassian falou algo, fez algo ou se apenas a ignorou, não estou nem aí. Como podem excluir uma garotinha e ninguém se importar com isso? Como podem fingir que nada está acontecendo e deixar que a alma dela se definhe aos poucos. Porque é isso que está acontecendo, eu posso sentir.
Graças ao meu talento.
Ouço sons de alguém atrás de mim, espio por cima do ombro e vejo Tamra me seguindo.
Ótimo, quero que ela veja isso.
Perto da escola onde todos os drakis do clã estudam está Cassian, cercado por seus seguidores e admiradores estúpidos. Um pouco afastadas dali vejo Jacinda com sua amiga Azure. Ela percebe a irmã atrás de mim e franze o cenho, com uma expressão de preocupação.
Sigo em frente até chegar ao grupo de Cassian que vai abrindo caminho para minha passagem até eu ficar cara a cara com "vossa alteza". Cassian ao me ver parece um pouco surpreso, mas logo sua expressão se torna divertida, eu sinto meus olhos queimarem de raiva, mas não perco a compostura, ainda.
Ficamos um tempo nos encarando e a atmosfera ao redor fica pesada, posso sentir todos da volta nos olhando tensos. Príncipe e Princesa, filhos dos chefes de seus respectivos clãs e futuros líderes.
Ônix e Necromancer.
O canto da boca de Cassian se eleva em um meio sorriso e é ele quem quebra o silêncio.
– O que foi Shade? Parece que viu um fantasma. – Fazendo sua habitual piadinha e todos começam a rir como sempre.
Exceto eu.
Depois disso é tudo em flashes: meu pai me segurando pelos braços para não avançar mais em Cassian; Severin o pai dele ao seu lado enquanto o mesmo segurava o nariz sangrando e quebrado; E meu punho dolorido e machucado pedindo para quebrar o resto daquele rostinho bonito.
