Capítulo 3
Abro os olhos lentamente para me acostumar com a claridade. Minha cabeça lateja e eu penso que fui a uma festa ontem e tomei um porre.
Mas não foi bem assim.
Lembranças de Claire, do espírito dela, retornam para mim e eu fecho os olhos com força suspirando. Acho que já esgotei meu estoque de lágrimas porque elas não vêm mais, não restou mais nada.
Só um buraco no meu peito.
Sacudo a cabeça e me sento tentando clarear a mente. Estou no meu quarto, está de dia, e o que diabos foi aquele sonho?
Aí eu me lembro.
Cassian realmente está aqui? Ou faz tudo parte de minha paranóia? Bliss, pega o número daquele hospício e manda me buscarem. Rápido é para ontem!
Ouço barulho na porta e vejo a maçaneta girar. Mason enfia a cabeça para dentro e vê que eu acordei. Ele é meu melhor amigo e é muito lindo, tem cabelos castanhos olhos esverdeados e um sorriso contagiante que faz até as pessoas durante um funeral sorrirem de volta para ele.
Pena que torce no outro time, se é que você me entende.
– Nossa! Até que enfim acordou Bela Adormecida – Diz ele brincando e escancara toda a porta se escorando no batente dela. – Tem um cara MUITO gostoso que quer te ver.
Esquece Bliss, larga esse telefone, não vai ser hoje que eu vou me internar, mas sugiro que guarde o número só por precaução.
Cassian aparece atrás de Mason e não parece muito assustado com o comportamento dele. Já devem ter tido uma conversa de "homem para Mason". Cassian sem pedir licença (metido) entra no meu quarto e senta ali, bem na minha cama ao meu lado de frente pra mim.
Mason me lança um olhar Deus, ele é hot meio que babando e fecha a porta. Reviro os olhos e volto a encarar Cassian.
Ele esta me olhando fixamente, eu sinto minhas bochechas corarem, é como se ele estivesse olhando por dentro de mim, dentro de minha alma. Abaixo o olhar e fico admirando a minha coberta, nunca tinha reparado que ela tinha estampa de gatinhos, e olha que eu adoro gatos.
– Sabe, você é a última pessoa que eu esperava encontrar aqui. – Cassian fala quebrando o silêncio.
– O que você está fazendo aqui? – Eu solto, não sou de ficar enrolando em uma conversa, não sou boa em planejar essas conversas de um jeito em que a pessoa me responda sem que eu pergunte.
Um sorriso se abre em seu rosto e eu sinto meu corpo virando gelatina. Algo naquele sorriso dá uma sensação de nostalgia, faz eu me lembrar de casa. Para por aí! Só porque ele ficou maravilhoso desse jeito não significa que ele não seja o mesmo idiota de antes. E sem falar que ele é tudo do que você está tentando afastar de sua vida.
Nessas horas eu agradeço ao meu Grilo Falante (que é como eu carinhosamente chamo minha voz interior). Valeu Grilin!
– Sempre direta Shade. – Ele diz dando suma risada fraca. – Mas respondendo à sua pergunta eu estou viajando.
– Como isso? Você já tem vinte e um, não está assumindo o clã?
Seu sorriso desaparece e seus olhos escurecem (pelo menos parece já que seus olhos são negros e tal). – Não, aconteceram... algumas coisas. Não estou mais no comando do clã.
Franzo as sobrancelhas – O que aconteceu? – Já falei que sou curiosa?
– Coisas, problemas com caçadores e enkros – Dava para sentir a dor que ele estava sentindo ao se recordar dessas coisas. – O clã agora é administrado por um conselho e eu estou viajando entre outros clãs para avisá-los.
– Avisar sobre o quê?
– Sobre tudo. Sobre o que os enkros fazem, Eles capturam drakis e estudam eles, colocam um rastreador em seus cérebros e assim podem segui-los até o clã, entre outras coisas.
Meu coração estava disparado, eu sabia que os enkros existiam ao contrário da maioria que acreditava ser um mito. Mas nunca soube o que eles faziam, quer dizer até que faz sentido, os caçadores nos capturam e nos vendem para os enkros por um preço bem alto e os enkros vendem nossa pele, sangue (que tem propriedades medicinais) e sabe-se lá o que mais. Mas testes de laboratório? Isso é maior do que eu pensava.
– E como veio parar aqui? – Perguntei.
– Eu estou mais curioso sobre você, quer dizer, eu não acredito que seu clã é aqui, mas todos que estão nesse lugar são drakis. O que está acontecendo Shade?
Até parece que eu iria falar sobre mim. Ainda mais para ele.
– Foi um prazer ver você de novo Cassian, talvez não tenham te falado, mas você não devia estar aqui e nem saber sobre esse lugar. Eu nem sei por que te trouxeram aqui ou por que deixaram você e entrar. Então acho melhor você se retirar agora.
– Eu estou aqui porque alguém desmaiou e eu tive que carregá-la até aqui.
Sinto o sangue subir ao meu rosto, droga eu detesto corar!
– Obrigada pela assistência, mas se você continuar aqui vamos nos meter em encrenca.
– E isso não é o que fazemos de melhor? – O bom humor havia voltado aos seus olhos e ele estava sorrindo de novo.
Reviro os meus olhos – Eu não sou mais aquela garotinha encrenqueira de doze anos Cassian.
– É, não é mais. – Concordou ele me olhando fixamente com um olhar que eu não sei dizer o que é.
Droga! Eu estou ruborizando de novo, e dessa vez é de uma forma visível porque Cassian percebe e começa a encarar minha coberta. É incrível como esses gatinhos são hipnotizantes!
– Então, quer me mostrar o lugar? Eu vi que é bem grande. – Cassian pede.
– Cassian, você não devia...
– Já me disseram o que fazem aqui Shade.
Arregalo os olhos – Quem...
– Seus amigos me disseram, e até me ofereceram um lugar para ficar.
– Mas...
– Pode confiar em mim, eu perguntei antes porque eu queria ouvir de você, mas você se negou a me dizer.
Baixei o olhar e murmurei: – Me espera lá fora.
Ele assentiu e se retirou.
Eu desci da cama e nem troquei de roupa, só fui ao banheiro e me lavei. Quando saí do quarto ele estava me esperando escorado na parede ao lado da minha porta.
Ele abriu um sorriso brilhante como o sol, e eu me derreti como manteiga. Porque é tão difícil me concentrar quando ele está sorrindo desse jeito?
Foco Sophie, foco!
Vai ser um pouco difícil Grilin!
