Sabem aquelas cenas de filmes em que acontece uma tragédia e a pessoa fica sem comer por dias com perda total do apetite?

Tudo mentira.

Se quer saber é totalmente o oposto, nós comemos feito uns condenados e passampos o dia inteiro procurando algo para filar. Talvez seja um jeito que arrumamos para esquecer do que está acontecendo sei lá, mas esteja sempre preparado com um pote de sorvete de chocolate tamanho XXXXTREME dentro do freezer.

Infelizmente aqui no reformatório não funciona porque tomam tudo antes de acontecer uma tragédia.

– CADÊ O SORVETE DE CHOCOLATE! - Bliss grita quando dá falta de seu pote.

– Não precisa Bliss. - Digo.

– Claro que precisa! Eu quero uma sobremesa! - Ela bufa.

Logo após terminarmos a comida ficamos arrumando a bagunça. Ian estava lavando a louça, Cassian secava e eu guardava. Mason foi poupado por ter ajudado Bliss a preparar a comida.

– Posso saber porque Bliss já está fazendo escândalo? - Diz uma voz vinda da porta.

Nos viramos ao mesmo tempo e olhamos para uma mulher alta, com cabelos negros e ondulados presos em um rabo-de-cavalo, com olhos avelãs, longos cílios e com aparência de uns vinte e poucos anos.

– Boss! - Eu, Mason e Bliss falamos ao mesmo tempo em que corríamos para abraçá-la.

Boss é nosso apelidinho carinhoso para Jemina Hope, a líder do Abrigo/Reformatório/Instituto para drakis e "afins" que foi deixado para ela por seu avô antes de morrer. Ela é a nossa mãe de coração, mas também e nossa chefe e ela consegue ser tanto carinhosa quanto pulso firme se ela quiser.

Acontece que fazia quase três meses que não a víamos pois ela sempre faz uma "ronda" por onde ela tem informantes e algumas cabanas que servem como postos ou filiais do Abrigo.

– Eu recebi uma mensagem de Mason mais cedo. - Ela diz enquanto me abraça. - Está tudo bem?

Assinto. - Agora eu vou tentar descobrir o que aconteceu.

– Eu irei lhe ajudar. - Ela diz. - Mas agora eu preciso que vocês vão resgatar alguém.

– Onde? - Pergunta Ian.

– É perto, irei lhes dar as coodernadas certinho e não vai levar mais de um dia e cert... - Jemina se interrompe quando vê Cassian. - Quem é você?

Bliss faz as apresentações e conta sobre como Cassian foi parar ali.

– Eu já ouvi falar sobre o que aconteceu com o seu clã. Você é filho de Severin certo?

Cassian fica tenso. - Sim.

– Você vai ficar conosco? - Jemina pergunta à ele.

Cassian parece pensar. - Na verdade isso não está nos meus planos.

– Bem, que tal acompanhar o pessoal nesse resgate? Quem sabe você descubra algo de que goste de fazer.

– Mas ele não tem nenhum treinamento. - Retruco. Não quero que Cassian vá junto.

Jemina ri. - Tenho certeza que ele já foi bastante treinado pela vida. - E se volta para Cassian. - O que me diz?

Cassian me lança uma rápida olhada. - Eu quero.

Bufo.

Jemina sorri. - Ótimo, Então vão vocês cinco, podem pegar a van você partem em meia hora.

Fogo.

Há fogo em todos os lugares.

Eu não sei quanto tempo mais eu posso aguentar então corro a procura de uma passagem, labaredas de fogos estão espalhadas por todo o caminho e eu vou desviando, mas não consigo impedir que o fogo me acerte algumas vezes.

Encontro uma passagem e corro para ela. Ao entrar um bloco de concreto surge do chão impedindo meu retorno. Do nada surgem morcegos raivosos que começam a me atacar, eu não tenho outra opção senão lutar.

Pego a Master Sword...

– Shade!

Tiro meu olhos do meu Nintendo DS e encaro Cassian que parece estar segurando uma risada.

Bufo. - É bom saber que eu te faço rir. - Falo sarcástica.

Ele pende a cabeça um pouco para o lado. - Sabia que você é bem expressiva quando está jogando?

Reviro os olhos. - É porque eu desligo minha mente do resto do mundo e entro para o jogo. Com livros também é assim.

– Se desliga mesmo, afinal a gente já chegou faz uma meia hora.

Só então reparo que a van está parada e não tem mais ninguém lá dentro, olho pela janela e vejo todos conversando do lado de fora e Bliss está falando com alguém ao telefone. Cassian está parado na porta da van e eu estou deitada no banco do fundo.

Guardo meu game e saio da van com Cassian ao meu lado.

Dou um tapa na nuca de Mason quando eu chego ao grupo. - Porque não me chamaram!

– Ai! - Mason acaricia a nuca. - Você estava tão concentrada que não queíramos atrapalhar, achamos que estivesse buscando inspiração para a apresentação no festival.

– Que festival? - Cassian pergunta.

– A universidade que estudamos faz um festival cultural todo ano e são os alunos que organizam. Por ser uma faculdade de artes culturais as apresentações dos alunos são a atração principal. - Ian explica.

Mason coloca o braço em volta do meu pescoço. - O clube de games vai fazer uma apresentação do The Legend of Zelda's rap e nossa adorável Sophie vai cantar e interpretar a parte da Princesa Zelda. Estou louco para ver ela com aquela roupa e loira!

– Eu preciso ver isso. - Cassian fala.

Eu me viro para ele. - Você não vai embora? - Pergunto. Sei que é grosseria da minha parte, mas eu não quero Cassian por perto. Ele me traz lembranças daquilo que eu quero deixar para trás.

Cassian parece ter levado um tapa, ele abre a boca para responder, mas Bliss chega depois de encerrar a ligação.

– Jhon me ligou e disse que havia um draki que morava por aqui, seu nome é Suzannah e ela foi expulsa de seu clã por se envolver com um humano.

– Isso é horrível. - Diz Mason.

Bliss assente. - E não para por aí. Houve um fruto de seu relacionamento com esse humano, mas seu clã não sabia. Por isso ela escondeu a filha para que não viessem tirá-la dela.

– Então nós temos que levar essa mulhe e a filha com a gente? - Pergunto.

Blis balança a cabeça. - Na verdade vamos levar a menina, infelizmente foi encontrado o corpo de Suzannah há uns três dias e desde então estão procurando a menina.

"Descobriram que Suzannah trazia a filha a esse bosque para brincarem e desconfiam que a menina esteja por aqui. E como estão todos ocupados com essa onda de assassinatos pediram para a gente vir procurá-la."

Um arrepio percorre a minha espinha. No último ano vários drakis vem sendo assassinados brutalmente e não se encontra nenhuma pista de quem poderia estar por trás disso. Sabemos que não são caçadores, afinal eles nos vendem para os enkros por um alto preço.

Olho para o lado e do outro lado da rua está o dito bosque. Centenas, talvez milhares de árvores altas e de diferentes espécies estão dispostas de forma irregular, dificultando a vista para o interior do local.

Já estamos no final do dia e não podemos demorar, afinal não há possibilidade de encontrarmos algo à noite.

– Vamos logo. - Digo já atravessando a rua seguida pelos outros.

Ficamos por uma hora vasculhando, até que resolvemos nos separar e Cassian vei comigo porque ele não tinha telefone para comunicação.

Após uns vinte minutos em silêncio Cassian resolve falar.

– Você quer que eu vá embora?

Levo cerca de dois minutos para responder. - E se eu quiser?

Ele dá de ombros. - Eu não vou ficar em um lugar onde não sou bem-vindo.

Suspiro. - Não é isso Cassian, é que... É complicado.

– Então descomplique.

Eu abri a boca para dar uma resposta bem mal educada quando vejo uma cabana mais adiante. Eu ligo imediatamente para os outros que chegam nem cinco minutos depois, pois estavam por perto.

Mason e Ian entram na cabana, mas não encontraram nada, parecia abandonada há poucos dias.

Blis suspira. - Acho melhor voltarmos, já está anoitecen... - Ela para de falar e arregala os olhos.

Sigo a direção de seu olhar e a vejo.

Uma garotinha com cabelos Prateados sujos de terra e com os olhos da mesma cor está com metade do corpo escondido atrás de uma árvore. Ela nos olha com uma mistura de desconfiança e alívio. Seus pés estão descalços e seu vestido que outrora foi branco está rasgado e imundo, ela parece pálida e com fome.

Bliss apoia as mão nos joelhos. - Olá querida! Não tenha medo, nós viemos ajudar você. Sabia que tem um monte de gente à sua procura? Chegue mais perto eu não mordo.

– Muito. - Eu murmuro e Bliss me lança um olhar afiado.

A garotinha sai detrás da árvore, devia ter em torno de dez anos e seus cabelos desciam até sua cintura.

Bliss lhe estende a mão. - Eu sou Bliss, esses são Mason, Ian , Cassian e Sophie meus amigos, qual é o seu nome?

– Holly. - A garotinha sussurra.

– É um belo nome. - Bliss sorri. - Porque você está aqui sozinha?

Por um momento ache que Holly não iria responder, mas logo depois ouço ela dizer com sua voz rouca.

– Minha mãe vei comigo aqui, nó sempre ficamos nessa cabana, mas ela foi buscar lenha e não voltou.

– Por favor, não me diga que você sobreviveu comendo frutinhas que a Mama trazia para você. - Falo e Mason se vinga de mim me dando um tapa na nuca como eu havia feito com ele.

Ian revira os olhos e tanto Cassian quanto Holly parecem não entender minha piada. Seus sem cultura!

– E-eu não sei o que acontece. Eu passo o dia comendo frutas que minha mãe me ensinou a pegar. - Diz Holly. - Mas à noite é como se não fosse eu mesma, eu não sei se eu durmo e sonho, mas eu tenho a impressão de voar.

Todos trocamos olhares preocupados. Se o que eu deduzi estiver correto estamos encrencados, a garota deve ter se manifestado na ausência da mãe por necessidade de sobreviver, mas se ela voava à noite as pessoas poderiam tê-la enxergado e não houve nenhum relato de caso semelhante.

A não ser que...

– Holly seu cabelo sempre foi dessa cor. - Pergunto.

Cassian parece entender meu raciocínio e cochicha algo para Ian e Masn, provavelmente explicando onde quero chegar.

Holly olha para seu cabelo que está caindo por cima de seu ombro. - Não, eu não sei o que houve meu cabelo sempre foi preto, mas há cinco dias eu acordei e meu cabelo estava dessa cor.

Assinto. - E não foi exatamente quando seu sonho de estar voando começou?

Ela parece surpresa. - Foi sim, como você sabe?

Suspiro. - Presisamos te contar umas coisas.

– Então vocês são dragões? - Pergunta Holly pelo que eu acho ser a sexta vez.

– Não exatamente, nós somos descendentes de dragões ou como chamamos: drakis. - Cassian explica de novo pacientemente.

Parece que Cassian ganhou uma nova admiradora, a pequena Holly fez questão de se sentar ao seu lado na van e não desgrudou dele enquanto nós explicávamos para ela sobre o que somos. Ela estã deitada com a cabeça no colo de Cassian enquanto esse brinca com algumas mechas de seus cabelos.

A cena é bizarra para mim.

A viagem é longa e ela chorou por umas três horas depois que lhe contamos sobre sua mãe. Logo mais lhe explicamos sobres os drakis, mas parece que ela ainda está digerindo a história direito.

Se es não estiver enganada Holly é um draki Shader por isso não houve relatos de sua aparição, pois um draki Shader consegue apagar as memórias dos humanos e usar uma névoa para disfarçar a presença de drakis.

Eu volto a me concentrar no meu jogo e após uns quinze minutos vejo Holly escorada nas costas de seu banco olhando para mim.

– Que tipo de draki você é? - Ela pergunta.

– Necromancer. - Falo sem tirar os olhos do meu Nintendo DS.

– Uau! - Ela diz. - Você consegue levantar os mortos? Tipo como zumbis?

Um sorriso se forma em meu rosto quando eu ouço sua pegunta, lembranças vêm à minha mente e uma sensação de nostalgia me toma.

Lembro quando eu descobri que eu realmente podia fazer isso. Eu dava uma risada maléfica e dizia que iria levantar meu próprio exército zumbi para dominar o mundo, Cassian estava junto, na verdade foi por insistência dele que eu tentei levantar os mortos. Ele não ficou nem um pouco apavorado ou com nojo, na verdade ele estava com a mesma expressão de admiração que Holly estampava em seu rosto.

– Eu não posso mais fazer isso. - Digo antes que ela peça para eu lhe mostrar.

Ela faz um beicinho. - Porque não?

Vejo que todos no carro estão com uma cara um pouco triste. Mason esta dirigindo e Ian está ao seu lado e ambos nos olham pelo espelho retrovisor. Bliss começa a mexer em seu telefone para disfarçar o olhar de pena, somente Cassian parece tão curioso quanto a pequenina.

Suspiro. - Eu não posso fazer isso porque meu draki está morto.