"Atenção passageiros, teremos que fazer uma pausa por alguns minutos, peço que perdoem pela demora" – Uma voz anunciou em todo o trem.
-Estranho. –Dégel arqueou a sobrancelha ao ouvir o comunicado.
-O que é estranho? –Perguntou Jane.
-O trem parar sem motivo algum. –Respondeu o homem. – Me pergunto o que deve ter acontecido.
-... Não é melhor sair e checar?
- Não há necessidade. – Deu de ombros. –Além do mais, se eu sair e o trem for embora vai levar um bom tempo até alcançar minha morada.
-Huh...
-Algum problema?
-Você sabe onde é a sua parada, mas eu não sei a minha.
-Bom, se o que a senhorita me disse for verdade e a carta não apresentar o nome ou remetente isso significa que alguém virá buscá-la.
-... Entendo.
-Você parece estranhamente calma. –Dégel sorriu de forma interessada.
-Não entro em pânico com facilidade, independente da situação.
-Uma pessoa que consegue pensar com calma durante as dificuldades. – Ele murmurou com um sinal de aprovação. – Que espécie de situação quebraria essa pose?
- Nada.
-Hum... Nem mesmo se algo acontecer a alguém próximo a você?
-Meus pais trabalham no exterior e minha tia trabalha em uma casa noturna. – Disse Jane com certo tom de tédio e aborrecimento. –Eu não tenho laços fortes com ninguém.
-Hum... Talvez seja esse o motivo de você estar aqui.
- O que você quer dizer com isso?
Dégel ficou em silêncio, parecendo pensativo.
-Oi, poderia me responder?
-Você precisa criar um laço com alguém. –Ele respondeu após um longo silêncio. – Do contrário estará perdida.
-Mas o que...
- Você recebeu alguma flor?
-Alguma flor? –Jane repetiu, piscando por alguns segundos até se lembrar da carta e do buque de flores que recebera. –Sim, recebi.
-...Você está com ela?
-...Não, eu esqueci em casa.
-Isso é bom. –Ele suspirou aliviado.
- O que você quer dizer com isso? –Perguntou ela, mas antes que o outro pudesse responder ambos ouviram a porta do vagão se abrir e um homem alto, de cabelos negros e de trança longa entrar.
-Olá Dégel, como vai você? –Cumprimentou o recém- chegado tirando a cartola.
-Muito bem, e o senhor? –Cumprimentou de volta.
-Excelente. –O recém-chegado sorriu. – E essa dever ser a senhorita Jane Brandford não é?
-Como...
-Eu a convidei. –Respondeu o homem misterioso. – Espero que goste do tempo que passará aqui.
-...
-Bom... –O home pigarreou, colocando o chapéu de volta. –Vocês não viram uma garota de cabelos azul acinzentado passando por aqui não é?
-Não senhor.
-Não.
-Ótimo. –Ele sorriu. –Quanto menos pessoas souberem dela melhor.
-Quem é essa pessoa? –Perguntou Dégel.
-Alguém especial. –Respondeu o homem com um tom misterioso. - ...Eu preciso falar com você em particular após eu receber todos os convidados.
-Há outras pessoas como eu nesse trem? –Perguntou Jane.
-Sim, elas estão em outros vagões. –Confirmou o estranho. – Agora, se me derem licença... Eu preciso ir.
-O senhor não está aqui para nos receber? –Jane arqueou a sobrancelha, cruzando os braços.
-No momento... Não, sinto muito. –Se desculpou o estranho um pouco sem jeito. –Eu irei falar com vocês mais tarde, serão recebidos pelos meus irmãos.
Ele abriu a porta para o próximo vagão, mas hesitou por um instante e se virou.
-Por favor, não conte nada aos meus irmãos. –Ele encarou a ambos com um olhar penetrante. –Eles não devem saber sobre a garota, pelo menos, não antes de eu falar com ela.
-00-
-... Você aprende rápido. –Disse Dohko em sinal de aprovação.
-...Não há nenhum livro com figuras?
-Figuras? Nessa idade?- Ele respondeu em tom de brincadeira, mas ficou quieto quando Aurora apenas o olhou direto nos olhos com uma expressão claramente irritada. –Ok, eu acho que tenho um livro que trouxe quando fui visitar a ala hospitalar.
-... Você roubou um livro do hospital?
-Não! –Ele negou retirando o livro da mala. –Eu o achei na velha biblioteca de casa, então decidi levar o livro para ler para as crianças, como voluntário do dia sabe?
-Há várias figuras bonitas. – Ela murmurou, folheando o livro. –Esse livro tem uma capa bonita.
-Hum... Você não parece muito animada.
-Eu estou. – Aurora respondeu sem desgrudar os olhos das belas gravuras. – O que está escrito?Não conheço essas letras, são diferentes das que você me mostrou.
-São as mesmas letras. –Ele riu, achando graça da curiosidade quase infantil da garota. –Apenas com mais firulas.
-... Eu ainda não consigo entender.
-Certo, eu vou ler para você. – Ele deu uma risada, colocando na primeira página. – "O Solitário Príncipe"
-... É um livro bem deprimente para se ler para uma criança. – Aurora comentou com uma sobrancelha arqueada.
-Ah, mas as figuras e a história são bonitas. – Dohko sorriu, passando para a página seguinte, uma gravura de uma criança sentada em um lugar escuro, lágrimas cristalinas saindo de seus olhos.
"Era uma vez um pequeno príncipe sem reino, uma criança dotada de inocência e que, apesar de não haver culpa, foi exilada."
A próxima página tinha belas gravuras coloridas de florestas e belos jardins.
"A criança se encontrou em um fantástico e misterioso lugar, um lugar sem ninguém e também o local onde seria o seu futuro reino".
A página agora tinha desenhos do pequeno príncipe observando as pessoas de um lado enquanto que atrás dele havia inúmeras imagens de construções fantásticas.
"O príncipe observou várias pessoas diferentes e também o seu costume. Aprendendo com o que via ele construiu o seu reino, um lugar de beleza e felicidade".
-... Ele ainda está chorando. – Aurora comentou, apontando para a figura na nova página, a criança em seu trono, parecendo solitária.
- Sim. –Dohko concordou. –O príncipe nasceu com o desejo de amar, e é por isso que aquele maravilhoso mundo não o satisfazia. Ele precisava de alguém com quem compartilhar essa maravilha.
"Um dia, duas crianças chegaram."
"O príncipe, vendo suas preces serem atendidas, os recebeu de braços abertos, cuidando dessas crianças que compartilhavam a sua sina".
"Finalmente encontrando alguém para amar e ser amado, o príncipe sorriu. Agora sabia o que era a felicidade".
-... Essa história parece estar pela metade.
-Jura? Eu tive a sensação que ela termina por aí. –Dohko comentou, olhando a garota com interesse enquanto ela olhava para as gravuras com um olhar irrequieto. – Posso perguntar o porquê de você achar isso?
-... A história tem um título muito triste para ter um final feliz.
-00-
-Bom, parece que ele disse a verdade. –Erika murmurou, entrando no quarto que tinha o seu nome.
Ela se sentou em uma cama que tinha ali, sentando no confortável colchão, enquanto mirava o teto de forma pensativa.
Kárdia mentia.
Ela não era burra, apesar de não querer nada com os assuntos das gangues ela ao menos sabia o essencial para não ser pega desprevenida depois do... Incidente, anos atrás.
E o chefe da outra gangue só tinha um filho.
"Qual será a intenção dele?"- Perguntou-se, incomodada. – "E como ele me conhece?".
Era um mistério, assim como a misteriosa carta e o trem fantástico.
'Liberdade'
'Nunca fomos próximos, mas sou a única pessoa que te conhece'
Ela se lembrou das palavras que ele lhe dissera, o que claramente indicava que eles haviam se encontrado ao menos uma vez.
-Mas se eu tivesse o encontrado eu teria se lembrado de ter me encontrado com uma pessoa tão irritante quanto ele. – Ela fechou os olhos, aborrecida, decidindo dormir no final.
As complicações estavam dando mais dor de cabeça do que valia a pena.
-00-
Alice se levantou para esticar as pernas.
Fazia um bom tempo que estava dentro do trem, e também fazia um bom tempo desde que a garota de cabelos azul acinzentado (Anini se não se enganava) tinha saído do vagão.
-Fora ter entrado em um estranho trem e ter encontrado uma pessoa não aconteceu mais nada fora do comum. – Alice suspirou, sentindo-se levemente desapontada.
Afinal, ela esperava que acontecesse algo incrível a lá Harry Potter.
Ela estava começando a cogitar se deveria ir atrás da estranha garota e verificar o que estava acontecendo, mas antes que tivesse a coragem de abrir a porta para o próximo vagão à porta de fora tinha sido aberto bruscamente, um desconhecido entrando e se sentando em um dos bancos, parecendo não notá-la.
Ela não teve como não encarar o rapaz, que estava de olhos fechados.
Afinal, a sua beleza delicada, porém claramente masculina, era algo surreal.
-Há algum problema? –Ele perguntou, abrindo os olhos e encarando-a cuidadosamente, enquanto ela apenas meneava a cabeça negativamente, totalmente muda.
-Ei! Eu achei mais alguém e... –Entrou Anini, junto com uma nova garota em seu encalço. –Hum? Tem outra pessoa aqui?
O estranho apenas meneou a cabeça, fechando novamente os seus olhos.
-Hum... –Anini olhou de um lado para o outro sem saber muito que dizer. – E-Ei, eu descobri que dá para usar essas cartas para abrir um quarto com o nosso nome!
-Entendo.
-Er...
-Então você são as convidadas. –Falou o rapaz finalmente se pronunciando. – Por acaso você tem as flores que foram mandadas?
-Hum? Ah sim, estão aqui comigo. –Disse Anini pegando o buque que estava em um vaso acoplado a sua mochila.
-Sim! Está tudo aqui! –Falou Marie mostrando o buque dela.
-... E você? –Perguntou o estranho encarando Alice, que se remexia inquieta.
-Eu... Deixei em casa.
O rapaz pareceu franzir o cenho, claramente desgostoso com a resposta.
-Após o cuidado que eu tive de escolher as melhores flores... –Ele resmungou baixinho.
-Você é a pessoa responsável pelas cartas? –Perguntou Anini, que conseguiu ouvi-lo.
-Não. –Ele negou. –Apenas cuido das flores.
-Ah... Entendo...
-...
-Er... O que foi? –Perguntou Anini quando o estranho começou a encará-la.
-Você se parece muito.
-Hum?
-Com a garota nas fotos da casa "dele".
-Dele quem? –Perguntou Anini começando a se sentir confusa.
-Ele estaria falando de mim. –Disse uma nova voz masculina, fechando a porta atrás de si.
Todos se viraram para encarar o recém-chegado, um homem de cabelos negros, presos e uma longa e fina trança.
-Olá, senhoritas, fico feliz e vê-las aqui.
-... Uma delas não trouxe o buque.
-Sem problemas. –O homem sorriu de forma compreensiva. –Eu não esperava que elas ficassem muito tempo no nosso mundo, apenas por alguns dias.
-...Entendo.
- Peço desculpas. –O home de cabelos negros dirigiu um olhar de pena ao outro. -...Por você ter escolhido as melhores flores e serem desperdiçadas dessa forma...
-Não vejo problemas se for o senhor a pedir o favor.
- Muito obrigado pela compreensão. – O homem agradeceu. –Agora quanto às senhoritas...
-Você seria a pessoa que nos enviou a carta. –Constatou Anini.
-Exato. – O homem lhe dirigiu um olhar gentil.
-Por que?
-Apenas para ficarem alguns dias em meu mundo. –Ele explicou. –Embora no seu caso... Anini, eu gostaria que você ficasse por um tempo mais longo.
-Hum? Por que?
-... Venha comigo, eu lhe explicarei no caminho. –O homem ofereceu, estendendo a mão na direção dela.
-Mas... –Ela olhou com um pouco de relutância para as outras garotas no vagão.
-Há algum problema? –Perguntou ele ao notar a sua hesitação.
-Eu disse que ajudaria Marie a procurar pelo amigo dela, Lucca, e a outra... Eu disse que ajudaria ela caso ela precisasse.
-Oh, eu vejo. –Disse ele de forma compreensiva. –Bom, se esse Lucca estiver em meus domínios eu vou pedir para que procurem por ele, e quanto a sua outra amiga, a senhorita Alice Wood, eu posso assegurá-la que estará em boas mãos.
-Er...
-Albafica?
-Sim?
-Poderia ser acompanhante da senhorita Alice durante a estadia dela aqui?
-... Por que eu? –Perguntou rapaz.
-Por que você é uma das pessoas em que mais confio. –Respondeu o outro. –Além disso, o caso da senhorita Alice é... Um tanto quanto especial.
-Certo, farei isso.
-Muito obrigado meu amigo. – O homem de longa trança sorriu, olhando para Anini de forma expectante. –Há algum outro desejo que possa atender?
-Não, está tudo bem. –Ela negou.
-Então... –Ele pareceu hesitar, parecendo claramente ansioso. –Poderia me acompanhar? Eu realmente preciso falar com você em particular antes de eu receber a todos oficialmente.
-Ok. –Ela concordou, sentindo que era algo realmente importante.
-Muitíssimo obrigado. –Ele agradeceu, aliviado. –Agora, quanto a vocês, eu gostaria de pedir para que não dissessem nada sobre Anini. Eu preciso apresentá-la aos meus irmãos e irmãs primeiro por motivos especiais.
-Ok! –Concordou Marie.
-...Certo. – Disse Alice, sem entender, mas sentindo que era melhor não contrariar.
-Albafica?
-Não direi nada.
-Vamos Anini? –O homem estendeu a mão novamente, sendo que dessa vez ela optou por segurá-la enquanto desembarcavam da estação, vendo a sua frente uma carruagem branca.
-... Quem é você?
-Eu não posso falar abertamente nesse lugar, espere até chegarmos a um local mais reservado.
-... Você poderia ao menos me dizer o seu nome? –Ela perguntou.
-... Regno.
-Hum?
-O meu nome é Regno. –Ele repetiu após uma longa pausa. – Espero que por hora seja o suficiente, eu explicarei os detalhes mais tarde.
-000-
Olá gente boa e desculpa pela demora, tive que repensar um monte de coisas na minha história que é super complicada hahaha.
Er... Eu queria ter escrito uma cena mais longa com a Alice, mas não deu. *apanha*
Eu espero SINCERAMENTE que ninguém pense que a Anini vai fazer par com o misterioso Regno por motivos que serão revelados no próximo capítulo, então até lá pessoal!
...
Ok, primeiro vou responder as reviews:
Juler Heartilly: É, os dois são calmos e até que podem se entender, mas assim como o original o Dégel pode até tentar ser calmo, mas não consegue quando o assunto é pessoal XD.
Ah sim, ela já está mudando, a ausência do Lucca parece afetá-la mais do que ela imagina.
Mache-san: Sem problemas, sei como é ^^
Muitíssimo obrigado pelo elogio, o Dohko eu meio que estou usando uma versão de um personagem favorito meu, tomara que não esteja OOC demais.
Tarada XD
Nope, sem poderes, essa fic é bem séria, e logo você vai saber parte do mistério sobre a Anini e porque Regno parece tão interessado(falando nisso eu tenho que desenhá-lo logo hahaha)
