Ele começou a correr.
Não por que fosse perigoso, apesar de estar em um local desconhecido, e no meio da floresta, mas sim por estar preocupado com sua amiga.
-Ah! Finalmente! Uma saída! –Lucca suspirou aliviado.
Quando ele pisou fora da floresta ele se assustou ao sentir seu pé afundar, então deu um passo para trás, caindo no chão enquanto olhava o cenário a sua frente com os olhos arregalados.
Além da extremidade da floresta havia água para todo o lugar, além de um conjunto de pequenas ilhas de areia dourada e fina com algumas casas e torres flutuando no céu, sendo possível acessá-las pela estranha e longa escada em espiral.
-Que... Que lugar é esse? –Repetiu a si mesmo, antes de olhar para perto da água, onde avistou vários peixes coloridos. –Que peixes diferentes, brilhantes como jóias...
A água não parecia ser muito funda.
"Espero que não seja, afinal, eu não sei nadar"
Ele segurou na borda da ilha, mergulhando o seu corpo até um pouco acima da cintura antes que seu pé pudesse tocar o solo.
-Bom... Pelo menos não vou me afogar. –Suspirou, aliviado. –Agora é melhor eu andar.
Mas para onde?
É verdade, aquele lugar era imenso e ele nem sabia se sua amiga estava nesse mundo.
-Preciso de uma diretriz. –Ele ponderou olhando de uma lado para o outro, tentando avistar alguma placa quando sentiu algo lhe cutucar. –Hum?
Ele olhou para baixo e viu os peixes coloridos empurrarem a sua costa, antes de direcionar os seus olhos para cima como se estivessem encarando-o.
-Ah... Vocês sabem para onde tenho que ir? –Perguntou ele com um leve rubor, pensando em como ele parecia idiota em conversar com peixes.
Mais peixes chegaram e começaram a rodeá-lo, fazendo com que fosse impossível para que ele se movesse(o que estava começando a deixá-lo apreensivo), Lucca sentiu quando alguns peixes nadaram para perto de seus pés aos montes, como se quisessem levantá-lo.
-Ei, o que você estão... WOW! –Ele deu um grito quando o cardume embaixo dele explodiu para cima, fazendo com que ele caísse em cima da massa dos peixes que começaram a nadar em alta velocidade. -D-Devagar! Onde vocês estão me levando?!
-00-
A carruagem parou.
Regno fez um sinal para que ela esperasse enquanto colocava os pés para fora e olhava de um lado para o outro com certa relutância.
"Por que ele está agindo com tanta cautela?" –Anini se perguntou, remexendo-se inquieta enquanto o homem lhe estendia uma capa branca.
-Vista isso. –Ele disse. – Mantenha a cabeça baixa e não fale com ninguém que se aproxime de nós.
Ela concordou, totalmente muda, olhando para o tecido com curiosidade já que ela não se lembrava de tê-lo visto antes.
-Peço desculpas por isso. – Regno se desculpou. –Mais tarde você poderá explorar esse mundo.
Ela simplesmente meneou a cabeça, concordando.
Ele segurou sua mão para que ela não se perdesse e ela apertou de volta, sentindo-se um pouco confortada.
Era a primeira vez que alguém mostrava afeto a ela.
Não que... Seu "pai" no mundo real fosse ruim ou algo do gênero, ele sempre cuidava dela e nunca dava bronca nela(o mais próximo disso teria sido quando demorou a atender a campainha).
Porém o seu olhar era vago. Vez ou outra ela o pegava olhando-a com a testa franzida, como se estivesse desapontado ou frustrado.
"Eu sou tão indesejada assim?" – Era um pensamento que sempre cruzava a sua mente.
-... Chegamos.
-Hum?
Regno colocou ficou um trinco no tronco de uma árvore colossal, abrindo a porta de madeira para que ambos entrassem.
O lugar era aconchegante. Tinha um tapete de cores vibrantes no chão, assim como pinturas infantis emolduradas na parede.
Havia também uma lareira com um fogo crepitante, e Anini tentava entender como é que o fogo não queimava a árvore.
-Incrível não? –Perguntou Regno com um sorriso, como se tivesse adivinhado o seu pensamento.
-Hum?
-Uma lareira dentro de uma árvore.
-Como isso é possível?
-Por que nesse mundo não existe lógica. –Ele respondeu com uma leve risada, estalando os dedos e fazendo com que duas poltronas confortáveis andassem até eles, sentando-se logo em seguida. -... Na verdade não é necessário eu estalar os dedos, mas fazer isso á uma sensação de magia não é?
-Hum...
-Desculpe, eu deveria ir logo ao ponto. –O homem de cabelos negros se desculpou, sinalizando para que ela se sentasse. –Bom... Acho mais fácil começar por essa foto.
Ele estalou os dedos novamente e um porta-retratos voou até as suas mãos.
Com cuidado, ele entregou a Anini o retrato.
Tinha 11 pessoas na foto, uma delas sendo o homem na sua frente.
"Será que os outros são os irmãos que ele mencionou?" –Ele pensou olhando com cuidado para cada face até seus olhos pararem em uma figura de cabelos azul acinzentados e olhos ametista.
-Essa... Sou eu?!
-00-
-Quem é você?
A voz da mulher a sua frente não se registrou em sua mente por um bom tempo já que estava atordoado demais com a viagem bizarra que os peixes lhe proporcionaram.
Aliás, ainda estava sentado em cima deles.
A mulher de cabelos marrom avermelhado o olhou com curiosidade, estranhando o fato de ver um rapaz trazido pelos peixes que normalmente só faziam isso as crianças perdidas.
Os olhos verdes do rapaz piscaram, e ela não pode evitar, mas olhar.
"Que verde tão incomum" – Pensou, intrigada.
-Er... Quem é voc... Ah! –Perguntou Lucca quando seu cérebro finalmente começou a processar e ele tentou se levantar, com cuidado, quase afundando na água, estranhamente funda, mas tendo o seu braço segurado pela mulher, que o puxou até a margem.
-Erin. – Respondeu a mulher, ajudando-o a ficar de pé, na margem. –E você é...?
-Lucca.
-Lucca. –Ele repetiu o nome. –Um nome bem peculiar.
-Ah... Bem, eu sei que soa meio feminino, mas... –Ele coçou a cabeça sem jeito.
-Não vejo problema com o seu nome. –Erin respondeu seriamente. – É agradável de ouvir, além do mais, meu irmão mais velho também usa um nome um tanto... Feminino?
-Ah, verdade?
-Sim.
Lucca olhou a mulher a sua frente com certa estranheza.
Era uma pessoa peculiar, ela agia de forma séria e normal, mas o seu raciocínio era bem esquisito.
-Por que os peixes te "fisgaram"? –Ela perguntou.
-...Não faço a menor ideia. – Ele respondeu. –Eu só lembro que estava andando com minha amiga quando ela sumiu de repente, então eu abri a porta que dava para esse lado e parei em uma floresta e caí na água.
-Porta? –Os olhos dela arregalaram, alarmados. –Que porta?
-Uma... Porta entre esse mundo e o outro?
-...Você poderia me mostrar onde é essa porta? –Perguntou a mulher.
-Er... Os seus peixes me levaram por tantos caminhos que não sei se saberia voltar.
-Entendo. –Ela meneou a cabeça. –Pedirei para que eles me levem até lá depois.
-Hum... –Ele coçou a cabeça, a voz hesitante.
-Sim? –Erin perguntou, notando que ele queria falar algo.
-Você... Poderia me ajudar a achar a minha amiga? –Ele pigarreou. –Eu não conheço nada desse mundo e suspeito que ela tenha parado aqui.
-... Você veio aqui em um trem?
-Não. –Ele piscou com uma expressão confusa até se lembrar da carta que Marie recebera. –Ah! Mas eu acho que ela recebeu! Eu me lembro de ela ter ganhado um buque e uma carta dizendo alguma coisa sobre um trem!
-Então sua amiga é uma das convidadas de meu irmão. –Erin arregalou os olhos de forma surpresa.
-E-Eh?!
-Bom, eu tenho que voltar e receber os convidados de meu irmão. –Disse a mulher dando de ombros, pegando um peixe cor rubi da água e jogando-o no ar.
Segundos depois um enorme peixe vermelho caiu de volta na água, jogando água em ambos e quase matando Lucca de susto.
-Venha. –Ele disse puxando a mão dele. –Eu vou te levar até lá.
-Tá mais como... –Ele iria perguntar, mas fechando a boca quando a mulher montou no peixe, enfiando rédeas na boca do mesmo. -... Ok.
Anos de insanidade vivendo ao lado de Marie fez com que pudesse aceitar qualquer coisa bizarra a sua frente.
-00-
-Não, essa não é você. –Disse Regno colocando a mão em seu ombro, fazendo com que ela olhasse para ele. – Essa é... A sua mãe.
-Minha o QUE? –Ela engasgou de olhos arregalados.
-Sua mãe. –Ele repetiu. -... Não é de se surpreender que você tenha pensado que era você, vocês duas são idênticas.
-Hum... –Ela voltou o olhar para a foto, percebendo um rapa de cabelos de mesmo tom, porém de olhos azuis escuros, com pontos luminosos, parecendo até uma noite estrelada. –Ele é muito parecido... Quem é esse?
-Esse é o irmão gêmeo dela, seu tio de puro sangue.
-De puro sangue?
- Sim. –Ele meneou a cabeça. – Com exceção dele o resto de nós somos meio irmãos e irmãs dela.
-Ah...
Ela não sabia o que dizer.
De todas as coisas que poderia esperar daquele mundo, descobrir que tinha uma mãe desse mundo e também mais 10 tios e tias (sendo que estranhamente, Regno parecia ser muito novo para ser seu tio) era muita informação para a sua cabeça.
...
Espere um momento.
Se sua mãe era desse mundo, então será que...
-Quem é o meu pai? –Ela perguntou.
-Seu pai se chama Klaus, você viveu a vida inteira com ele. –Respondeu Regno. – Embora... Ele não tenha lembrança disso.
-Então ele era realmente meu pai... –Anini piscou.
Por que estava triste? Deveria sentir-se feliz por não ser órfã não é?
-... Onde está a minha mãe? –Perguntou ela, dirigindo o olhar para Regno, percebendo com certo aperto no coração como a expressão dele se tornava sombria. – O que...
-Ela não está mais nesse mundo. –Ele respondeu lentamente, fechando os olhos como se o sofrimento o abatesse. – Nem em seu mundo.
-Então ela...
-Sim, no dia em que você nasceu ela morreu.
-Ah... Eu vejo. –Ela ficou em silêncio.
Havia mais uma pergunta em sua mente, perturbando-a, mas decidiu esperar até ambos se recomporem.
-... Gostaria de fazer um pedido a você. – Disse Regno subitamente antes que ela pudesse fazer a pergunta.
-O que seria?
- Meus outros irmãos e irmãs não sabem que sua mãe morreu. –Disse ele em um tom desconfortável. –Para eles ela apenas desapareceu, assim como nós, os 3 mais velhos, disseram.
-...
Ela já sabia aonde ele queria chegar.
-Você... Poderia fingir ser ela? A sua mãe?
-Eu...
-Sei que não é um pedido fácil e também muito doloroso. –Falou ele ao ver a hesitação da garota. – Mas, por favor, peço que compreenda que a sua mãe é uma pessoa muito importante para eles.
-...
-... Nós nascemos rejeitados por nossa mãe. –Continuou. –Para ela, nós não éramos mais que um incômodo e por isso eu criei a todos após sermos abandonados.
Ele respirou fundo.
-A sua mãe é a segunda filha e também a mulher mais velha, a figura de uma mãe para todos nós, mesmo os que não sabem o que significa isso.
-... Qual era o nome de minha mãe? –Perguntou, baixando o olhar.
Regno hesitou.
-O nome dela... –Ele titubeou. –Era Anini.
-...
-...
Um grande silêncio se instaurou na sala.
-Creio que... Seja muita coisa para você absorver. –Regno pigarreou, abrindo a porta a saída. –Eu... Vou receber os outros convidados, e deixar você pensar em paz está bem?
-...
-... Eu sinto muito. –Regno disse com pesar antes de encerrar a porta atrás de si.
Pingos quentes caíram em suas mãos.
Ela finalmente entendeu.
Quando o seu pai a olhava com desapontamento ou frustração não era por que a detestava ou pensava que era um incômodo.
Era por que tentava se lembrar de sua mãe.
"Vá a esse mundo, quem sabe você descubra algo sobre você"
Teve vontade de rir.
Não havia nada para se descobrir sobre ela.
Na verdade, não havia nada que indicasse que ela existisse.
Ela olhou novamente para o retrato com certa amargura.
Eram idênticas. Não havia nada que pudessem distingui-las.
-Eu não existo para o mundo... Eu sou ninguém.
-000-
Gente, desculpa por fazer um capítulo só com os personagens originais.*apanha*
Eu tinha que meter o Lucca em algum lugar para mostrar como ele iria se encontrar com o resto, e eu até quis colocar as meninas e os outros chegando ao outro mundo, mas senti que a estrutura ficaria ruim.
Próximo capítulo é só com os seus personagens!
Ah, e não se preocupem, embora o problema da Anini(filha) e Anini(mãe) tenha muito haver com o enredo principal da história elas não vão atrapalhar a aparição das suas personagens.
Agora, quem quer adivinhar quem vai ser o par da Rosemary? A ficha que falta? :D
Heheh, agora vamos aos reviews!
Jules Heartilly- Isso mesmo! Casais podem ser melhores amigos certo? Cara, por que ciúme do Kárdia? Eu não sei nem eles se conhecem nessa história O_o
AHAHAAH to rindo muito com a parte "eles vão ter muito o que conversar, só que não"
É, o Dohko é super zen e gente fina, gosto de escrever personagens assim, diminuem o clima de tensão mórbida das minhas fics.
Bom, o Regno tem boas intenções e só que o melhor para a família, mas ele pisou na bola nesse capítulo.
Desculpa por estar tudo tranqüilo demais, mas você sabe que minhas histórias são dramáticas não é? É que ainda está no começo!
Lune Kuruta- Sem problema nenhum, embora eu nem esteja atualizando na velocidade da luz como antes*gota*
Acho hilário sacanear o Shion, não sei porque hehe, sim a Marie é extremamente sociável.
Bom, como você pode ver nesse capítulo... O problema da Anini é exatamente o oposto, ela não tem nada de especial ou que possa identificá-la como uma entidade diferente da mãe(e não, ela não é a reencarnação da mãe)
Provavelmente no próximo capítulo o Regno vai explicar a propriedade das flores que ele mandou.
Bom, creio que ao menos duas perguntas suas eu respondi, em parte, já que tem muito mais mistérios a cerca de Regno e da sua enorme família.
Não é exatamente algo do calibre da Anini, o problema da Alice é o mesmo das outras, o caso dela é mais sério porque... Bem, por que ela é bem mais anti-social que as outras XD, mas a gravidade em si só vai ficar aparente lá para frente.
