-Olá mãe, como está? –Perguntou Rosemary abrindo a porta delicadamente.

-Estou muito bem minha filha. –Respondeu a senhora, que apesar de estar visivelmente cansada, sorriu. –E como você está se saindo?

-Eu tenho tarefas a fazer. –Respondeu. –Nada muito complicado.

-Quem bom. –Foi a resposta. –Se precisar de alguma ajuda eu posso ajuda-la está bem?

-Sim.

-... Soube que as freiras pediram um favor a você. –A mãe falou de supetão.

-É.

-Servir de guia para a pessoa que doou parte de sua fortuna a igreja e a escola, não é?

-Mãe, elas não tinham ninguém para recebe-lo naquele momento e eu me ofereci. –Rosemary esclareceu. –Se eu não tivesse insistido elas com certeza não teriam pedido a mim.

-Você não deveria se esforçar demais. –Falou a mais velha com tom de preocupação, enquanto segurava a mão da filha. – Se mover com a cadeira de rodas de um lado para o outro deve ser cansativo não é?

-Já estou acostumada. – Sorriu, tentando tranquilizar a mãe. – Além do mais, ele não tinha interesse de explorar o lugar, só pediu para que eu o guiasse até a biblioteca e ficou por lá, dizendo que tinha algo a pesquisar.

O rapaz era muito misterioso, não se sabia nada sobre seu verdadeiro nome, família ou passado.

Apesar de ter deixado claro que passaria o tempo inteiro na biblioteca Rosemary não pode deixar de pensar em fazer uma visita e checar se ele precisava de alguma coisa, podendo até oferecer algum lanche, já que cozinhava razoavelmente bem.

-Você está preparando um lanche? –Perguntou a mãe quando viu ela se dirigir a cozinha do pequeno dormitório.

-Sim, talvez ele esteja com fome.

-Como essa pessoa é?

-Misterioso.

-Oh? Misterioso de que forma? –Perguntou a senhora com interesse.

-De todas. –Respondeu Rosemary. –Não se sabe nada sobre ele, é um rapaz que fala coisas que não consigo entender e também tem um certo ar de mistério ao seu redor.

Após discutirem mais um pouco sobre o misterioso rapaz ambas mudaram o tópico para assuntos mais triviais enquanto Rosemary cozinhava o lanche e preparava a janta que serviria mais tarde a mãe, trocando uma risada ali e acolá, Rosemary sorria, ao ver que sua mãe parecia um pouco mais contente.

-Cof Cof.

-Mãe? –Disse Rosemary com leve preocupação. –A senhora está bem?

-S-Sim, é só uma tosse.

-... Não é melhor você tomar o seu remédio antes que piore?

-Não há necessidade de se preocupar, eu estou bem.

-Mãe...

-É melhor você ir. –Desconversou. –Afinal, é sua função servir como guia a essa pessoa não é? E não precisa se preocupar, a irmã Catherine disse que iria me visitar mais tarde.

-Huh... Está bem. – Concordou Rosemary de forma hesitante, pegando o lanche que preparara e colocando delicadamente, em um pote e saindo da sala.

Após o fechar da porta, a senhora fechou as mãos com força, tentando se conter, tossindo, ela abriu a janela de vidro para circular o ar, admirando o céu que, apesar de ser de tarde, possuía um tom escuro.

-Um forte temporal está por vir. –A mulher tossiu mais forte, pegando uma pequena caixa com algumas embalagens de plástico descartadas dentro. – Eu não posso dizer a minha filha que acabou os remédios ou ela vai tentar se arriscar a sair...

-00-

Jane estava aborrecida.

Quando chegara um rapaz de melenas castanhas, óculos finos e olhos verdes a cumprimentou, informando-a que Dégel estava em reunião com Regno e provavelmente demoraria para sair.

Ela não tinha descoberto nada de concreto ou que fizesse sentido sobre aquele mundo, e o fato de ter passado tanto tempo sem ter nenhuma informação era motivo de frustação para ela.

"Ugh, é melhor eu verificar os arredores enquanto ele não sai"

-Agora... Onde estão os guias? –Jane perguntou-se, olhando ao redor da biblioteca.

-Se você está procurando os meus irmãos. –Respondeu Mark. –Eles acabaram de sair para apostar uma corrida de avestruzes e disseram que voltavam depois.

-Como é? –Jane disse de forma incrédula.

-Aqueles dois são cheio de energia, vão demorar para voltar. –Continuou Mark. –É melhor você esperar.

-... Você não poderia responder algumas perguntas ou servir de guia? – Perguntou Jane enquanto ela observava o rapaz olhar atentamente para um livro com uma mão e escrever em uma folha com a outra sem sequer lhe dirigir um olhar. –Afinal, o seu irmão disse vocês poderiam servir de guia.

-Ele mencionou que qualquer um poderia ser seu guia desde que estejam livres correto?

-Sim.

-Então não conte comigo. –Respondeu Mark fechando o livro, jogando-o em uma pilha e pegando mais dois. – Eu NUNCA tenho tempo livre.

-Certo, então se não pode ser meu guia ao menos poderia responder algumas perguntas?

-Pergunte ao Dégel quando ele terminar. –Respondeu Mark franzindo o cenho enquanto atirava mais dois livros para a pilha e pegava quatro de uma vez. – O que eu tenho que fazer é mais importante.

-Ah, e o que é tão importante assim? –Perguntou Jane com sarcasmo, mas ao menos tempo tentando arrancar qualquer informação útil.

-Pistas de onde está o meu irmão.

-00-

Aurora estava confusa.

O que ele quis dizer com 10 palavras?

Ela estava vagando de um lado para o outro a procura de Dohko para perguntar o que ele quis dizer com isso, mas ao invés de encontra-lo com facilidade como esperava ela percebeu que ele não estava por perto.

Ela estranhou a ausência do outro. Ele não tinha saído do seu lado ou parado de falar desde que se encontraram no trem.

"Será que ele perdeu o interesse e foi embora?" –Ela ponderou, mas ao se lembrar da expressão dele ela sabia que não havia um traço de animosidade, era apenas a mesma face de sempre.

Então por que?

Começou a caminhar novamente entre as flores gigantes em busca do rapaz.

-00-

"Se você não criar ligação com ninguém do seu mundo você permanecerá aqui"

Alice engoliu em seco.

Ela estava sentada em um elegante balanço branco, enquanto Albafica cuidava das flores e checava o estado de outras.

Albafica havia levado até onde estavam os outros convidados, esperando enquanto ela tentava se aproximar, mas toda a vez que ela dava um passo hesitante para frente ela acabava fugindo no instante seguinte.

Após ambos chegarem à conclusão que era inútil, Albafica a levou até onde morava, uma pequena e simples casa, mas com um vasto e imenso jardim, não tendo a imponência ou o ar exótico e estranho do jardim de Regno, mas ainda assim sendo um belíssimo jardim.

-...Por que você ficou tão aborrecido por não termos trazido as flores? –Perguntou Alice finalmente, após um longo silêncio.

-Eu cuido de todas as flores dessa jardim e entreguei as melhores para serem enviadas. –Respondeu Albafica.

-...

-...

-Huh... –Ela começou olhando para o relógio em sua mão, vendo que perdera algumas horas e não fizera nenhum progresso.

-Sim?

-...Tem alguma biblioteca por aqui? –Perguntou, brincando com as mechas do cabelo.

-A única que temos você não quis ficar porque havia outras pessoas lá.

-...

-Não adianta você se acovardar e se esconder atrás de livros. –Ele disse, ainda mexendo na terra e sem olhar para ela. –O relógio vai continuar a andar.

-Não é tão fácil assim. – Ele murmurou de forma quase inaudível.

-É difícil. –Ele admitiu. –No entanto, fazer com que as pessoas saibam sobre você é fácil, basta apenas dizer sobre você.

Alice voltou a ficar em silêncio, Albafica apenas rolou os olhos, mas não pareceu irritado ou incomodado, de certa forma, havia algo em seu olhar que parecia dizer que compreendia a sua situação.

- Como você fez isso?

-Simples. –Respondeu Albafica pegando uma rosa e dando a Alice. –Você gosta de rosas?

-Huh? –Ela piscou os olhos, pegando a rosa e não entendendo a súbita mudança na conversa. – Er... Sim, acho que sim?

-Você disse algo sobre você. –Albafica limpou as mãos sujas de terra e tocou levemente na rosa. –Agora sei que você gosta de rosas.

Alice arregalou os olhos e olhou para a rosa como se fosse algo de outro mundo.

-... Criar laços com alguém não significa apenas dizer sobre você. –Albafica continuou. – É uma troca mútua.

-Em outras palavras, você também tem que saber algo sobre a pessoa para criar um vínculo.

-Exato.

-...

Alice abaixou o olhar e ficou encarando a rosa com certo interesse por um longo tempo, sentindo um pouco conflitada.

Ela lançou um olhar discreto para o rapaz antes de voltar o olhar para a direção oposta e abrir os lábios para perguntar:

- ...Você poderia dizer algo sobre você?

-Não há nada sobre mim que possa ser dito. –Ele respondeu. –Sei que era assim como você, eu vim do seu mundo.

-Então você também se sentia deslocado?

-Não exatamente. –Disse com um olhar distante. –Na verdade eu queria me aproximar das pessoas mas não podia.

-Oh...

-...Sinto muito. –Falou tocando levemente na tatuagem negra. – Não tenho muito o que dizer sobre mim, e o relógio também não vai parar mesmo que você converse comigo.

-Eu não tentei conversar com você por esse motivo! –Respondeu Alice rapidamente e também com uma voz mais alta do que normalmente conseguia falar, sua expressão cheia de espanto. –Eu... Sequer pensei no meu problema.

-... Pelo visto você é capaz de se importar com os outros. –Ele sorriu de forma quase imperceptível. – Com certeza você encontrará alguém com quem se identificar.

-00-

"Porque você é a única coisa que o conecta ao mundo real"

O que Dio quis dizer com isso? Ela nem fazia ideia de quem era Kárdia ou se lembrava de tê-lo encontrado.

Lembrado...

-Eu... Não me lembro de nada. –Erika repetiu a si mesma de forma pensativa.

Talvez ela já tenha o encontrado e não se lembrava? Mas ele tinha mencionado ser filho do chefe da gangue rival e ela tinha certeza absoluta que não havia outro.

...

-...É melhor eu perguntar pessoalmente.

-00-

-E agora... O que podemos fazer? – Marie perguntou a si mesma, encarando o belíssimo cenário ao seu redor, um lago imenso com várias aves e estátuas de várias pedras preciosas.

-Primeiro... Descansar. –Respondeu Shion quase sem fôlego e caindo no tapete de flores de forma exausta.

-Descansar? Mas nós não fizemos nada ainda! – Disse Marie se jogando do lado dele, na relva macia.

-Eu não tenho tanto pique como você.

-HAHAHAHA, você fala como um velho!

-Desculpa, mas eu não sou do tipo que faz muito exercício físico.

-Bom, podemos mudar isso agora!

-...Não faz bem para alguém que não tem o costume de praticar exercícios fazer um monte de uma só vez, isso pode até fazer mal para a saúde.

-Eu sou uma pessoa muuuuuito saudável e não paro quieta.

-Como eu disse antes, é perigoso para pessoas que não estão acostumadas.

-Você não sabe o que é ser divertido.

-Nunca disse que era. –Respondeu ele com um levantar de ombros.

- Geez~ Como você consegue ser tão sério e fechado quando é capaz de ver esse mundo? –Marie perguntou, levantando os braços para cima, maravilhada com o cenário. –Esse lugar é lindo!

-...

-Shion? –Marie o chamou ao perceber que o rapaz não retrucara.

-...Esse mundo não é tão maravilhoso como aparenta.

-Hum?

-No começo... Eu também achava esse lugar incrível. –Ele sussurrou baixinho, enquanto olhava para os lados de forma desconfiada.

-... É porque ninguém acreditava em você? –Perguntou Marie, a sua voz estranhamente quieta.

-...

-Sei como é. –Ela continuou. –Quer dizer... Você deve ter sido tratado de forma diferente, ninguém nunca me tratou mal, mas... Sabe, ninguém acreditava em mim ou me entendia.

Shion olhou para a garota após ela ficar em total silêncio, pegando um galho caído do chão ela começou a fazer alguns desenhos.

- Isso são... Todas as coisas que viu? –Perguntou Shion.

-Yep.

-...Você tem uma boa memória.

-Reconhece alguma coisa? –Marie perguntou com um sorriso.

-Acho que esse cavalo e essas... Coisas que lembram fadas.

-Legal! –Ela riu, desenhando com maior entusiasmo.

Ela desenhava e depois perguntava se ele reconhecia, Shion apenas olhava e concordava, surpreso de se lembrar de tantos detalhes, considerando como ele tentou muitas vezes suprir essas memórias.

-Está vendo? – Marie parou de rabiscar, abrindo um sorriso enorme. –É por isso que eu estava tão animada quando te conheci! Você me entende!

-É –Ele sussurrou, pegando o galho caído e arriscando a fazer um desenho deformado. –Talvez eu te entenda.

Talvez ele esteja aliviado, apesar de odiar relembrar sobre o bizarro mundo que fez com que ele fosse jogado no hospício e também o motivo de ser visto como estranho Shion não pode evitar mas sentir um peso ser levantado de seus ombros. Ele não conseguia reprimir nenhuma memória enquanto a garota a sua frente repetia as mesmas experiências pelas quais passara.

-... É inútil tentar fingir que isso não está acontecendo. –Ele resmungou de forma resignada.

-Ei~ Não vai fechar a cara novamente. –Marie começou a cutuca-lo com o dedo. –Não depois que você acabou de sorrir né?

-Eu sorri? –Shion repetiu de forma confusa.

-Sim! Por dois minutos. –Ela respondeu. –Honestamente, você não consegue ficar feliz por mais tempo não é?

-Não sei.

-Geez... Então vou ter que te ensinar não é? –Disse Marie puxando-o pelo braço.

-Ei, espera, eu não pedi is... –Shion tentou retrucar, mas foi arrastado novamente pela energética Marie.

-00-

-Ele... Ele ainda está na biblioteca. –Murmurou Rosemary, vendo o estranho de cabelos cinza azulado ainda sentado no chão com inúmeros livros ao seu redor.

-Não é esse... –O rapaz suspirou de forma frustrada enquanto colocava mais um livro na pilha ao seu lado, pegando o seu caderno e rabiscando algumas coisas nele. -... Ao menos consegui uma pista.

-Senhor... Er... Angel? –Rosemary chamou, se aproximando.

-Hum? Oh! – Sorriu Angel levemente, enquanto se levantava e fazia uma mesura. – Boa tarde senhorita Rosemary.

-Boa tarde. –Ela o cumprimentou. – O que o sen... Você está fazendo?

-Uma pesquisa. –Respondeu ele simplesmente enquanto pegava alguns livros e colocava em uma pilha organizada. –Não estou tendo tanta sorte em achar o que eu procuro.

-Se o senhor quiser eu posso ajudar a procurar.

Angel pareceu surpreso pela oferta, mas depois sua expressão assumiu uma forma gentil.

-Agradeço pela sua preocupação. –Respondeu o rapaz. – No entanto... Mesmo que eu explicasse você não entenderia... Não saberia o que procurar.

-Hum? O que você quer dizer com is...

-ROSEMARY! –Gritou uma garota vestida de freira.

-Cecília? – Rosemary se curvou levemente, preocupada. –O que aconteceu?

-A-A sua mãe...!

-O que aconteceu?! –Repetiu Rosemary, dessa vez com mais urgência e preocupação.

-Uma... Uma das irmãs foi visitar a sua mãe como sempre, para checar se ela estava bem. –Respondeu Cecília. –E quando ela chegou, a sua mãe estava caída no chão.

-Vocês deram o remédio para ela?

-Não. –Negou a outra. –Quando fomos procurar pelo remédio nós vimos o frasco vazio.

-Mãe... – Rosemary sussurrou de forma aflita ao se lembrar de como a sua mãe parecia estranha momentos atrás.

Ela gelou, colocando os seus dedos trêmulos na base da rosa de sua cadeira de rodas, a garota começou a correr o mais rápido que podia em direção a porta principal.

-Espere um momento Rosemary! –Falou a outra garota correndo o mais rápido que podia. –Lá fora...!

Rosemary ignorou os gritos e tentou abrir a porta. Uma fortíssima rajada de vento e gotículas de água batendo com força em seu corpo.

-Mas o que...?

-Está chovendo forte agora. –Cecília informou. –Tão forte que os ventos até derrubaram algumas árvores, é perigoso sair agora!

-Mas...!

-Eu sei que sua mãe não está bem, mas ela ficaria pior se soubesse que você está no meio dessa tempestade.

-Não tem nada a ser feito? –Perguntou Rosemary, o que fez com que a outra desviasse o olhar. –Por favor, diga que s-

-Há uma maneira. –Uma voz calma ecoou pelo corredor.

-Se... Senhor Angel! –

-Qual seria o nome desse remédio?

-Eh?

-Eu vou buscá-lo. –Clarificou.

-S-Senhor é melhor você não ir, está um temporal lá fora! –Replicou Cecília.

-Não tem problema. –Respondeu Angel com grande calma, chegando a abrir um sorriso. –Eu vou ficar bem.

-Mas... –Hesitou Rosemary.

-Não se preocupem. –Insistiu Angel olhando-a direto nos olhos, um brilho misterioso em seus orbes azuis escuros.

Havia algo estranhamente tranquilizador sobre ele, apesar de ela saber que era impossível enfrentar a tempestade do lado de fora o rapaz parecia aparentar tanta calma e despreocupação que ela não pode evitar, mas escrever o remédio e entregar o papel, suas mãos trêmulas.

-Obrigado. –Angel agradeceu. –Senhorita Cecília?

-S-Sim? –Perguntou Cecília alarmada.

-Poderia levar a senhorita Rosemary até a sua mãe? –Pediu ele guardando o bilhete em um bolso de sua roupa. –Eu estarei lá assim que comprar o remédio.

Antes que ambas pudessem reagir ele abriu novamente a porta e a fechou atrás de si. Rosemary, após ouvir o baque, foi até a janela mais próxima, mal enxergando a silhueta do rapaz em meio a pesada névoa, que parecia estar andando como se a chuva não existisse.

"..."

Quem era Angel? Um estranho que não pode revelar o seu nome, procurando por algo que não sabia e com um ar surreal de não pertencer a esse mundo.

-00-

-Anini você está pronta? –Perguntou Regno.

-... O que eu devo dizer a eles? –Perguntou a garota torcendo o tecido do seu vestido de forma ansiosa. –Você não disse o que eu deveria dizer.

-Não é necessário dizer nada. –Respondeu o home de cabelos negros. – Direi a eles que você perdeu a memória.

-... Eles não vão desconfiar?

-Você é muito parecida com a sua mãe, então não haverá problema.

-...

Esse era o problema. De certa forma, Anini queria ser conhecida como ela mesma, que essas pessoas, os seus parentes de sangue, pudessem a incluir na família, e não trata-la como uma substituta.

...

-Primeiro vou apresenta-la ao mais novo. –Continuou Regno não percebendo os sentimentos conflitantes da garota. –Ele é o que mais sentiu falta dela.

Anini engoliu em seco, eles andaram por um longo corredor mal iluminado e silencioso, diferente dos outros cantos da mansão onde ela conseguia ouvir os gritos e risos dos outros ocupantes.

-Arkheim? –Chamou Regno batendo levemente em uma porta no final do corredor, tão estreita que você só poderia entrar de lado por ela. –Sou eu, Regno.

-...Entre. –Respondeu uma voz enquanto a porta se abria, a escuridão sendo a única coisa que se podia ver.

-Você não poderia vir aqui fora por um momento?

-Por que? –Perguntou novamente a voz.

-Tem alguém que quero que veja, creio que você ficará muito feliz em vê-la.

-"Vê-la"? –Repetiu a voz. –Argh, não é mais uma daquelas hóspedes irritantes não é?

-Arkheim. –Regno falou com uma expressão séria e tom de alerta. –Já conversamos sobre isso.

-Eu não gosto das pessoas de "lá", ainda mais mulheres.

-Hum... Regno... –Sussurrou Anini de forma apreensiva.

-Não se preocupe. –Sussurrou Regno de volta. – Arkheim pode ser arisco com pessoas de fora, mas você é da família.

-...

Ela não estava tão certa disso.

-Ei Arkheim. –Chamou novamente. -...Eu sei que não tenho acertado muito em como ser um bom irmão mais velho, não sou como eles, mas eu tento o meu melhor.

-...Já estou saindo.

Anini espiou por trás de Regno o rapaz de cabelos negros, muito parecido com o mais velho, porém com uma expressão séria e pouco convidativa, apesar de não ser hostil.

-...O que é?

-Quero que você veja alguém. –Repetiu Regno abrindo um largo sorriso e dando espaço para que ele visse Anini.

Arkheim arregalou os olhos enquanto Anini parecia perdida, sem saber como reagir.

Após vários segundos tensos o mais novo levantou a mão trêmula e tocou o braço dela, como se tentasse confirmar que ela fosse real.

-E-Er... Olá? –Disse Anini de forma nervosa, sendo interrompida por um forte abraço do outro.

-A-A... Anini... –Sussurrou ele em tom incrédulo. –É mesmo você? C-Como... Eu te vi desaparecer! Eu... Onde você esteve por todo esse tempo?

-Ah... –Engasgou Anini sem saber o que responder.

-...Anini? –Repetiu Arkheim se afastando e olhando-a de forma confusa, assim como Anini, que devolvia o mesmo olhar. –O que aconteceu? Você... Não me reconhece?

-Arkheim. –Chamou Regno.

-Irmão, o que está acontecendo? –Perguntou Arkheim estreitando os olhos.

-Eu... Encontrei um modo de trazê-la de volta, mas... –Pigarreou o mais velho. – Ela perdeu todas as suas memória no processo.

-... É verdade? –Perguntou Arkheim dirigindo o olhar a Anini que apenas abaixou o olhar, sentindo-se constrangida de mentir ao rapaz que a poucos segundos a abraçara com tanto entusiasmo.

O que ela estava fazendo era errado, mas não teria coragem de contar após ver o alívio e felicidade em seu olhar.

-Sim. –Respondeu Regno fechando os olhos.

-... Entendo.

-Hum...

- Irmã, eu sou... Arkheim. –Respondeu ele com um sorriso forçado no rosto.

-Prazer em... Conhecê-lo novamente.

-...

-...

-Arkheim.

-...Sim?

-Poderia guia-la durante a sua estadia?

-"Estadia"?

-É, assim que eu a revivi ela foi parar em algum lugar do mundo e levou um bom tempo até localizá-la. –Respondeu Regno. –Por isso ela pode ter se... Afeiçoado um pouco ao outro mundo.

-...Por que ela teria interesse no outro mundo? –Respondeu Arkheim com a expressão fria. –Aquele é um mundo defeituoso, cheio de pessoas mesquinhas.

-É um bom lugar. –Falou Anini de repente, chamando a atenção dos dois. – Tem as suas falhas mas tem suas qualidades.

-...Como o que?

-Florestas verdes, rios cristalinos, vagalumes...

-...Nós temos essas coisas aqui, talvez até melhor.

-É, provavelmente. –Repetiu Anini. –Mas continua sendo bonito.

-...

-Se algum dia você quiser eu... Poderia te mostrar esses lugares.

-...Certo.

-Vamos voltar? –Interrompeu Regno. –A nossa irmã deve estar cansada.

-...

-Huh... –Anini hesitou enquanto era guiada de volta.

-Irmã?

-S-Sim?

-... Não é nada. –Arkheim hesitou. –Tenha um bom descanso.

-00-

-Mãe... Aguente mais um pouco, o seu remédio vai chegar!

-Rosemary... Desculpe por preocupa-la.

-Não é a sua culpa. –Respondeu a outra. –Você só estava preocupada, não queria que eu ficasse no meio do temporal ou que alguém ficasse preso por sua causa não é?

"Senhor Angel... Por favor, venha depressa"

Ela estava preocupada, assim que chegara ao quarto de sua mãe não largara o terço, rezando sem parar para que sua mãe ficasse melhor e também pela segurança do rapaz que se aventurara no meio do vendaval, o seu coração batendo aceleradamente de preocupação e tensão.

-Toc Toc-

-Q-Quem é?

-Angel. –Respondeu a voz.

-A-Ah! Espere um momento, eu já vou abrir!

O rapaz entrou com uma sacola com vários frascos de remédio, segurando uma das pílulas em sua mão e na outra um copo de água.

-Pensei que talvez precisasse da água, então tomei a liberdade de buscar um copo. –Respondeu ele, caminhando em direção a senhora acamada e se agachando perto do leito. -...Senhora?

-Sim meu filho?

-A senhora consegue se sentar?

-Creio que esteja me sentindo muito fraca, me desculpe.

-Não tem problema, eu ajudo a senhora. –Disse ele com um sorriso, colocando o frasco e a água do lado da cabeceira, enquanto ajudava a senhora a se sentar para depois dar a pílula e a água.

-...Muito obrigado meu jovem, estou me sentindo bem melhor.

-Ficou feliz em ouvir isso.

-Ah... S-... Digo, Angel. –Chamou Rosemary, andando com sua cadeira até eles.

-... Eu tomei a liberdade de comprar mais algumas caixas já que adivinhei que vocês tem dificuldades de comprar esse remédio, ele deve ter aumentado de preço.

-N-Não precisava se incomodar, eu...!

-Não se preocupe, dinheiro não é problema para mim. –Respondeu ele com uma risada. – Eu não tenho o costume de usá-lo.

-Hum... Obrigado. –Ela disse em tom agradecido. – Por ter se arriscado nesse temporal para me ajudar.

-Não tem problema nenhum. –Disse Angel balançando a cabeça. –Se necessitar a minha ajuda não hesite em perguntar.

-Certo er... Quer que eu traga uma toalha? Você provavelmente deve estar molhado.

-Creio que não haja a necessidade. –Respondeu ele com um tom misterioso. –Eu estou seco.

-Hum? Mas como? –Falou ela surpresa, pegando levemente no tecido e constatando que ele realmente estava seco assim como a mão do rapaz, que não estava nenhum pouco gelada.

"Que estranho, não está gelada mas também não está quente... Para falar a verdade, eu não consigo sentir nada"

-Senhor Angel, o que...

-Shh... –Disse ele colocando o dedo nos lábios em forma de silêncio. – É um segredo.

Sua face estava indecifrável quando saiu do aposento, e pela primeira vez Rosemary reparou algo que não repara antes.

Ele não tinha presença.

Era como se não existisse.

-000-

Pessoas, peço desculpa pela demora, muito ocupada heheh *apanha*

Ah! Antes que se confundam, o par da Rosemary é o tio da Anini(filha), a Anini(filha) não tem nenhum irmão não XD(É eu sei, é confuso, culpe o pai por ter dado o mesmo nome da mãe)

...

Bom, gente, aos reviews!

Jules Heartilly- Como eu disse nos comentários o irmão é o gêmeo da mãe, e não da filha XD, HAHAH Ainda bem que você gostou de ser o Dégel e desculpa novamente pela confusão! ^^

O Regno tenta o melhor que pode mas ele não leva jeito para coisa.

Mache-san- Nope, o par da Rosemary é o tio da Anini(filha), aquele que a Rosemary deu o nome de Angel XD,

Linanime- Pobre do Lucca e do Shion porque sua personagem é doida de pedra XD, o par semi-oficial do Lucca é a quarta irmã, a Erin heheh~ Adoro casais originais! 8D

Ah sim, o fato da Erika não lembrar do Kárdia é relacionado com um dos mistérios desse mundo ilusório, dun dun dun~

Até que o Albafica e a Alice estão de boa, mas vai demorar um tempo até ela tentar se socializar XD.