Discleimer: Inuyasha e Cia. Não me pertencem, mas a história sim.

Comer dá sono e dormir da fome.

Projeção astral.

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Libertem Kanna.

Uma visagem sentada numa sala de espera fria e branca de um hospital, com os olhos fechados, com os cotovelos apoiados nos joelhos e a cabeça inclinada sobre as mãos cujos dedos estão entrelaçados, movendo os lábios e rezando silenciosamente por Kagura. Está sou eu.

Ao meu lado está Miroku, olhando para o outro lado com uma expressão tensa e uma das mãos sobre os lábios azulados, as mãos estavam tremendo bem de leve, ele sempre fica com frio em hospitais – deve ser a presença dos espíritos que o incomodam, eu até imagino como ele deve ficar em um cemitério – Kanna está lá dentro com a irmã, os médicos não deixaram Miroku entrar e eu preferi ficar aqui com ele.

Eu até poderia entrar, e procurar entreouvir informações sobre Kagura nas conversas dos médicos, para depois vir informar Miroku, mas sinceramente... Estou com medo do que possa vir a descobrir.

Eu senti uma presença aproximar-se e sentar-se do meu outro lado, e ergui o olhar para encarar Inuyasha, queria poder abraçá-lo.

_Sesshoumaru me trouce.

Ele falou, fazendo com que Miroku finalmente percebesse a sua presença, olhei a volta em busca de Sesshoumaru, e ele realmente estava ali, esperando pelo irmão caçula em um canto da sala, com as roupas um pouco molhadas, ainda deve estar chovendo lá fora.

_E como está Kagura?

_Não sabemos. – respondeu Miroku. – Levaram-na lá para dentro, mas não me deixaram entrar então tivemos de ficar aqui esperando por noticias.

_Você avisou os pais dela?

Eu olhei-o com uma sobrancelha arqueada.

_O pai dela trabalha aqui, gênio.

_Ah sei... E quanto à mãe dela?

A mãe de Kagura, sim é verdade, nos esquecemos de avisá-la. Na verdade eu tinha inclusive me esquecido que Kagura tem uma mãe, porque a única vez em que ouvi sobre ela foi naquele dia em que Kanna mostrou-me a sua morte e comentou comigo que sua mãe era obcecada pelo próprio reflexo. Mas onde deve estará a Sra. Onigumo agora?

_A mãe dela está em algum lugar da Europa. – ouvi Miroku dizer – Kanna contou-me que ela adora o glamour e está sempre viajando, mas Kanna está lá com ela.

_A menina fantasma?

_Não a chame assim. – eu a defendi. – Seu nome é Kanna.

Ele moveu a cabeça concordando.

_Desculpe.

_Está bem.

Respondi sem forças, então me inclinei e voltei a rezar silenciosamente.

_Você foi o rapaz que trouce a minha filha?

Erguemos a cabeça ao som da voz do pai de Kagura o Dr. Naraku Onigumo. Ele estava ali parado com uma expressão fria, mas alguma coisa em seus olhos me fez tremer, como se a crueldade morasse ali.

_Sim fui eu. – respondeu Miroku.

_Nós a encontramos ao pé da escada da sua casa. – acrescentou Inuyasha.

A expressão do Dr. Onigumo endureceu-se quando ele percebeu a presença de Inuyasha, e ele recuou um passo, acho que não é fácil esquecer-se de alguém que invade o seu consultório gritando mil e uma profanações e tentando estrangular a sua sobrinha.

_Como ela está? – perguntou Miroku diante o silencio do médico.

_Muito bem, não foi uma pancada tão forte, ela só vai ficar desacordada por algum tempo, e pode ser que fique com dor de cabeça quando acordar e esteja um pouco confusa.

_Quanto tempo ela vai ficar desacordada? – quis saber Inuyasha.

E o pai de Kagura encolheu os ombros como se pouco se importasse com isso.

_Algumas horas, dias talvez, eu acho que você nem precisavam tê-la trazido até aqui e me feito perder tempo. – ele olhou para Inuyasha e Miroku com expressão de desprezo – Sabem de uma coisa rapazes? Há pessoas que são ocupadas, elas fazem mais da vida do que simplesmente farrear por aí e preferem trabalhar, elas não podem ficar perdendo tempo com simples besteiras. – ele virou-se e acenou para os rapazes – Mas obrigado por trazerem minha filha, louca para chamar atenção, até aqui e me fazerem perder meu tempo precioso.

Eu não olhei para ver, mas suponho que os rapazes tenham ficado tão surpresos quanto eu.

_Como... Como alguém pode falar assim da própria filha?

Balbuciei sem conseguir acreditar no que havia acabado de presenciar.

_Caramba. – ouvi Miroku dizer – Com um pai desses, uma mãe que nunca está presente...

_Uma prima como Kikyou. – acrescentou Inuyasha.

_E a culpa pela morte da irmã mais velha. – eu colaborei.

_É. – concordou Miroku – Com tudo isso, não me surpreende em nada que Kagura tenha ficado desse jeito.

Uma sombra se projetou sobre nós, e eu achei que o pai de Kagura tinha voltado, mas na verdade era Sesshoumaru.

_E então? – ele inquiriu – Vi o médico vir falar com vocês.

_Kagura está bem. – Inuyasha respondeu – Vai acordar um pouco confusa, mas ela está bem.

_Isso é bom, se fosse algo pior eu iria achar que você está amaldiçoado irmãozinho.

Os irmãos se encararam.

_Como assim Sesshoumaru?

_Aquela sua outra amiga que está em coma está internada aqui não está?

_E daí?

_E daí que se outra de suas amigas entrasse em coma eu iria achar que isso é alguma maldição que atinge todas as meninas que se metem a serem suas amigas.

_Oras Sesshoumaru! – Inuyasha rosnou irritado pondo-se de pé com os punhos cerrados.

Os irmãos Taisho são assim, não podem passar nem vinte minutos juntos num mesmo ambiente sem que comecem a se alfinetar, lançando farpas um no outro, às vezes eu quase chego a acreditar que eles se odeiam mesmo. Mas aí percebo que este é só o jeito deles de demonstrarem o amor fraternal que sentem... Na verdade eu acho que esse é o jeito do Sesshoumaru dizer "Que bom que outra de suas amigas não entrou em coma".

Logo Miroku levantou-se também, na tentativa de separá-los antes que eles começassem a brigar e fossem todos expulsos do hospital.

_Kagome.

De repente eu ouvi Kanna chamar-me e olhei a volta procurando-a, achei-a parada ao lado do balcão das atendentes e flutuei até lá sem que Inuyasha ou Miroku percebessem, porque estavam concentrados em... Outras coisas.

_Ah Kanna. – eu disse parando a sua frente – Que bom que Kagura não está correndo nem um risco.

Ela concordou, seu rosto era novamente uma mascara impassível, mas de alguma forma eu podia sentir o alivio dela.

_Olha Kanna. – eu chamei pondo-me de cócoras para ficar da sua altura – Porque é que nunca sorri?

_Ah. – Kanna tocou o próprio rosto – Isso é porque eu sou um espirito.

Olhei-a sem entender.

_Como assim?

_Os sentimentos fazem parte da carne Kagome, quando o fio prateado se rompe e o espirito é separado da carne nossos sentimentos também se vão, os espíritos não sorriem Kagome, eles não sentem absolutamente nada... A não ser que seja algo muito forte.

Eu toquei o rosto de Kanna, ele era frio, tão frio quanto à morte, os espíritos são frios como a morte, por isso Miroku sente frio quando a espíritos por perto, é porque ele sente a morte impregnada neles, mas ele também sente um pouco de frio quando estou por perto, então... Também há um pouco da morte impregnada em mim.

_Acho que agora você e Kagura estão quites.

_Perdão?

Ela olhou-me, os olhos opacos fixos nos meus e enviando arrepios por minha espinha.

_Kagome. Você não sabe quem chamou a ambulância para você naquele dia? – Eu balancei a cabeça. – Foi Kagura, Kagome.

Foi Kagura. A voz de Kanna pareceu ecoar em minha cabeça, repetindo tantas e tantas vezes que começou a parecer que ecoava em um longo corredor e que jamais iria parar. E junto à voz de Kanna ecoavam aquelas vozes, as vozes das pessoas gritando logo depois que fui atropelada e eu reconheci aquela que gritava "Alguém chame uma ambulância!", era a voz de Kagura.

Ela chamou a ambulância para mim.

_Isto me lembra de uma coisa.

Eu olhei-a.

_O que?

Kanna balançou a cabeça.

_É melhor eu te mostrar.

Ela tocou-me a fronte e... Nada me aconteceu.

Olhei-a sem entender e querendo perguntar o que ela tinha feito quando Kanna apontou por cima do meu ombro para algo além de mim, quando eu virei-me Inuyasha estava sentado sozinho na sala de espera.

Ele parecia angustiado, inclinado sobre os joelhos com o rosto afundado nas mãos. Onde estão Sesshoumaru e Miroku?

E aí Miroku entrou, mas ele trazia Sango e ela estava chorando, inclinei a cabeça de lado, desde quando Sango gosta tanto assim de Kagura? Quando viu Inuyasha ela soltou-se de Miroku e correu até ele, ajoelhando-se e pondo as mãos em seus ombros para fazê-lo olhá-la.

_Inuyasha! – ela chamou – Inuyasha como ela está?!

Ele olhou-a com olhos vítreos.

_Eu não sei. – sua voz soou seca, como se alguém estivesse pisoteando folhas de outono – Levaram-na lá para dentro, mas não me deixaram ir junto, Sango era tanto sangue...

Do que ele estava falando afinal? Não havia Sangue, Kagura está bem, para que tanto... Drama? A Sango nem sequer gosta dela. E não estou dizendo que a Sango deseje a morte de Kagura, não é nada disso – apesar de que ela também morria de vontade de esbofetear Kagura até ela ficar com o rosto inchado e sangue borbulhando entre os dentes – mas é que... Não sei. Simplesmente não posso imaginá-la vindo ver Kagura no hospital toda angustiada.

_A minha filha! – alguém clamou. Mas a mãe de Kagura e Kanna não está na Europa? – Onde está a minha filha?!

E quem entrou não foi à mãe delas, foi a minha, ela chorava e meu avô vinha apressado logo atrás dela.

_A minha filha! – ela repetiu para a recepcionista – Higurashi Kagome! Vocês ligaram-me, disseram-me que houve um acidente com ela, onde está minha filha?!

Foi só então que percebi que aquele era o dia de meu acidente, Kanna o estava mostrando para mim. Eu deveria ter percebido isso antes, se não porque mais Inuyasha, Miroku e Sango estariam usando o uniforme da escola?

Também havia outros detalhes: Sango ainda usava o aparelho. Miroku ainda não tinha brincos, e nem ele nem Inuyasha estavam molhados.

Miroku aproximou-se de minha mãe e a puxou para sentar-se com ele e Inuyasha como se a quisesse consolá-la, Sango sentou-se ao outro lado dele e o abraçou como se também procurasse consolo, enquanto Inuyasha e meu avô permaneciam imóveis em posições idênticas: curvados sobre os joelhos com a cabeça entre as mãos.

Kanna puxou-me a barra da saia, por alguma razão eu usava meu seifuku novamente, e indicou-me o relógio. Pareciam ser 13h14min, mas então no segundo seguinte eram 15h26min, eu voltei a olhar para eles.

Sango e mamãe haviam chorado no peito de Miroku até pegar no sono, era estranho ver uma mulher adulta buscando conforto num rapazinho de treze anos, enquanto ele tinha os braços envolta delas, com a cabeça por cima da cabeça de Sango, meu avô estava orando com um pedacinho de pergaminho entre os dedos, mas Inuyasha continuava do mesmo jeito.

Com certeza meu avô havia ligado aos pais de Miroku e aos pais de Sango para avisar onde eles estavam, e também ligado para que um de nossos vizinhos fosse ao templo dar uma olhada em meu irmão.

Então o Dr. Onigumo aproximou-se deles com uma prancheta na mão, meu avô ergueu os olhos e Miroku acordou minha mãe, mas Inuyasha continuou imóvel, mergulhado em sua própria angustia e provavelmente sendo corroído pela culpa.

_São os responsáveis pela Srta. Higurashi?

_Somos nós. – meu avô levantou-se – Eu sou o avô dela, e esta é a sua mãe.

_Poderiam acompanhar-me, por favor?

Novamente Kanna me indicou o relógio: 00h00min. E quando, olhei-os novamente, Sango, Miroku, mamãe e vovô haviam desaparecido, mas Inuyasha continuava ali, perfeitamente imóvel, como se algum artista deprimido tivesse decidido esculpir a pura imagem da angustia.

Ao nosso lado eu ouvi uma enfermeira cochichar a um médico idoso e de aparência simpática mais muito cansada.

_Doutor, o que eu faço? Já disse a esse rapaz para ir embora, só que ele nem sequer moveu-se, parece que não me escutou. Acho que pretende passar a noite em claro na sala de espera.

_Ele está aqui por causa daquela menina? – o doutor cochichou de volta. – Aquela que foi atropelada e agora está em coma?

_Sim doutor, mas...

_Então o deixe lá. – suspirou o doutor.

_Mas doutor, o protocolo diz...!

_Esqueça o protocolo. – o doutor balançou a cabeça, parecia tão cansado que a única coisa que o sustentava era a cafeína correndo pelas veias – Ou então finja que não o viu, enfermeira eu também já fui jovem, também já fui apaixonado, sei o que ele está sentindo agora.

Inuyasha apaixonado por mim? Esse médico deve estar acordado há muito tempo mesmo... Porque isso não pode ser verdade.

_Ele ainda acampou naquela sala de espera por mais dois dias e uma noite, até que Sesshoumaru o veio buscar e arrastou-o para casa, mas ele continuou voltando o hospital quase todos os dias. – contou-me Kanna tirando os dedos de minha testa, e eu me vi novamente no dia de hoje, de cócoras em frente a ela. – E mesmo na escola ele estava quase sempre triste ou distante e pensativo, acho que foi por isso que Kikyou passou a odiar você ainda mais: porque mesmo estando com ela, ele só pensava em você.

_E aí ela decidiu que eu precisava morrer. – levantei-me cruzando os braços.

Foi quando uma voz veio flutuando pelo ar, pedindo ajuda, parecendo está à procura de alguém que a escutasse.

_Ei pode ajudar-me? Eu... – a voz parou e então recomeçou – Por favor, não sei o que...! – voltou a interromper-se – O meu pai trabalha aqui, poderia me dizer...?

Era a voz de Kagura, perdida em algum lugar daquele hospital.

_Vocês também estão ouvindo? – Miroku perguntou atrás de nós.

_Acho que sim. – eu olhei-o – E quanto a Inuyasha e Sesshoumaru?

Miroku encolheu os ombros.

_A enfermeira dragão os expulsou daqui. Agora vamos, temos que ir ver Kagura.

Ele passou por nós, com Kanna voando ao seu lado, então tive que correr para alcançá-los.

_Espera! – eu chamei – Você pode entrar aí?

_Normalmente eu não poderia, mas já que fui eu a trazer Kagura. Eles supuseram que eu devo de estar muito preocupado com ela e abriram uma pequena exceção, mas não poderei ficar muito tempo.

Nós virávamos um corredor aqui e ali, de alguma forma Miroku e Kanna pareciam saber exatamente aonde íamos, mas eu estava completamente perdida, apenas os seguia, mas Miroku já começava a tremer e soltar baforadas de ar condessado no lugar da respiração, e ao nosso redor o lamento de alguns espíritos atormentados tornava-se pequenos cochichos.

_Um sensitivo. – disse um deles.

_Veio ajudar-nos? – perguntou outro.

_Talvez ele possa falar com minha filha. – disse mais outro.

E quanto mais nós entravamos no hospital, mais constantes ficavam os cochichos, embora eu não visse nem um espirito – quem sabe não se esconderam? – as palavras que eu mais ouvia sendo repetidas eram "sensitivo" e "ajuda".

Até que avistamos Kagura, parada no meio do corredor, tentando falar com as pessoas que passavam por ela, mas todos a ignoravam, ninguém a ouvia, ninguém a via, e saindo de seu abdome na altura do umbigo havia um fio prateado de densidade quase aquosa, que flutuava até atravessar a porta de um quarto próximo, assim como eu, Kagura era uma projeção astral.

_Dra. Almeida, por favor...! – ela tentou alcançar uma médica de cabelos castanhos que passava por ali, mas sua mão atravessou-lhe o ombro.

Diferente de mim, Kagura não se assustou e saiu correndo, na verdade ela... Continuou bem calma. Cruzou os braços, suspirou e fechou os olhos, murmurando alguma coisa para si mesma, parecia que estava contando, como se essa não fosse à primeira vez que isso acontece.

_Kagura! – chamou Kanna.

Kagura abriu os olhos novamente, cheios de surpresa, e os fixou em Kanna, o lábio inferior tremeu e ela cambaleou alguns passos para frente, de repente já estava correndo na direção de Kanna, jogando-se de joelhos ao chão e deslizando até abraçar a irmã.

_Kanna! – ela exclamou – Mana... Há quanto tempo eu já não sonho contigo?

Murmurou aconchegando a cabeça no ombro de Kanna, esfregando o nariz em seu pescoço com os olhos fechados. Em movi-me desconfortável, e murmurei ao ouvido de Miroku:

_Acha que deveríamos deixa-las a sós?

Kagura abriu os olhos e olhou-me, também não pareceu surpresa em me ver ali, mas quando viu Miroku...

_Certo. Agora sim este sonho está ficando estranho!

_Hã... Isto não é um sonho Kagura. – negou Miroku.

_Mas é claro que é! – ela largou-se de Kanna e se levantou com as mãos nos quadris – É o mesmo sonho de sempre: aquele em que eu sou invisível. Está um pouco diferente, porque eu nunca havia sonhado com Kanna e ela – apontou para mim – Ao mesmo tempo, e já fazia algum tempo que eu não sonhava com Kanna, e também nunca havia sonhado contigo... Mas é claro que é um sonho. Afinal, o que mais seria?

_Talvez, quem sabe... Real? – eu sugeri.

_Não pode ser real, Kagome. – ela girou os olhos.

Ela chamou-me de Kagome, e não "estranha", como já era seu hábito, quando nós duas tínhamos corpos físicos, talvez porque realmente acredita que isto é um sonho e... Em seus sonhos eu não sou tão estranha assim.

_Por acaso podemos fazer isso na realidade? – ela passou a mão através da cabeça de Miroku, e continuou a sacudi-la lá dentro.

_Ei pare com isso. – gemeu Miroku recuando – Está me dando dor de cabeça.

_Kagura. – chamou Kanna – É real.

Kagura calou-se. Acho que mesmo depois de todo esse tempo, Kagura continua admirando a irmã mais velha, que agora parece mais nova, com cega obstinação, e não duvido nada de que se Kanna dissesse que os peixes podem voar Kagura acreditaria sem hesitar.

_Eu estou morta?

_Não. – Kanna estendeu-lhe a mão e quando Kagura a segurou as duas seguiram juntas pelo corredor até atravessar a porta do quarto de Kagura.

_Vamos lá. – ouvi Miroku murmurar.

Quando entramos Kagura e Kanna estava lado a lado próxima a cama com o corpo de Kagura e de costas para nós, mas viraram-se ao ouvir a porta fechando-se.

_Não é tão grave. – eu disse – Você levou uma pancada na cabeça e perdeu os sentidos, logo vai acordar só isso.

_Acho que... Lembro-me de ter caído da escada. Mas se não estou morta, como posso ser um espirito?

_A sua alma se desprendeu do corpo. – respondeu Miroku.

Parei ao lado das duas, o corpo de Kagura não estava tão mal, na verdade ela parecia apenas estar dormindo, e ficamos em silencio por algum tempo, se foram segundos ou minutos eu não tenho ideia, até que Miroku quebrou o silêncio.

_Não foi sua culpa.

_Do que está falando? – ela olhou-o.

_Da morte de Kanna, não foi sua culpa, foi uma fatalidade.

Em alguns poucos segundos Kagura pareceu ter envelhecido trinta anos, ela suspirou e sentou-se na cama, com os dedos das mãos entrelaçados sobre os joelhos, e os lábios apertados. Kanna sentou-se ao seu lado, e começou a passar uma das mãos nas costas de Kagura, senti que eu era desnecessária ali, que o melhor seria eu ir embora logo, mas o olhar de Kanna, que se prendeu em mim assim que eu dei o primeiro passo em direção à janela, me prendeu àquele quarto.

_Você não estava lá. – ela murmurou – Não sabe de absolutamente nada.

Miroku puxou uma cadeira e sentou-se em frente à Kagura, como se esperasse que ela voltasse a olha-lo para poder falar, e esperou pacientemente por isso, sem se importar com o fato de que ele tinha um tempo limite para estar ali, e aí finalmente Kagura o olhou de novo.

_Eu sei que ela morreu quando um caminhão a bateu. – ele falou – Sei que a rua estava escura, e mesmo os faróis estando acesos, o motorista não viu Kanna, e sei que você não teve culpa nenhuma por sua irmã ter morrido, foi um acidente.

Kagura sacudiu a cabeça como se não pudesse aceitar o que Miroku estava dizendo a ela.

_Como pode saber disso tudo?

_Kanna contou-me. – e em seguida deu um pequeno sorrisinho – Lembra-se daquele dia, em que bati a sua porta dizendo que eu uma mensagem da sua irmã para você?

Kagura mordeu o lábio inferior, como se estivesse a ponto de chorar, mas, como eu bem sei não se pode chorar quando se é uma projeção astral.

_Qual era a mensagem? – sua voz tremeu.

_Bem... Acho que agora não precisam de mim. Porque você mesma não pergunta a ela?

Ele levantou-se e veio em minha direção, escorando-se na parede com as mãos nos bolsos enquanto eu me sentava na janela e observamos Kagura virando-se para Kanna.

_Mana quer dizer-me algo? Por isto está aqui?

Kanna apanhou a mão de Kagura.

_Eu nunca parti irmã.

_C-como?

_Eu não pude partir sabendo que você considera-se a culpada pela minha morte e se martiriza por isso Kagura.

Eu olhei para Miroku, mas ele apenas fez sinal para que eu ficasse em silencio, colocando indicador sobre os lábios. E de alguma forma eu compreendi o que Kanna estava fazendo: Ela estava, mais uma vez, protegendo a irmã, poupando-a do sofrimento de saber que o seu sentimento de culpa aprisionou a irmã ao plano astral e transformou-a num espirito errante. Não, Kagura não precisa de mais essa culpa para carregar.

_Não foi sua culpa Kagura, entenda isso, porque eu não poderei partir enquanto você não entender isso: a culpa não foi sua.

_Sim foi! – gritou Kagura tapando o rosto com as mãos – Mana a culpa foi toda minha... Se eu tivesse escutado você, se não tivesse saído correndo...!

_Mas você era somente uma menininha Kagura, como poderia saber?

_Eu... Eu...

_Eu amo-te minha irmã querida e não gosto de te ver sofrer, por favor, eu imploro-te, pare de se martirizar por algo de que não teve culpa! Você não me matou!

E então, pela segunda vez eu vi Kanna expressar alguma coisa em seu rosto, mas não consegui identificar exatamente o que era talvez frustação por não conseguir fazer a irmã ver que sua morte nada teve haver com ela, e raiva, pela mesma razão, e tristeza, muita tristeza, pelo sofrimento da irmã, além de... Algo mais. O sentimento de quem a muito anseia pela liberdade.

E talvez Kagura também tenha visto isso, ou ao menos uma parte.

_Perdoa-me mana! – falou agarrando-se a Kanna – Mesmo após tua morte continuei te dando demasiado trabalho, perdoa-me, sou mesmo uma estupida! Não queria preocupar-te!

Kanna correspondeu desajeitadamente ao abraço, com apenas um dos braços, enquanto o outro ainda segurava seu espelho.

_Não há o que se perdoar Kagura, você não fez nada de mal... Eu só não podia partir sem antes ter a certeza de que ficarias bem. Vai ficar bem?

_Sim. – murmurou Kagura – Eu vou ficar bem... Mana.

Um suspiro aliviado escapou dos lábios de Kanna, e as duas se separaram quando se foi ouvindo o som de algo se partindo, e quando vi o espelho de Kanna estava rachado ao meio, então mais e mais rachaduras foram surgindo até que o espelho simplesmente explodiu, e alguém gritou, talvez tenha sido eu, seus cacos ficaram parados no ar, flutuando inertes e brilhando como caleidoscópios.

Mas aos poucos todos eles iam flutuando em uma mesma direção, onde se fundiam e giravam numa espécie de vórtice multicolorido.

_É lindo. – ouvi Miroku dizer.

_O que é? – eu perguntei.

_O túnel da morte. – ele respondeu – Mas para nós, é conhecida simplesmente como "a luz".

Kanna levantou-se e olhou para o túnel atrás de si e então novamente para a irmã, um sorriso tranquilo descansava em seus lábios, os cabelos eram novamente loiros claros e os olhos não mais opacos, a pele já não era mais tão pálida e mesmo sem tocá-la eu tinha a impressão de que a frieza já não mais fazia parte dela, então assisti ela aproximar-se da irmã lentamente e depositar um beijo em sua testa.

_Acho que já é a minha hora.

_Adeus irmã. – despediu-se Kagura de forma angustiada.

Mas Kanna balançou a cabeça.

_Até logo Kagura, só até logo. – e pôs uma mecha do cabelo de Kagura atrás da orelha – E mais uma coisa.

_O que?

_Se afaste da Kikyou, eu não gosto dela!

Kanna pôs uma mão sobre o quadril e com a outra apontou para Kagura de forma repreensiva, e seus cabelos esvoaçavam, como se o túnel da morte a estivesse puxando, mas não era só isso... Aquele túnel estava me atraindo, chamando-me para ele.

Acho que quando Kanna estava viva ela agia com Kagura, da mesma forma que eu agia com Souta antes de ficar em coma: super protetora e autoritária.

Kagura ficou calada, como se não soubesse o que dizer, mas depois balançou a cabeça para cima e para baixo concordando.

_Tudo bem mana, o que mais?

_Pare de atormentar Kagome, ela é uma boa alma, e ajudou-me muito... E Miroku também. – acrescentou quando Miroku pigarreou – Eu descansaria muito mais tranquilamente se soubesse que você está a andar com tipos como eles.

Por cima do ombro de Kagura, Kanna piscou para nós, em seguida ela deu um ultimo abraço em Kagura, segurando-se a ela pelo pescoço, eu franzi o cenho quando percebi os lábios de Kanna praticamente grudarem-se a orelha de Kagura e sussurrarem alguma coisa, depois de alguns segundos Kanna deu um ultimo beijo de despedida na irmã e se afastou em direção a luz. E enquanto era absorvida pela luz, Kanna olhou uma ultima vez para mim e para Miroku, mandou um beijo a ele e acenou para mim.

_Até logo amigos, e obrigada, muito obrigada. Serei eternamente grata.

E então, Kanna desapareceu na luz. Finalmente livre.

*.*.*.*

Pronto desde 03/09, eu e essa minha mania de anotar tudo!

Ai eu achei esse capitulo muito lindo e você? T.T

Clarinha: E então que achou deste capitulo? Eu o achei tão lindo! T.T

Aricele: E espero que continue acompanhando. ;)

Gabyh: Nada disso eu nunca mataria a Kagura, não sou cruel o bastante nem para matar a Kikyou. ^^

Ai, eu também amo o Percy Jackson, tenho todos os livros lançados no Brasil, desde "O ladrão de raios" até "O filho de Netuno" e também o especial "Arquivos de um semideus"! Tenho até uma camisa do acampamento! ^^

Na verdade ele é pai da Kagura, e é tio da Kikyou, ele não poderia ser pai Kikyou porque senão... Opa já ia falando mais do que devia!

MissFF: A curiosidade faz parte, assim eu sei que vão voltar pra ler mais. Golpe baixo? É eu sei.

Babb-chan: A Kagome é realmente uma boa alma, eu a adoro por isso, o Inuyasha e ela são fofos mesmo né?

Acho que todo mundo já sabe o que a Kah tinha a dizer menos ela! ^^'

Perguntinha foi você que pediu meu e-mail? Se sim responda na review que eu o mando por MP assim que puder.

nane-chan3: Eu amo a musica da Sakura, as vezes até fico cantando e dançando ela aqui que nem uma doidinha. ^^'