2.

Ao chegar em casa, me livrei daquela roupa desconfortável e corri pro meu desejado pijama. Me senti completamente fora de forma ao perceber que uma simples saída ao um pub havia me deixado com dor no corpo. Meus olhos ardiam, não tenho certeza se por conta da quantidade de álcool que eu bebi ou se pela fumaça do cigarro dos outros presentes no pub. Com certeza preciso me matricular em uma academia. Deitei na cama e chequei meu celular pela última vez antes de cair em sono profundo.

Tive um sonho perturbador, estava correndo em um campo, fugindo de alguém e não conseguia ver quem é. Corria o mais rápido que podia e ele era sempre mais rápido. Usava o moletom com capuz e um jeans velho, era extremamente ágil. Eu estava suada e cansada, sem forças para dar mais um passo quando desisti de correr e virei para encarar meu perseguidor. Quando ele se aproximou e tirou o capuz vi que era o Sr Hunter, com aquele sorriso diabólico. Acordei assustada e suada. Ainda eram 4 horas da manhã, mas eu não tinha nenhuma vontade de voltar a dormir. Peguei meu laptop e não contive a curiosidade de procurar no google mais sobre aquele moreno misterioso.

Encontrei o obvio, ele era muito rico, dono de muitos prédios em Seatle assim como Rebecca me contou, estava sempre acompanhado de belas mulheres nas festas mais bem frequentadas, nas páginas de fofoca havia sempre comentários desagradáveis sobre as mulheres que saiam com ele. Parece que o cara era bem mulherengo e adorava sair com atrizes em começo de carreira, modelos, e algumas atrizes pornôs. Nenhum relacionamento sério na lista, nenhuma foto de demonstração de afeto em público.

Sobre sua família não encontrei muita coisa, parece que tudo havia sido apagado dos sites de busca. Ao que me pareceu ele havia morado em um abrigo para crianças que não tem nenhum tutor durante três anos. O que aconteceu com os pais desse rapaz? E porque não há nada na internet? Certamente um drama familiar causaria muita fofoca nos sites sobre celebridades por ai.

O resto da madrugada não fiz nada útil. Busquei umas coisas que precisava para trabalhar, mandei alguns e-mails pro meu chefe, Dr Holder, até que o sol finalmente estava brilhando lá fora o que significava que eu poderia me arrumar para ir trabalhar. Após um banho caprichado para tirar o cheiro de cigarro do pub da noite passada, vesti uma saia preta até o joelho com risca de giz rosa bebê bem discreta, e uma blusa de seda igualmente rosa, pus minhas meias de seda e meus saltos e segui atrás de um táxi.

A manhã correu perfeita, com muito trabalho no escritório publicitário em que eu trabalhava, terminei mais cedo o que precisava fazer e fui até o elevador afim de ir a algum restaurante próximo no meu horário de almoço. Queria aproveitar que ainda eram 11h20m e eu conseguiria encontrar uma mesa com mais facilidade. Quando levantei os olhos do celular ao perceber a porta do elevador aberta, lá estava ele, de terno e gravata sério e controlado diante de mim.

Fiquei totalmente sem reação e permaneci onde estava. Ele deixou o braço entre as portas do elevador para que eu entrasse, mas eu não me movi. Isso fez com aquele sorriso que me perturbou nos meus pesadelos surgisse em seus lábios.

- Não vai entrar Srta Lynn?

Abri a boca mas nada saiu.

- Srta Lynn?

- Eu.. vou descer.

- Tudo bem, eu vou subir, se a srta não se importar de subir uns dois andares antes de descer.

Engoli seco.

- Tudo bem, eu espero aqui.

- Ora, por favor, não seja infantil. Voce é sexy, e eu adoraria ter você em locais inapropriados, mas tem câmeras aqui.

Que nojo!

- Argh, me desculpe, acho que perdi completamente a fome.

Sai andando em direção oposta ao elevador atrás do banheiro. Mas senti que ele ria daquele jeito nas minhas costas. Senti o olhar dele em mim até que a porta do elevador fechasse. Essa sensação de estar sendo perseguida só me deixou com mais náuseas, meu estomago se revirava dentro de mim e eu sentia a bile subindo. Entrei em um reservado e respirei fundo, tentei me conter e me acalmar. Depois retoquei meu rímel e tentei acalmar minha respiração de vez.

A recepcionista do meu andar, Tatiane, uma mulher de cabelos vermelhos e seios fartos entrou para retocar a maquiagem.

- Meu deus, quem era aquele gato no elevador?

- Um pesadelo.

- quê? – ela pareceu não ouvir, pois falei muito baixo.

- Não sei. – sorri sem a mínima vontade e sai dalí. Por que todas as mulheres ao meu redor pareciam fazer propaganda dele?!

Chamei o elevador novamente e dessa vez ele veio vazio, o que me fez sentir aliviada. Desci e almocei em um restaurante ali perto como havia planejado antes. Mas ainda sim, não consegui comer da forma que queria. Meu estomago ainda revirava ao lembrar daquele comentário sujo. E o que mais me parecia desagradável, é que mesmo que fossem pensamentos negativos, desde o pub, a maioria dos meus pensamentos eram sobre ele. Isso me dava nojo a mim mesma. Por que eu estava tão obcecada por um homem que não tinha nada que me atraia? Meus namorados em geral costumavam ser caras desleixados, usando sempre bermudas, a barba por fazer, honestos e românticos. Dificilmente me viram com comentários desagradáveis como aqueles. Ainda mais enquanto sóbrios no local de trabalho!

Depois da tarde inteira trabalhando, resolvi tomar algum comprido para enjoo e então segui novamente até o elevador, minha pressão caiu ao perceber que ao invés de descer o elevador subiu. Minhas pernas ficaram bambas. Eu não queria encontra-lo de novo em hipótese alguma. Mas para o meu pesadelo, lá estava ele com aquele terno Armani e aquela cara de menino travesso.

Ele entrou no elevador como se nada tivesse acontecendo.

- Dia difícil? – perguntou sem olhar para mim.

- Sim, um maníaco sexual me perseguindo.

Ele soltou uma gargalhada divertida.

- Maníaco sexual? Eu? Só por que eu tenho uma atração natural por uma mulher bonita?

- Não, porque você está me seguindo.

- Não seja tola, Srta Lynn. Você quem trabalha no meu mais novo prédio.

Minha visão ficou turva. Era só que me faltava! Ele comprou a porra do meu prédio!

- Ah, que ótimo. Espero que eu não tenha que ver você todo dia no elevador e aguentar essas piadinhas de pedreiro.

Ele riu relaxadamente de novo.

- Seu desprezo está me deixando cada vez mais louco por você. Essa saia também.

Ruborizei, e odiei que ele percebesse que tem qualquer efeito em mim além de ódio.

- Olha, se isso realmente funciona com suas garotas, parabéns, agora pode por favor me deixar em paz?! – Minha voz saiu mais estridente do que deveria, e isso fez com que eu parecesse insegura. Eu queria que ele me deixasse em paz? Ou será que estava achando isso tudo divertido? Divertidamente perigoso.

- me diga você se funciona com a minha garota.

Aquela frase no singular e aqueles olhos azuis penetrantes olhando direito nos meus me fez sentir um calafrio. Me assustou de verdade. Como ele ousa insinuar que eu sou alguma das posses dele!

O elevador finalmente parou, e eu me senti aliviada.

- Até nunca mais, Sr Hunter.

- Até já, Srta Lynn.

Cheguei finalmente em casa, sábado à noite. Decidi que nada de pubs, ou festas, eu ia ver um filme e tomar chocolate quente. E mais uma noite eu dormi de forma deprimente em frente à televisão.