Primeiro Dia
Na primeira manhã acordou com Milo lhe jogando no rosto a roupa do treino e falando animadamente enquanto quase caia ao calçar uma bota. A luz do Sol ainda transpassava cálida pela janela aberta e o francês não se lembrava de ter sentido tanta falta de um relógio antes. Levantou a contra gosto, escovou os dentes e vestiu-se rápido sendo prontamente arrastado pelo braço quando o escorpiano o conduzia para o refeitório.
As longas mesas de madeira já estavam quase lotadas, isso fez com que Camus percebesse que não importava que horas eram, ele estava atrasado. Milo o levou para a menor entre as mesas, ficava no lado mais arejado, próxima a uma grande janela. Sentou-se e fez sinal para que Camus ficasse ao seu lado. Mal havia se acomodado no acento e percebeu todos os olhares se voltando sobre si. O loiro a seu lado falou algo animadamente e com certa pompa. Pode distinguir seu nome e sua constelação no discurso do escorpiano e não estava muito certo, mas Milo parecia estar... lhe exibindo? Olhou para o grego durante um longo período até que enfim ele lhe desse atenção. Recebeu um sorriso faceiro e então foi apresentado ao demais, assim como no dia anterior, apenas pelo nome e constelação.
Em uma das pontas da mesa estavam Sagittarius e Gemini que acenaram educadamente, depois uma série de meninos que pareciam ter a mesma idade que ele, Aldebaran, Mu, Shaka, e também o já conhecido Aiolia. Na outra ponta tinham dois garotos que pareciam estar nos seus nove, dez anos, mas não lhe deram muita atenção, Shura e DeathMask. E tinha também uma garota, ou pelo menos ele pensou assim, Afrodite, tão linda quanto alguém pode ser, que lhe deu um sorriso esnobe e o ignorou em seguida.
Quando voltou a olhar a seu lado viu Milo tomando seu café a toda velocidade e de alguma forma compreendeu que deveria fazer o mesmo, apesar de sua educação não lhe permitir engolir a comida daquela maneira. Em pouco tempo estavam todos se levantando e Camus quase engasgou quando Milo lhe puxou de novo pelo braço, sem permitir que ele terminasse aquela fatia de pão.
Chegaram logo ao coliseu e os garotos mais novos se postaram em uma fila indiana. Camus se recriminava agora por não ter ouvido direito o que Shion lhe dissera no dia anterior, não fazia ideia do que ocorria a sua volta, apenas imitou a postura militar de Milo e esperou para ver o que aconteceria a seguir. Um treino físico, concluiu logo. Um homem estava parado mais a frente e dava comandos aos garotos, não podia entender o que ele dizia, mas depois de algumas vezes não foi difícil associar. Soco, defesa, chute... Estava sempre atrasado em relação aos demais, e era de certa forma desengonçado, nunca havia lutado antes na vida. Depois de mais ou menos uma hora estava exausto e com calor, mas não parecia que ia acabar tão cedo.
Mais atrás em um dos cantos Saga e Aioros lutavam entre si, eram muito rápidos, Camus quase não conseguia vê-los. O ruivo perdeu completamente a concentração quando Aioros errou um soco e acertou uma coluna grega que se desfez em pó e pequenos pedregulhos. E pior, todos à sua volta pareciam estar bem com isso. Ele parou seus movimentos, ficou assustadoramente ciente do suor escorrendo pela testa e do leve tremor de suas pernas.
- Impossible.[1] – se ouviu murmurar.
Passou um longo período de tempo tentando lembrar-se do que Shion havia lhe dito, mas as palavras "deixar o orfanato" atravessam insistentemente qualquer frase mais concreta. Estava assustado, em uma terra estranha onde não conseguia falar com ninguém e quebrar rochas enormes com os punhos nus parecia normal. Sentiu-se instantaneamente nauseado.
- Camus! – Milo lhe chamava com ênfase pondo a mão de leve no seu ombro – Você está bem? – falou sinceramente preocupado, os outros meninos e o instrutor pararam em volta dele e de novo teve aquela sensação de multidão e falta de ar.
- Je ne comprends pas.[2] – repetira essa frase demais desde que chegara, mas agora ela soava diferente: rouca e trêmula.
- Etes-vous bien?[3]
Aquela havia sido a primeira vez que Saga lhe dirigira a palavra, chegando perto do pequeno grupo com Aioros que tinha uma expressão preocupada. Camus tinha chamado mais atenção do que gostaria e pior, sentia-se prestes a vomitar o café da manhã. Tudo o que não queria era atenção.
- Non. – respondeu simplesmente, vendo se tinha um jeito fácil de sair do meio de tanta gente.
- Milo, leve-o daqui e quando ele estiver bem o leve ao décimo terceiro templo, acho que o Grande Mestre precisa falar com ele.
O loirinho assentiu e ainda que estivesse receoso por nunca ter tomado conta de um enfermo, apenas fez o que Saga disse. A expressão do francês estava lhe deixando deveras agoniado. Diferente dos puxões e arrastões que dera nele pela manhã, Milo apenas o segurou pela mão com demasiada delicadeza e o levou até o quarto. Fez com que ele se sentasse na cama e ficou lhe olhando.
- Pior que você não entende nada que eu digo. – estava sério e o tempo todo próximo ao ruivo, mesmo que não soubesse o que fazer – Acho que você nunca tinha visto algo como aquilo, não é? Aioros e Saga são muito fortes, um dia vamos ser que nem eles. – lhe deu uns tapinhas camaradas nas costas – Mas entendo que assuste um pouco. Eu mesmo fico um pouco amedrontado às vezes – falava de forma mansa.
- Je ne... – Camus não tinha um olhar muito amigável enquanto repetia a frase corriqueira, já estava cansado dela, mas foi interrompido.
- ...comprends pas. – Milo lhe disse sorrindo largamente, surpreendo-o, já havia decorado de tanto que a ouvia – É, eu já sei, você não entende nada mesmo. Vou te buscar água e alguma comida, já que não tomou café direito. Não saia daí. – disse fazendo mímicas muito enfáticas.
O loiro saiu sorrindo um pouco mais despreocupado e demorou bastante a voltar. O observou de perto enquanto comia, aos pés de sua cama, com aqueles olhos analíticos, tão azuis que o deixavam tonto e o sorriso bobo e infundado. Só pode confirmar o que já sabia: Não gostava mesmo daquele garoto.
~0~
[1] Impossível.
[2] Eu não entendo.
[3] Você está bem?
E de novo, minhas considerações inúteis xP
Bem, agora já tenha uma ideia mais concreta de como vai ficar essa fic. Vão ser todos capítulos pequenos como os primeiros. Sempre vou mostrar um dia ou um evento com início e fim e aos poucos evoluindo a relação dos dois (ainda não decidi até onde, mas estou tentada a fazer um romance =x). Espero que seja uma leitura leve do início ao fim (Lembrete pra mim: Não colocar um mega drama no final xD). E, neh? Falei que não sabia quando ia sair o segundo, mas foi muito fácil escrever esse... Talvez por ser uma continuação direta, não sei...
Bem, espero que gostem! Muito obrigada a quem leu e está acompanhando. Agradeço imensamente pelas reviews!
Beijinhos!
V. Lolita
