Primeira Pergunta
Lembrava-se perfeitamente de ter trazido consigo meia dúzia de roupas que considerava como suas, mas a verdade é que desde que chegara ali não usara nenhuma delas. Estava sempre com as roupas de treino e quando não, usava uma toga grega típica que Milo lhe empurrava. E era precisamente uma toga, perfeitamente branca e leve que usava no momento. Não estava acostumado a ter suas pernas descobertas e a toda hora ficava tentando puxar a barra mais para baixo na intenção de cobrir sua pele demasiadamente clara. Aquilo tudo era tão desconfortável.
Depois do acontecido no primeiro treino teve uma longa conversa com o Grande Mestre e dessa vez esteve certo de ouvir cada palavra. Parecia fantasioso demais, deuses, santos, armaduras completas de ouro maciço e mais uma vez, destino. O seu destino. Enquanto Milo lhe acompanhava escadaria abaixo pararam durante um longo tempo na casa de Aquarius. Precisava se acostumar com a ideia.
Naquele momento estava subindo as escadarias para sua aula noturna de grego. Todos os membros de seu corpo doíam, pois do segundo dia em diante seguiu todos os treinos a risca, seus pobres músculos desacostumados retesavam a toda hora, mas nada podiam fazer contra a ordem de uma mente determinada. E era essa mesma mente que se esforçava ao máximo para aprender aquele novo idioma, ainda que tivesse que começar novamente pelo alfabeto. Tinha certeza absoluta que Milo falava de si a toda hora e estava cansado de não conseguir compreender. Era estranho que de todos os motivos que pudesse ter o mais forte deles era poder entender sem reservas o garoto de quem decidira não gostar. Comunicavam-se bem apesar de tudo, a linguagem não verbal de Milo era muito clara, não havia problema nenhum quando estavam apenas os dois, mas vê-lo falando animadamente com os outros e lhe lançando aquele sorriso jocoso de vez em quando lhe dava nos nervos. Mais uma vez puxou a toga para baixo inutilmente e adentrou o décimo terceiro templo.
Foi direto a biblioteca, cruzando com Aldebaran que acabava de deixar o recinto. Ficara sabendo que o brasileiro estava ali havia apenas um mês e também estava aprendendo o idioma. Isso lhe parecia particularmente estranho, pois o taurino era expansivo e parecia se dar bem com todos, se não soubesse diria que cresceu ali, rodeado daquelas mesmas pessoas. Mas isso o animava, pois se em um mês Aldebaran parecia dominar o idioma o mesmo poderia ocorrer com ele.
Como de costume, Saga e Aioros ocupavam uma mesa, discutindo baixinho sobre algum assunto referente ao Santuário. Ainda sabia pouco sobre a hierarquia do lugar, mas entendeu que aqueles dois eram candidatos ao cargo de Shion. O Grande Mestre lhe esperava em uma mesa mais ao fundo, parecia distraído, distante. Camus apenas sentou a seu lado e depois pigarreou para chamar-lhe a atenção, recebendo logo um sorriso paterno.
A aula foi mais breve do que de costume, Shion não estava concentrado, e logo voltou ao dormitório. Quando chegou encontrou Milo sentado em sua cama com aquele mesmo sorriso e a expressão ansiosa. Havia sido assim a semana toda.
- Como foi hoje?
- Bem. – respondeu tirando a toga e colocando o calção com o qual dormia.
- Já podemos conversar? – perguntou olhando fixamente o outro garoto.
- Não sei. – respondeu com o sotaque carregado.
- Quer tentar? – disse pondo os pés no chão pronto para levantar-se.
- Oui. – respondeu assentindo e pegando o dicionário que Shion lhe dera.
Camus sentou em sua cama e folheou o livro em silêncio enquanto Milo se punha de pé e sentava ao lado dele. Como nos outros dias Milo lhe encheu de perguntas sobre como era sua vida antes, do que ele gostava, o que achava do Santuário e tantas outras coisas mais. O francês já estava até mesmo acostumado com aquela voz. Geralmente Camus não era capaz de responder, ainda que entendesse a pergunta, não tinha vocabulário para falar como queria. Então as tentativas de conversa eram frustradas por longos períodos de tempo em que Camus estava folheando o dicionário. Para a surpresa do grego, naquela noite foi ele que começou. E pela primeira vez o ruivo lhe fez uma pergunta.
- Por que olha tanto para mim?
Ele era tão adorável falando grego, ainda com os vícios de seu próprio idioma, a entonação amena, os lábios fazendo biquinho sem que sentisse, o leve ronronar ao pronunciar palavras com "r". Milo adorava vê-lo tentando falar, era divertido. Mas, de volta a pergunta, o loirinho coçou um pouco a cabeça ainda lhe encarando.
- Isso te irrita? – perguntou de volta lentamente, para que ele entendesse sem problemas.
- Oui.
Milo não pode evitar um riso rápido, não estava preparado para aquela dose de sinceridade. Então o irritava.
- Sim. – corrigiu-o – Vai ter que aprender a dizer "sim" uma hora. – repreendeu com o sorriso faceiro.
Longos segundos enquanto Camus folheava o dicionário, o francês suspirava pesadamente.
- Você não respondeu minha pergunta. – falou de forma mais natural do que antes.
- Porque você não vai conseguir entender minha resposta.
Camus o encarou durante um longo período de tempo, seus olhos trepidavam e era claro como água pura que ele estava irritado. O escorpiano mantinha um sorriso folgado com os lábios fechados, os olhos tinham um quê de deboche.
- Você não vai responder. – Camus disse bufando.
Milo riu e lhe deu palmadinhas nas costas doloridas como se quisesse consolá-lo, mas Camus se desfez do contato com um movimento de ombro. Pediu educadamente em francês que o loiro fosse para sua própria cama e suas mãos gesticularam de modo que o escorpiano entendesse. Milo assentiu rindo muito de leve da irritação do outro e lhe bagunçou os cabelos vermelhos, arrancando uma careta do ruivo, levantou e com o andar folgado foi até sua cama e deitou-se.
- Boa noite, Camus.
- Boa noite. – respondeu com uma nota de irritação na voz.
Mas era bem feito, ele pensara. Passaram-se dias, mas desde o primeiro momento ele já sabia, foi bobagem sua insistir em tentar dar-se bem com ele. Não havia nada que pudesse fazer, simplesmente não gostava de Milo.
~0~
Olá, meninas! Primeiro de tudo queria agradecer a reviews de vocês e me desculpar pela demora, mas neh? To de volta a vida real, responsabilidades e tudo mais (desculpas deslavadas xD) Vou tentar não demorar muito.
Espero que gostem do capítulo!
Beijinhos
V. Lolita
