A primeira rocha

Dois anos haviam se passado desde que chegara ao Santuário, desde o dia que vira Milo pela primeira vez e decidira que não gostava dele. Agora aquele lugar estava diferente, tinham realmente uma deusa encarnada para proteger, não era mais apenas a palavra do Grande Mestre e naquele dia finalmente aconteceu para Camus.

Ouvia o barulho da chuva de pedregulhos desabando sobre a arena, a poeira se alastrou em volta de onde estava a viga e lentamente se dissipou, a lembrança da primeira vez que vira algo assim lhe veio a mente como um raio, a sensação do suor frio, as pernas tremendo, o estomago embrulhado, a imagem de Aioros... Aquele era um dia ruim para se lembrar de Aioros, ainda estava muito recente.

O Santuário não era mais o mesmo. Mu havia partido havia algum tempo para viver recluso em Jamir. Shaka, era improvável vê-lo de outra forma que não meditando, mal o viam treinando, não que em algum momento ele tivesse sido uma pessoa sociável, sempre teve aquele ar de superioridade, mas agora passava pelas outras pessoas como se não estivessem lá. Deathmask se mostrou ser o tipo de pessoa com quem não se deve envolver, assim como o cavaleiro de Pisces, que Camus descobrira de forma tardia que também era um homem. Shura, bem... Shura acabara por se tornar o tipo de pessoa que não queria se envolver com ninguém, ele se isolou completamente depois do que aconteceu. Disseram que o mesmo aconteceu com Saga e que o cavaleiro de Gemini simplesmente sumiu. Aldebaran ficara meio perdido naquela reviravolta, por mais amigável que fosse, era fácil agora ver que ele estava mais duro, frio, mesmo que ainda fosse cheio de gentilezas. E ainda tinha Aiolia, como as coisas mudaram... Ao decorrer dos últimos dias vivia as farpas com Milo e a amizade dos dois ruiu tal qual a viga que acabara de destruir. Tudo isso por Aioros, por isso não queria pensar nele, pois Aioros, o traidor, estava morto.

Balançou a cabeça tentando afastar todos aqueles pensamentos de si. Quando a poeira enfim baixou pode ver a imagem do loiro se formando do outro lado, Milo lhe olhava sorrindo, apoiando-se nos joelhos, ofegando. Tantas coisas mudaram, mas ele permaneceu o mesmo. Ao menos consigo, ainda com aqueles olhos azuis sobre si, ainda analisando, ainda sorrindo faceiro.

- Você quase me mata. – disse fazendo esforço pra soltar o riso.

De fato, se ele o tivesse atingido... Camus fitou o próprio punho ensangüentado, era sua primeira rocha, claro que não ia sair impune, olhou de volta para o escorpiano e só então ponderou, se o tivesse atingido...

Milo andou em sua direção, não tinha mais o andar militar o que queria dizer que tinha dado o treino por encerrado. Pois agora era assim, acabava quando eles dissessem que bastava, não havia ninguém para fiscalizar os aspirantes a santos de ouro.

- Deixa ver isso. – segurou Camus pelo pulso sem o mínimo sinal de delicadeza, o ruivo fez uma careta leve – Está bem feio, hein?

- Oui. – respondeu tentando livrar a mão do aperto do outro.

- Vem, vamos à enfermaria. – disse segurando mão sã do francês com todo cuidado e conduzindo-o.

- Posso ir sozinho, Milo. – disse-lhe mesmo sabendo que seria inútil.

Era assim toda vez que se feria, desde o primeiro dia de treino quando passara mal, Milo tomou para si a responsabilidade por qualquer coisa que acontecesse com o ruivo. Camus já havia discutido com ele sobre a estranheza de ficarem andando por aí de mãos dadas, mas o escorpiano se fazia de surdo.

Milo sentou-se em uma cadeira e ficou observando enquanto um soldado raso limpava e enfaixava a mão ferida do francês. Ele tinha um ar folgado, um sorriso de lábios fechados, estava com o rosto praticamente deitado nas costas da mão e aqueles olhos estupidamente azuis continuavam analisando cada pequena reação do rosto sóbrio da outra criança. Camus sempre fora ranzinza, o loiro riu do próprio pensamento.

Logo saíram, a mão ferida presa em uma tala e muito bem enfaixada, já era tarde, vários aprendizes voltavam de seus treinos e ficavam a jogar conversa fora na frente do alojamento, o que fez com que Camus fosse diretamente na direção oposta. Sim, muitas coisas mudaram, mas ele ainda odiava multidões. Milo não pensou duas vezes antes de segui-lo.

- Não pode me deixar só por um minuto sequer? – perguntou com o timbre de voz controlado, vendo o escorpiano alcançá-lo.

- Posso, mas... - Milo olhava para frente, para algum ponto indistinto, essa foi uma das poucas ocasiões que Camus não teve aqueles olhos azuis sobre si e ele detestou isso – Eu não quero ficar só. Então vou com você! – disse sorrindo, só então Camus percebeu que Milo não estava fazendo aquilo antes.

- E por que sempre eu, Milo? – perguntou agora prestando muita atenção no loiro.

- E por que não você?

Camus ficou em silêncio um momento, viu ao longe no coliseu Aiolia chutando os pedregulhos da rocha que ele havia destruído mais cedo, ao seu lado Aldebaran tentava falar qualquer coisa e Camus quase podia ouvir as respostas agressivas do leonino. O taurino balançava lentamente a cabeça enquanto observava Aiolia ainda a chutar pedras. Em algum momento, Aldebaran avistou os outros dois garotos ao longe e fez um aceno caloroso como era de costume. Camus fez apenas um movimento de cabeça, discreto como sempre e Milo estava prestes a acenar de volta quando seu olhar cruzou com o de Aiolia, que queria ver com quem o brasileiro estava falando.

Nesse momento gestos ficaram suspensos no ar e palavras presas na garganta. Aiolia bufou e saiu andando apressadamente para algum lugar, Aldebaran se despediu rápido e foi atrás dele. Milo que andava de forma folgada, voltara a sua postura militar e apressou o passo sem motivo aparente. Então ficou claro para Camus, claro que o loiro não respondera sua pergunta adequadamente. Sentiu-se desconfortavelmente condescendente. O motivo de ser sempre ele é que, para Milo, não havia mais ninguém. Ficaria ao lado de Milo ainda que já soubesse desde o primeiro dia que não gostava dele.

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Olá, meninas!

Passando rapidinho pra deixar um caps, já tava demorando demais.

Beijinhos a todas!