Primeira Agulha

Cavaleiros de ouro aos onze anos. Uma responsabilidade muito pesada para por nas costas de um garoto, assim como a armadura. Estavam em missão, sua primeira missão pelo Santuário. Na verdade, aquela era uma missão para Milo e só para ele, mas o loiro insistiu tanto que o cavaleiro de Aquarius acabou indo junto. Estavam caminhando há dias e Milo sempre dizia que estavam perto de seu destino, mas Camus começou a suspeitar que haviam se perdido e o loiro não queria admitir. Quando menos esperava, chegaram ao local procurado. Parecia uma cidade fantasma, não se via um único morador, em algum lugar distante um cachorro latia e a noite começava a cair.

- Vamos procurar um lugar pra dormir. – disse o escorpiano ignorando o ambiente sombrio.

- Você não me disse qual era a missão.

- Não se preocupe com isso. – desconversou gesticulando com o já conhecido sorriso faceiro.

Como não se preocupar? Camus suspirou discretamente e olhava em volta, podia sentir a presença de pessoas em cada casa. A sensação era igual tem todas as residências, pessoas amontoadas em algum lugar, unidas e era fácil perceber o medo em seus corações. Ainda assim Milo andava despreocupadamente pela rua, buscando alguma placa de hotel.

Um assobio cortou o silêncio da noite e os dois jovens cavaleiros desviaram, cada um para um lado, de várias estacas que fincaram forte no chão de terra. Pareciam ser feitas de mármore negro e se dissiparam em fumaça em menos de um segundo. Uma voz grave pode ser ouvida muito acima de suas cabeças.

- Eu lhes peço uma bela virgem e o que me mandam são dois molecotes sem sal! – ele gritava enquanto atacava o telhado de uma casa – É assim que adoram o seu deus? – disse fazendo menção de atacar outro telhado, mas parando surpreso ao ver um dos garotos parado sobre as telhas.

- Então é isso? – Milo lhe olhava, sério, impassível, um soldado cumprindo ordens – Aprendeu um ou dois golpes usando o cosmo e já se acha digno de ser chamado de deus?

- Caí fora, pirralho! Antes que eu decida te esfolar. – gritou o homem de volta, fazendo estacas aparecerem no ar em volta dele.

- Eu sou Milo de Scorpius e é minha missão livrar o povo dessa cidade de sua tirania. – dizendo isso a caixa da armadura se abriu e as peças douradas encaixaram-se ao corpo dele – Serei seu adversário, falso deus.

Camus ficara impassível no meio da rua. Olhava para Milo, a postura, a firmeza da voz que mal começara a ficar grave, a armadura que parecia grande demais para seu corpo de menino, o peitoral de ouro indo além do tórax magro do garoto. Sim, era agradável olhar para ele assim. Milo sempre fora um aprendiz excepcional, aplicado, sério, completamente fiel ao Santuário. Ali, naquela armadura ele envelhecera uns dez anos, aquele pobre homem não sabia o que estava prestes a enfrentar. Então Camus ponderou sobre si mesmo, ele pareceria assim vestido em sua armadura? Inspiraria aquela confiança? Seria digno do respeito de seu adversário?

A luta começou e o falso deus fez seu primeiro movimento, atacou Milo com as estacas que já estavam prontas, mas as mesmas se desfizeram em poeira no ar com um rápido movimento da mão do escorpiano. No segundo seguinte, Camus mal pode acompanhar, apenas viu o homem despencar do telhado, onde agora estava Milo com sua mão tingida de carmim e a agulha a despontar na unha.

- Agora você entende. – Milo saltou ficando de frente ao homem que sentia tanta dor que mal podia gritar, a "luta" havia acabado sem nem ter começado direito, Milo era muito superior – Esse poder nos é dado para proteger e nenhum humano deve se proclamar deus. Este é o castigo por seu orgulho tolo. – dizendo isso se ajoelhou próximo ao homem.

- Milo...

Camus o chamou, mas não tinha a atenção do loiro, não a conseguiria de forma alguma, agora ele estava no exercício do dever, sua postura militar não permitiria distrações, mesmo que fosse a voz que mais apreciava no mundo. O ruivo sentiu as mãos suarem, aquela estranha sensação de náusea voltou a lhe abater depois de anos completamente são, ele sabia o que ia acontecer. Havia visto o crime, ouvido a sentença e agora o próximo passo era a execução.

- Antares!

Um grito soou alto e cessou. O sangue formou rapidamente uma poça aos pés dourados de Milo. Ele se levantava lentamente e Camus podia ouvir com clareza exacerbada cada gota escarlate pingar de sua mão. Mais uma vez sentiu suor frio descendo pelo rosto, mas não havia nada. A armadura deixou o corpo do garoto e voltou para a caixa. Milo tinha os olhos azuis fixos em si e a linguagem não verbal do loiro era tão fácil de entender. Agora entendia porque estava ali. Se Camus estava perturbado por presenciar a morte pela primeira vez, podia imaginar perfeitamente qual a sensação do escorpiano ao ser o carrasco. Tinha que lhe falar algo, ele suplicava com os olhos para que dissesse algo.

Não teve tempo, algumas pessoas saíram das casas e correram até o loiro, lhe agradecendo e aclamando. Ele sorriu, um sorriso aberto e completamente falso, seus dedos ainda estavam sujos de sangue o que lhe deixava visivelmente incomodado e seus olhos buscavam a toda hora pela frase não dita do francês, que se manteve a distância. Camus não apreciava multidões.

Eles lhes ofereceram um jantar farto, que aceitaram prontamente, alguns dias na estrada haviam deixado-os famintos. Ouviam os mais velhos comentando suas idades, mas permaneciam seguros, passando a confiança que aquela gente precisava ver. Um hotel da cidade lhes ofertou os dois melhores quartos, mas Milo pediu que fosse um apenas, sobre a máscara da humildade de um santo. Mas Camus sabia, ele apenas não queria ficar sozinho.

Camus colocava a caixa da armadura junto à cama e tirava a camisa e os sapatos, se preparando para dormir. O escorpiano estava no batente da porta, ainda agradecendo aos anfitriões com simpatia forçada, tão logo a porta fechou seu sorriso morreu. Camus estava parado de pé em frente a sua cama, de costas para Milo e de novo sua boca secou. Não sabia o que lhe dizer. Estava pronto para virar-se para ao menos encará-lo quando sentiu os braços do loiro lhe envolvendo o corpo. Ele escondia o rosto em seu ombro e Camus não mexeu um músculo sequer.

- Milo. – apenas disse seu nome e pode sentir um suspiro rente pele das costas.

- Eu estou bem, Camus. – era mentira, ele sabia.

O silêncio reinou por minutos, o abraço de Milo não era apertado, o mínimo movimento do ruivo desfaria o enlace, mas ele não quis fazê-lo. Dentre todas as coisas que o deixavam desconfortável - e eram muitas - ser abraçado estava no topo da lista. Mas os braços de Milo não o incomodavam de forma alguma, talvez porque pensasse que se o deixasse abraçá-lo, não precisaria dizer mais nada sobre o ocorrido. E não queria dizer. Sentiu Milo se mexendo, o cabelo cacheado e fino lhe fez cócegas no ombro e a voz dele saiu como um sussurro.

– Apenas diga que ainda gosta de mim.

- Nada que você faça vai mudar o que eu sinto, Milo.

Ouviu o riso leve e nervoso do loiro, o sentiu assentir e depois os braços dele se desprenderam de seu corpo lentamente. Camus suspirou de alívio, enchendo os pulmões o máximo que pode. Deitou-se rápido e virou de costas para ele. A frase que saiu era sincera, mas não completamente, ela saiu para substituir a outra que veio até a garganta e ficou presa em um nó formado ali: "Milo, eu nunca gostei de você", ele não poderia dizer.