Primeira Lágrima

Sobre o santo de Aquarius se sabia pouco. Ele era discreto, reservado, passava muito mais tempo em sua biblioteca particular do que na arena. Ninguém seria capaz de precisar quando isso começou a acontecer, Camus nunca fora o garoto mais sociável do mundo, mas com o tempo ele se isolou ainda mais. Sua face não expressava mais emoção alguma, os sorrisos já suficientemente difíceis se tornaram raros. Ninguém poderia dizer quando ele decidira ficar assim, mas Milo tinha uma ideia vaga de como fora. O ruivo sempre foi ranzinza, não era segredo, mas lembrava-se de estar em sua companhia quando ele recebeu sua primeira ordem de selo preto, ordem de execução.

- Irei com você. – falou pondo a mão no ombro do ruivo.

- Non. – ele respondeu com firmeza.

Milo insistiu, e Camus sabia que ele iria mesmo sem ter permissão, então partiu pela manhã, passando pela casa de Scorpius sem acordá-lo e tudo o que o loiro pode fazer foi esperar seu retorno. O aquariano estava de volta ao final do segundo dia e parara em frente à entrada do templo de Milo. Chovia, já começava a escurecer, mas Camus não moveu um músculo sequer, aqueles olhos azuis haviam erguido uma barreira sólida, e o ruivo não a atravessaria até que ele lhe analisasse por completo e decidisse que estava tudo bem.

- Você está bem? – disse em um sussurro rouco.

- Oui.

O loiro gastou mais alguns minutos olhando-o de cima a baixo, antes de decidir que era verdade. E não havia verdade mais genuína do que aquela. Camus teve aquela horrível sensação ao presenciar a primeira execução do escorpiano, mas quando foi sua vez de fazê-lo não sentiu absolutamente nada além da forte ciência do poder de seu cosmo. Não lamentou pela vida que tirou, não derramou uma única gota de sangue, não ficou tempo suficiente para ser aclamado, apenas o fez e saiu. Continuou subindo as escadas e quando passou por Milo ouviu um murmuro morrendo em seus lábios.

- Você está diferente. – ele lhe disse, mas Camus não deu atenção.

E a cada vez que voltava de uma execução ouvia aquela mesma frase, até que um dia ele não a disse mais. Apenas o recebia com o sorriso faceiro e lhe chamava para comer algo, ou beber ciente da constante recusa do francês e isso incomodou a Camus. Milo não mais o olhava como antes, com os olhos analíticos e fixos, na verdade sempre os desviava para algum lugar. Qualquer imagem era mais digna daquele azul que o deixava tonto do que sua própria. E ele detestou isso.

Talvez fosse sua frieza que Milo não suportasse mais. Camus costumava lhe afastar, dar-lhe tocos, reclamar, mas depois de um tempo passou a ignorá-lo por completo, nada parecia tirar o santo de Aquarius de sua paz fria. Ou pelo menos era assim que pensavam até aquele dia.

Camus só conseguia ouvir o som de sua respiração alterada e do seu coração batendo contra o ouro da armadura. Seus olhos queriam falhar, podia sentir tudo escurecer e iluminar-se apenas por sua própria teimosia em manter-se acordado. Nenhuma sensação era mais forte do que o vento frio no rosto, o ofegar quente no pescoço e nenhum cheiro superava a essência metálica que lhe subia as narinas. Cheiro de sangue. Do sangue de Milo.

O cenário era frio. Em plena selva africana podia-se ver o tapete branco a cobrir todo e qualquer resquício de verde. Nevava, a batalha findou, mas ainda nevava, porque o frio era um assassino natural e se seu mestre não estava em condições de cessá-lo ele iria matar até que não sobrasse nada. Camus não conseguia mais comandar seu cosmo, sentia apenas o poder queimar como gelo em seu corpo, se manifestando de forma indistinta porque ele não conseguia se controlar quando mais precisava.

A náusea conhecida nunca foi tão forte, tentava fazê-lo desmaiar a cada segundo, mas ele não podia fazer isso, não iria. Respirava fundo e tentava usar as propriedades curativas do cosmo. Falhava.

- Respire, seu idiota! – gritava rouco.

Eles haviam recebido uma missão. O selo negro, mas dessa vez era diferente, não se tratava de uma execução, mas sim de um massacre. Uma aldeia inteira. Milo estava relutante, mas como o perfeito soldado que era apenas acatou a ordem, era uma ordem do Santuário afinal de contas. Eles haviam partido naquela mesma manhã, Camus com o mesmo rosto inexpressivo e Milo sorrindo faceiro, tentando transparecer uma confiança que já não tinha. E aquele era o problema, ele hesitou.

A cena se passava repetidamente em sua cabeça. Milo prestes a dar o golpe de misericórdia, mas pára diante de uma súplica do homem e sua armadura é atravessava como se fosse feita de papel por uma lâmina de marfim. Outro homem sai de trás dele sorrindo. Milo cai de joelhos, o corpo ferido não consegue mais sustentar a armadura e um escorpião dourado surge no cenário. Os olhos azuis fixos em si por um momento, para depois fecharem tranquilamente como se tivessem ido dormir. Daí em diante, tudo foi um borrão, frio, neve, a morte branca chegando para todos os inimigos e ele estava ali, de joelhos diante de um Milo que quase não conseguia respirar. Segurando o garoto gelado junto ao calor irônico de seu próprio corpo.

O desespero fazia de si um inútil, não conseguia curá-lo, tudo o que fez foi matar, sem pensar, sem hesitar, sem misericórdia alguma. E agora estava impotente diante de Milo e iria falhar na única vez que não podia. A respiração do loiro era entrecortada e o coração dele parou de bater. Por um segundo, Camus perdeu o chão, por um segundo apenas, o seu coração também parou. Seu cosmo explodiu de um jeito diferente, curou as feridas de Milo o melhor que pode e esquecendo completamente de qualquer habilidade mais sofisticada que aprendera em sua biblioteca, apenas socou o peito do escorpiano com força sobre o coração parado. Uma vez e outra e de novo, e quantas vezes foram necessárias para então vê-lo puxar o ar para dentro dos pulmões e vomitar uma quantidade considerável de sangue.

O peito dele arfou em sincronia com o seu. O frio se dissipava em uma brisa cálida, avisando que não mataria mais ninguém. Camus não mexeu um músculo, apenas observou o escorpiano tossir e mover-se vivo. Levou uma mão a face sentindo-se finalmente aliviado e então seus dedos tocaram algo estranho para si. Sal e água desciam por seus olhos. Estivera chorando o tempo todo? Por Milo? Chorava por Milo? O seu olhar perplexo parecia interrogar a própria mão, quando foi tirado dos seus pensamentos pela voz dele.

- Camus. – ele lhe chamava, sentando no chão ainda ofegante – Você está bem?

O francês dirigiu um olhar inquisidor a Milo, o loiro estava coberto do próprio sangue, com uma ferida mal curada no peito, mal conseguindo encher os pulmões de ar, vomitando as últimas moléculas de hemoglobina de seu corpo e olhava para si perguntando se estava bem? Ele estava inteiro! O que aquele idiota queria dizer afinal? Viu Milo engatinhar para perto de si e abraçá-lo sem conseguir ter reação nenhuma. Apenas ficou parado, como daquela outra vez, mas... Mas foi diferente, diferente porque dessa vez ele queria abraçar o escorpiano, queria tanto que se surpreendeu com o quão difícil foi não ceder a essa vontade.

Foi a pressão, só podia ser, o estresse estava mexendo com seu julgamento. Milo o soltou e sentou a sua frente agradecendo com o já conhecido sorriso, com os olhos azuis fixos em si. "Racional, Camus", ele repetia mentalmente para si mesmo, mas era inútil.

- Eu não gosto de você. – se ouviu falando aquela verdade antiga, quase como se quisesse se lembrar disso.

- Gosta sim. – disse ele quase rindo do outro - Querendo ou não.

Camus não teve reação, apenas encarou aqueles olhos e o sorriso faceiro manchado de sangue, não se moveu um centímetro sequer quando ele estendeu a mão para secar as lágrimas em seu rosto. Ele gostava de Milo, e não sabia dizer a quanto tempo aquilo era verdade.

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Olá, leitores queridos!

Esqueci completamente de deixar meu recadinho insignificante no capítulo anterior, mas neh? Acontece =P Bem, bem, já avançamos bastante, agora só tenho o espaço de um ano pra brincar, já que aos quatorze Camus vai embora pra Sibéria treinar o nosso querido patinho. Isso significa que não vai ter muitos outros capítulos, mas prometo que vou tentar (hard) dar um final descente a essa fic, estou adorando escrevê-la de coração!

Agradeço a todos que estão acompanhando e agradeço mas ainda pelas reviews! ;}

Beijinhos,

V. Lolita