Primeiro Toque

Ele quase morreu. Camus pensava nisso a toda hora quando ficava sozinho. E gostava dele, esse era seu pensamento constante quando estava com Milo. De certa forma, o que havia acontecido na África havia posto as coisas de volta no lugar, o que significava que os olhos de Milo estavam de novo fixos em si. É claro que nem tudo havia mudado, Camus continuava passando muito tempo na biblioteca, mas agora não mais sozinho. Podia ver o semblante entediado do escorpiano enquanto ele passava as páginas de um jeito plácido e vez ou outra o ruivo se perdia de sua leitura.

Saber que gostava dele era perturbador, Milo não era de forma alguma compatível com sua personalidade, a exceção do senso de responsabilidade não tinham nada em comum. Enquanto Camus ficava cada vez mais sério e inexpressivo o escorpiano tinha aqueles sorrisos comuns, o jeito debochado que se mostrava cada vez mais enquanto ele caminhava para a fase adulta e as brigas com um certo leonino já faziam parte de sua rotina. O encarava e pensava em que tipo de homem Milo viria a ser, observava seus traços, o rosto ficava mais forte a cada ano, e, ainda que a armadura fosse grande para seu corpo, ela agora parecia se encaixar melhor, como se completasse o tamanho que ainda faltava ao garoto. Observava os cabelos que ganharam uma tonalidade mais escura com o tempo, mais dourada e a única coisa que nunca mudou nele, os olhos azuis, analíticos, aqueles olhos que sempre o deixavam tonto e que percebeu, com certo atraso, que agora estavam encravados nos seus.

- Estou mais interessante que seu livro hoje? – perguntou abrindo um sorriso debochado.

- Só estava pensando. – disse desviando os olhos de volta para o livro, sentindo-se estúpido por ter sido pego tão distraído.

- Em que? – perguntou indo colocar o livro que fingia ler de volta no lugar.

- Nada demais.

- Sei. – sorriu faceiro parando atrás de Camus, que estava sentado em uma poltrona.

Por um longo momento Milo apenas permaneceu ali, próximo, pousou as mãos discretamente no encosto, aproximando-se ainda mais e olhando curioso para o texto nas mãos do amigo. Camus estava ciente de sua curiosidade e deu um meio sorriso, Milo ainda era criança em muitos aspectos.

- Está em francês.

- Eu percebi. – o escorpiano fez beiço por um segundo, mas logo voltou ao sorriso. – Bem, eu estou indo. – afagou os cabelos de Camus, bagunçando para ter certeza de irritá-lo – Até mais.

Disse ainda tocando os fios e deixou que uma mecha maior apenas escorregasse lentamente entre seus dedos enquanto se afastava, o ato que fez o ruivo regozijar em silêncio e então voltar seu olhar para o escorpiano que deixava a biblioteca. Encarou as costas e seu andar folgado e enfim a madeira da porta quando ele finalmente saiu, fechando-a sem fazer ruído.

A mente estava muito distante de seus olhos, ele pensava no passado, nos anos em que estivera no Santuário, na companhia do loiro e tentou lembrar-se, mas não conseguiu. Não podia ter certeza se Milo alguma vez já tinha tocado seu cabelo assim, talvez apenas não o tivesse percebido.

Nos dias que se seguiram ficou mais claro que quase não conseguia se lembrar do Milo que acreditava não gostar, como se o rapaz que o acompanhava a quase todo lugar fosse outro, a exceção dos olhos e talvez do sorriso, nada mais conseguia recordar dele. Não sabia se ele já tinha o costume de lhe tocar tanto, não sabia se era comum encontrá-lo lhe observando de longe, ou se seu riso sempre foi agradável assim aos ouvidos. Era estranho como tudo nele lhe chamava mais atenção do que antes, talvez agora que sabia, estivesse apreciando mais as nuances do escorpiano.

Naquela noite voltava de uma missão, fora surpreendido no caminho de volta por novos inimigos, e já esgotado da batalha anterior acabou ferido, venceu, claro, Camus ainda não tinha encontrado oponentes a altura fora do Santuário, mas ainda assim os degraus das doze casas ficavam manchados de sangue enquanto ele subia, tirando forças sabe-se lá de onde para continuar a andar. A mão direita pressionava o ferimento aberto sobre o abdômen que não conseguira curar por conta do cansaço. A cada leva de escadas seu templo parecia mais distante, sentia que cairia a qualquer momento, mas isso não significa que seu andar estava menos elegante. A capa da armadura lhe cobria o ombro e a ferida, quem o visse de longe jamais imaginaria a dor que estava sentido. Seus passos vacilavam, não sentia mais a pedra sobre os pés, o gosto de sangue voltava à boca, e seus olhos falhavam, sentiu o corpo tremer de fraqueza e então o tropeço que o levaria direto ao chão. Camus sorriu amargo, esperava pelo menos poder cair em casa.

Aguardou o impacto que não veio, em vez disso o frio da madrugada se dissipava quando seu rosto encontrou conforto na pele quente. Não precisou de nada além de um leve inspirar para saber quem era aquele que o ajudava, Milo era inconfundível. Lutou para manter os olhos abertos enquanto ele passava seu braço sobre o ombro lhe ajudando a caminhar, viu então o templo de escorpião a poucos passos dali, mais uma vez sentiu um amargor, pelo esforço que tinha feito esperava estar mais perto de casa. Seus olhos falharam de vez e antes de cruzar a entrada do templo ficou inconsciente.

Sentiu que tinha dormido por horas quando na verdade apenas alguns minutos se passaram, a madrugada ainda reinava e seu frio parecia cada vez mais intenso nas mãos e pés. Deu-se conta de que havia perdido sangue demais. Estava sentado em uma cadeira na cozinha, olhava em volta tentando reconhecer o ambiente quando enfim se deparou com Milo segurando uma caixa de madeira. Ele ajoelhou-se a seu lado e passou um pano úmido que queimou sobre a ferida. Ele usava apenas um short e estava com o rosto levemente inchado, deveria estar dormindo. Então, isso, entre todas as coisas que não percebia em Milo antes, o deixou desnorteado, nunca havia reparado, mas não importava a hora que chegasse, sempre encontrava o escorpiano de pé na entrada de sua casa, sempre o esperando.

Ele percebeu que tinha acordado e lhe dirigiu um sorriso forçado, continuando a limpar a ferida. Camus o observou por um momento e ignorou cada onda de dor que se espalhava pelo corpo, o loiro pegou uma agulha e começou a fechar-lhe o corte observando o semblante do ruivo a cada ponto que dava, inseguro. Sua mão parecia tão pesada quanto um elefante, mas mesmo assim Camus a levantou levando à cabeça do outro e pousando sobre os cachos loiros. O escorpiano o olhou confuso, se distraindo de sua tarefa.

- Você não perguntou. – sua voz saiu mais fraca do que pretendia.

- O que? – disse sentindo a mão dele escorregar pelos cabelos e agarrá-los antes de chegar ao ombro.

- Se eu estava bem. – disse dando um meio sorriso.

- A resposta é bem óbvia, não é? – deu um riso rápido, mas logo ficou sisudo de novo e voltou a sua tarefa – Em que estava pensando, Camus? Devia ter parado para curar isso antes de voltar para casa, tem ideia de quanto sangue perdeu? – sua voz era baixa e carregada de preocupação sincera.

O francês não respondeu, apenas brincou com os cachos de Milo entre os dedos, como se estivesse estudando a textura. Estava tão absorto que não sentiu nenhuma dor a cada picada da agulha. A força retornava a si gradativamente, mas ainda se sentia cansado. O escorpiano terminou o que fazia e sentou no chão, descansando a testa na perna do outro apenas apreciando o afago. De repente os dedos pararam de se mover, Camus havia se dado conta do que estava fazendo. Nunca antes havia tocado Milo assim, pensou então no motivo de estar fazendo, talvez fosse uma mera retribuição pelo que ocorreu na biblioteca dias atrás, cogitou. Mas a verdade, ele sabia, é que isso nem passara por sua cabeça, apenas sentira vontade de tocá-lo e tão exausto estava, nem sequer pensara em reprimir o desejo como fizera na África quando ele o abraçou.

Milo sentiu a mão dele parada e levantou rapidamente a cabeça para verificar se ele havia desfalecido de novo, mas sorriu ao vê-lo ainda de olhos abertos.

- Você está cansado. – disse se levantando lentamente e lhe oferecendo uma mão – Vem, vou te levar pra cama.

Por um momento Camus olhou para sua mão, e levantou da cadeira sem pegá-la, ainda sentia-se fraco, mas podia andar sozinho. O loiro sorriu, seus dedos encontraram os de Camus mesmo sem seu consentimento e delicadamente o conduziu até o quarto. O ruivo olhou para as mãos juntas com certa estranheza, mas logo se lembrou, isso era normal, era assim toda vez que se feria. Seus dedos se fecharam nos de Milo o que fez o escorpiano olhar para trás um pouco surpreso, mas logo sorriu.

- Não está me levando para o meu templo.

- Você está louco? Vai dormir aqui hoje. A última coisa de que precisa é de mais escadas.

Entraram no quarto do escorpiano que era perfeitamente arrumado, Milo soltou de sua mão e puxou o cobertor dando-lhe espaço para que se deitasse. O ruivo estava cansado demais para discutir, apenas fez o que lhe era proposto e sentiu a ferida arder quando o lençol a tocou.

- Boa noite. – ele disse se retirando.

Por um breve momento Camus sofreu um conflito interno, ele não queria que Milo saísse, mas algo, provavelmente seu orgulho, lhe dizia que não pedir para que ficasse. A cama dele era grande, não via motivo para que o deixasse sozinho, mas no que estava pensando afinal? Quando começara a prezar tanto pela presença de Milo? Mais uma vez se encontrou cansado demais para contrariar seus desejos. A mão dele quase não alcançou a de Milo, que já se afastava, se tivesse pensado um pouco mais o braço faria uma curva livre no ar sem conseguir contê-lo. Seus dedos só conseguiram segurar o mindinho, mas foi o suficiente para chamar a atenção dele.

- Você não precisa sair. – os olhos azuis demonstravam surpresa e Camus sentiu uma ponta de arrependimento assim que proferiu a última palavra.

- Você tem que descansar. – ele disse a contra gosto.

- Eu quero que você fique.

Agora sim, estava arrependido por completo, questionou-se milhões de vezes o que diabos estava fazendo. Milo continuava estático, os dedos ainda se tocavam e ele lhe encarava com aqueles olhos azuis, como se o ruivo precisasse de mais alguma coisa que o deixasse tonto naquele estado. O loiro desfez o enlace de mãos e por mais alguns segundos apenas o encarou, depois deu a volta na cama e deitou-se ao lado de Camus, apoiando o cotovelo no colchão e a cabeça no punho. O ruivo não o olhava, sentia-se estúpido, perdido e irremediavelmente arrependido, estava desconfortável e pediria que ele saísse se isso não o fizesse parecer completamente instável.

- Você está diferente. – o ouviu quase sussurrar e a voz o fez sentir um arrepio longo.

Fazia muito tempo que não ouvia essa frase e dessa vez não pode ignorá-la. Olhou para Milo e o viu sério, mais analítico do que nunca, os olhos semicerrados, mas atentos às nuances de seu rosto. E de novo Camus se sentiu fraco demais para resistir a seus desejos, sua mão moveu-se lentamente e mais uma vez se prendeu aos fios loiros que figuravam entre o ombro e o pescoço, vez ou outra arrastando os dedos em seu maxilar. Tentava a todo custo lembrar-se se sempre tivera vontade de tocá-lo assim e então se deu conta de algo muito curioso e perturbador: Tinha mais desejos em relação à Milo do que imaginava.

Sentiu as bochechas corarem de imediato, tirou a mão do cabelo dele e endireitou-se para descansar, o escorpiano fez o mesmo, mas continuou a analisá-lo com os olhos indecentemente azuis, não tinha pretensão de dormir. E naquela noite, enquanto Camus fracassava em pegar no sono, aquela verdade antiga se mostrou mais genuína do que nunca, fora poucos dias enganado por sua vontade, bem poucos, mas parecia que o pensamento lhe voltava com a força de um titã. Ele realmente não gostava de Milo e temia dar um nome àquilo que sentia.

~0~

Olááá! ^^

Bem, eu nem pretendia postar esse agora, mas neh? Não resisti! Pra vcs verem... são 1:11 da manhã, estava fazendo um trabalho pra facul e me deu uma vontade louca de postar hauahauah Bem, bem, acabou o suspense, sim, será um romance! Estou muito romântica ultimamente, domingo foi meu aniversario de três anos de namoro e foi nesse clima assim que escrevi esse capítulo, aí não deu outra!

Obrigada, pelas reviews, vocês são uns amores ;)

Beijinhos,

V. Lolita