Primeiro Gole
Camus despertava muito lentamente, seus olhos ainda fechados tomavam consciência do Sol brilhando pela janela e escapando aos poucos da letargia percebeu que estava tarde demais para pegar o treino da manhã, então apenas moveu ligeiramente o corpo, pronto para dormir algumas horas mais. Foi um movimento sutil, mas suficiente para que se desse conta do leve peso sobre o peito e ainda de olhos fechados percebeu um odor característico no ar, um cheiro muito conhecido seu, que havia aprendido a apreciar.
- Milo. – murmurou dando nome a fragrância.
- Humm? – a resposta inesperada soou rouca e preguiçosa.
Os olhos de Camus se abriram de súbito machucando a pupila, correram nervosos pelo quarto, estranhando-o e lentamente se voltaram para o lado, reconhecendo a face do loiro ressonando pacificamente. As memórias da noite anterior apareceram em flashs rápidos e Camus suspirou profundamente percebendo que o peso que sentira antes era o braço de Milo sobre si. Olhou novamente para o escorpiano, o viu espalhado na cama de uma forma que deixaria um velho com dor na coluna só de olhar e seu braço jazia perdido sobre o corpo do outro. Um sorriso se precipitou em seus lábios. Ele não mudara em quase nada. Sempre, desde criança, dormia assim, esparramado no colchão como se tentasse ocupar o espaço todo se desdobrando como podia.
O francês suspirou novamente e sentiu o corpo pesado quando fez uma mera menção de se levantar. Antes de realmente se mover o braço sobre si o forçou de volta para o conforto do leito. Fitou o escorpiano que tinha apenas um olho aberto e lhe encarava duramente.
- Descanse. – disse dando leves batidinhas no peito do outro.
Talvez aquele braço não estivesse tão perdido assim, cogitou o ruivo. Sentiu a mão dele mover-se em um carinho leve, enquanto era alvo de seu olhar atento. Camus podia entender com clareza, a linguagem não verbal de Milo era tão, mas tão fácil... Ele estava fazendo um teste, queria saber se era permitido, se podia tocá-lo assim. O francês nunca o deixara avançar muito nesse sentido, sempre manteve uma distância que considerava adequada, então a noite anterior com certeza tinha sido uma grata surpresa para o escorpiano, mas ele entedia que isso podia muito bem não durar. Por algum tempo Camus não respondeu, apenas o olhou de volta e diferente de Milo, sua expressão era sempre uma incógnita. Isso não estava certo, ele pensava, mas parecia certo. Ele desviou os orbes para algum ponto perdido no teto, incapaz de decidir o que fazer, a escolha racional era afastá-lo como de costume, mas não era o que queria.
Sentiu o carinho cessar e o peso aliviar enquanto a mão dele recuava, Milo entendera seu silêncio como uma negativa, óbvio. Mas, surpreendendo ambos os garotos, Camus segurou seu pulso agilmente, um movimento rápido, singular, rude, como se estivesse se defendendo de um golpe fatal. O francês agiu por puro instinto. Corou instantaneamente, mas manteve-se sério, já estava feito de qualquer maneira, depois de uns poucos segundos puxou a mão dele de volta colocando no lugar que estava e mantendo a sua sobre a dele por um momento. Não olhou para Milo, ciente de suas faces coradas e do provável sorriso no rosto dele. Apenas fechou os olhos como se fosse voltar a dormir. Mas não poderia pegar no sono, estava agitado demais, perguntava-se o que estava fazendo, e a resposta era tão perturbadora que não queria acatá-la: Ele não estava fazendo nada além de sua própria vontade. Seu coração palpitava com a constatação e então ele tremeu, com a mão onde estava Milo poderia sentir cada latejar em seu peito. Seus olhos semicerraram lentamente e fitaram o loiro ao seu lado, o rosto dele enfiado no travesseiro, pronto para voltar a dormir e um sorriso leve a ocupar os lábios. Camus suspirou resignado, o escorpiano agora sabia e ele não teria como negar.
O ruivo acordou horas depois, o céu começava a escurecer e estava sozinho na cama. Suspirou em alivio, não saberia mais agir com Milo, já era ruim o bastante para ele que estivesse de fato ocorrendo, agora que o outro sabia temia que a situação ficasse insustentável. Levantou da cama lentamente e andou calmamente até o banheiro inibindo a vontade de se espreguiçar, deveria verificar seu ferimento antes. Tirou a bandagem cautelosamente estranhando a ausência de dor, quando terminou viu a pele lisa com uma marca avermelhada onde antes tinha um corte profundo. Ele deveria ter tratado de si enquanto dormia. Tomou um banho rápido e vestiu as roupas manchadas de sangue da noite anterior, estava pronto para ir embora quando quase esbarrou com Milo.
- Onde pensa que vai? – o escorpiano lhe sorria, tinha um brilho diferente no seu olhar.
- Minha casa. – respondeu não gostando nada da expressão do outro, aquele sorriso arteiro ia lhe trazer problemas.
- Não vai, não. Tenho planos para você hoje. Já está se sentindo bem?
Ele deveria ter ido para casa, por que Milo tinha que ser tão convincente? Suspirou. A quem estava enganando? Milo não era convincente, ele que se deixara levar porque no fundo não queria ir embora. Estava decidido a ficar afastado do escorpiano, não podia seguir como daquele jeito, precisava de tempo, sabia disso, sentia em toda sua racionalidade que naquele momento o que mais necessitava era de espaço para ficar sozinho e entender seus sentimentos, se possível calá-los como sempre fazia. Olhou para o copo que se esvaziava rápido demais, quase podia ver a gordona surgindo no fundo da taça, a mente divagava sobre o que faria em relação Milo e em como estar ali, provando vinho pela primeira vez sentado no chão do salão principal da casa de Scorpius era errado... Mas parecia tão certo.
- Em que está pensando? – ele lhe perguntava enchendo sua taça até a borda.
Os movimentos dele estavam lentos, trêmulos, assim como a voz estava embargada. Ele estava visivelmente embriagado. Diferente de Camus que, mesmo sentindo o mundo girar como um carrossel mal regulado, mantinha a máscara de seriedade, o loiro demonstrara muito rápido todos os sintomas clássicos da bebida, desde o riso frouxo aos olhos preguiçosos. Milo podia perceber que o semblante de Camus não se alterava pelo álcool e por isso servia o dobro de vinho ao francês toda vez que ia encher os copos, afinal não seria justo se só ele ficasse bêbado.
O ruivo virou os olhos lentamente para o garoto ao seu lado, tendo certeza de não ficar tonto com a ação, levou algum tempo pensando no que dizer, a verdade estava fora de questão, claro. Não podia falar que tinha sentimentos inomináveis por ele, que pretendia evitá-lo e no quanto ele estava bonito bêbado, com o sorriso aberto e as faces coradas... Por Athena, no que diabos estava pensando? Recostou-se melhor a parede e bebericou um pouco antes de responder, estava difícil raciocinar, o vinho havia sido uma péssima ideia, definitivamente, deveria ter ido embora.
- Vinho. – murmurou a palavra solta.
- Que tem o vinho? – Milo perguntou com os olhos mais atentos.
- Onde conseguiu? – sua voz saiu num sopro, sentia a língua dormente.
- Na vila, ora. – riu como se fosse óbvio – Onde mais?
- E como conseguiu? – perguntou desconfiado deixando as costas escorregarem pela pedra, relaxando e muito a postura.
- Eu comprei. – falou fazendo o mesmo movimento que o francês ao seu lado.
- E quem foi o idiota que vendeu vinho para você? – Camus o encarava, a expressão menos sólida, ele quase sorria.
- Idiota por quê? – perguntou confuso fazendo beicinho.
- Você é só um menino, Milo. Não deve beber.
- Não devemos, você quer dizer. – o ruivo não pode se conter e riu frouxo sob o olhar atento do escorpiano, quantas garrafas já haviam sido? Duas, três? – Se já tenho idade pra ser um santo de ouro tenho idade para beber. – disse cruzando os braços em desafio – E eu não sou um menino! – falou de forma manhosa, o francês riu de novo.
- É sim.
- Não sou! Até tenho barba! - Camus gargalhou alto com a declaração, deixando Milo um pouco chateado.
O ruivo sentia um véu grosso sobre seus pensamentos racionais, quase não podia vê-los, tomou um longo gole de vinho como se isso fosse dissipar a nevoa em sua mente e corrigindo um pouco a postura virou de frente para o escorpiano, o rosto ainda risonho aproximou-se da expressão contrariada do loiro e seus dedos delgados seguraram-lhe o queixo. Moveu-o de cima para baixo, de um lado para o outro, Chegando mais perto a cada movimento, analisando longamente a pele completamente lisa do grego.
- Não tem nada aí, Milo. – disse meio que rindo, meio suspirando, piscando muito lentamente.
- Claro que não, eu tirei hoje de manhã! – exasperou-se e puxou o rosto escapando dos dedos do francês, mas não se afastou dele.
Camus podia sentir a respiração quente de Milo rente à pele e seus dedos se moveram inconscientemente para os cachos próximos a orelha dele. Não podia dar-se conta de suas ações ou do sorriso bobo que figurava em seus lábios.
- Você fica bem assim. – o loiro lhe falou recostando a cabeça na parede e tocando as covinhas rasas no rosto do outro.
- Assim bêbado? – deitou o rosto no toque do outro, mas o que diabos estava fazendo? Não a coisa certa, com certeza, mas essa era uma preocupação muito, muito distante no momento.
- Assim sorrindo. – disse, lhe analisava preguicosamente os contornos do rosto com olhos e dedos - Fica... – Milo pareceu hesitar por um momento – Bonito.
O sorriso de Camus diminuiu aos poucos até que foi reduzido a uma curva tênue. Os olhos semicerraram, tão pesadas estavam as pálpebras, nunca se sentira assim tão tonto, não conseguia sequer entender o que se passava. Os dedos do escorpiano contornavam seu maxilar, o polegar vez ou outra roçando em seus lábios. Quando viu que o ruivo não apresentaria resistência, o grego começou a traçar o contorno da boca com os dedos e Camus a entreabriu por puro instinto. O que Milo estava fazendo afinal? O que ele estava fazendo?
Sentiu a testa do escorpiano de encontro com a sua e o hálito dele soprando em seu rosto. Sua mão se moveu por vontade própria dos cabelos para a nuca, agarrando firme os fios que nasciam lá, o viu suspirar profundamente e esse suspiro único que Milo dera lhe arrancara o ar dos pulmões. Sentiu uma ansiedade crescente no peito e o coração mais acelerado do que nunca. Seus olhos não se desviavam dos dele e aquele momento pareceu durar uma eternidade. Os dedos do loiro acariciavam seus lábios com menos suavidade, enquanto ele mordia os próprios. E enquanto o escorpiano afastava a mão de seu rosto encarando sedento sua boca, uma nova consciência escorregava sorrateira para a mente de Camus: Ele sentia o mesmo. Não importava o que fosse, Milo sentia o mesmo por ele e estava prestes a tomar a prova definitiva desse fato.
Um pigarro roubou a atenção do escorpiano e a proximidade dos rostos se perdeu.
- Só queria avisar que estava passando.
A visão de Afrodite de Pisces parado a sua frente, com aquele sorriso debochado na face bonita fez Camus perder o chão por um segundo, seu corpo tremeu em pavor e pareceu ficar sóbrio instantaneamente. Enrijeceu a postura e afastou-se de Milo rapidamente. O escorpiano o olhou frustrado e então se voltou de novo ao visitante.
- Então passe de uma vez! – exasperou, recostando-se a parede e cruzando os braços sobre o peito.
- Estou indo. – disse arrogante e falsamente ofendido com a resposta do loiro.
Afrodite saiu a passos lentos e quando ele finalmente desapareceu das vistas um silêncio desconfortável pesou no ar e não deu sinal que iria se dissipar facilmente. Camus levou a mão à face massageando entre os olhos e pensando seriamente no que quase havia feito. Estava ciente de Milo o olhando de soslaio, sem coragem para fazer nada além disso.
- Acho que devo ir pra casa. – falou em um quase sussurro.
- Pode ficar aqui se quiser. – apressou-se em dizer.
"Eu quero!" O francês pode ouvir-se mentalmente, soltou um riso fraco zombando de si mesmo, era o maldito álcool falando, e estava mais do que tentado a dar-lhe ouvidos.
- Eu preciso ir. – disse lentamente, ficando de pé com algum esforço.
Milo assentiu visivelmente frustrado e levantou-se também, quase caindo no processo. Ficou de frente para Camus por um longo minuto, apenas os olhos vidrados nos seus, aquele azul parecendo sóbrio como nunca. O loiro desejava que ficasse.
- Nos vemos amanhã então? – disse inseguro e incapaz de parar equilibrado.
- Como sempre. – o escorpiano assentiu de novo, desviando os olhos para um canto qualquer – Boa noite, Milo. – disse se afastando com os passos trôpegos mais elegantes de que já se teve notícia.
- Boa noite, Camus.
No momento em que deu o primeiro passo para fora da casa de Scorpius se arrependeu amargamente. Quis voltar e tomar o que era seu por direito, pois Milo era seu, e não era sua boca que dizia isso, mas aqueles olhos azuis. Mas, ponderou, ele estava bêbado. Convenceu-se que a decisão mais racional e decente era a de ir para casa e foi o que fez. O sorriso bobo ainda brincava em seus lábios, mais uma verdade se revelara a Camus naquela noite: Ele queria Milo, e, mais importante, o loiro sentia o mesmo.
~0~
Olááá!
Olha só, capitulo novo pra vocês! Tinha escrito essa parte deles bebendo algum tempo atrás, mas não sabia se ia colocar na fic de fato, sabe? Mas aí eu pensei "wth?" Aí resolvi postar xD E aí? Fiz bem, fiz mal? Alguém por acaso tá querendo matar o Dite? =x Bem, that's all, folks! Até o próximo!
SuzukiYoi: Olá, seja bem vinda! Também sou grande fã dos Poison&Ice das antigas, não raro fico garimpando nas páginas mais antigas do fandom atrás de uma fic no canon original ;) Fico feliz que tenha gostado dessa aqui! Muito obrigada pelo review! Beijinhos!
Beijinhos!
V. Lolita
