Primeiro Beijo
Camus era reservado e discreto. Discreto até demais. Então jamais palavras poderiam descrever o profundo incomodo que estava sentindo pelo desfecho da noite anterior. Sua cabeça estava dolorida como o inferno quando acordara e o estomago revirava só de olhar para o café da manhã, era aquele doce vinho cobrando seu preço. Mas entre todas as sensações desagradáveis que vieram junto daquele novo dia, a mais forte delas era o sentimento que crescia em seu peito, precisava falar com Milo e saber o que ia acontecer com os dois a partir dali. Era impossível ignorar o ocorrido, ele sabia, havia tentado arduamente. Talvez Camus devesse simplesmente desistir. Era nisso que pensava quando estava sentado na arquibancada da arena vendo o treino do amigo com Afrodite, a luta estava acirrada, veneno contra veneno. O pisciano estava cheio de fúria desencadeada por um corte leve na bochecha abaixo do sinal, o outro havia ousado macular seu rosto.
O cerco se fechava para Milo, Afrodite era mais velho, experiente e suas rosas pareciam ter vontade própria ao atacar o escorpiano. O perfume inebriante das pétalas vermelhas deixava Camus, que era apenas um observador, tonto, ele imaginava que efeito elas teriam em Milo que estava no centro do nevoeiro escarlate.
- Ele vai perder. – ouviu DeathMask que estava de braços cruzados a seu lado falar carregado de certeza, Camus apenas o olhou erguendo uma sobrancelha – O seu grego, ele vai perder.
O francês dirigiu os olhos para a arena e via os movimentos precisos de Milo que pareciam mais lentos. O seu olhar cruzou com o dele por um misero milésimo de segundo e isso pareceu reacender o desejo de vitória no escorpião, um sorriso sádico se formou em seus lábios quando voltou sua atenção para Afrodite.
- Eu não apostaria nisso.
Respondeu com a seriedade costumeira, mas não estava certo disso. Na verdade, não tinha condições de raciocinar para prever o resultado da luta, sua mente imersa em ressaca pedia por uma folga de perguntas difíceis, havia ficado completamente presa nas palavras do canceriano e se recusava a desviar-se delas. "O seu grego", ouvia repetidamente o eco da voz do italiano. Quando Milo passara a ser dele? Aquele carcamano só podia estar de brincadeira ou... Olhou de novo para o centro da arena, e foi acometido por uma breve epifania: não havia ponderado antes para onde Afrodite estava indo àquela hora na noite anterior. Ótimo, então agora DeathMask também sabia e estava debochando, sentiu-se demasiadamente exposto. "O seu grego", mas... De certa forma, ainda que não fosse admitir jamais, sentiu um sorriso tentar ganhar espaço em seu rosto. "Seu". O pensamento era estranhamente agradável, sabia bem por que e por isso tratou de afastá-lo logo de sua cabeça.
Quando voltou a fitar a arena uma nuvem de poeira baixava lentamente, no centro dela duas figuras permaneciam estáticas. Afrodite segurava uma Bloody Rose entre dois dedos, o talo apontado para o coração do outro, parando a dois centímetros de perfurar a pele e, de forma semelhante, Milo mantinha sua agulha em riste no ar, pronto para cravá-la no último ponto, a Antares despontava perigosamente contra seu oponente, que era claramente maior. Se fosse um combate até a morte os dois teriam caído.
Quando enfim desfizeram a postura firme, sorriram um para o outro e deram-se as mãos em cumprimento, havia sido uma ótima luta. Ficaram parados mais algum tempo, a imagem de um Afrodite conversando um pouco mais do que amigavelmente despertou algo estranho em Camus, o rosto do pisciano estava perto demais. E ele não gostou disso, Milo o fitava confuso e surpreso pela proximidade e isso fez Camus sentir um desconforto completamente novo, mexeu-se no lugar para aparta-lo, franzindo o celho de leve. Aparentemente não era o único que não estava gostando, Cancer, que permanecera parado até então, avançava rapidamente na arena em direção aos dois, isso chamou a atenção de Milo que quebrou imediatamente o contato com o outro e começou a andar de volta a arquibancada. Quando cruzou com DeathMask, este o parou com a mão espalmada no peito do menor e pareceu sussurrar algo, lançando-lhe um olhar nada amistoso.
Milo continuou caminhando como se nada tivesse ocorrido e Camus desfez sua expressão ranzinza enquanto o observava. Ele estava suado, a roupa de treino ensopada, os cachos grudados na testa, ombros e pescoço, o andar folgado, filetes de sangue escorrendo dos arranhões que acabara de ganhar, o sorriso diferente do habitual, algo de malicioso o pontuava, os olhos semicerrados, atentos, debochados. Quando se aproximou o cheiro das rosas de Afrodite invadiu as narinas do ruivo com violência, ele sentou-se a seu lado e em um movimento completamente natural deitou a cabeça em seu ombro, suspirando e o francês não se moveu.
- Cansei. – declarou.
Camus apenas moveu a cabeça de leve, sem responder-lhe. Quando sua aversão a contato físico, sangue e suor havia sido subjugada pelo seu apreço por Milo?
No centro da arena, podia ver uma discussão acalorada entre os dois cavaleiros mais velhos, DeathMask não parecia nada contente. Em certo momento Afrodite bufou com desprezo e virou-se para deixar o canceriano sozinho, mas antes que pudesse dar o primeiro passo, o italiano lhe segurou o braço forçando-o a encarar-lhe e as mãos, antes agressivas em gestos, tocaram o rosto do loiro com verdadeira devoção, os olhos usualmente cruéis brilhavam preocupados. E Camus pode ver o que antes não via, havia algo entre os dois, algo sério e profundo e era absurdamente fácil de perceber isso da posição que estava.
- DeathMask fica diferente, não é? – disse Milo preguiçosamente e Camus apenas mexeu a cabeça de leve, mostrando que estava atento – Quando está com Afrodite. – explicou - Nem parece a mesma pessoa.
E não parecia. Ele era cruel, sádico e assassino na mesma medida que Camus era indiferente, frio e... Adverso a contato físico. Engoliu em seco e remexeu-se no lugar se sentindo mais uma vez desconfortável. Seria sua relação com Milo tão óbvia quanto a de Cancer e Pisces? E isso trazia a tona uma outra questão a ser resolvida: a noite anterior. Precisava saber dele, mas antes de mais nada sua mente lhe suplicava por uma satisfação, o que diabos Afrodite estava dizendo? E por que estava tão perto? "Pergunte!", o subconsciente lhe ordenava, e ele tentava se convencer que não era sua conta.
- Camus, você está bem? – o loiro perguntou tirando a cabeça do apoio e lhe encarando preocupado.
Imaginou que estivesse visivelmente tenso. "Como não é da sua conta?", sua vontade prosseguia, "Ele é seu, lembra? Pergunte já!".
- O que... – começou um tanto sem jeito, ainda não se sentia no direto de pedir satisfações – O que Afrodite queria? – indagou sem encará-lo.
- Oh... – Milo pareceu surpreso – Bem, não entendi muito bem, ele estava falando algo de ontem à noite. Acho que ele nos pegou no flagra, não é? – ele sorriu travesso.
Ah, sim. Ele os pegara no flagra, aquele maldito e belo cavaleiro fizera o grandíssimo favor de... Espere um momento! Ele disse "acho"?
- Como assim você acha? – Camus o encarou franzindo o celho, o loiro riu sem jeito.
- É que eu não lembro de nada de ontem. – se fosse do tipo que fica boquiaberto, o queixo do ruivo estaria arrastando no chão – Acho que não sou lá muito resistente a vinho. Você se lembra de alguma coisa?
- De cada segundo. – respondeu entre dentes.
Milo ficara espantado com a resposta quase agressiva, incomum ao tão calmo santo de Aquarius. Mas o ruivo não pode evitar, toda a ansiedade que vinha crescendo em seu peito, do momento em que levantara, por cada degrau que descera e a cada segundo que não conversava sobre o fato que o corroia por dentro sumira por completo e o espaço deixado por ela foi brutalmente ocupado por uma fúria genuína. Como aquele maldito idiota pode esquecer? Como esquecer de algo assim? Quase chegou a odia-lo e como se visse uma nuvem negra e turbulenta sobre a cabeça do francês, Milo se afastou prudente. Os olhos calmos de Camus agora pareciam olhos de um demônio, ainda que sua face permanecesse séria como de costume era possível perceber a aura diabólica a sua volta. O ruivo se levantou sem dizer nada, caminhou ao centro da arena e esperou que um adversário se apresentasse. Pobre Shura. Não sabia o que estava prestes a enfrentar.
Eram quase dez da manhã e o Sol estava a pino, mas cada viva alma naquele Santuário se aconchegava mais dentro das roupas, abraçava o corpo, e esfregava mãos, o calor característico da Grécia curvava-se ao cosmo gelado que vinha da arena. O frio era um assassino natural e seu mestre nunca desejara tanto antes matar alguém. A ira de Camus foi amplamente sentida e fez todo o Santuário tremer diante de seu poder.
Nunca chegaram realmente a falar sobre o ocorrido, ninguém teve coragem de perguntar a Camus o que desencadeara aquela reação, nem mesmo o loiro, pois estava completamente certo de que a culpa era dele. Mas o que tinha feito afinal? Não poderia imaginar que dentro do francês havia um monstro tão pavoroso adormecido, e, por mais curioso que estivesse, não ousaria arriscar despertá-lo novamente. Nos meses que se seguiram pode perceber seu amigo ainda mais sisudo, ah, mas ele tinha que estar! Afrodite sabia, DeathMask fora prontamente informado, mas Milo, o segundo maior interessado estava completamente alheio a profundidade de seus sentimentos e tudo porque havia esquecido! Ainda sentia-se irado ao recordar o fato, mas lembrava-se de se controlar.
Por isso emoções eram uma má ideia, seu lado racional lhe alertava. Perder o controle é muito arriscado, o frio só obedece ao pulso firme e escuta seu coração como ninguém, fazia parte do seu cosmo, de sua alma, de quem era. Aquela fora a segunda vez em que se manifestara indistintamente, espalhando-se sem escolher vítima, e nas duas vezes fora por ele, por Milo. Tinha que afastá-lo, era a coisa certa a fazer, mas essa simples ideia fazia seu peito doer com tanta força que ficava difícil respirar. Era a escolha certa, isso era óbvio, mas não estava apto a fazê-la. Bem, no fim das contas ele não precisou, o destino a fez em seu lugar.
Camus andava a passos lentos, era final de tarde e não havia visto Milo o dia todo. Adentrava o templo de Scorpius com um cuidado que nunca tivera antes, sentia-se prestes a golpea-lo, pois o escorpiano ficaria ferido com o que tinha a lhe dizer, o francês queria que ele ficasse. Olhou calmamente para o salão principal e para o lugar onde tomaram vinho, a expressão fria tornou-se ainda mais dura. "Esqueça", repetia para si mesmo, "Ele esqueceu". Andou pelo templo, indo até onde sabia que o encontraria, em seu quarto, debruçado sobre uma grande mala. Ficou parado no batente da porta esperando não sabia bem o que, olhando fixamente para aqueles cachos loiros, balançando ao mais leve movimento.
- Estava ficando preocupado. Achei que não veria você antes de partir. – disse sem distrair-se de sua tarefa, colocando as roupas dobradas na mala com deliberada lentidão – Estou indo para a ilha de Minos hoje para completar meu treinamento como cavaleiro. – ele falava sério, com uma calma estranha. – O Grande Mestre ordenou. – disse encarando Camus pela primeira vez.
Um silêncio incômodo se instalou, eles apenas se olhavam, o loiro com aquele sorriso meio forçado, leve, a face calma e o ruivo apertando a mordida, com a seriedade costumeira escondendo o turbilhão de emoções que sentia e aquele maldito nó na garganta.
- Não fica muito longe daqui. – disse desviando os olhos – Eu virei te visitar sempre que puder e você pode ir até lá se quiser me ver, não temos que ficar separados, nós não... – a voz dele ficava mais rouca a cada palavra, até que ele se obrigou a calar antes que não suportasse mais.
Agora Camus via, sairia tão ou mais ferido do que ele.
- Milo.
O loiro lhe encarou, os olhos brilhando pelas lágrimas não caídas. Não seria fácil. Camus andou na direção dele e de forma um tanto rude o abraçou, ele não era lá muito bom com esse tipo de coisa, não sabia ser delicado, era um guerreiro de gelo acima de tudo. O escorpiano respondeu ao abraço sem reservas, estava surpreso, até um pouco confuso com a reação do outro, mas jamais negaria algo assim a Camus. Sentia-se confortável em seus braços, podia-se lembrar de mais dois abraços, dois que ele não correspondeu. O francês então percebeu seu erro, ele não deveria ter feito isso, pelo menos não antes de dar-lhe o golpe. Não queria dizer, mas precisava.
- Eu virei te visitar, eu prometo. – ouvia o outro em sussurros e seu peito apertou ainda mais.
- Não vou estar aqui, Milo. – o loiro se afastou dele rapidamente, apenas o suficiente para encará-lo intrigado – Também devo concluir meu treinamento como cavaleiro.
O escorpiano se afastou um pouco mais, mas não saiu de dentro de seu abraço, o encarou com expectativa, estava pronto para receber seu golpe. "Apenas diga", mas ele não conseguia terminar, as palavras se perdiam no caminho do cérebro à boca.
- Onde? – ele sussurrou e, por um longo minuto, Camus só pode encará-lo.
- Sibéria. – a resposta saiu rasgando o nó em sua garganta, o escorpiano recuou como se tivesse levado um soco, escapando do alcance de deus braços.
- Sibéria... – ele repetiu em um fôlego com os olhos indo de encontro a mala – É bem longe daqui. – falava baixinho, como se ainda estivesse em choque enquanto passava a mão nervosamente pelo cabelo – Por... Por quanto tempo?
- Quatro anos. – respondeu sério e viu os lábios dele desenharem o número sem som algum – No mínimo. – completou sentindo uma aflição singular.
Milo não o encarava, apenas sentou pesadamente na cama e fitou um ponto qualquer da parede. E isso estava sendo tão difícil. Já tinha dito tudo o que tinha para falar, talvez devesse sair agora, mas... Mas não podia. Queria ficar ali, com ele, por quanto tempo pudesse, queria ter certeza de que ele não choraria, mas também queria testemunhar caso o fizesse, queria saber que derramaria lágrimas por ele, assim como fizera uma vez e queria retribuir-lhe o favor ao secá-las de seu rosto.
- É muito tempo. – o ouviu dizer e apenas assentiu.
Mas uma vez estavam em silêncio, Camus podia sentir aquele velho revirar de estômago, a tontura a tentar derrubar-lhe e enquanto parte de si lhe dizia que havia terminado, que agora só precisava dar as costas e sair, sua outra metade insistia que ele falasse, que dissesse o que tinha para dizer de uma vez, que o reclamasse para si antes que partisse.
- Vou sentir sua falta, Milo. – a voz saiu mais firme do que esperava e logo depois puxou o ar para os pulmões, estava difícil respirar, algo parecia apertar-lhe o peito.
O escorpiano o fitou com certa curiosidade, não parecia estar esperando uma frase assim, ele abriu a boca uma vez ou outra, mas fechou sem dizer nada, desviou os olhos dos seus e tomou um longo fôlego.
- Uma vez... – começou, mas a voz estava rouca demais, insegura demais – Uma vez você me disse que nada que eu fizesse ia mudar o que você sente por mim. Isso é verdade?
- Não completamente.
Lembrou-se daquele dia, da primeira vítima de Milo e de si, tão tolamente convencido de que desgostava dele. Um gosto amargo lhe veio à boca com essas lembranças. O escorpiano soltou um riso fraco, mexendo nos cabelos novamente, lentamente seu rosto virou-se para o do francês e seu sorriso faceiro se mostrou nervoso.
- Então acho que vou ter que arriscar.
Para Camus o momento a seguir foi especialmente estranho, contemplou a imagem de um Milo decidido ficando de pé e limpando de seu rosto qualquer tristeza, insegurança ou dúvida, parecendo mais adulto do nunca, os movimentos firmes, sóbrios e semblante sério. A mente de Camus implodia em pensamentos, lembranças de sua vida, de toda ela que, para sua surpresa, parecia que começara no dia que conheceu Milo, não havia nada antes disso e raras eram suas memórias em que o loiro não estava, raras e desnecessárias. Dali pra frente, se dava conta, estaria só e por mais que buscasse aqueles olhos detestáveis que o deixavam tonto e o hipnotizavam não os encontraria, não estariam por perto, não estariam sobre si. Os pensamentos corriam a mil por hora e consciências antigas se misturavam as novas, imagens embaralhadas, frases soltas na sua mente, seu silêncio, o riso dele, seu sorriso, seus cachos, seus olhos e então o nada. Era como se um furacão tivesse passado por sua cabeça levando embora qualquer pensamento, fosse ele racional ou não. Pela primeira vez desde que podia lembrar sua mente estava vazia. Era como um deserto congelado, pacífico, intocado, apenas uma leve brisa de verão a soprar gentilmente. Tinha aquele calor singular, úmido, que havia selado sua consciência em outro mundo e o deixado flutuando acima da dura realidade. E esse calor vinha dos lábios de Milo.
Um toque singelo, a mão em seu rosto, os lábios nos seus, sugando-os levemente, drenando sua sanidade de uma vez. O silêncio, a paz, o gosto. Ele calava as exigências de sua mente, o monstro que se escondia em seu ser e o aperto em seu coração. Perturbava seus sentidos, o paladar, olfato e tato se misturando em uma sinestesia que definia nada além de Milo. Nada mais existia, nada mais importava.
Sentiu-o se afastar de sua boca e a sensação se perdeu, sua mente foi rapidamente inundada pelo caos de outrora, era tão barulhento, tão poluído de imagens desconexas, tão perturbador. O peito apertou mais forte a ponto de Camus achar que ia sufocar. Seus olhos abriram-se vagarosamente, contemplando a cena em câmera lenta, o rosto de Milo se afastava do seu, um sorriso forçado, os olhos tristes, ele estava... Decepcionado? Por um milésimo de segundo o francês não entendeu, como poderia o loiro estar tão amargurado quando ele estava tão entorpecido com seu novo universo de sensações? E então o baque o atingiu. Não era possível, não podia ser verdade, inundado de toda aquela paz e maravilha ele havia se esquecido da única coisa que não poderia esquecer, estava tão egoistamente estupefato que não o correspondera... Não, ele não poderia ter sido tão tolo, ele não... Ele não tinha tempo para pensar nisso agora. Milo se afastava e nenhuma sensação jamais fora desesperadora como aquela, o estava perdendo.
O escorpiano foi assaltado no meio de seu movimento, enquanto tomava distância do outro cavaleiro o viu se aproximar, o rosto inexpressivo como sempre, mas com algo novo no olhar e o loiro não teve tempo de perceber o que era. Camus agarrara seus cachos pela nuca, e com a outra mão segurava firme o rosto dele, quase violento, não lhe daria espaço ou oportunidade de escape.
- Vous êtes à moi.[1] – sussurrou com a voz gutural, possessa, diferente de todas as vezes que o escorpiano escutara antes.
Mas Milo não teve tempo de entender o que se passava, por um breve instante achou que o francês lhe estava ralhando pelo beijo roubado e antes que pudesse perceber os lábios de Camus reclamavam os seus sem receios. Os olhos azuis, arregalados, surpresos não foram capazes de outra reação senão fecharem lentamente e se deixarem levar por inteiro pela torrente que esmagava seus sentidos. O francês era rude, se desculparia com ele depois, mas não saberia fazer diferente, era exigente, sua sede não tinha fim, parecia ser maior até que a necessidade de ar. Sentia Milo fechar os braços em torno de si, e os corpos se chocaram com violência, mas não foi por ele, seu braço escorregara para a cintura no loiro e o puxara sem delicadezas. Depois. Depois se desculparia, dizia a si mesmo. Agora não podia nem sequer pensar. Sua língua mergulhava na boca dele e sua pele parecia queimar em cada ponto onde ele tocava, o francês tinha a mente limpa de qualquer preocupação, de qualquer racionalidade. E mais uma vez os lábios se partiram.
Milo o segurava firme pela a gola da camisa e forçara espaço entre os dois. E como na primeira vez em que pararam, Camus sentiu aquele odioso golpe, era como estar no céu, flutuando e despencar em queda livre direto a um inferno abissal, mas o inferno não seria tão bonito assim. Não teria esses olhos azuis enevoados, as faces coradas, o ofegar escapando dos lábios avermelhados pelo beijo ainda recente. A expressão dele era de algo perdido em um abismo entre prazer e indignação.
- Há quanto tempo? – sussurrou, apertando ameaçadoramente a camisa dele entre os punhos.
- O que? – o francês indagou num murmuro, ainda estava zonzo e não conseguia raciocinar, na verdade não conseguia pensar em nada além de seu desejo de beijá-lo novamente.
Só voltou a realidade quando sentiu seus pés deixarem o chão, Milo o erguia com violência para joga-lo na cama, ajoelhando-se sobre ele, uma das mãos solta do tecido de sua camisa e o punho fechado apertou-se pronto para acertar seu rosto.
- Há quanto tempo? – Milo gritou irado, seu cosmo oscilou de forma bruta, fazendo os móveis do quarto serem arrastados para longe, o lençol da cama esvoaçou e a mala foi atirada no chão.
Camus ofegava um tanto assustado, ainda que sua face fosse séria como sempre, aos poucos foi processando a pergunta desconexa, e então percebeu do que se tratava. Ah, Milo, não era hora para isso!
- Não sei. – respondeu simplesmente.
- Não sabe? – perguntava visivelmente indignado e irritado, aquela não era uma resposta válida – Camus! – tentou repreender, o francês apenas suspirou.
- Há algum tempo. – falou já sem tanta segurança.
Viu Milo desviar os olhos dele respirando pesadamente, as mãos atenuavam o agarre e recuavam lentamente, a cabeça dele se mexeu em negação.
- Você é inacreditável. – ele lhe encarou, ainda enraivecido – Por que não me disse, seu maldito? – Camus ergueu uma sobrancelha não gostando do tratamento, mas o loiro estava irado demais para escolher palavras – Por que não disse antes? Você tem ideia do que... – ele se interrompeu no meio da frase e inspirou profundamente – Não dá pra saber o que você está pensando a menos que você diga! E olha a droga de hora em que eu fui descobrir que você... Que nós... – ele não conseguiu terminar, desconcertado.
Ele negava com a cabeça, não iria completar aquela frase, o que era bom, pois Camus temia aquela frase. O loiro ainda parecia nervoso, mas eles não tinham tempo, e o ruivo não estava disposto a esperar até ele se acalmar, levantou um pouco o torso e sua mão trouxe o rosto de Milo de encontro ao seu de forma ríspida. Mais uma vez se beijaram, o escorpiano relutante a princípio, mas que chance ele tinha afinal? Desejava isso tão forte e o ruivo sabia, porque era fácil para ele ver os sinais. Logo o escorpiano cedeu, deixou o peso do corpo cair sobre o do outro e o sentiu soltar um suspiro longo dentro de sua boca. Era inimaginável, todas aquelas sensações, a paz, a ausência total de preocupações, Camus só desejava que ele pudesse sentir o mesmo.
O tempo não passava ou regredia, estavam congelados naquele momento singular que não podia ser medido em segundos ou minutos, apenas se beijavam e o resto do mundo deixava de existir. Vez ou outra paravam, apenas se encaravam acariciando as faces, os cabelos, decorando o rosto do outro para momentos em que a saudade batesse mais forte e antes que a tristeza da despedida iminente se fizesse presente, voltavam aos lábios e esqueciam de tudo, do Santuário, de Athena e da Sibéria. Parecia muito pouco importante em comparação ao que tinham ali, mas uma hora alguém teria que tocar no assunto. E contra todas as apostas, quem tomou as rédeas e obrigou-se a ser racional foi Milo de Scorpius.
- A que horas você vai embora? – perguntou deitado ao lado dele na cama, os rostos muito próximos, os corpos bem unidos e a voz baixa, apenas o necessário aos ouvidos do outro, nada mais.
- Pela manhã. O navio sai assim que o Sol nascer. E quanto a você? – suspirou segurando o rosto do outro como se ele fosse escapar dali naquele exato instante.
- Bem, - Milo levantou o torso e procurou seu relógio no chão, havia caído da mesinha no seu ataque de raiva – Duas horas atrás, eu acho. – riu e Camus o acompanhou com um sorriso – Tem ideia de há quanto tempo estamos aqui?
- Não quero saber. – respondeu-lhe resoluto.
- Já está escuro, sabia? – o loiro brincou apoiando-se no colchão pelo cotovelo.
- Não me importo. – falou acariciando-lhe os cabelos.
- Já passou da hora do jantar. – falou ainda sorrindo provocativo.
- Não tenho fome. – respondeu seriamente e quando Milo fez menção de falar algo ele completou – E você também não tem. – o loiro riu.
Um silêncio pesou depois que se calaram, não poderiam ignorar para sempre, por mais que repudiassem a ideia, o mundo lhes chamava de volta como uma fera faminta e uma hora eles seriam engolidos.
- Eu irei te visitar.
- Milo... – o francês não suportaria ouvir aquilo.
- Eu irei assim que puder, eu prometo. – ele o olhava com os olhos úmidos – Pode demorar, mas eu vou. Nem que tenha que chegar a nado.
Camus fingiu acreditar na promessa e sorriu.
- Você fica bem assim, sabia? – o ruivo abriu mais o sorriso e assentiu.
- Fico bonito, não é? – o escorpiano riu e confirmou.
- E convencido também pelo jeito.
O loiro tocou seus lábios com os dedos e ele fechou os olhos. Quatro anos era mesmo muito tempo, menos de quatro minutos sem beijá-lo e já estava beirando o insano, quatro anos era tempo demais! Quando ficara tão dependente? Ah, que importava o quando? Nunca antes se sentira tão genuinamente feliz, então que importava todo o resto?
- O que você disse naquela hora? – sussurrou.
- Hum? – murmurou ainda de olhos fechados estava completamente absorto no toque do outro.
- Naquela hora, antes de me beijar, você disse algo em francês. – o ruivo abriu os olhos lentamente e sorria provocante.
- Vous êtes à moi. – repetiu a frase em um sussurro cheio de charme estrangeiro, Milo engoliu em seco e não quis mais a resposta, apenas o beijou sem chances de resistir.
Ele era tão absurdamente atraente falando em sua língua materna, com o eventual biquinho nos lábios. Beijaram-se ainda mais ardentemente que antes e então Camus se deu conta de algo que quase o deixou desesperado. Queria mais que aquilo, queria bem mais do que beijos, queria tudo, mas a madrugada já se mostrava fria, a escuridão tinha aquela profundidade que é característica de minutos antes do amanhecer. Ele tinha que ir. Mas não queria ir. Agarrava-se a Milo com mais força, como se isso fosse mantê-lo longe de suas obrigações.
Em certo momento o beijo se parte com violência e o escorpiano o empurra para longe, o fita nos olhos e pela primeira vez em anos pode ler a expressão do francês. Ele via dor, uma curva muito leve na sobrancelha, um contrair delicado de lábios, era mais do que já pudera perceber antes no ruivo.
- Saia agora. – falou duramente, torcendo para a voz não sair trêmula.
- Milo... – começou, mas foi interrompido.
- Saia agora, Camus, ou eu juro em nome de Athena que não terá outra chance de deixar esse quarto.
O ruivo entendeu. Levantou da cama a contra gosto e ficou de pé. Ia virar-se enfim para deixá-lo, mas antes roubou-lhe um beijo rápido dos lábios, para então a sair a passos firmes e contrariados. Mal fechou a porta do quarto e parou sentindo aquele vazio no peito, não era acostumado a lidar com emoções, talvez para Milo fosse mais fácil. Ouviu uma batida forte na porta atrás de si e o grito rude veio em seguida:
- Vai logo embora!
Ou talvez para o loiro fosse tão difícil quanto, ponderou. Subiu as escadas apressado temendo que sua vontade o traísse mais uma vez. Arrumou as malas e não teve tempo para dormir, apenas caminhou para o porto. Quando passou pela casa de Scorpius ele não apareceu. "Apenas vá", repetia para si mesmo, "Não o procure". Era tão difícil se reconhecer agora, estava tão cheio de sentimentos, tão afogado em vontades. O destino escolheu por ele, resolveu afastá-los, mas cabia a Camus uma última decisão, o que fazer com aquele sentimento agora que tinha tempo e espaço para administra-lo? A resposta era simples, não faria nada. Para lutar contra ou aceitar ele teria que admitir o inadmissível, mesmo depois daquela noite, mesmo depois de uma vida inteira: Ele amava Milo, mas não o diria enquanto pudesse negar.
~0~
[1] Você é meu.
Olá, galeris! =D
Ufa, esse foi bem grande o.Ô Não conseguir parar de escrever, acho que me empolguei hauahauah =x Mas, né? Acho que fiquei satisfeita com o resultado, estava particularmente nervosa pra escrever o primeiro beijo deles [É, e sim, baita spoiller o nome do capítulo, não deu pra evitar xD] E aí? O que acharam? Ficou bom?
Nota Importante: Bem, eu sei o que eu disse antes, mas esse NÃO é o fim da fic, tive umas ideias e resolvi estende-la mais um pouquinho, então aguardem atualizações ;)
SuzukiYoi: Oi, querida! Muito obrigada pela review, mas né? Bem que o Milo podia ter se entregado logo... Não que tenha ficado muito longe disso. Tadinho do Dite, tinha que escolher alguém pra atrapalhar, acabou que foi ele mesmo xD Bem, espero que goste deste aqui. Beijinhos!
Obrigada a todos que estão acompanhando!
Beijinhos,
V. Lolita
