Primeiro Impulso

Navios. Camus não gostava de navios. Eram desconfortáveis, instáveis e pareciam muito frágeis se comparados a toda potência do oceano. O final de sua viagem foi a pior parte, por mais de uma noite ouvia os sinos tocando e homens gritando no convés. Icebergs eram muito comuns naquela região, o mar gelado da Sibéria não era lugar para navios. O francês estava frequentemente nauseado, aquele mesmo enjoo que o perseguia desde a infância, não via a hora de sair daquele pedaço de metal flutuante. Achou que assim que descesse em terra firme se sentiria melhor.

Ledo engano.

Olhava para os lados no porto, pessoas se amontoavam seguindo em uma mesma direção para dentro de uma grande construção antiga. Neve cobria os telhados. Suspirou sentindo o ar frio refrescar-lhe o peito. Era a Grécia, tudo de novo. A multidão, pessoas esbarrando nele, outros o encarando por sua aparência singular, falando em uma língua que não compreendia de uma maneira que julgava mal educada para seus padrões. Não, eles não gritavam a todo momento como os gregos, mas tinham uma forma rude de se comunicar, pareciam estar sempre brigando ainda que tivessem sorrisos no rosto. Começou a caminhar um tanto incerto sobre para onde deveria ir, deslizava por entre as pessoas tentando inutilmente não encostar nelas. Continuava atraindo olhares, como na Grécia, não estava vestido adequadamente, usava um casaco alinhado, mas fino, mal lhe protegia o pescoço das rajadas de vento siberiano. Depois de uns poucos passos sentiu-se perdido, aquele lugar era uma bagunça e torcia para que aquela multidão não fosse corriqueira. Olhou por sobre cabeças e continuava sem saber aonde ir, o cais rangia sob seus pés e o vento uivava carregando sua cabeleira vermelha.

"Vamos lá, já passamos por isso antes", dizia a si mesmo, país desconhecido, gente estranha, pouca ou nenhuma ideia do que estava fazendo ali. Oh, sim, era a mesma situação. Mas havia uma grande diferença. Sentiu-se profundamente sozinho ao lembrar-se da mão enrugada do Grande Mestre lhe apertando os dedos no mercado grego. "Enrugada", o pensamento lhe pareceu demasiadamente estranho. Sua mente distraiu-se de seus devaneios ao ver um senhor, já no alto de seus sessenta anos, segurando uma placa com seu nome escrito. Ele tinha no colo um garoto muito jovem que se apertava mais a ele.

Camus chegou perto dos dois e deu apenas um aceno de cabeça e o idoso fez sinal para que o seguisse. Logo depois de deixar o porto as ruas da Vila de Kohotek se mostravam vazias. Uma ou outra criança brincando, algumas senhoras conversando e a neve cobrindo as casas e calçadas. Era agradável ali. A casa onde ficaria ficava afastada do vilarejo, em um ponto alto de uma colina. O senhor que lhe guiava subia com certa dificuldade, ajustando o menino no colo vez ou outra. Em certo ponto pode avistar as famosas geleiras eternas siberianas, elas brilhavam ao longe tal qual uma joia rara, Camus parou admirando por um longo minuto. Sorriu muito de leve, sentia a mesma sensação de quando avistara os treze templos a primeira vez.

O lugar onde ficaria era bem modesto, seu quarto era pequeno e pouco mobilhado. Sentou-se pesadamente na cama e suspirou. Agora que havia chegado não conseguia evitar pensar nele. Milo já havia ficado afastado por muito tempo em missão, dois meses na mais longa das vezes e não sentira aquela falta esmagadora. Era diferente, pois sabia que não o veria pelos próximos anos, não era questão de dias, não era uma tarefa a toa que os afastava, não eram alguns poucos quilômetros. Eram anos e meio continente entre os dois. Sentiu o peito apertar e deitou-se na cama esticando bem os pés ainda calçados. A neve batia na janela com força, mas pareceu parar no momento em que ele mirou, como uma criança sob o olhar reprendedor do pai. Fechou os olhos. O que estava fazendo ali?

Podia sentir o frio da geleira na pele da mão, a despeito da tempestade que caia, da neve fina que golpeava seu rosto, era aquele contato que doía, o gelo queimava como um cosmo. Nunca havia sentido algo assim antes, seu frio era abrangente, poderoso assassino, mas não era assim tão imponente, não era eterno. Sua sensação ao ver aquela pedra cristalina foi um desejo infundado de rompê-la, assim como anos antes que havia destroçado sua primeira rocha. Não percebeu o vento que se tornava ameno e a neve descendo em espirais calmos, sua mente estava concentrada demais pra notar, pois ele pensava naquele dia, em Milo segurando sua mão. "Esqueça", disse a si mesmo, e a tempestade retomou sua fúria.

Foram dias, ele achou que demoraria mais, mas em dias pode entender o gelo, o zero absoluto e com a mão encostada na rocha viu a eternidade desabar e virar pó de diamante e pequenos pedregulhos a seus pés. Fitou para sua mão avermelhada pela queimadura de frio e o primeiro impulso foi o de voltar a Grécia, se era isso então estava feito. Poderia voltar. A neve pairou no ar sem cair ou subir por alguns segundos. Ele reprimiu o impulso e os flocos voltaram descer, calmos, pacientes, brilhantes como joias. Ainda não, não podia ser só isso, quatro anos o Grande Mestre havia lhe dito. Devia haver um motivo para o número tão pontual, caminhava de volta à cabana quase não deixando pegadas na neve, estava ainda imerso em pensamentos, distraído por nada além de sua vontade de voltar... Não. Por sua vontade de ver Milo. Sentia-se tão patético. Ergueu os olhos frios e sacudiu a cabeça achando estava vendo uma miragem, sob a cortina de neve agressiva, o vulto de um menino loiro, cabelo desalinhado muito parecido com...

- Patético. – murmurou.

Queria tanto vê-lo que estava imaginando coisas, mas ao se aproximar a imagem do menino ficou clara. Ele tinha seus 8 anos, estava sentado na neve, encostado na cabana e fitando um horizonte distante. Estava enfiado até o queixo em uma coberta de pele felpuda e tinha as bochechas vermelhas, as mãosinhas enfiadas em luvas abraçavam o corpo que tremia. Camus parou de frente ao garoto e lhe mirou de cima. A nevasca se acalmava. É, ele lembrava Milo, cabelos loiros, olhos azuis, jeito displicente. Era mesmo muito parecido com seu amigo quando criança, mas a pele, cabelos, olhos, tudo nele era mais claro. Mais frio. O menino lhe olhou curioso.

- Mestre Camus? – outro garoto, da mesma idade, mas moreno e mais confiante, mais sério, acabava de sair da cabana para encará-lo com firmeza. O ruivo confirmou inconscientemente – Sou Isaak e este é Alexei.

- Hyoga. – o loirinho se apressou em corrigir com a voz baixa, mas foi ignorado pelo moreno e Camus lhe lançou um olhar que apenas Milo poderia identificar como curioso.

- Nós estamos aqui para que nos treine. – o garoto continuou sem se importar com a interrupção do loirinho – Por favor, mestre. Se formos dignos - ajoelhou-se.

- Treiná-los. – Camus concluiu em voz alta.

- Para sermos cavaleiros de Athena, mestre.

O ruivo não respondeu, passou pelo garoto moreno e parou ao pé da porta.

- Entrem. – disse apenas, sem emoção na voz.

Os meninos obedeceram prontamente e Camus entrou em seguida indo direto ao seu quarto. Sentou na cama e manteve a cabeça baixa. Náusea. Quatro anos, claro, mestre Camus, não é? E se eles estivessem prontos até lá poderia ir, voltar para casa. A tempestade lá fora era furiosa, o gelo caia em pedregulhos pontudos, cristalinos, assustava o velho senhor que nunca antes vira uma nevasca assim. Era tempo demais. Tocou os próprios lábios e deitou na cama. Não achou que sentiria tanta falta, mas depois de encher o peito até a borda de sentimentos era difícil ignorar o vazio. Teria que viver sem Milo por alguns anos, e talvez, só talvez não soubesse mais como fazê-lo.

~0~

Olá, pessoas! :D

Primeiro, mil perdões, a fic entrou em um baita hiato! Mas os próximos dois capítulos, pelo menos, não vão demorar! Beemmmm... tá aí o Camus forever alone com dois pirralhos pra criar. Pensei tirar esse capítulo da história várias vezes porque, né? Nem tem o Milo! Mas achei que ele era pertinente, então deixei e também é bom pra esfriar os ânimos um pouquinho. u.u Vou lá terminar o próximo ;)

Respondendo reviews:

SuzukiYoi: Neh? Camus é emocionalmente burro nessa fic, tadinho xD Mas ele aprende, uma hora aprende. u.ú Obrigada pela, review! Vamos ver mais milhões de beijos mais pra frente ;)

Elegy: Oi, Elegy! Siim! Camus é muuuito possessivo! É dele e acabou x) Fico feliz que esteja gostando dos dois! Acho maravilhosos escrever com eles, mas acho complicado, as vezes fico tentada a cair em lugares comuns x.x Obrigada pela review!

Madeline: Hello there! :D I'm really honored for receiving a international review and OMG O.o You're having a lot of work to read this one! I happy that you're enjoying it! Thanks for review ;) Kisses!

Beijinhos!

V. Lolita