Primeira Visita

Camus treinava isolado, havia exatos três anos que começara a instruir seus pupilos e naquele dia em especial, não sabia explicar porque, sentira uma necessidade sem igual de queimar seu cosmo. Deixou os meninos treinando sozinhos próximos à cabana e fora ao seu lugar favorito, encarando a frondosa geleira, ele, que lhe destruíra nos primeiros dias agora devolvia a pedra a parte que lhe tirara. Tão gelado quanto, absoluto e eterno, tão eterno quanto poderia ser. Como se pedisse desculpas a um amigo a quem machucara. Acima dele as cores ondulavam no céu cinzento. A aurora. Olhou para cima por muito tempo até decidir sentar-se, acomodava as costas nuas aos pés da geleira e o frio não mais o queimava. Esticou as pernas e apenas admirou o espetáculo natural.

Por muito tempo a neve foi furiosa, mas de forma tardia Camus pode compreender que sua presença influenciava no ambiente, seus sentimentos sendo mais exato. Aos poucos ali Camus foi tendo ciência do seu verdadeiro poder e aquilo assustava. Ele não precisava nem mesmo queimar o cosmo, o frio o ouvia, o respeitava e o seguia no que quer que fosse. Uma após a outra, Camus foi apagando o pouco que restara de suas emoções, já não tinha muitas, é fato, sempre foi um homem racional, mesmo quando era apenas um menino. Mas havia aquela única, aquela última. Havia lido uma vez que a paixão dura no máximo dois anos, então, já não tinha expirado a validade? Suspirou longamente e fechou os olhos.

- Encore une fois, Camus? – falou consigo mesmo – En pensant à lui encore une fois?[1]

Falava em francês quando sozinho, quando queria praguejar consigo mesmo e, céus! Só Zeus sabia o quanto praguejava. Não tinha intenção nenhuma de se levantar, mas pode sentir as duas presenças se aproximarem correndo.

- Mestre Camus! – Isaak chamava e ele o ignorou.

Estava no meio de algo ali, não gostava de ser interrompido, mas para virem os dois tão esbaforidos deveria ter algo errado. Os passos cessaram a poucos metros de si e pode ouvir as respirações ofegantes.

- O que foi, Isaak? – perguntou calmo e desinteressado, sem nem mesmo ter aberto os olhos ainda.

- Tem um homem do Santuário lá na cabana. – respondia o garoto.

Camus ergueu as sobrancelhas. E essa agora... Levantou um pouco desconfortável, o sangue parecia não deslizar muito bem pelas veias, ponderou um pouco sobre sua temperatura corporal enquanto andava lento em direção a casa. Alongou os braços e gemeu de leve quando sentiu uma pontada no início da coluna, era acompanhando pelos dois garotos que praticamente imitavam seu jeito de andar.

- Ele disse o que queria? – perguntou estalando o pescoço.

- Só pediu para chamar o senhor. – Hyoga respondeu.

Isaak andava visivelmente desconfortável, mexia os cabelos o tempo todo e isso aborreceu seu mestre, que tentava lhe ensinar sempre a temperança. Lançou-lhe um olhar muito, mas muito discreto e o menino aquietou-se de imediato.

- Desculpe, mestre. – disse gaguejando – Mas o senhor devia ir mais rápido, deve ser sério senão não teriam mandado um santo de ouro.

O ruivo virou o pescoço na direção do pequeno e ergueu as sobrancelhas.

- Santo de Ouro? – achou ter ouvido mal.

- Foi o que ele disse.

No segundo seguinte, finos e altos tornados surgiram na paisagem levantando neve do chão, permaneceram enquanto Camus estava estático, processando a informação, sentindo seu coração martelar no peito como a muito tempo não fazia e então se dissiparam ruidosamente. O cavaleiro de Aquarius se pôs a correr como nunca, ele havia dito que viria lhe visitar, ele prometera. E todos os anos de treino e de sentimentos calados, asfixiados em seu peito desceram gloriosamente pelo ralo. Os garotos acompanhavam com dificuldade o ritmo do mestre, quase caindo quando os pés afundavam na neve.

- Vão treinar! – Camus ordenou – Nas geleiras, agora! – completou e viu Hyoga e depois Isaak sumirem de seu lado.

Como pudera duvidar? Claro que cumpriria sua promessa, mas... Mas fazia muito tempo e se ele não sentisse mais... É claro que sentia, ele estava ali, não estava? Logo estava ofegante em frente à cabana, sentia como se não houvesse ar suficiente no mundo para preencher seu peito. Ao longe via o velho senhor e agora amigo indo para a vila com Jacob, seu neto, agarrado a seu colo. Não podia ser mais perfeito, ele sorriu sem se dar conta, e Zeus sabia, fazia anos desde a última vez que sorrira, seu rosto quase esquecera como curvar os lábios, mas então um pensamento que não havia tido ainda interrompeu sua mão a meio caminho da porta. E se não fosse ele? Óbvio, claro, e se fosse outro com uma missão singular, não deveria ter se enchido tanto de esperança, não devia ter...

A porta abriu e supetão e ainda estático, com a mão suspensa no ar, Camus encarou o rapaz dentro da cabana que tinha o rosto na mais pura expectativa. Os olhos azuis lhe fitaram o peito nu para depois voltar a seus olhos e esperavam arrancar alguma conclusão da expressão fria, mas não conseguiriam, Camus era e sempre foi uma incógnita.

- Fiquei imaginando quanto tempo ficaria parado aí até decidir entrar. – a voz era nervosa, grave, tão grave que fez Camus contrair uma sobrancelha em estranheza muito de leve. – Achei que estaria com frio. – riu – Por um momento esqueci que era... – deu um meio suspiro sôfrego, como se não estivesse respirando direito e ficou sério – Você.

Camus percebeu o quanto devia estar parecendo estúpido com a mão erguida daquele jeito e a deixou cair lentamente tomando consciência, também, do fato de que não estava aspirando mais o ar. A neve parara de cair e o vento que soprava era silencioso, como se não quisesse atrapalhar os dois, se encararam por muito tempo.

- Milo. – murmurou o nome a palavra lhe pareceu tão estranha quanto o sorriso que havia dado a pouco, como se os dois andassem juntos e distantes de si.

- Camus. – o loiro tinha um sorriso trêmulo, inseguro, ficaram em silêncio por mais um longo minuto – Estou ficando com frio. – revelou sem nada melhor para dizer naquele momento.

Camus assentiu se movendo com cuidado, como se um movimento mais brusco fosse fazê-lo sumir. O grego lhe deu espaço e fechou a porta ficando de frente a ela depois que o ruivo passou. Era tudo tão estranho.

- Não deu para vir antes. – disse ainda de costas para ele.

- Tudo bem. – Camus lhe respondeu em um sussurro, sentando-se a mesa pesadamente, suas pernas tremiam só por sentir o cheiro dele.

- Acho que mesmo que você estivesse na Grécia não poderia vê-lo. Meu mestre não me deixava sair... Mas eu queria ver você, queria ter vindo antes, mas ele não deixava então eu...

- Tudo bem, Milo. – tentou apartar o nervosismo dele – Eu nem achava que você fosse mesmo vir algum dia...

- Eu o matei. Não podia passar mais tempo...

Por um momento tudo aquilo pareceu surreal, viu o santo de Scorpius virar para si, altivo, mas nervoso, tentando sorrir. E simplesmente não entendia, não sabia o que estava fazendo, podia ouvir seu cérebro ordenando ao corpo que o tomasse nos braços, que acariciasse os cachos, que lhe dissesse... Dissesse que... Mas nada estava funcionando como ele gostaria, estava tendo até mesmo que controlar a própria respiração ou seu corpo iria lhe matar antes de voltar a fazê-lo.

- Não importa. – respondeu e fez sinal para que ele sentasse a seu lado.

- Fiz mal em vir? – disse avançando para a mesa um tanto receoso.

- Não. – esperou que o loiro sentasse – Estou feliz em vê-lo. – seria difícil de acreditar com aquela máscara de gelo sobre o rosto.

- Não parece. – riu rápido – Esqueceu como se sorri?

- De certa forma. – sentiu-se ficando ofegante por um instante, havia hiatos demais naquele diálogo.

- Eu senti sua falta. – oh, ele sabia, podia ler no rosto do loiro, era tão óbvio como se estivesse escrito num letreiro em neon.

- Também senti a sua.

- Se tivesse sentido tanto quanto eu não duvidaria que eu viria. – sorriu faceiro e aquele sorriso fez o peito de Camus aquecer.

- Não transforme isso em uma competição, Milo. – era tão bom dizer o nome dele que quase o deixava sem ar.

O loiro negou levemente e diminuiu o sorriso, o olhava com tanta intensidade que agoniava o francês. Continuava ouvindo os comandos: beije, abrace, toque, mas permanecia imóvel, apenas encarando os olhos azuis. Apenas desejando o que já era seu, não podia ser tão patético assim, mas ele também... Ele também não fazia nada, se sentira tanta saudade como dizia por quê? Por que não o abraçara? A resposta era tão obvia e cretina que fez uma curva leve saltar aos lábios finos, surpreendendo o outro.

- Atravessou meio mundo para apenas ficar me encarando? – perguntou no mesmo tom sem emoção e fez o loiro se arrepiar e engolir em seco.

- Não estou muito certo. – respondeu deixando os lábios entreabertos ao fim da frase, como se fosse falar mais, como se fosse fazer mais. Ficou assim por um tempo, e desviou os olhos, incapaz de sustentar aquela expressão vazia, gaguejou um pouco antes de falar – Três anos é muito tempo, Camus. Eu não tenho mais certeza.

Estava aflito com a resposta de seu melhor amigo. Porque ele, Camus de Aquarius, estava completamente certo. A mão pousou sobre o rosto de Milo, o toque era gelado demais, mas o loiro não se desvencilhou, apenas voltou a encarar o francês, estava acuado, nervoso, os lábios entreabertos, ele parecia tão perdido.

- Talvez eu possa lhe tirar as dúvidas.

Como alguém poderia falar algo daquela alcunha com aquela face tão desprovida de emoções? Como não demonstrar o coração batendo loucamente no peito e a mão que não gelava só pela temperatura ambiente? Milo parecia terrivelmente nervoso quando Camus levantou-se do lugar que mal havia esquentado, os olhos frios cravados nos seus, semicerrados, mas ainda frios, convidando-o em silêncio. Quando o ruivo se distanciou um pouco dele, deixando os dedos correrem pela face, indo em direção a uma porta entreaberta Milo tinha certeza que iria enfartar. O francês o olhou de soslaio, o mesmo olhar de sempre e um sorriso leve, mal intencionado. Ele estava lhe provocando clara e desnecessariamente, será que não podia ver nos seus olhos que estivera entregue no momento em que o vira? Para que aquele jogo? Estava por acaso tentando lhe enlouquecer?

- Camus. – falou seu nome rouco, e na voz de Milo, agora grave, pareceu soar mais sublime do que nunca.

O francês nada disse, apenas virou-se e continuou andando em direção ao quarto. O escorpiano levantou-se em sobressalto e pareceu estar congelado no lugar por um momento, seu corpo tremia de excitação, sabia o que ele estava sugerindo.

- E os meninos? - perguntou quase gaguejando.

- Não voltaram até que seu mestre lhes ordene.

- E o senhor que estava aqui com o neto? - passou a mão nos cabelos nervosamente e umedeceu os lábios secos.

- Vai demorar na vila. - disse suspirando e encostando-se no batente da porta, estava contrariado, mas tinha que perguntar - Se você não quer é só dizer.

- Não fale besteira! - disse de sobressalto, mais alto e descontrolado do que pretendia - Só... - pigarreou - Só não estava esperando que... - calou-se com o rosto extremamente rubro.

- Mesmo? - ergueu uma sobrancelha incrédula e cruzou os braços um tanto desconfortável, não queria ter que falar sobre - E o que esperava então?

- Não me entenda errado. Eu queria... Eu quero! – corrigiu-se rápido - Eu acho que sempre quis. - disse andando um pouco na direção dele, hesitante - Só não esperava que você fosse ser tão... Ahh... - riu sem jeito.

- Aberto a essa opção. - Camus completou sorrindo de leve.

- Eu ia dizer fácil. - riu desviando os olhos de um jeito quase infantil e arriscou mais alguns passos adiante - Mas é. "Aberto a essa opção" soa melhor. - o ruivo franziu o celho e Milo riu mais.

Ele suspirou inconscientemente, não podia mensurar a falta que sentira daquele riso de deboche, ou mesmo do sorriso. Por alguns segundos perdeu o ar enquanto o loiro vencia a distância entre os dois. O cruzar de seus braços se desfez sem que nem pensasse e ambos foram em direção ao loiro. Camus nunca gostou de abraços, mas com Milo tudo era muito diferente, era bom. Uma das mãos acariciou o rosto de leve, descendo o polegar pelo nariz até os lábios que não relutaram em abrir sob o atrito do dedo e a outra escorregou pelo lado do casaco, o grego estava vestindo tantas camadas de tecido que mal conseguira sentir aquele toque. O escorpiano pôs uma mão acima da cabeça de Camus e aproximou até o cotovelo encostar na parede, seus rostos estavam muito próximos e ele ainda mantinha aquela expressão debochada, maliciosa. Roçou o nariz no de Camus e o sentiu gelado, estava arrepiando só de imaginar as mãos dele tocando sua pele. Passou a língua pelos próprios lábios lento e provocante, sob o olhar atento do ruivo. A outra mão do loiro espalmava o peito nu e alvo, descendo em ondas por ele até enroscar os dedos no cós da calça. A mão de Camus se moveu para a nuca do outro no mesmo instante e agarrou os cabelos puxando-os e obrigando o escorpiano a colar o corpo no seu, puxando para um beijo do qual o loiro pareceu se esquivar. Encarava os olhos azuis já perdido de torpor. O grego bufou um riso rápido.

- Está com pressa? - provocou debochando.

- Sou um homem calmo, Milo, não paciente. - respondeu entre dentes.

- Eu sei. - sorriu tirando os dedos da calça e massageando-lhe o fim das costas - Por isso é tão divertido.

Camus sentiu uma pontada de irritação misturada com uma ansiedade crescente. Como aquele escorpiano tinha talento para tomar atitudes fora de hora! Mas sua mente se limpou por completo quando os lábios úmidos e absurdamente quentes pousaram-lhe no canto da boca, a mão afrouxou os cachos e então houve outro beijo no canto oposto. O rosto do loiro se afastava com um sorriso de triunfo, mas o ruivo não o deixaria brincar assim.

Bruscamente empurrou Milo para dentro do quarto, não dando tempo de reação ao escorpiano. O segurou pelo braço e fez que caísse sentado na cama, observou a expressão de surpresa e leve indignação do outro e sem querer sorriu. O olhou de cima e tinha os trejeitos perfeitos para um predador. Pôs um joelho entre as pernas do escorpiano e o viu deitar-se lentamente recuperando o sorriso debochado, lhe encarando como se o estivesse desafiando. Ele teria Milo aquela tarde, e nem todos os deuses do Olímpo juntos ousariam impedi-lo.

~0~

[1] De novo, Camus? Pensando nele de novo?

Olá, galeras! :D

Eu falei! Nem demorou! Mas agora tenho um assunto muito importante pra tratar u.ú

Enquete: Lemon or not lemon? Tenho o próximo capítulo semi pronto, mas non sei se coloco ou não fica a cargo de vcs ;)

Que me dizem vocês? Vamos a votação \o/ Democracia ftw!

Beijinhos!

V. Lolita