Primeira vez

A neve, o frio, a Sibéria era uma extensão de seu ser, um exército natural rendido ao seu comando. Ali aperfeiçoara seu poder, ali se sentia em casa. Camus acostumara sua natureza calma, acostumara a ficar tão frio por dentro quanto os ventos que se chocavam contra sua pele. Esse frio era incômodo a qualquer um que não fosse nascido para viver nele. E talvez fosse esse o motivo de estar sendo tão difícil se livrar de todas aquelas camadas de roupa que Milo vestia.

Para o grego era difícil tirar os vários casacos com Camus sobre ele daquele jeito. Estava sentado em sua perna, os braços nus e avitos tentavam arrancar-lhe as roupas sem delicadezas e a boca não deixava a sua de maneira alguma. O ruivo não sabia explicar, entrara em frenesi e agora sentia como se precisasse dele para respirar quando na verdade estava perdendo completamente o fôlego. Por que aquele idiota tinha que usar tanta roupa? O agarrou pela cintura e virou na cama o deixando livre para se despir. A visão de Milo livrando-se da última camisa sentado em seu colo era extremamente erótica. Os poucos pelos se eriçavam em seu peito devido ao frio do ambiente e as mãos desejosas do francês também não estavam na mais agradável das temperaturas. Não que o grego conseguisse pensar nisso, mal se livrara da camisa e já reclinara sobre o outro voltando à boca dele. O beijo de Camus o definia por inteiro, lábios gelados, movimentos fluídos, marcados, dominantes. A língua dele o guiaria pela vida inteira se deixasse e estava tentado a permitir.

O loiro parte o contato e encara o aquariano por um segundo, estuda cada traço do rosto, os olhos azuis correm pela pele pálida e ele acaricia a face do outro com devoção. Tinha tantas saudades e seus sentimentos por ele eram tão fortes, não diminuíram nada, talvez tenham até aumentado pela distância, criara muita expectativa quanto ao seu reencontro, mas aquilo era muito melhor que qualquer coisa que pudesse imaginar. Sentiu as mãos frias deslizarem preguiçosas pelas costas, como se ele tivesse entendido aquela pequena pausa como um pedido de tempo, a carícia era lenta, mas nos olhos dele Milo podia ver o desejo queimando, quase superando sua pouca paciência e isso o fez sorrir. Era tão raro que conseguisse ler a expressão de Camus assim. O francês pôs uma mão atrás da cabeça e a outra se enroscou nos cachos como gostava. Fechou os olhos absorvendo o aroma que se desprendia dele, pela intensidade, deduzira que ele praticamente se banhara em perfume antes de vir lhe visitar. Soltou um suspiro sonoro e semicerrou os olhos para encará-lo ainda com seu sorriso faceiro e olhos atentos aos seus.

Lentamente Camus o puxou para si, o escorpiano brincou roçando os lábios nos do outros sem deixa-los se fechar em um beijo e aquele jogo fazia o francês arrepiar. Gentilmente o grego desliza a língua por seus lábios e sem pressa nenhuma invade a boca dele, parando a cada avanço faminto do ruivo. Ele se acomoda melhor sobre o corpo dele se deitando por completo, infringindo seu peso por igual sobre o outro, sopra hálito quente em sua boca e pode senti-lo tremer.

- O que está fazendo, Milo? – perguntou com uma ponta de irritação. Três anos e ele ainda queria ficar de brincadeira.

Como resposta só recebe aquele sorriso maroto que o fez se sentir sem ar. O loiro parecia extremamente confortável com a situação, ele provocava, se insinuava e a qualquer mínimo avanço do outro ele tomava distância reafirmando seu controle. Moveu o corpo ondulando, roçando a carne do peitoral e arrancando um longo suspirar dos lábios finos do francês. Ele o beijou, queria sustentar o jogo por mais tempo, mas a voz rouca de Camus arranhando na garganta era tentadora demais para aguentar. Não sabia dizer quanto tempo dispensara apenas beijando, mas Milo ainda conseguia manter uma linha rala de raciocínio, depois daquela vez o ruivo não teria a mínima chance de lhe esquecer, seria seu, e seu apenas. Pensaria em si sempre que deitasse naquela cama, ah e ele ia se deliciar em memórias e ia desejá-lo e perder toda a razão só de lembrar-se de seu toque. O que o grego queria era isso, afirmação, domínio. Seguiu em beijos cálidos pelo rosto branco, alcançou a orelha e suspirou rouco próximo a ela sentindo os dedos de Camus apertarem seus cabelos. Desceu beijos lentos pelo pescoço e na dobra com o ombro deu uma mordida dolorida que arrancou protestos manhosos do ruivo.

Camus o deixava fazer o que queria, qualquer movimento seu forçando o ritmo que desejava o fazia parar e olhá-lo com aquela expressão safada, mordendo o lábio carnudo e lhe negando o que ansiava. Do jeito dele, aquele maldito egoísta queria tudo do jeito dele. Um gemido lhe escapou dos lábios entreabertos sem que pudesse conter, uma delicada corrente de prazer ia além da pele que ele beijava, descia pela carne se fazer cócegas até próximo dos ossos. Dava vontade de puxá-lo ou afastá-lo, aquele meio termo era nocivo a sua saúde mental. Os dedos dele traçavam a linha de beijos por onde ele passava, tocavam quase que por acidente, a outra mão lhe alisava o peito de forma indelicada, libidinosa, como se estivessem moldando seu corpo em barro. Um pensamento fora de hora atravessava a mente de Camus, onde? Onde aquele loiro havia aprendido? Ou seria ele naturalmente bom? Um talento nato. O ruivo lhe apertava os cabelos e tentava puxa-lo, mas ele parecia gostar da tensão em seu couro cabeludo. Continuava descendo por seu abdômen traçando o caminho entre os gomos definidos de sua barriga e mordiscando de leve o umbigo. Estava difícil para o francês respirar, era como se tivesse um bloco de mármore sobre o peito fazendo pressão, só havia aquele arfar aquelas poucas notas de contentamento e ouvir o som da língua de Milo embebendo seu corpo em saliva. Ele recuou um pouco sentando em suas pernas e as mãos se moveram para o botão de sua calça.

Em um estalo o francês entendeu o que ele estava pretendendo e ficou incrédulo por um momento. Quer dizer, sabia que isso podia acontecer em uma transa e era perfeitamente normal e aceitável, mesmo não havendo experiências prévias estava bem ciente de como aquilo deveria suceder, mas dizer que esperava por isso, que não estava surpreso pelo olhar sedento que Milo dirigia a suas partes baixas? Não, não diria. Seu corpo estremeceu quando o grego apertou os dedos na base de seu membro e segurou com firmeza, ia descendo a cabeça em direção a ele, a língua umedecendo os lábios, já podia sentir o hálito quente a acariciar a glande. Ainda estava um tanto descrente, por mais que a imagem dele fazendo o que ia fazer fosse total e completamente erótica ainda era um pouco difícil de entrar-lhe na cabeça. Mantinha os olhos atentos, dificilmente se daria conta de sua expressão sôfrega, da forma como suas sobrancelhas criavam uma leve ruga, de como seus olhos pareciam suplicantes, ele jamais se veria assim. Mas os olhos azuis... Milo o encarou tirando a atenção do falo pulsando no aperto firme de dedos, afastou-se muito pouco e fitou Camus com o mais maroto dos sorrisos, Canalha, parecia mesmo um canalha, um debochado. E por um momento o ruivo só pode pensar que ele estava brincando, era tão inconcebível a ideia que, é claro! Ele não ia realmente... Só estava fazendo o que fazia de melhor. Debochar. Voltou à expressão estoica o olhando duramente. Teve vontade de socá-lo e depois o beijar até matá-lo sem fôlego. Mas todo e qualquer pensamento de raiva ou vingança se desintegraram instantaneamente quando os lábios quentes desceram sobre seu membro, sugando de leve a cabeça. Camus não conseguiu evitar o gemido, ou o leve arquejar de costas e nem sequer tivera tempo de vislumbrar Milo naquela posição, ele afundou seu falo na boca e o ar escapou de seu peito com violência, afundou a cabeça no travesseiro e buscou fôlego.

Era agoniante, pelos céus, era completamente agoniante. Uma onda se iniciava a cada subir e descer de lábios e se espalhava pelo corpo dando-lhe vontade de se contrair, mas ao mesmo tempo... Camus apoiou o corpo em um cotovelo e apenas observou, era como se vê-lo apenas potencializasse o efeito, segurava os cachos com força, mas o deixava seguir seu ritmo. Era deliciosamente torturante, não conseguia evitar os gemidos roucos, ou o leve tremer de seus músculos retesando fora de seu controle. Até mesmo o roçar doloroso de dentes lhe causava arrepios violentos. Ele aumentou a velocidade e ia cada vez mais profundo como se pretendesse engolir por inteiro, as fortes ondas vinham agora sem pausa. O francês pendeu a cabeça para trás tentando evitar os gemidos, mas era difícil, a respiração ofegante e as unhas nada curtas de Milo afundando na pele de seu quadril não ajudavam em nada. Cada onda parecia mais alta e demorada, crescendo em tamanho, se aproximando de um pico distante que começava a nublar sua visão, podia sentir um gemido mais alto crescendo no fundo da garganta, era sólido, inevitável, conhecia todos aqueles sinais, mas nunca antes foram tão intensos, tão devastadores. Podia sentir se aproximar e olhou para o loiro com dificuldade, se forçava contra sua boca e ele o recebia com... Gosto? Não, mais do que isso, ele o recebia com fome. Estava quase no ápice quando a sensação desceu uma nota na escala. Ele parara, súbita e simplesmente parara. Os olhos azuis o encaravam risonhos, e Milo parecia muito satisfeito com aquele sorriso malicioso nos lábios, os alisando com a língua.

- Está gostando? – ele perguntou rouco, era provocação, pura e simples.

- Eu vou te matar. – conseguiu sussurrar agressivo ainda com o peito descendo e subindo desregulado.

Ele riu, um riso gutural, estranho e libidinoso. Camus o amaldiçoou internamente e voltou àqueles lampejos de vingança que tivera mais cedo. Mas mais uma vez eles foram varridos de sua mente junto com qualquer pensamento racional que tivesse. Os dedos se moviam hábeis e não pode deixar de imaginar o grego se tocando solitário em seu quarto, um sorriso ameaçou brotar, mas foi atrapalhado por um gemido sôfrego. Ele voltara a lhe envolver com os lábios. Subia e descia em frenesi, deixando que a voz rouca morresse abafada na boca cheia. A saliva escorria pelo membro de Camus lhe alcançando os dedos e em pouco tempo o francês retornava ao ponto onde parara. Sentiu o corpo tenso, o baixo ventre formigava e se contraia, podia sentir o gozo começar a brotar pela carne e segurou Milo onde estava pelos cabelos. De toda forma, não era como se o escorpiano tivesse alguma intenção de se mexer. Toda a tensão acumulada em seu corpo se desprendeu de vez, o prazer tomando conta de seus músculos como se enchesse um copo vazio, a sensação pura de plenitude e leveza, o jeito como não mais podia sentir o toque dos lençóis ou ouvir qualquer som. A única coisa, a ponte que ainda o ligava ao mundo terreno era a consciência dos lábios de Milo ainda tenros em volta de seu falo. O loiro sorveu com prazer o jato despejado em sua boca, mal sentira seu gosto, mas não importava. A língua tratou de catar qualquer resquício que tivesse sobrado em seu membro e sugou forte mais algumas vezes como se ainda tivesse sede de seu líquido.

- Pare. – dizia desabando nos lençóis, pondo um braço sobre os olhos e lentamente soltando o cabelo do outro – Por Athena, apenas pare. – a sensação era tão forte que se tornara dolorosa.

- Não devia usar o nome de Athena numa situação assim.

Ouviu a voz dele e quase teve vontade de rir, mas não havia fôlego para tanto. Sentiu as calças sendo puxadas, descobrindo as pernas torneadas com pouca ou nenhuma delicadeza. Havia o som de tecido e arriscou-se lançar o olhar para Milo, ele sorria de pé, encarando seu corpo de forma lasciva enquanto se despia do que restara de suas próprias roupas. Camus se esticara na cama ficando ainda mais confortável se é que era possível e apenas admirou o corpo moreno do outro enquanto ele engatinhava sobre si na cama. Fazia um bom tempo que não via Milo nu, desde que se mudaram do quarto que dividiam para seus próprios templos, ele estava consideravelmente diferente. Espalmou a mão em seu peito e arrastou os dedos levemente pelo abdômen até alcançar a ponta do falo ereto, circundou-a com a mão sobre o olhar atento dos dois pares de olhos.

- Você vai me deixar fazer? – ouviu a voz dele rouca e os olhos azuis não tiveram pressa em encará-lo.

Ele tinha os cachos emoldurando o rosto e Camus não sabia dizer de onde tirara aquele sorriso libidinoso, uma mordida leve no lábio curvado, e ele ficava tão absurdamente lindo. A pergunta óbvia era: "Fazer o que?", mas o francês não podia dizer que não tinha entendido. Era um pedido claro e diria também que era objetivo se não fossem os artifícios que ele estava usando para lhe arrancar um sim. O ruivo apenas o encarou estoico, sem resposta. Não era justo, afinal o escorpiano não pensara duas vezes antes de lhe fazer gozar daquele jeito, mas ainda assim havia receio. E não apenas receio, mentiria se lhe dissesse que não havia também algum orgulho encravado em seu silêncio. O loiro ainda esperava uma resposta, mas não estava mais tão paciente e compreensivo quanto às nuances de Camus como antes, sua excitação doía, e o desejo, o amor que sentia por ele, sentia que era muito mais do que poderia suportar. Afastou as pernas dele com a cautela de quem desarma uma bomba, o ruivo não apresentou resistência, mas permanecia inerte, ainda sério a se perder em seus olhos, Milo suplicava mentalmente por um sinal de que não estava fazendo nada errado. Com o mesmo cuidado encaixou-se no corpo dele e deixou seu peso descer sobre o peito pálido. O encarava, não perderia o mínimo sinal de resistência ou rendição, mas não havia absolutamente nada, por que o francês tinha que ser tão difícil? Encostou a ponta do falo naquele ponto e parou como estava, pousou um beijo no queixo dele, e depois por toda a extensão da mandíbula. Camus segurou seu rosto sem delicadeza alguma e o fitou com intensidade por um segundo antes de trazê-lo para um beijo forte. "Eu domino", era o que aquela ação dizia e o grego já considerava se afastar, mas, ao mesmo tempo que sua língua ditava regras absolutas, sentiu as pernas dele abrirem-se mais, dando-lhe passagem. O contato das bocas cessou e o ruivo evitou seus olhos, doía um pouco.

O orgulho.

Milo afundou o rosto nos cabelos lisos e com extremo cuidado escorregou para dentro dele, prendendo o fôlego, buscando ser preciso em seus movimentos. O sentiu ficar tenso por um instante.

- Isso devia doer? - o ouviu sussurrar ainda sem encará-lo, Camus tinha o rosto rubro, estava envergonhado? O loiro o achou mais lindo do que nunca com aquela expressão, mas logo voltou a sua preocupação principal.

- Só no começo, eu acho. - beijou-lhe o rosto acariciando os cabelos, doía para ele também, mas era a dor de sua ereção latejando, era bom. Moveu-se ainda mais cuidadoso, sua carne tesa descobrindo o tecido aveludado dentro dele, era um toque apertado e macio, completamente extasiante.

- Você é quente por dentro, Camus. - soltou com um suspiro profundo e rápido - Muito quente.

O rei dos comentários fora de hora, esse era Milo. O ruivo fechou os olhos e deixou um sorriso trêmulo e curto se formar na face, reprimiu a vontade de socá-lo por sua idiotice. Não estava melhorando, continua doendo, tanto seu íntimo como no orgulho, o maldito orgulho, e ele dizer coisas assim, esses pensamentos nada convenientes dele... Olhou de soslaio para o rosto do loiro, e percebeu em sua expressão o quanto estava se segurando, o quanto estava aguentando, ele deveria estar se matando para ser tão lento. O francês abriu mais as pernas e enroscando-as no quadril dele o puxou de uma vez para dentro, ele gemeu forte e jogou o pescoço para trás, o ar quase não entrando nos pulmões. Doía, mas valia a pena se fosse para vê-lo daquela forma, as mãos frias lhe acariciaram as costas, e ele latejava dentro de si, temendo se mover um milímetro, seus olhos fechados com força e a boca puxando ar sonoramente. Ele moveu-se um pouco, apenas um leve roçar de peles e uma gota de suor lhe escorreu pela testa. Em meio ao frio siberiano lá estava ele suando.

O ruivo o beijou, como se ele precisasse de mais alguma coisa para lhe tirar o ar, Milo fazia movimentos curtos, mas parecia estar sofrendo de um prazer intenso demais, gemia em sua boca e sussurrava impropérios em seus lábios. Camus sentia aquele rastro de dor cada vez mais distante, não era estranho tê-lo dentro de si, diante de todas as coisas que eram erradas e pareciam certas, aquela era a mais certa de todas. Ele ainda se movia levemente, e uma ponta de prazer atravessou todas as ondas de dor, como se de repente a noção forte de orgulho que tinha se afastasse e desse espaço ao sentimento que tinha por ele, aquele sentimento inominável no qual sempre evitava pensar. Não podia evitar para sempre ainda mais quando sua mente se nublava e tudo que queria, tudo que conseguia ver era o azul de seus olhos. Azul profundo e intenso como o mar, sentiu-se tomado pelas ondas, batendo contra os rochedos da costa, estava entregue aquele movimento bruto e ao mesmo tempo gentil, seu corpo estava sendo levado por ele. Para ele. Para o domínio abissal daquele mar. Para uma infinidade azul de ondas de prazer.

~0~

Milo mal conseguia manter os olhos abertos, estava sem forças há algum tempo, arrastava o cabelo nos lençóis tentando ficar confortável, mas não estava nada fácil, não que estivesse reclamando. Olhou por sobre o ombro e sorriu ao ver os cabelos vermelhos. Deitado de bruços, com Camus sobre si servindo-lhe de cobertor, não conseguia pensar em outro momento no qual se sentisse tão estupidamente extasiado, suspirou afundando o rosto no travesseiro e sorrindo, tinha vontade de rir o tempo todo tão feliz estava.

Não importava ao quão absolutamente exausto estivesse, o ruivo não conseguia cansar-se daquilo. A textura, o gosto, o cheiro. A fina camada de suor. Arrastava os lábios e a ponta do nariz no ombro de Milo, beijando-o aqui e ali, soprando hálito quente em seu pescoço vez ou outra. O braço possessivamente em volta do corpo dele começava a ficar dormente sob a pressão dos dois corpos e a mão livre acariciava o ombro indo vez ou outra a nuca emaranhar-se nos cachos e fazer o escorpiano soltar gemidos preguiçosos que lhe enchiam os ouvidos. Se não estivesse tão ocupado beijando-lhe a pele morena estaria exibindo o mais bobo dos sorrisos naquele momento. Moveu o corpo sobre ele ouvindo o ronronar satisfeito, alcançou a orelha com os lábios e mordeu de leve para depois sussurrar-lhe rouco ao pé do ouvido.

- Vous etes à moi.[1]

O loiro arrepiou por completo, um arrepio gostoso, acompanhado de um riso quase sem forças.

- Et vous à moi, mon ami.[2]

Respondeu com um sotaque inegavelmente grego, mas a pronúncia estava correta, até mesmo tinha feito esforço para curvar os lábios em um biquinho tão charmoso quanto o dele. Camus sorriu fazendo a covinha aparecer na bochecha, beijou-lhe o rosto, e deitou sua face sobre a dele.

- Parle vous français, Milo?[3] - sussurrou rindo rouco depois.

- Oui. - o loiro respondeu com o rosto espremido entre Camus e o travesseiro pouco macio - Só para garantir que vou entender quando você fizer declarações assim, tão covardemente. - riu debochado e Camus levantou-se um pouco.

- Covardemente? - inquiriu fingindo irritação, ele estava certo, em todos os aspectos daquela relação ele havia sido covarde.

Era covarde quando o afastava, quando transformava sua face em gelo para que ele não o conhecesse, quando negava a si mesmo que gostava dele. Mas mesmo com toda a covardia, com todo o receio, Milo se aproximou, Milo o conhecia, agora só faltava dar-lhe a certeza absoluta do que sentia. Mas não, ele já sabia.

- Covarde. - ele se movia sob si tentando virar apenas o suficiente para encará-lo - Definiria de outra forma? - o ruivo apenas acenou com a cabeça, ele estava completamente certo - Então, fiz a lição de casa, não vai mais falar comigo sem que eu entenda. - disse dando o conhecido sorriso faceiro.

Camus levantou um pouco o queixo, uma sobrancelha alta, um sorriso por nascer nos lábios, numa expressão completamente nova tanto para si quando para o outro. Milo sorria desconfiado, tentando decifrar aquela nova face.

- Acha mesmo? - disse com aquele tom sórdido mas o sorriso do loiro não diminuiu.

- Estou esquecendo de algo? - ergueu a sobrancelha e nunca antes parecera tão debochado, o francês confirmou com a cabeça.

- Que eu posso fazer isso: - aproximou o rosto do dele, acariciando a bochecha com o nariz, e sério, com o olhar profundo ele umedeceu os lábios e completou com a voz rouca - Я тебя люблю.

O grego o olhou com seriedade por algum tempo, examinou o rosto do ruivo, os orbes indo dos olhos a boca e a expressão aos poucos se dissolvendo na mais pura comoção.

- Também amo você, Camus. - disse encarando e levantando para dar-lhe um beijo casto.

O ruivo gelou dos pés a cabeça e tinha certeza que sua expressão de pavor tinha lhe denunciado, sim, era covarde e Milo não deveria entender. Ele não deveria falar russo a ponto de... Então viu o sorriso debochado despontar no rosto do outro e afastou-se dele antes que lhe socasse a face, estava irado com o grego, ele não podia ter feito isso, jogando verde assim, não ainda. Sentou-se na cama e puxou o lençol incomodado com a nudez pela primeira vez. O escorpiano riu do embaraço do outro a princípio, mas quando ele não o olhou de volta com suas faces coradas ele percebeu que algo estava errado. Sentou-se e o abraçou forte, mesmo com ele tentando se esquivar.

- Acho que não me ouviu. - disse deitando a cabeça no ombro dele, os cachos fazendo cócegas - Disse que te amo.

- Eu ouvi. - respondeu com o tom irritado.

- É ruim ouvir isso? - perguntou dando-lhe um beijo na base pescoço e ele respondeu com um balançar de cabeça - E foi ruim assim dizer?

- Não devia ter feito isso, Milo. - disse olhando por sobre o ombro.

- Não, não devia. - concordou respirando profundamente - Até porque você poderia ter dito outra coisa.

- Mas não disse outra coisa. - o loiro sorriu.

- Eu sei. - falou circundando a nuca dele com a mão e afastando os cabelos - Eu vi. - sussurrou lambendo-lhe o pescoço em seguida, mas não teve a reação esperada, bufou - Qual o problema afinal?

- Você me quebra, Milo. - ele encheu o peito de ar e passou a mão no rosto nervosamente - Passei os últimos três anos treinando e aprendendo a controlar minhas emoções, mas... - olhou desolado para a neve violenta batendo contra a janela - Mas então você aparece - virou-se para ele, a expressão fria, mas os olhos guardavam uma intensidade sem igual - e me quebra.

O escorpiano quase riu dele, era tão engraçado ver o Camus, o seu Camus desconsertado daquele jeito, tinha vontade de apertar até quebrar os ossos.

- E você acha que você não me quebra? - falou rindo de leve - Você é a única pessoa que me faz descumprir as ordens do Santuário, me fez perder o navio naquele dia, me fez desviar meio continente do meu caminho só para vir te ver. - terminou de falar e lhe acariciou o que cabelo liso, o viu erguer uma sobrancelha.

- Desviar? - ergueu a outra - O Grande Mestre não sabe que você está aqui?

- Não. Saí do Santuário pra ir a uma missão na Noruega. - disse coçando a própria cabeça e se afastando um pouco do ruivo.

- Isso não vai te causar problemas?

- Talvez. - deu de ombros - Qualquer coisa digo que me perdi um pouco do caminho.

- Hum... - o ruivo assentiu - Considerando seu senso de direção, ele facilmente irá acreditar.

- O que quer dizer com isso? - Milo fez uma cara emburrada e o francês conteve o riso.

- Nada. - deu de ombros e fez menção de levantar, mas o loiro o derrubou de volta na cama e o fez deitar, jogando o peso de seu corpo sobre o dele.

- Onde pensa que vai? - deu um sorriso faceiro e lhe encarou enquanto se acomodava melhor sobre ele.

- Buscar os aprendizes, já estão fora há muito tempo. - falou seriamente e viu o loiro rir, os olhos azuis e brincalhões sobre si.

- É tão estranho isso. - disse-lhe risonho.

- O que?

- Isso de mestre Camus. – ironizou fazendo uma careta gozada.

- Não soa mal. – disse o ruivo catando uma peça de roupa do chão.

- Não, de forma alguma. – disse levantando também e tentando por alguma ordem nos cachos desgrenhados – Só é estranho... – sorriu travesso enquanto o ruivo começava a se vestir – Mas pensando bem até soa sexy, não acha?

- Não. – respondeu seco enquanto terminava de por a calça percebendo então que Milo estava perigosamente perto.

- Não? – o loiro levantou as sobrancelhas com um ar de riso e depois mudou a expressão para algo absolutamente provocante – Pois eu acho que sim... – disse lentamente com a voz rouca, abraçando o francês pela cintura e roçando os lábios nos dele – Eu acho que é – sussurrou – se dito da maneira correta.

- Milo. – o francês repreendeu.

- Sim, - concentrou o olhar na boca dele por um segundo e depois voltou aos olhos com aquela face estupidamente sensual de inocência fingida – mestre Camus? – completou com a voz rouca, tão rouca que por pouco não o havia ouvido.

- Não faça isso. – disse sério suspirando, mas completamente arrepiado.

- Fazer o que, mestre Camus? – disse com aquele jeito provocante e beijou o outro nos lábios, sendo correspondido com mais afinco do que esperava.

- Droga, Milo! – partiu o beijo para praguejar e abriu o botão da calça ouvindo o riso de vitória do escorpiano.

O agarrou firme pela cintura colando os corpos musculosos e o empurrando lentamente para o leito. Caíram pesadamente na cama que rangeu ao impacto, o ruivo levantou de leve e puxou a franja do outro para trás para ter certeza que ele o encararia.

- Meus pupilos me chamam assim, seu maldito! – disse com o tom habitual, mas transpassava raiva e desejo com seu olhar profundo.

- Eu sei. – Milo disse vendo-se livre do agarre nos cabelos e riu – Assim garanto que você vai sempre pensar em mim quando eu me for. – gargalhou mais.

Mas o francês podia perceber que havia sido um riso forçado, lembrar que ele iria embora não era bom pra nenhum dos dois. O ruivo inverteu as posições o deixando por cima e apenas o abraçou forte. O loiro deixou o sorriso morrer com o rosto enfiado na curva do pescoço do outro, aspirando o aroma distante daquela pele. Beijou-lhe abaixo da jugular e passou os dedos por trás da orelha dele, fazendo carinho na raiz dos fios lisos, suspirou longamente.

- Diga que não quer que eu vá. – o escorpiano pediu, a voz grave parecendo agora muito infantil.

- Não quero que você vá, Milo. – falou, passando a mão pelo cabelo loiro.

- Diga que quer que eu fique pra sempre. – falou ainda mais manhoso que antes.

- Eu quero você aqui pra sempre. – respondeu brincando com um cacho entre os dedos com o olhar perdido em um ponto qualquer do teto.

- Diga que me ama. – pediu apoiando uma cabeça na mão e o cotovelo no travesseiro para vê-lo melhor. O ruivo o encarou e abriu a boca uma vez ou duas sem conseguir dizer nada.

- Não força, Milo. – falou enfim, desconfortável com a situação.

Por um longo minuto o grego o encarou sério e o obrigou a desviar seus olhos escuros para aquele mesmo ponto de antes. O corpo do loiro pareceu tremer por um momento e Camus arriscou um olhar desconfiado em sua direção, não podia acreditar que ele havia começado a chorar por algo assim. Bem, ele não estava chorando. Milo tentava engolir o riso, mas não conseguiu por muito tempo e riu com vontade enquanto o francês apenas o olhava sem entender.

- Você é engraçado, Camus. – declarou enfim quando conseguiu parar.

Engraçado, ninguém além dele usaria aquela palavra para descrevê-lo. Engraçado... Como não pudera perceber isso antes? Talvez fosse engraçado como dizia, desde que conseguia lembrar era quase sempre ele a fazer o loiro rir, desde aquele primeiro dia, não intencionalmente, mas... Ele encarou os olhos azuis, risonhos e soube. Já não podia ficar distante de Milo, e não importava mais o dever.

~0~

[1] Você é meu.

[2] E você meu, meu amigo.

[3] Você fala francês, Milo?

E depois de meses, eis que ela reaparece xD huahaauha Desculpa, galera! Eu realmente me enrolei pra escrever isso aqui, que difícil T-T Sem falar que eu tava meio que me formando xD Então levou um tempo pra eu poder parar e realmente escrever .-. Mas tá ai lemonada bem gelada, quem queeer? xD Espero que tenham gostado!

Beijinhos,

V. Lolita