O Lado Negro da Lua

Capítulo Quatro

Tempestade

Will acordou com um gosto amargo na boca e uma dor de cabeça horrível. Ele acordou já com a memória clara: Ellen, o rum e mais de Ellen. Eles tinham trocado vários beijos na noite anterior. Certo. O que isso significava? Ele não tinha ideia de como aquela noite tinha acabado. Definitivamente tinha sido mais de um beijo. Tinha sido bom. Mas ele amava Elizabeth, certo? E ele gostava de Ellen. E definitivamente gostava dos beijos de Ellen...

Puta que pariu, Ellen Lauren Huntington, de todas as merdas que você já fez, beijar Will Turner foi a maior de todas elas.

Ela já tinha ficado bêbada. Muito bêbada. Já tinha beijado caras bêbadas. Já tinha beijado caras que tinha acabado de conhecer. O problema com Will era que... Bem, ela estava ajudando ele a salvar a vida da mulher que ele amava. E afinal, se Will amava tanto Elizabeth, por que tinha beijado Ellen?

Homens e rum. Não era para dar certo.

Eles só tinham parado de se beijar depois de muito tempo. O clima tinha esquentado bastante entre eles, e ela não saberia dizer até onde aquilo iria... Se Jack não tivesse chegado de forma barulhenta, quebrando o momento. Ela sorriu para Will e se mandou para o quarto dela. Meu Deus, que merda, Ellen. As coisas provavelmente ficariam muito esquisitas agora.

Como previsto por Ellen, o dia seguiu esquisito. Ela e Will mal se falaram, aliais, mal se olharam. Jack, por outro lado, a encarava. Ellen imaginava que ele deve ter percebido que estava rolando alguma coisa.

Gibbs tinha arrumado uma tripulação.

-Jack – Ellen seguiu Jack para dentro da cabine do capitão. As coisas tinham por mim se acalmado e eles tinham zarpado há algumas horas. – Estive bem quieta. Não fiz mais perguntas além do nosso trato. Mas agora preciso saber, qual é o plano?

-Vamos quebrar a maldição, pegar o ouro, eu recupero meu navio, o que você acha desse cenário, amor?

-Como, Jack? Eu não posso trabalhar sem nem ao menos saber qual maldição estamos enfrentando. Você disse que precisaríamos de uma pessoa.

-Eu já sei onde ela está. Isso não é problema. Vamos pegá-la assim que resgatarmos a Srta. Swann.

-Bem, ai está outra questão: por que está ajudando William?

-Por que você está ajudando, Ellen? Ou por que você está me ajudando?

-Preciso do ouro. Você fez perguntas sobre mim em Tortuga, sabe quem sou.

-Huntington. O sobrenome me era familiar. Já conheci alguns Huntingtons, mas devo acrescentar: nenhum deles tinha a sua beleza. Imagino que tenha boas fontes para saber disso, mas preciso acrescentar: não poderia trabalhar com você sem saber quem você é.

-Isso é verdade.

-Também fez algumas perguntas em Tortuga.

-Obviamente. Sou jovem, mas já estou há vários anos nos negócios.

-Então estamos entendidos. Agora, Ellen, amor, preciso ir alterar nosso curso.

Ele saiu num andar bêbado, e Ellen se viu a sós na cabine. Não conseguiria mais detalhes do caso com Jack, pelo menos enquanto não resgatassem Elizabeth Swann. Suponha que a determinação de Jack em ajudar Will estivesse relacionada à amizade de Jack com Bootstrap Bill. Ela esperasse que esse regaste não demorasse muito; queria muito ver Will pelas costas. Não se falaram o dia todo e ela estava se sentindo muito confusa.

Os quatro dias passavam devagar no navio, mas a grande movimentação cuidou para manter Ellen e Will longe um do outro. Tinham trocado algumas palavras do que era absolutamente necessário, mas conseguiram se evitar.

Ellen já tinha aquietado sua mente em relação a Will. Ela não era nenhuma garotinha inocente sem experiência em relacionamento. A época era rígida para as outras meninas, mas as meninas caçadoras conheciam a vida e tinham mais liberdade. Tinha sido divertido, mas ela tinha muitos problemas. Tentara descobrir mais alguma coisa da maldição, revistara as coisas de Jack, fizera algumas perguntas discretas a bordo, mas não obteve sucesso. Ouviu uma coisa ou outra sobre navios e piratas amaldiçoados, mas nada sólido e ela não arriscaria fazer mais perguntas, com medo de atrair a má atenção de Jack. Jack não parecia o tipo agressivo, mas ela não era de arriscar. Ele já deixara claro que não queria falar sobre o assunto, não naquele momento e podia ser que não ficasse feliz com ela interrogando a tripulação, que era pequena demais para ter muita discrição.

A imagem formada na mente de Ellen era sobre um navio com uma tripulação amaldiçoada; chegou a brincar com a ideia que esse navio era o que Jack almejava obter de volta. Mas ela não tinha como ter ideia de quem poderia ser a pessoa que procuravam, não com tantos poucos detalhes.

No quinto dia, uma tempestade veio... E foi nesse dia que Ellen mais questionou sua decisão de acompanhar Jack.

Will se aproximou de Gibbs; observando Jack ver uma bússola que parecia não funcionar. Will sentia a cabeça pesada, parecia que nunca tinha pensado tanto. No que estava fazendo, no que Jack planejava, em Elizabeth e em Ellen, principalmente nesta última. Não importava o quanto ele tentasse, não conseguia parar de pensar nela, e naquela noite... Ela estava agindo friamente sobre o ocorrido, e ele tentou seguir o exemplo, mas toda vez que ele a via, sua respiração falhava e seu coração perdia uma batida.

Ele estava tentando se convencer que ter esses sentimentos por Ellen não significa que ele não amasse Elizabeth. Na verdade, não eram sentimentos que ele tinha por Ellen. Era desejo. Não era muito admirável da parte dele, mas Ellen era uma mulher bonita. Ele tinha se sentido atraído por ele desde o instante que a vira, e era natural, porque ela era realmente muito bonita. Era normal que esse desejo tivesse aumentado depois do acontecimento naquela noite... A noite que ele evitava pensar, mas que o tempo todo borbulhava na mente dele, ele e Ellen, no convés, os lábios dela, o toque dela, o corpo dela encostado ao dele...

Sacudiu a cabeça para afastar (novamente) os pensamentos e falou com Gibbs:

-Como podemos atracar numa ilha que ninguém sabe onde é com um compasso que não funciona?

-Certo – respondeu Gibbs – o compasso não aponta para o norte, mas não estamos tentando achar o norte, correto?

A tempestade se tornou mais intensa. Will nunca na vida se sentiu tão molhado e cansado. Não vinha dormindo direito a dias.

-Ai!

Um dos mastros, empurrado pelo vento, acertou Will bem na testa. Ele sentiu o sangue quente se misturando à água fria da chuva.

-VÁ PRA BAIXO, VÁ PARA BAIXO. – gritou Anamaria – Vamos, saia daqui.

Ele desceu, sentindo a cabeça tonta.

A parte debaixo do navio estava fria e escura. Havia apenas uma cabine com luz, e foi nela que Will entrou, sem pensar.

Ellen estava deitada na cama, cantarolando.

-And now I want find you but you're off the run, my heart's exploding like a burning sun, I know you like when it hurts, it hurts, when it hurts.

-Você canta bem – falou Will sem pensar, se segurando ao portal.

-AHH – gritou Ellen, dando um pulo.

-Me desculpe, não queria te assustar.

-Não é sua culpa, eu estou hipersensível. – ela riu e voltou a cantar – Hold me, we're dancing in the dark of night, you're shining like a star light, I light you up when I get inside, so won't you touch me, cause everybody's watching us now – a voz dela foi morrendo ao som da chuva. Ellen tentou permanecer calma. Apesar de se sentir sem graça, Ellen sabia como manter a classe e agir como se estivesse confortável. Ela cruzou as pernas, sentada na cama. – Você está machucado – ela reparou por fim.

-É, um acidente no convés, por isso que desci aqui. – ele sorriu. Ellen parecia estar lidando bem com a situação deles, então ele também poderia.

-Vou pegar alguma coisa para limpar isso. – ela foi até uma gaveta e jogou uma toalha para ele.

Will se sentou ao lado dela na cama, com o coração batendo desconfortavelmente.

Ela esticou o braço, passando um pano.

-Não é um corte fundo, mas é uma boa desculpa para sair da chuva.

-É, mas não sei se deveria escapar... – ele não estava aguentando mais. Ela estava bonita, ali, há luz de velas. Mesmo com o cabelo bagunçado e arrepiado, a pele muito pálida e os olhos cansados. – Ellen, sobre aquela noite...

-Nós não precisamos conversar sobre isso, Will. Nós estávamos bêbados, e para falar a verdade, eu nem me lembro de muita coisa.

A segunda parte era mentira. Ela lembrava, mas preferia não pensar nisso.

-É, você está certa. – ele respondeu, se sentindo muito esquisito. – então, está tudo bem?

-Sim, claro. Que bobagem Will. Somos amigos, não somos?

-Sim, claro. – ele repetiu as palavras dela, meio atordoado, talvez pela batida na cabeça, talvez porque na cabine o ar estava muito quente se comparado a embaixo da chuva, talvez por causa do balançar do navio durante a tempestade. – então, hm, você já sabe alguma coisa dessa maldição que Jack está perseguindo?

-Ele mencionou um tesouro. A maioria dos tesouros astecas foram amaldiçoados para os conquistadores não o levarem. Essas maldições eram feitas pelos Deuses astecas. O problema é que existem muitos deuses astecas. Eu precisava saber alguma característica da maldição para ver qual deus poderia ter sido.

-Hmm, quando o Perola Negra atacou Port Royal, seus tripulantes não morriam. E eles pareciam como esqueletos.

-O Perola Negra é amaldiçoado? – perguntou Ellen surpresa. – Jack não mencionou isso.

-É, eu acredito que talvez ele não esteja mencionando um monte de coisas para nós. Não se pode confiar em piratas.

-Então, quando você diz que eles não podem ser mortos... Me faz pensar em Tezcatlipoca. Ele é um dos Grandes Deuses Criadores do mundo asteca, senhor do céu noturno, da lua, das estrelas, do fogo e da morte.

-Ellen... Você já pensou na possibilidade que está maldição que Jack está querendo destruir pode ser a mesma que assombra o Perola Negra?

-Ele me disse que quer recuperar o navio dele. Poderia ser possível que esse navio é o Perola?

Will riu. – Jack é um pirata meio acabado. Pode ser apenas que ele fantasie em ser capitão do Perola, mas não acredito que ele tivesse sido dono do Perola um dia. Pode ser que ele apenas queira rouba-lo do outro pirata. Eu sinceramente não quero mais me envolver com negócios de Jack. Eu apenas...

Ele se calou. Ele apenas queria salvar Elizabeth, mas não conseguia dizer isso na frente de Ellen, não depois de terem ser beijado. Ele tentava colocar na cabeça que o beijo não significava que existia um relacionamento entre eles. Will sempre tinha sido um romântico. Não era como os outros rapazes de Port Royal, que viviam atrás de mulheres, por vezes até pagando prostitutas. Ele passou seus 10 anos de vida em Port Royal amando Elizabeth, e sonhando com o momento que ficariam juntos. Então ele ficou bêbado e beijou Ellen, que era praticamente uma desconhecida. Ele queria fingir que isso não estava o afetando. Que ele salvaria Elizabeth e assim tentaria ganhar o amor dela. Ele desconfiava que Elizabeth correspondia a seus sentimentos, o que faltava era a oportunidade de ambos ficarem juntos, e claro, o fato dele ser ferreiro e ela filha do governador interferiria. Mas ele preferia ser otimista. Mas conhecer e beijar Ellen não estava em seus planos.

-Então – ele disse, após o silêncio estranho – depois que voltarmos, você continuara com Jack?

-Eu acho que sim. Minha vida é viajando. – ela já tinha contado um pouco sobre caçadas para ele, mas nunca entrara muito bem em conversas mais pessoais.

-Como você entrou para essa vida, Ellen?

-Minha família é de caçadores há gerações. Sempre fomos. Passando conhecimento de geração a geração. Éramos conhecidos e respeitados em todo o mundo. Mas fomos sendo mortos. Sobraram então os últimos Huntingtons: minha avó, Lauren, e meu avô, Tom. Eles tiveram 4 filhos: Raissa, Rainy, Mariana e Alec. Minhas tias eram mais de 10 anos mais velhas que meu pai, e todas morreram ainda jovens. São histórias trágicas. Meu pai então era o último Huntington, e precisava viver, e produzir uma família. Foi escolhido para ele se casar com a jovem herdeira de uma importante família: Annabel Luke.

-Sua mãe?

-Não. Minha mãe chama-se Samira. Eles se apaixonaram. Ela nem ao menos era de uma família de caçadores. Ela caiu nessa vida, e meu pai salvou ela num caso que deu errado. Ele abandonou Annabel, e fugiu com minha mãe. Eu nasci. E minha mãe, bem, ela não estava preparada para criar uma criança. Ela abandonou meu pai e eu, e meu pai voltou para a casa, e por fim se casou com Annabel. Eu tinha uns 2 anos, e eu era a filha bastarda. Meu pai sempre foi um bom pai... Annabel me odiava. Ela foi abandonada no altar, e ela era a segunda opção do meu pai. E eu era a lembrança constante disso. Eu sai de casa aos 15 anos, já estava cansada. Da última vez que eu soube, o oitavo Huntington tinha nascido do casamento entre os dois.

-Então, esteve por conta própria desde que tinha 15 anos?

-Mais ou menos isso. – Will olhou para ela, sentada em cima da cama. Ele estava admirado. Imaginava que ela devia ser corajosa. Forte, talvez. E com certeza tivera uma vida muito diferente da dele, e com certeza mais interessante.

Um raio caiu perto do navio. Ele se lembrou de Elizabeth. Onde quer que ela estivesse, rezava para que ela estivesse bem.