Capítulo I — Surpresa em azul-marinho
Esta história começa como qualquer outra: com o começo. Sim, eu sei, isso soa incrivelmente redundante, mas vamos ignorar esse fato já que a ideia está sendo expressa da forma correta.
Bem... Talvez não tão corretamente, já que a minha história começou muito tempo atrás (e por muito tempo eu quero dizer realmente muito; cerca de quinhentos anos) com um poço, uma joia poderosa, um hanyou e uma flecha. Mas essa parte do relato, creio eu, todos já conhecem. Então vamos nos concentrar no que aconteceu depois que esta fase da minha vida chegou a um fim.
Primeiro, precisamos lembrar que, depois de cada fim, existe um início. Este, em especial, envolve meu primeiro dia na universidade, dois youkais poderosos, meu nascimento e uma descoberta espantosa.
O dia havia amanhecido ensolarado, com promessas de felicidade e satisfação. Que piada. Nenhuma dessas promessas foi realmente cumprida.
Imagine o mar atribulado por uma violenta tempestade. Pois é, agora triplique o estrago, e foi assim o meu primeiro dia de universitária. Não que eu tenha achado inteiramente ruim (ao menos boa parte do dia não foi um desastre). Andei mais que ansiosa esperando por isso — embora sair correndo ao mesmo tempo em que comia uma torrada e gritava para Souta que o mataria caso ele não subisse na moto de uma vez não seja lá uma forma muito inspiradora de se iniciar qualquer coisa.
Não se importe com isso, Kagome Higurashi, hoje é primeiro dia do resto da sua vida, eu havia repetido para mim mesma e isso havia realmente me dado algum consolo. Na verdade, não era necessário muita coisa para me trazer paz interior já que meu destino parecia finalmente estar entrando nos trilhos: tinha completado dezoito anos há pouquíssimo tempo e sido selecionada para o curso de medicina na Universidade de Tóquio.
É a hora de perguntar o motivo de eu ter escolhido logo medicina como curso de graduação, eu sei. Não é pelo fato de gostar de estudar ou de ficar morrendo de dores de cabeça por culpa disso, mas sim pela minha parte miko¹ que ainda permanecia entranhada em mim, mesmo tendo se passado três anos desde que voltei para a minha era.
Claro que para conseguir entrar nesse curso, eu tive que me matar de tanto estudar. Aliás, acredito que nem mesmo minha família acreditava que eu conseguiria, em razão da grande quantidade de faltas que eu tinha no meu histórico (resultado de passar meses na Era Feudal; ausência explicada por meu avô com as doenças das mais estranhas, que ia desde meningite até malária).
Infelizmente, desde aquele dia em que me separei de Inuyasha eu não fui mais capaz de utilizar o Poço Come-Ossos. E esse é um assunto que prefiro evitar, já que sempre faz com que eu fique triste e nervosa.
Mesmo depois de tanto tempo, ainda sinto meu coração apertar sempre que me lembro de Inuyasha e meus amigos deixados na Era Feudal... Mas há muito tempo decidi não me deixar abater; só me restava seguir com minha vida, a qual foi mais que protegida por todos. No frigir dos ovos, eu estaria sendo uma garota muito ingrata caso não respeitasse minha vida o suficiente para seguir em frente.
Bem... Isso era assunto que poderia ser deixado para depois. O que realmente importava no momento era a minha manhã. Afinal, aquele era meu primeiro dia de aula e eu estava relativamente atrasada. A ponto de quase me esquecer de parar na frente do colégio de Souta para que ele pudesse ir para a aula dele.
Apenas parei de correr como uma louca quando entrei na sala de aula designada para os calouros de medicina e o meu professor me olhou dos pés à cabeça, erguendo sua sobrancelha esquerda de taturana — indago-me se de fato não era uma taturana ali fingindo ser uma sobrancelha.
— Sorte sua, ele acabou de entrar. — anunciou uma morena de olhos caramelos; sentei na cadeira ao seu lado. — A propósito, sou Yamada Ruri.
— Kagome Higurashi. — apresentei-me, respirando meio ofegante. Precisei de alguns minutos para me recompor da corrida.
Ruri sorriu de forma complacente. Tentei responder o seu sorriso à altura, mas não estou muito certa se consegui. Voltei minha atenção ao professor que apontava para um slide refletido na lousa com os dizeres "Introdução à Medicina e suas Modalidades".
Pensei comigo que era fácil... Afinal, não passava de uma aula preliminar sobre o que estava por vir. E, outra, no primeiro dia de aula os professores não começariam com matérias aborrecidas que fizessem os aspirantes a médicos desistirem do curso.
Só que, bem... Eu deveria ganhar quinhentos ienes sempre que me enganava.
Meu professor, senhor Kiroshiro, era um sádico metido a filósofo. Ele parecia querer criar uma utopia sobre unidades hospitalares. Falava sobre o compromisso que devemos ter com nossa profissão (se é que um dia sairíamos da universidade, como ele fez questão de primar), com a ética profissional e relação entre médicos e pacientes.
Em meu íntimo vinham as perguntas sobre a relevância daquilo tudo para a matéria. Eu precisei usar toda a minha força de vontade para conter o desejo de perguntar se aquele discurso seria assunto de prova.
A primeira aula havia sido chata, apesar da minha ansiedade. Em compensação, a segunda aula, de "Anatomia Geral e Sistema Ósseo", fora um tanto quanto nojenta. Laboratório logo no primeiro dia e assim tão cedo... Argh. Felizmente, não havia nenhum cadáver. Temi por colocar minha torrada para fora logo em meu primeiro dia.
Não se enganem, eu estava gostando da base da matéria. Apenas estava receosa com a forma como os professores estavam aplicando tudo isso logo no primeiro dia. Parece meio desesperador, como se eu tivesse a obrigação de estudar todo o Almanaque de Medicina antes das aulas, para já começar com o bonde andando.
Se bem que, pensando um pouco, eu compreendo que é muito melhor eliminar aqueles que não estão satisfeitos com o curso logo no início — apesar de que se você se esforçou para ter um aproveitamento escolar bom o suficiente para cursar medicina na Universidade de Tóquio e não tem certeza se realmente é o que quer, você é no mínimo muito idiota.
Quando o horário de almoço chegou foi que notei o quão faminta estava. Ao menos não ia almoçar sozinha no meu primeiro dia na universidade. Por sorte, havia conhecido pessoas interessantes naquela manhã — obrigada, mundo, por ter me dado facilidade para fazer amizades retardadas.
Uma dessas pessoas era a Yamada Ruri. Nós tínhamos a mesma idade. Fisicamente, ela era bem mais baixa do que eu, batendo em meu queixo, e tinha pele muito branca. Para ser mais clara, a analogia perfeita para descrever seria "boneca de porcelana".
Havia também Arata Arisu, que era dois anos mais velha que eu. Ela havia passado algum tempo em cursos preparatórios para universidade e ficou muito indecisa sobre para qual universidade e o curso a fazer.
E por fim, o Maiko Kenjiro completava o quarteto de pessoas almoçando juntas no gramado. Kenjiro era um ano mais velho do que Ruri e eu. Ele havia sido reprovado na primeira vez que fez o exame de nivelamento (de acordo com ele, havia tido uma terrível dor de barriga durante a prova e por isso não conseguiu responder nem mesmo metade das perguntas). Ele possuía um porte físico atlético, embora bem magro, e usava óculos de armação metálica, que não me impediram de notar que seus olhos eram castanho-escuros como o seu cabelo curto.
— Fico imaginando se terei estômago para lidar com cadáveres. — comentou Arisu, tomando um gole em sua lata de suco de laranja. Ruri fez uma careta de nojo enquanto Kenjiro observava seu própriobento com uma expressão indecifrável.
— Algum problema, Kenjiro? — perguntei ao notá-lo erguendo a sobrancelha direita e, logo depois, a esquerda.
— Estava pensando se aquela dor de barriga era um sinal para não fazer medicina. Vou emagrecer horrores vomitando meu café da manhã e almoço e possivelmente o jantar quando for questionado sobre meu dia.
— Emagrecer mais? — falou Ruri com indignação suficiente, para Arisu e eu. Kenjiro havia sido veterano dela no colégio, o que significava que ela tinha propriedade para julgar o físico dele.
— Vai sumir na primeira ventania. — falou Arisu me fazendo rir enquanto levava a latinha até a boca.
— Eu seguro firme no Kashimoto.
Aquela declaração me fez cuspir o suco, que por sorte não acertou ninguém.
Nós três sabíamos que Kenjiro fazia parte do nosso time desde a aula de laboratório quando ele fez comentários sobre Kashimoto Edward, um aluno mestiço da nossa turma. Todas pareciam fascinadas por Edward. Ele tinha o cabelo loiro desalinhado, mantidos em um visual desleixado, mas com roupas muito bem alinhadas, dando aquele "quê" sensual — palavras de Kenjiro; sinceramente, eu o achei bonito, mas não fiquei babando como aqueles três que me acompanhavam — os olhos eram verdes mesclados com castanhos — outro detalhe analisado por Kenjiro que revelara achar meus olhos azuis muito mais lindos do que os olhos de Kashimoto.
— Lá vem ele com sua paixão platônica pelo Kashimoto. — reclamou Arisu balançando a mão no ar.
— Assim, tudo que não quero é ter apenas uma paixão platônica por ele. Se é que me entende.
— Que horror, Kenjiro. — falei, voltando atenção para meu suco.
— Vou ignorar isso.
— Eu não entendi. — anunciou Ruri, fazendo com que a gente risse e falasse que era melhor não entender mesmo.
Por alguns segundos, ficamos em silêncio enquanto guardávamos nossos bentos. Foi tempo suficiente para que nossos ouvidos detectassem sons de garotas agitadas, bem ao estilo "colegial quando vê seu ídolo juvenil" e ficam ouriçadas.
Entreolhamo-nos e levantamos enquanto observávamos as meninas se reunindo. Parecia aquela típica cena de shoujo; mas como a minha vida é recheada desses clichês, eu posso dizer que até não ficava lá muito surpresa.
— Será que teremos uma atração especial? — questionou Arisu.
— Para esse alvoroço feminino, tem que ser o Mister Universo aqui. Será que ele está na Universidade de Tóquio? Eu realmente não sei se aguento tanta felicidade.
— Kenjiro, menos. — falei, passando a alça da minha bolsa pelo ombro.
— Não custa nada verificar. — Ele deu de ombros e seguiu para onde as meninas haviam ido. A curiosidade por fim me venceu e segui os meus novos amigos. Mas, por sorte, não precisei andar muito para achar o motivo de tanto alvoroço.
Senti meu sangue gelar, assim como a minha testa e mãos. Sentir uma presença como aquela nessa era fez com que eu me questionasse em desespero "Como era possível?", "Por que aquilo estava acontecendo?" e "O que ele queria aqui?".
Era um youkai.
A presença que eu sentia era nostálgica, como dos outros youkais de Sengoku Jidai. Embora tivesse peculiaridades que eu nunca tinha percebido antes em um demônio.
Franzi o cenho, confusa com o fato de eu senti-lo não como antes eu sentia os youkais, quando meus poderes de sacerdotisa funcionavam como uma espécie de "sensor aranha"... Agora era algo mais instintivo. Como se meu cérebro tivesse um catálogo com várias assinaturas de presença e eu tentasse encaixar o que eu sentia em alguma categoria — exatamente como eu sempre imaginei que um animal fizesse.
Hesitei, mas meus novos amigos me fizeram prosseguir. Em minha mente vieram várias formas de como poderia evitar aquele encontro com um youkai e fazer todos correrem, mas em todos os planos as chances de me mandarem para uma clínica de recuperação mental eram de cento e vinte por cento.
— Pai amado. — ouvi Arisu exclamar, enquanto ela apertava meu braço, com força suficiente para me fazer abrir a boca e franzir o semblante.
— Que seja gay. — falou Kenjiro ao nosso lado, quase sussurrando. Temi que o youkai tivesse ouvidos tão bons quando os de Inuyasha.
— Lindo. — sussurrou Ruri, ao meu lado.
A curiosidade venceu meu medo e olhei na direção para a qual eles estavam estáticos, encarando, e logo entendi claramente o alvoroço feminino e a perplexidade dos meus colegas.
Por mais que fosse um youkai, e eu estivesse com medo do que aquilo poderia significar, eu tinha que admitir que o desgraçado era lindo. Eu tentei garantir a mim mesma que nem todos os youkais eram maus... mas só o fato de a maioria que eu encontrei serem, já fazia com que eu ficasse apreensiva.
Ele olhou em nossa direção e por um momento temi por minha segurança. Até reagi olhando para os lados a procura de Inuyasha, Sangô ou Miroku, como fazia antigamente.
O youkai caminhava com as mãos dentro da bermuda bege que ia até um palmo abaixo do joelho, seu porte físico musculoso ficava muito evidente por causa camisa branca regata que usava — será que youkais não sentem frio? Ele parou de andar quando estava a menos de um metro de distância de nós quatro.
Com isso, pude ver melhor seu rosto, surpresa com o fato de que era totalmente humano, sem caninos afiados ou orelhas pontudas; embora tivesse uma cicatriz em seu lábio superior. Observei com curiosidade um par de olhos azul-claro e o cabelo negro com pontas azuis... Azul-marinho para ser específica. Vi que os fios caíam sobre seu rosto de forma desalinhada, assim como o fato de que havia alguns fios enrolados na altura do ombro, o que indicava que o cabelo seria cacheado se ele deixasse crescer. Ele não era exatamente alto, talvez um palmo maior do que eu, no máximo, mas ainda assim parecia muito intimidante.
Pude ouvir os meus três amigos suspirarem ao meu lado quando ouviram a voz grave e rouca dele pronunciar um "boa tarde".
— Boa tarde. — responderam Kenjiro, Arisu e Ruri automaticamente. Eu estava perplexa demais para conseguir pronunciar alguma coisa.
— Kagome?
— Oi? — respondi, balançando a cabeça ao perceber tarde demais que ele sabia meu nome e que meus amigos acharam que nós dois nos conhecíamos por conta disso. A situação se tornou ainda mais suspeita quando ele sorriu, mostrando seus dentes brancos e perfeitos de quem pagava fortunas ao dentista.
Vendo minha expressão surpresa, ele lançou um olhar cretino na minha direção. Senti meu coração acelerar no peito. Minha experiência com youkais não era exatamente o que eu podia chamar de grandes eventos pacifistas. Tirando Shippou e Kirara... todos os outros tentaram me matar ao menos uma vez. Inclusive Inuyasha.
Se isso não fosse o bastante para a adrenalina correr pelo meu corpo, havia o fato de eu nunca ter visto um youkai em forma humana na era atual — os poucos que eu havia visto eram youkais inferiores, que não representavam perigo latente. Todos aqueles anos haviam me levado a acreditar que todos os youkais de grande poder como os que eu havia lidado no passado estavam extintos há séculos.
— Você é tão bonita quanto eu imaginava que seria. — o youkai disse, olhando-me dos pés à cabeça.
Recuei um passo, apavorada. youkais não eram exatamente mestres em ter interesse saudável. Todos eles exageravam na proporção a que levavam seus sentimentos. A raiva, eles traduziam em energia negativa. A tristeza em fúria. O amor em possessividade.
— Desculpe, gente... — eu sussurrei, engolindo em seco. Eu estava falando para os meus colegas, mas não tirava os olhos do youkai — Eu... Eu acho que não estou me sentindo bem. Vou mais cedo para casa.
Antes de terminar, dei as costas, tentando me afastar o quanto pudesse dele, ou ao menos levá-lo para outro local que não fosse um terreno enorme cheio de alunos.
— Ir embora cedo? — ouvi Kenjiro perguntar — Mas é o primeiro dia de aula!
Olhei de relance para trás, vendo que o youkai ainda me encarava com um sorriso torto, mas não saíra do lugar. Minha prioridade no momento era fugir. Depois eu pensaria no absurdo que era aquela situação.
Notas:
¹Miko: sacerdotisa.
Bom aqui está o primeiro capítulo, espero que gostem.
Ladie e eu estamos nos empen hamos nessa fanfic e para ser sincera acho que somos as mais empolgadas com ela também (Com exceção da Nyara que surta loucamente a cada parágrafo).
Um beijos e espero comentários sobre o primeiro capítulo, o próximo acredito que semana que vem.
