Capítulo II — Alguém com meus olhos
Todo santo dia eu reclamava dizendo que a pessoa que havia decidido construir trezentos e vinte e dois degraus para se chegar ao templo da minha família era um sádico-filho-da-mãe.
Aposto que havia feito o caminho ao templo ser tão absurdamente longo apenas para dizer "ora, você realmente quer achar a sua paz interior, para ter tamanha perseverança".
Para mim isso tinha o efeito contrário. A única paz que eu encontrava era em amaldiçoar cada degrau enquanto eu subia.
Hoje, no entanto, foi diferente. Pois se eu, que vivi lá por tempo o bastante para me acostumar, tremia de ódio cada vez que tinha de subir os trezentos degraus, então talvez o youkai que eu encontrara na universidade desistisse de me perseguir ao encará-los. Se eu tivesse sorte, ele veria que não valia a pena encarar aquilo pelo meu corpinho.
Juro que nunca subi aquela escadaria tão rápido na minha vida. Entrei na minha casa e fechei a porta de correr. Finalmente na segurança do meu lar, eu percebi que minha pressão tinha baixado e que eu estava tonta — fora de questão perceber que apenas uma porta fechada seria insuficiente para me proteger de qualquer coisa.
— Mãe? — chamei, sentando-me no chão, esperando a vertigem passar. Não ouvi resposta.
Respirei fundo algumas vezes.
Droga... Que diabos significava tudo aquilo? Por que um youkai que aparentemente me conhecia havia aparecido na faculdade?
Abri a minha bolsa e tirei um amuleto em forma de dragão que meu avô havia me entregado algum tempo atrás. Ele havia dito que era para ninguém descobrir quem eu era... Pelo jeito, aquela porcaria não servia de nada, pois a única explicação para aquele youkai ter aparecido é ele ter percebido que eu era uma sacerdotisa.
Joguei o amuleto dentro da bolsa e me levantei.
— Mãe? — chamei novamente, dessa vez mais alto.
— Ela não 'tá em casa! — gritou Souta do primeiro andar — Ela levou o vovô para uma consulta.
— Está bem. — gritei de volta. E agora... O que eu deveria fazer? Eu tinha que avisar minha família sobre isso. Ainda mais por que meu avô era (ou se dizia ser) especialista em exorcismos. Talvez fosse necessário se o maldito youkai fosse aparecer ali.
Bati contra a minha própria testa. Lógico que não iria dar certo. Inuyasha não sentira nem cócegas quando meu avô tentara...Até que alguns dos pergaminhos de Miroku viriam a calhar agora.
Andei na direção do meu quarto e passei quase três minutos estagnada na frente meu guarda-roupa aberto. Encarei o meu arco, hesitante. Eu não sabia se tinha condições de lutar contra um youkai sem meus amigos ao meu lado.
Fechei os olhos e franzi os lábios.
— Vamos, Kagome. — resmunguei para mim mesma, pegando o arco e algumas flechas que eu havia feito apenas por hábito, ciente de que, provavelmente, nunca as usaria — Você não pode mais contar com eles.
Sem me dar tempo para desistir e me esconder debaixo da cama, saí do quarto e me dirigi para a sala, onde ficaria até que minha mãe e meu avô aparecessem.
Eu estava descendo as escadas quando o senti. Estagnei, surpresa. Não era a mesma presença do youkai de hoje à tarde... Embora fosse semelhante. Ainda assim, minha surpresa era por que a presença era mais... poderosa. Como a presença de Naraku, sem aquela coisa de miasma maligno.
Eu ouvia o som de Souta jogando videogame no quarto dele e decidi que eu não podia deixar que o youkai entrasse na minha casa. Abri a porta de correr de uma vez e saí para o pátio, com uma flecha posicionada no arco, pronta para ser puxada.
Foi quando eu os vi. Sim, dois, não apenas um. O youkai de hoje mais cedo era um deles. Provavelmente eu não o sentira por causa da sobreposição da presença do outro youkai. E, diabos, eles eram tão parecidos fisicamente que era óbvio que eram parentes. Embora o novo youkai fosse mais alto e o cabelo curto fosse apenas negro, sem nenhuma nuance de pontas em azul-marinho do outro.
A diferença mais interessante, no entanto, eram os olhos azuis, frios como gelo. Não se pareciam com os olhos ardentes que o outro tinha, mesmo que os dele também fossem da mesma cor. Os rostos dos dois eram estranhamente familiares para mim, embora eu não pudesse dizer quem eles me lembravam.
Mas bem... Agora não era hora para me prender a isso.
Apontei minha flecha para o mais alto dos dois. Não sei se era uma boa ideia começar ameaçando-o, mas também não ia esperar que eles fizessem o primeiro movimento.
— O que vocês querem? — perguntei.
O youkai mais alto colocou a mão dentro dos bolsos da calça social preta. Ele estava vestido com um terno de corte ajustado que fazia o outro youkai, vestido em bermuda bege e camisa regata branca, parecer um menino de rua.
— Kagome, — disse o youkai de bermuda — abaixe essa arma, querida, não vamos fazer mal a você.
Arregalei os olhos. Querida?!
Puxei o fio do arco até quase cortar meus dedos.
— Acho bom. Os dois. Irem embora. — avisei, entredentes — Eu não estou brincando, droga.
— Kagome, por favor, se acal... — antes que ele terminasse, eu lancei uma flecha, que passou a três centímetros do rosto bonito e se fincou numa árvore — Oh, my lord Ganesha! — Ele desviou os olhos arregalados da flecha para mim, indignado. O outro nem mesmo se moveu. — Eu espero sinceramente que sua mira seja boa e que sua intenção fosse me dar um susto... Por que se você errou e seu alvo era eu, então vou ter que dar uns bons tapas nesse seu traseiro lindo.
Senti que ruborizava. Esse youkai era descendente do Miroku, por acaso? Alguma youkai retardada aceitara a oferta de dar um filho para o monge safado e agora criaturas como eu tinham que sofrer com a perversão dele... Essa é a única explicação!
Encarei o outro youkai, tentando observar sua reação. Ele ainda continuava impassível, observando-me.
— Viemos em paz! Deixe que eu me apresente. Meu nome é Daiki Tsubasa, muito prazer. — disse o youkai de bermuda, sorrindo sonsamente.
— Não perguntei seu nome. — eu disse.
— Você deveria ser mais educada. Eu disse meu nome... agora você me diz o seu.
— Você já sabe o meu nome. — rolei os olhos.
— Não importa se eu sei o seu nome ou não. Um dos princípios básicos da apresentação é que quando alguém se apresenta, você faz o mesmo. Sua mãe pecou em sua educação. — Ele olhou para o youkai mais alto. — Tem papel e caneta aí? Se ela não entendeu agora, vou ter que desenhar.
O outro apenas fungou, irritado.
— Digam agora o motivo de estarem me perseguindo ou enfio essa flecha em vocês. — falei colocando outra flecha no arco.
— Você não teria coragem de tentar nos matar. — Daiki disse, sorrindo.
— Já matei tantos youkais que até perdi a conta. — eu respondi. Tudo bem que exagerei na parte do "perdi a conta", mas eles não precisavam saber.
Daiki coçou o queixo, pensativo, em seguida começou a contar nos dedos fazendo uma careta de quem estava ficando desesperado por causa de uma prova difícil de álgebra.
— A não ser que eu esteja ficando louco, (o que pode ser provável, mas vamos ignorar isso)... — ele disse, meio aéreo, como se não estivesse de fato falando comigo. — Hoje em dia não existem tantos youkais assim a ponto de alguém "perder a conta".
A segunda flecha que disparei não foi exatamente intencional. Na verdade, ela foi obra de um susto. A culpa foi toda daquele youkai grandão com expressão facial de Rocky Balboa na última luta dos filmes. Ele deu um passo em minha direção, fazendo com que eu instintivamente virasse o arco para ele e soltasse a flecha.
Por sorte, a flecha não o acertou. Não que ele tenha desviado ou eu tenha errado, mas sim por que Daiki havia se movido em velocidade definitivamente sobre-humana e interceptado a flecha.
Vi quando ele a quebrou no meio com as mãos e me encarou, com olhos previdentes. Devagar, ele se colocou na frente do outro youkai, enquanto dizia:
— Desculpe, Kagome... Mas não posso deixar que você ataque o meu Senhor. — Imediatamente, ergui a mão para pegar outra flecha na aljava, mas interrompi o movimento quando vi o youkai mais alto meter um tapa na nuca de Daiki, fazendo com que ele caísse de cara no chão, em um grande estrondo.
Arregalei os olhos, chocada.
Daiki ergueu o rosto, com uma mão no nariz, enquanto perguntava, com voz nasalada:
— Por que diabos você fez isso, Hideo?!
Hideo estreitou os olhos para Daiki, enquanto exclamava:
— Quer dizer que agora eu sou seu Senhor, idiota?! — A voz dele era grave e poderosa... E ele estava irritado. Muito irritado. — Engraçado é que você não se lembrou disso quando eu mandei você manter essa sua pessoa inútil exatamente onde estava quando sentimos a presença dela!
— Mas Hideo... — choramingou Daiki, levantando-se. — Nós nunca tínhamos sentido a presença dela das outras vezes que viemos para Tóquio...
— Você tem que parar de ser tão malditamente impulsivo e me escutar mais vezes. — Ele se virou para mim, olhando-me — Agora tenho que resolver as confusões em que você nos mete.
Ele deu um passo na minha direção e voltei a apontar a flecha para ele.
— Não se aproxime. — eu ameacei. Ele não disse nada e deu mais um passo em minha direção. Decidida a não me intimidar, puxei o fio do arco e lancei outra flecha. Dessa vez, Daiki não a interceptou, limitando-se a resmungar um "bem feito para você".
Observei a flecha fincada em seu ombro e senti uma gota de suor descer gelada pelo rosto. Droga, era agora que ele lavava o pátio com as minhas tripas.
— Ela destruiu seu terno italiano. — constatou Daiki, sorrindo marotamente.
Hideo observou Daiki. Notei apenas um estreitar de olhos enquanto Daiki balançava a cabeça, rindo daquela situação. Como ele poderia rir? Talvez fosse pelo fato de que minhas flechas não seriam capazes de pará-los. Possivelmente ele estava caçoando de minha determinação em ficar viva.
Constatar isso me deixou realmente furiosa e me fez armar a próxima flecha.
— Vão embora.
— Kagome... — começou Daiki, mas o outro ergueu a mão em um claro sinal que era para ele se calar.
Eu estava pronta para atirar novamente se fosse preciso, mas, antes que me desse conta, Hideo estava segurando minhas mãos, ainda com a flecha presa em seu ombro, o que fazia a cena ser mais assustadora.
Meu coração batia fortemente e outra gota de suor frio desceu pela minha bochecha enquanto sentia minhas pernas tremerem. Ele aproximou mais o rosto, permitindo-me ver claramente seus olhos azuis-claros mesclados com azul-escuro.
Esperei que ele me mandasse soltar o arco ou que simplesmente me golpeasse, contudo, ele apenas puxou o arco de minhas mãos com tanta força que me senti ser impulsionada para frente, antes que caísse senti alguém me segurar. Era o próprio Hideo com a mão esquerda sobre meu ombro. Assustei-me ao perceber o quanto sua mão era grande. Um tapa e eu estaria com todos os ossos quebrados, possivelmente.
— Caramba, eu castigaria gente por muito menos. — Ele desviou o olhar para a flecha e continuou com aquele tom de voz mais baixo e rouco, era assustador. — Maldita promessa.
Devagar, observei quando ele franziu o cenho e tirou a flecha do ombro. A flecha estava escurecida e percebi que o ferimento no ombro dele gotejava sangue negro.
— Você... é uma sacerdotisa? — Hideo perguntou, surpreso. Provavelmente ele percebera só agora que a flecha havia absorvido meu poder de miko antes de ser lançada. Era uma pena que meu poder purificador não chegasse aos pés do que era antes, ou o estrago feito seria maior. Daiki franziu o cenho, olhando para a flecha na mão do outro.
— Como é possível? — Daiki perguntou, olhando para mim.
Estreitei os olhos.
— O que... vocês querem? — consegui questionar mais uma vez, vacilante demais para ser levada a sério.
Hideo se afastou dois passos, deixando a flecha cair no chão, enquanto arrumava sua roupa, franzindo o semblante ao notar a mancha escura na camisa branca.
— Queremos você. — ouvi Daiki. Arregalei os olhos enquanto ele coçava o queixo parecendo ponderar sobre que havia dito. — O Hideo nem tanto, mas eu quero demais.
— Como?
— Isso soou pervertido. Ah, foda-se, eu quero mesmo.
Era um fato: Miroku havia tido um filho com uma youkai e ele estava agora na minha frente.
— Me quer?
Ele ergueu a sobrancelha esquerda, enquanto Hideo dava outro tapa na nuca de Daiki, fazendo-o ir de encontro ao chão mais uma vez.
— Ignore a existência dele. — ouvi Hideo dizer, quando voltou sua atenção para mim. — E não fique animada, ele não quer você dessa forma... Na verdade, está muito longe disso.
— Já disse que estou adepto de incesto desde que a vi. — Hideo voltou sua atenção novamente para o outro, e apontou para ele, gritando — Se me bater de novo, eu vou vender sua coleção de mangá do Karekano na internet!
— Eu não tenho mangás de Karekano!
— Tem sim, eu vi eles junto com seus hentais! Seu pervertido.
Eu realmente acreditei que os dois fossem começar uma luta ali. E ao julgar pelas minhas experiências em lutas de youkais, aquilo iria destruir minha casa. Por sorte, a aura de batalha se desvaneceu quando ambos olharam em direção à escadaria que dava acesso ao templo.
Olhei para lá, observando o que chamara a atenção dos dois. Meu avô e minha mãe, ambos nos encarando, boquiabertos. Eu me perguntava até que ponto eles saberiam o que aqueles dois ali eram, mas tive que deixar o questionamento deles de lado quando minha mãe sussurrou exasperada, enquanto encarava Hideo:
— Takashi?
Oi? Encarei minha mãe, sem entender aquela reação. Afinal, ela era sempre uma mulher tão centrada e calma que vê-la reagir daquela forma me surpreendeu.
Ela deixou meu avô onde ele estava e se aproximou meio hesitante.
— O que você está fazendo aqui? — ela perguntou para Hideo, olhando desesperada na minha direção. Arfei quando vi lágrimas a ponto de cair de seus olhos — Você me prometeu! Você disse que nunca a procuraria se ela não estivesse correndo perigo!
Hideo virou-se para ela, com expressão compenetrada.
— Você está me confundindo. Takashi era meu pai e ele morreu há dois anos. — Hideo disse — Eu sou o filho dele, Hideo Tsubasa, e sou o novo Senhor dos Tengus. Foi em respeito ao meu pai que nós nunca a procuramos. Mas agora as coisas mudaram. Qualquer youkai em uma área de cinquenta quilômetros pode senti-la. Imagino há quanto tempo ela não é um farol sinalizador, mas, infelizmente, faz anos que nenhum tengu põe os pés em Tóquio e só agora eu tomei conhecimento disso.
Essa conversa não estava estranha demais? Takashi... Tengus... Sentir quem?! Olhei para minha mãe, esperando que a expressão dela demonstrasse a mesma perplexidade que a minha. Mas só havia tristeza... e revolta.
— Ela está segura.
— Só se for em seus sonhos. — Hideo colocou as mãos nos bolsos novamente.
— Vá embora. — Minha mãe disse ácida — Eu não os quero aqui.
— Você não tem escolha.
— Agora! — Eu estremeci quando ouvi minha mãe gritar.
— Eita porra, essa brabeza é genética. — comentou Daiki, alheio àquela atmosfera tensa.
— Eu quero que os dois saiam agora. — Ela olhou para Hideo e Daiki — Eu... preciso conversar com a minha filha.
Hideo analisou minha mãe, e depois a mim. Pareceu aquiescer ao pedido dela, mas Daiki tinha outros planos.
— Não vamos sair. Nós temos direitos, sabia? Eu fui privado de conviver com ela por anos... Ao menos...
— Daiki. — interrompeu Hideo.
— Mas ela é nossa irmã, Hideo! Nós não podemos...
— Vamos embora. Agora. — Hideo falou firme. O que Daiki dissera? Ele me chamara de... irmã?
Comecei a rir.
— Apenas parem. — A risada ecoou pelo pátio. — Minha mãe está certa, vão embora de uma vez e tratem de não voltar.
Hideo e Daiki me observaram por alguns instantes. Depois Hideo suspirou e começou a andar na direção da escadaria, segurando o braço de Daiki no caminho e levando-o junto. Os dois ainda me lançaram um olhar antes de começarem a descer e foi quando eu percebi o motivo de eu achar o rosto deles tão familiar.
Os olhos deles eram iguais aos meus.
Muita coisa para pensar em um dia só. Como eu disse, que dia desesperador esse.
De início, havia as matérias de hoje, primeiro dia de aula e comecei faltando nas aulas da tarde, maravilhoso, esplêndido! Qual o problema do destino em me deixar ter uma vida acadêmica normal?
Segundo, eu havia encontrado youkais superiores na era atual. E não entendia como aquilo poderia ser possível.
Terceiro, aqueles youkais estavam atrás de mim e um deles havia declarado que eu era irmã deles.
E para completar minha confusão minha mãe estava sentada na minha frente com uma expressão nada agradável, como se fosse uma criança que estava sendo obrigada a fazer algo que realmente não gostaria.
Eu estava tentada a perguntar o que tudo aquilo significava, mas ao ver o olhar mortífero que ela lançou ao Souta quando este entrou na sala para pegar a mochila que havia esquecido sobre o sofá, eu desisti de começar a fazer as perguntas e optei pela minha integridade física.
— Kagome. — fiquei ereta ao ouvi-la pronunciar meu nome, aquele tom de voz apenas era usado quando queria chamar minha atenção a algo errado que eu havia feito. — Precisamos conversar sobre seu pai.
— Papai...? — perguntei, confusa — O que ele tem a ver com essa loucura toda?
Ela suspirou, massageando as têmporas.
— Eu não sei nem por onde começar, Kagome. Esse é um assunto que tem pairado sobre minha cabeça por anos, sempre me atormentando... Mas eu realmente acreditei que nunca precisaria trazê-lo à baila. — Ela respirou profundamente — Kagome... Eu fico tão envergonhada de dizer isso, mas... Acho que você, mais do que ninguém, merece saber a verdade. Apesar da covarde da sua mãe nunca ter tido a decência de lhe contar.
— Mãe... Você está me assustando. E olha que depois do que passei hoje, isso é uma proeza e tanto.
Observei enquanto minha mãe olhava para as mãos apertadas em seu colo.
— Fale logo de uma vez, por favor. Isso só está me deixando mais ansiosa. — reclamei, franzindo o cenho. Eu nem sabia o que ela tinha para me falar e já sentia minha cabeça latejar. Por isso que sempre odiei isso de "precisamos conversar". A ansiedade geralmente podia ser pior que todo o resto. — O que tem papai?
— Bem... — Ela ergueu os olhos para mim e depois os desviou — É que... apesar de Shiro ter cuidado de você como se fosse realmente seu pai biológico... Essa não é bem a verdade.
— Como assim não é "bem a verdade"?
— Ele não era seu pai, Kagome.
Do que ela estava falando?! Como é que o homem que me criou não era o meu pai? Daqui a pouco ela diria que ela tinha me achado em uma cápsula no mato e que havia me criado como humana, apesar de eu ser de uma sociedade alienígena extinta.
Muito bem, tragam-me logo o produtor desse reality show. Por que é isso que está parecendo. Cadê o produtor? Preciso ter uma conversa séria com ele.
— Shiro não é seu pai biológico, Kagome. Um ano antes de conhecê-lo eu tive um relacionamento com outra pessoa. O nome dele era Tsubasa Takashi e, bolas, ele era tão bonito que mais de uma vez eu me perguntei se ele era humano. O que, aliás, é uma grande ironia. — Eu franzi o cenho. Takashi? Não fora assim que ela chamara Hideo? — Eu fiquei grávida e não contei para ele. Fiquei com medo do que aconteceria se a família dele descobrisse e, principalmente, de tirarem a criança de mim. Foi então que eu conheci Shiro... Ele era tão bom comigo e tão gentil. Ele te amou como se você fosse filha dele.
— Mãe... — falei quase que grosseiramente — Fale com todas as letras o que você quer dizer.
Ela respirou fundo mais uma vez.
— Você é filha de Tsubasa Takashi, Kagome... E ele... ele é... ou melhor... era um youkai. O líder dos Tengus.
Um... youkai? A dor de cabeça piorou, enviando ondas de desconforto pela minha espinha. Inclinei-me para frente, colocando a cabeça entre minhas mãos.
— Não pode ser possível. — eu disse meio apática — Se eu fosse filha de um youkai... então eu seria...
— Uma hanyou. — soou a voz do meu avô da porta da sala — Meio-humana, meio-youkai. Como aquele seu amigo estranho que cheirava a tapete mofado.
Ergui a cabeça apenas o suficiente para encará-lo.
— Vovô? — perguntei — O senhor... sabia?
— Por que você acha que eu sempre forçava você a usar tantos amuletos? Eu passei grande parte da sua vida tentando achar amuletos que mascarassem sua verdadeira natureza... Você deu trabalho para danar para esse velho aqui. — ele sentou ao meu lado, sorrindo.
— Que natureza, vovô? — perguntei, perplexa — Eu convivi com youkais de todos os tipos... Com pessoas que reconheceriam uma hanyou... Não faz sentido que eu seja filha de um youkai do qual eu nunca ouvi falar na minha vida.
— Por que você é meio-humana... e seu lado humano herdou poderes de sacerdotisa. — Ele segurou minha mão — Seu lado miko era poderoso demais... Purificava sua parcela youkai e mascarava completamente a presença de hanyou. Por que você acha que eu e sua mãe incentivávamos você a passar tanto tempo no mundo além daquele poço? Não é por que somos irresponsáveis, mas por que queríamos que você controlasse o máximo possível seus poderes purificadores. Queríamos que o poder estivesse sob controle para que você estivesse a salvo quando fôssemos para o mundo dos mortos.
Sorri amavelmente para meu avô.
— Não faz sentido, vovô. — Eu balancei a cabeça de um lado ao outro — Alguém teria notado... Isso não é tão simples assim...
— E alguém notou. — disse minha mãe, parecendo desgostosa — Seus irmãos. Os filhos de Takashi.
Irmãos. Isso soou como um tapa. Se o que eles estavam me falando era verdade... Então... Então Hideo e Daiki eram meus meios-irmãos?
Voltei a apoiar a cabeça nas mãos.
Acho que vou vomitar.
— Por que eles perceberam a presença dela? — questionou minha mãe, para si mesma — Pensei que os amuletos fossem o suficiente.
— Bem, eu tenho uma teoria sobre o motivo. — Meu avô coçou a orelha, enquanto respondia — O poder sagrado da Kagome estava intensamente atrelado à existência da Joia de Quatro Almas. Quando a joia foi destruída, isso deve ter enfraquecido o lado miko dela, então o lado youkai começou a ganhar terreno. Bem... Isso é apenas uma teoria... Talvez isso seja somente... normal para alguém na condição dela. Talvez daqui a alguns anos o lado miko mascare novamente o youkai. Não existem realmente precedentes sobre uma hanyou com poderes de sacerdotisa.
— Essa é a questão. — eu disse — Não é possível... Vai contra a natureza existir algo assim. — Olhei para minha mãe — Mãe... Você tem certeza disso? Certeza que sou filha desse tal Takashi?
Quando vi minha mãe enrubescer de fúria, percebi que havia falado demais.
— Como assim?! Você acha que sou promíscua? Lógico que você é filha dele! — ela exclamou, irada.
Encolhi-me na direção do meu avô, enquanto ele sorria para mim:
— Entenda sua mãe, Kagome... Seu pai era um homem muito bonito.
Olhei-o, desconcertada. De repente, a ficha começou a cair.
Não sei ao certo como reagir a isso. Eu não rejeitava a natureza dos hanyou ou dos youkais. Essa, na verdade, era a parte que menos importava na revelação. O que me incomodava era a ideia de deixar de ser quem eu sou — ou pior, de não fazer ideia de quem sou realmente.
— Meu... pai... — Senti minha garganta quase rasgar para conseguir dizer aquilo — ele sabia que eu existia?
— Sabia. — disse minha mãe — Ele descobriu quando você tinha dois anos... E ficou furioso com o fato de outro homem criá-la. Foi ele quem disse que não havia possibilidade de você ser completamente humana, e que iria levá-la para sua casa, em Sapporo. Ele queria criá-la, mas Shiro não deixou. — Vi minha mãe sorrir, como se recordasse uma lembrança doce — Fiz seu pai prometer que deixaria que eu a criasse, desde que você pudesse se passar por humana. Ele não quis, mas eu o convenci quando argumentei que você nunca seria feliz vivendo entre youkais quando aparentemente não tinha nenhum dos poderes dele. Eu queria que você crescesse como humana.
— E por que meus... irmãos... me procuraram?
— Ao que parece, eles estavam cientes da promessa do pai de vocês. Esperaram que você emitisse presença youkai para procurá-la.
— Mas por que eles iriam me procurarem? — questionei, inflexível — O Hideo mesmo disse que... — ergui as duas sobrancelhas, surpresa — Ele está morto... O pai que eu nunca conheci está morto. — Não sei por que aquilo me deixou triste. Por que eu me sentiria triste por saber da morte de um homem que eu só sei o nome?
— Para protegê-la, óbvio. — disse minha mãe — Takashi uma vez me disse que... os hanyous eram muito cobiçados como servos. Eles se infiltram facilmente na sociedade humana e não emitem uma aura tão forte quanto as de um youkai puro.
Arregalei os olhos.
— O quê? Desde quando?! — Comecei a rir. Isso era contrário a tudo que eu vi na Era Sengoku. Hanyous não eram cobiçados. Eram odiados e evitados a todo custo. Se bem que isso era a forma como os hanyous eram encarados quinhentos anos atrás. Muita coisa poderia ter mudado em cinco séculos.
— Bem... Ele provavelmente falou isso apenas para me assustar a ponto de eu entregá-la para ele. — Minha mãe se inclinou para me olhar mais de perto — A questão, Kagome, é que ele conseguiu me deixar com medo. Se você realmente está em perigo... Então, talvez... seja melhor que você seja protegida pelos seus irmãos.
Levantei-me de um pulo.
— O quê? Por que a senhora está falando isso?! — exclamei atordoada.
— Você nem sabe o qu...
— Não quero falar sobre isso agora. — eu a interrompi — Eu preciso... pensar. Vou tomar um banho. Outra hora a gente conversa sobre isso.
E fui embora antes que ela dissesse qualquer outra coisa. Já havia coisa suficiente para pensar para acrescentar mais. E agora fico para lidar com a descoberta espantosa.
Nota da Autora:
E ai galerinha xD
Então, nem demoramos para postar esse capítulo, admitam.
Estamos ainda em faze de produção do próximo capítulo, então espero paciência, ainda mais comigo que tenho que terminar PF, alias, acho que até sexta tem capítulo novo =D
E que estão achando?
Confesso que estamos quebrando a cabeça com esse plot, que demasiado complicado =/
Que acharam do Daiki e do Hideo?
Estamos aqui surtando com esses dois, isso porque a gente criou xD
Beijos e até o próximo capítulo, obrigada pelos comentários, responderei todas as perguntas feitas, então não precisam ficar desesperados achando que eu não respondo, eu respondo sim, na nota da autora, prometo identificar quem perguntou, alias, podem perguntar as coisas para a Ladie também e cobrar ela pelo OGDE que está parado a muito tempo, essa safada, eu me acerto com ela, podem deixar .
Fuiz
