Capítulo III — (Tentativa de) Indiferença
Não era bom estar distraída logo no segundo dia de aula, mas o que uma pessoa em minha situação poderia fazer?
Afinal, não sei como reagiria alguém que descobre de um dia para o outro que seu pai não é de fato seu pai, mas sim apenas um homem que lhe aceitou de muito bom grado para poder se casar com sua mãe. E não feliz com essa revelação, ainda tem o detalhe do meu pai biológico ser um youkai e ter dois filhos mais velhos, que são meus meios-irmãos, dos quais somente ontem tomei conhecimento.
"Muito bem, Kagome, não é hora de pensar nisso", repreendi a mim mesma. Nesse momento estou decidida a prestar atenção na aula, por que é isso que os humanos fazem: se esforçam muito em tudo o que fazem, por que têm vidas curtas e frágeis.
Um banzai aos humanos!
— Senhorita Higurashi, faça o favor de conter seus ímpetos de revolução, está bem? — minha professora de Introdução a Anatomia pediu (como diabos ela lembrou meu nome?!), encarando-me por cima dos óculos de aro vermelho. Todo mundo olhava para mim.
Não acredito que falei aquilo alto.
Enterrei a minha cabeça no meu caderno. Porcaria de youkais! Destroem minha vida social mesmo quando não colocam o dedo sujo deles na situação.
A porta de correr ao lado da professora abriu rudemente. Todos olharam para lá. Afinal, se fosse um aluno chegando atrasado entraria pela porta de correr nos fundos da sala.
Poderia ser algum funcionário da faculdade. Só que não. Era o Daiki.
Meu coração quase saiu pela boca quando o vi, vestindo uma calça jeans surrada e uma blusa negra com os dizeres "Beba até me querer". Ele lançou um olhar pela sala e eu me encolhi, numa tentativa de passar despercebida. Até parece que consegui tal proeza. Daiki sorriu para mim e acenou levemente.
Kenjiro olhou para mim como quem dizia "me explique isso... now!". Engoli em seco.
— Kagome. — Daiki me chamou — Venha aqui um segundo.
— Você pode se retirar? — disse minha professora— Não permito que ninguém atrapalhe minha aula, garoto!
Daiki lançou um sorriso irônico para ela.
— Meu nome não é "garoto". Eu sou Daiki Tsubasa. — ele disse.
A professora empalideceu vertiginosamente e pigarreou.
— Perdoe-me, senhor Tsubasa. — ela virou-se para mim, nervosa — Kagome Higurashi, vá de uma vez com ele.
— Tsubasa. — disse Daiki, como se estivesse corrigindo alguém — Ela é minha irmã, Kagome Tsubasa.
Era uma ova!
Que ótimo! Agora não era apenas Kenjiro que me encarava com expressão de descrença, mas toda a sala.
Completamente embaraçada, peguei meus pertences e saí.
— Ande mais devagar! Eu sofro de joanetes! — Disse Daiki atrás de mim, enquanto eu me apressava pelo corredor. Lancei um olhar irritado para trás.
— Você é um youkai! Não sofre dessas coisas!
— Que seja. Sofro de preguiça. Vai mais devagar! — Ele choramingou. Estaquei no meio do corredor e me virei para ele.
— O que você fez com a minha professora? — perguntei azeda — Ela praticamente estremeceu quando você disse seu nome.
— A família Tsubasa é uma das principais patrocinadoras de iniciativa privada da Universidade de Tóquio. — Ele explicou. — Não fiz nada demais.
— Ótimo. Continue sem fazer nada e vá embora. — Voltei a andar pelo corredor.
— Espere. — Ele segurou meu braço — Eu entendo que está sendo difícil absorver tudo isso, mas acredite em mim quando digo que nunca lhe faria mal. Eu sou seu irmão. É meu dever protegê-la.
Fechei os olhos por alguns segundos e depois me pus a encará-lo.
— Sim, está difícil absorver e você ficar me perseguindo não está ajudando. — Puxei meu braço do aperto da mão dele — Eu preciso de tempo. Agora vá embora, por favor.
Ele me encarou por alguns segundos, em uma expressão decepcionada. Depois sorriu de leve e foi embora.
Horário de almoço e, como eu imaginava, lá vieram as perguntas.
— Como assim "Kagome Tsubasa"? — Foi o primeiro questionamento, vindo de Ruri que sentou-se ao meu lado.
— Por que se apresenta como Higurashi? — foi a pergunta proferida por Arusa.
— Seu irmão é hetero? — Rolei os olhos diante a interrogativa de Kenjiro, ele só poderia estar tirando uma com a minha cara.
Soltei um suspiro pesaroso e voltei a concentração ao meu bento, não por muito tempo, pois Kenjiro começou a me sacudir pelos ombros.
— Responde criatura, ele é hetero?
— Sim, ele é hetero. — Embora não pudesse realmente afirmar isso com certeza. Kenjiro resmungou algo que não entendi.
— E quanto às outras perguntas?
Soltei um longo suspiro enquanto encarava Arusa. Pensei na melhor forma de respondê-la. Cheguei à conclusão de que não sabia como responder, portanto, apenas forcei um sorriso, balancei a cabeça de leve e respondi:
— Longa história. Resumidamente, não tínhamos contato e eu uso o sobrenome do meu pai de criação.
— Problemas de família?
— Sim. — Fiquei aliviada quando Ruri evitou que Arusa continuasse o interrogatório e me puxou para ir buscar suco com ela.
Três dias se passaram. Por enquanto, nada havia acontecido. Minha mãe não tocou mais no assunto e meu avô, às vezes, passa longos momentos me encarando, mas nada argumenta. Durante esse tempo, não vi Daiki e muito menos Hideo.
Por mais que eu sentisse que uma hora ou outra eu aceitaria tudo, eu também acho que é saudável esperar passar a fase de negação. Faz parte do processo, acredito. Não importa. No momento, só posso agradecer pela calmaria — se bem que muita gente diz que isso é prelúdio de tempestade, e, com a minha sorte, é mais fácil acontecer um dilúvio.
Por ora, eu estava empenhada em esquecer aquele assunto, seguir com a vida normalmente ignorando qualquer tipo de informações sobre youkais e me comportar como uma jovem adulta normal em sua tarde de sábado. Portanto, saí com Ruri e fomos ver um filme, algo meloso e muito dramático; afinal, terror estava vedado após uma semana lidando com cadáveres e não havia nenhum filme de ação em cartaz.
Estava tudo tranquilo, até que Ruri chamou minha atenção para um indivíduo dentro do cinema. Estreitei os olhos, confusa com aquele ser peculiar, afinal, ele estava de boné, óculos de lentes escuras e sobretudo laranja, e ainda havia o fato de que ele abriu um jornal, cruzando as pernas. De imediato, pensei:
"Esse homem é um lunático. Vai puxar uma metralhadora desse sobretudo e matar todo mundo nesse cinema."
O que mais eu poderia pensar daquele ser?
Segurei o braço de Ruri e apenas com um aceno afirmativo de cabeça, nós duas nos levantamos e saímos do cinema. Afinal, podemos ir nos divertir em qualquer outro lugar onde não houvesse um lunático. No entanto, de todas as pessoas que se retiraram do cinema com o mesmo ideal que nós duas, apenas aquele homem nos seguiu.
— Será que é um pervertido? — questionou Ruri sentando-se na cadeira defronte a minha.
Meu senso de proteção me fez entrar nessa lanchonete próxima ao cinema, uma vez que não achei seguro ficar vagando pelas ruas com esse cara nos seguindo. Ali, ao menos, havia muitas pessoas que poderiam intervir caso ele tentasse algo.
Admito que ele ter entrado na lanchonete e sentado em um canto mais escuro tornando a abrir aquele bendito jornal, fez com que meu coração falhasse uma batida e meus joelhos começassem a bater um contra o outro. Aquilo só demonstrava que ele estava realmente nos seguindo e que aquilo não era fruto de minha mente paranoica.
— Eu não sei. — respondi com sinceridade.
— Vamos ficar aqui até ele se cansar e ir embora.
— É uma ideia válida. Mas e se ele não for?
— Chamamos alguém.
Concordei com a cabeça, mesmo sem saber quem poderíamos chamar naquela situação. Talvez Ruri tenha irmãos mais velhos que viriam correndo para defendê-la, já que namorado eu sei que ela não tem, afinal, quem iria ao cinema com uma amiga em um dos poucos dias de folga (faculdade de medicina ocupa muito tempo), tendo um namorado?
Comecei a me desesperar, sentindo o formigamento típico de quando estou nervosa demais para achar uma saída plausível. Eu não poderia chamar Souta. Ele mal tem 14 anos! E vovô está velho demais para descer aquela maldita escadaria a tempo de me ajudar. Poderia chamar mamãe. Apesar de ela ser sempre gentil e frágil ela sabe botar medo se estiver com um rolo de macarrão na mão.
Diabos... Em que estou pensando? Para começo de conversa, por que tem um pervertido maluco seguindo a mim e a Ruri?
Olhei para ela.
Ok, ela é linda. Super explicável.
Mas e se não for apenas isso (se é que posso catalogar um psicopata atrás de mim como "apenas")? E se não for coincidência e eu for a verdadeira culpada dessa situação? Ainda posso me lembrar de minha mãe e do Hideo dizendo que eu não estava mais em segurança.
Eu nunca me perdoaria se colocasse a Ruri em perigo. Olhei para a minha amiga, nervosa. Ela apertou as mãos, como se estivesse rígida demais tentando não olhar para o maníaco.
— O que fazemos, Kagome? — ela me perguntou, meio desesperada, como se não fosse capaz de fazer coisa alguma, a menos que eu lhe dissesse como agir.
— Chamar a polícia é uma opção?
— Mas ele não fez nada. Não podemos chamar os policiais apenas por termos um cara estranho na mesma lanchonete que a gente, é necessário mais que isso.
— Colocando nesse ponto de vista... Mas vamos esperar ele fazer algo para procurar as autoridades?
Ela mordeu o lábio inferior e sobressaltou-se quando a garçonete veio nos perguntar os nossos pedidos; apenas dois sucos, e mesmo assim nem tocamos neles quando foram servidos.
— Você não tem ninguém pra quem possa ligar?
— O homem mais jovem que conheço é o Kenjiro. — respondi me sentindo solitária ao lembrar que antes eu teria sim a quem recorrer. Inuyasha. Mas agora...
— E o seu irmão, Daiki, né? — ele me perguntou hesitante, como se soubesse que aquele assunto fosse me atormentar. — Você não tem o número dele?
Não, eu não tinha.
Respirei fundo, Ruri não precisava saber do desconforto que aquele tema ainda me causava, por isso, apenas acenei negativamente com a cabeça fazendo-a apertar as mãos novamente. Tudo bem, vamos analisar a situação mais uma vez. Esse lunático... seria ele apenas um humano ou não?
Bom, não sinto qualquer vibração de youkai vindo dele. Isso me acalmou levemente. Contudo, mesmo sendo um humano, ele ainda era grande; nós duas não teríamos quaisquer chances contra ele em um combate corpo a corpo.
Muito bem, analisar a situação novamente me deixou mais nervosa.
Podem me chamar de interesseira, mas aquele nervosismo me fez pensar que ter uma forma de chamar o Daiki seria realmente muito, mas muito bom naquele momento. De certa forma sentia que estava sendo sincero quando disse que me protegeria e, mesmo achando absurdamente estranho, sinto que posso confiar nele quanto a isso.
Conclusão: sou mesmo uma interesseira.
— Não podemos passar a noite toda aqui. — resmunguei, olhando o maníaco de relance, vendo que ele abaixou novamente os olhos para o jornal quando percebeu que eu o encarava. — Vamos sair daqui, se ele nos seguir, a gente corre.
Ruri e eu pagamos a conta (a todo momento tentando evitar olhar para o homem) e saímos da lanchonete.
Minha amiga agarrou meu braço.
— Ele está nos seguindo? — perguntou, num fio de voz.
Olhei por sobre o ombro.
— Sim. — respondi, com um bolo na garganta — Corre, Ruri!
Com isso nós duas saímos em disparada, sem nem mesmo olhar para trás e ver se o maníaco nos perseguia. Entramos numa livraria, que estava lotada de gente, e nos embrenhamos rapidamente nas gôndolas e prateleiras, parando na seção de quadrinhos.
Apoiei minhas mãos nos ombros de Ruri, enquanto nós duas arfávamos.
— Está tudo bem agora. — arfei — Ele não vai nos achar aqui.
Ruri colocou a mão no peito, à altura do coração.
— Você acha?
— Tem muita gente na livraria.
— Mas... — ela parou e então encarou algo atrás de mim, com olhos arregalados.
Muito bem, fui tomada pelo pânico e esse sentimento me fez agarrar o que estava mais próximo de mim, que no caso era uma versão de capa dura de um livro o qual não reparei o nome... Afinal, eu o utilizei para acertar o rosto de quem quer que fosse que estava atrás de mim. E era o maníaco, obviamente. Ruri não teria tido aquela reação se não fosse ele logo atrás de mim.
Duas coisas inesperadas aconteceram.
Primeiro: o choque do livro no rosto do pervertido foi tão forte que ele envergou completamente o corpo na direção da estante, quase caindo sobre ela. De onde eu havia tirado tanta força?
Segundo: estávamos prontas para correr, mas o "ai" do maníaco foi de uma voz familiar que fez tanto eu quanto Ruri olharmos para ele... os óculos haviam caído e de perto pude reconhecer aquela cicatriz no lábio.
— Daiki?
Estávamos sentados de novo na lanchonete. Ruri estava completamente pálida, apertando o copo de papelão com cappuccino. Eu, no entanto, estava furiosa, encarando esse louco que alega ser meu irmão. Daiki segurava uma bolsa plástica com gelo contra a bochecha, a qual foi fornecida de forma completamente solícita pela garçonete (mesmo com um lado do rosto inchado, Daiki sabia ser extremamente charmoso e usou todo o seu poder de atração contra a coitada).
— Você é louco?! — perguntei, quando a mulher se afastou — Por que diabos você estava me perseguindo?!
— Não fui eu que acertei o próprio irmão na cara com um hentai. Aliás, o que você fazia naquela seção?
— Você abriu um jornal dentro do cinema e vem me questionar por me defender de um pervertido...
— Mate um pervertido com um hentai, e ele morrerá com que mais ama... É essa a sua filosofia?
—Criatura! — quase rosnei — Por que diabos estava me perseguindo?! É sério... Precisava levar essa história de disfarce tão a sério?! Eu jurava que você era um desses pervertidos que andam pelados por baixo dos sobretudos, sabia?!
— Quem disse que não estou? — ele perguntou, sorrindo maliciosamente, o que ficou bizarro com a metade do rosto inchada.
— Daiki. — adverti baixinho.
— Meu nome fica mais lindo quando pronunciado aos sussurros por uma linda mulher. Repita por favor, estou ficando excitado aqui.
Eu queria bater nele do outro lado do rosto agora. De fato, daria um dos meus rins em troca de um daqueles livros de capa dura para acertar esse lesado com psicológico perturbado.
Nem percebi que Ruri nos encarava com descrença. Tenho certeza que a perversão desse descendente do Miroku a desconcertava. Infelizmente, eu estava acostumada com certo monge tarado que fica bolinando as mulheres sempre que tinha a oportunidade, culpando a pobre de sua mão que havia sido amaldiçoada por Naraku.
Aliás... Essa maldita bochecha do Daiki já não deveria estar curada?
Segurei minha língua a tempo, antes de fazer essa pergunta e deixar a pobre Ruri ainda mais sem jeito. Fiquei encarando-o, com expressão mortificadora, enquanto ele respondia a minha expressão com um sorrisinho torto.
Ruri percebeu nosso silêncio e se levantou lentamente.
— Bem, Kagome... Vou deixar vocês. Já está tarde e quero chegar logo em casa. — ela deu um sorrisinho amarelo — E... Tsubasa... Não faça mais isso, viu? Eu achei que ia morrer.
— Nunca tive intenção de causar medo a uma garota tão bonita. — ele disse, flertando abertamente com a minha amiga — Eu apenas queria ter certeza que nenhum macho ia se aproveitar da beleza da minha irmã!
Chutei a perna dele por debaixo da mesa enquanto Ruri sorria constrangida. Quando ele me encarou, estreitei os olhos deixando claro que o capava se ele se atrevesse a flertar com a minha amiga novamente.
— A genética não nega. Estressada que nem o Hideo. — ele declarou baixinho. — Tome cuidado no caminho para casa, então. Nunca se sabe que perigos pode se encontrar virando a esquina.
— Tipo você? — perguntei, azeda.
Ruri riu e se despediu, acenando com a mão, deixando apenas o maluco e eu na mesa.
— Então, paixão. Que tal aproveitar o resto da noite com o seu irmão mais velho? Prometo te mostrar coisas que você nunca viu antes... Como, por exemplo, uma forma de ganhar na sinuca de caras mal-encarados que juram arrancar seu couro fora. Faríamos uma boa dupla, você chega como quem não sabe nada e eu apareço arrebentando no jogo.
— Está querendo me usar para suas atividades ilícitas?
— Sua carinha de anjo viria bem a calhar.
— Chega. — falei, respirando fundo — Por que diabos sua bochecha ainda não curou? — perguntei, finalmente.
— Por que minha irmã fez o favor de usar seu poder de sacerdotisa em seu golpe de misericórdia. Se não gosta de mim, podia ter falado. — ele reclamou, apertando o saco com gelo contra a bochecha novamente.
— Eu achei que você estivesse me perseguindo!
— Era de se imaginar que era eu. Tem alguém mais te perseguindo além de mim? — ele perguntou. Certo, ele tem um ponto. — Além disso, tenho que ficar inibindo meus poderes para parecer que eu sou humano. Vocês hanyous tem sorte de conseguirem fazer barreiras pessoais quase naturalmente, enquanto nós temos que passar décadas aprendendo como camuflar nossa presença.
Engoli em seco. Ele tinha que falar nisso logo agora?
— Pensei que tinha lhe dito que precisava de tempo para pensar. — resmunguei. Maldito, e pensar que passei os últimos dias me sentindo culpada por ter sido tão grosseira da última vez que estivemos juntos. Eu deveria ter usado mais crueldade para dizer a ele para se manter longe de mim.
— Eu lhe dei três dias! — ele exclamou, como se eu estivesse ofendendo sua honra.
— Três dias lá é muito tempo, Daiki?!
— Claro que é... São 72 horas, sabe quantas novelas eu vejo nesse tempo? É tempo pra caramba, até esgotei a dispensa de casa. Aliás, preciso fazer compras, Hideo disse que serviria meu fígado como mistura essa noite se eu não repuser tudo o que comi.
— O quê?
— Preciso ir ao mercado... Venha comigo.
— Não.
— Venha sim, estou com muita dor em meu rosto e preciso de companhia, sou um youkai muito carente e necessito de afeto... Principalmente de certa irmã ingrata que me agride com objetos pervertidos. — Ele colocou o saco com gelo já derretido na mesa e acenou para a garçonete — Mas antes... Moça, por favor, me traga um sundae de vinho com cobertura de limão, raspas de biscoito e vela de aniversário, por favor.
A garçonete fez uma expressão confusa.
— Não sei se temos vela de aniversário. — declarou.
— Nunca tomo sundae sem vela de aniversário.
— Hum... Vou ver o que posso fazer, então.
— Obrigado. — E piscou para ela, fazendo a pobre ruborizar.
Fiquei encarando Daiki, com expressão séria.
— Quantos anos você tem, afinal? — perguntei, irônica.
— Bem... Desde a última contagem, oitenta e dois. Hideo, no entanto, é uns duzentos anos mais velho.
Engoli em seco.
— Como é que é?
— Surpresa? E nosso pai era muito mais velho que Hideo. Algo em torno de seiscentos anos, se é que ele sabia fazer contas.
Engoli em seco novamente. Seiscentos anos... Isso significava que meu pai estava em algum lugar do Japão enquanto eu estive na Era Sengoku. Talvez eu tenha até cruzado com ele, ou meu pai tenha ficado sabendo da guerra que os youkais cães travavam contra Naraku.
Mesmo assim, ele nunca saberia que dali a cinco séculos me geraria e que a sacerdotisa humana que acompanhava Inuyasha era, na verdade, sua filha.
Percebi que Daiki me observava, tentando descobrir o que eu estava pensando. Sua expressão estranhamente preocupada não se desfez nem mesmo quando a garçonete trouxe o sundae de cor roxa com dois palitos escuros faiscando alegremente em cima (ah, então essas eram as tais velas).
— Desculpe-me. — Daiki disse, surpreendendo-me — Eu realmente estou pegando pesado com você. Eu entendo que você queira espaço.
Arregalei os olhos.
— Eu bati forte demais, por acaso? Você está bem?
— Estou tentando ser legal aqui! Você não me ajuda! — Começou a comer o sundae, enfiando vários bocados rapidamente na boca. — Ai! — disse, pressionando a mão contra a testa, sentindo dor de cabeça por comer algo gelado tão rapidamente.
— Sinceramente. — ralhei. Eu realmente não consigo acreditar que ele tenha oito décadas de vida. Suspirei. — Vamos, termine logo de comer isso... Vou ajudá-lo com as compras.
Ele lançou aquele lindo sorriso para mim novamente e começou a devorar o sundae com ainda mais pressa.
Duas horas com o Daiki e descobri que existem pessoas — no caso, youkais — que se empenham em te fazer querer matá-los.
Ô, mala-sem-alça extravagante!
Eu estava empenhada em ignorá-lo naquele mercado, principalmente pelo fato de ele estar novamente com o maldito sobretudo laranja, boné e óculos de lentes escuras. Esse maldito parece um terrorista. As pessoas ficam o encarando, assustadas. Para piorar, eu era obrigada a tirar tudo que ele colocava no carrinho de compras. Como alguém pode jogar todo o estoque de comida congelada dentro do carrinho? Sem falar na cerveja.
— Minha cerveja!
— Você disse que era para comprar comida e não essas porcariadas.
— Porcariadas alimentam jovens que sofrem com insônia!
— Você tem mais de oitenta anos, toma vergonha nessa cara.
— Eu tomaria, mas não sei onde comprar!
Bati com a mão contra o boné dele o fazendo voar. Daiki apertou minha cintura, gritei com o susto e me virei pronta para jogar uma latinha de conserva na cabeça daquele maldito, mas ele já havia saído correndo pelo corredor. Respirei fundo olhando o carrinho, rolei os olhos tirando pela milésima vez aquela maldita revista de mulher pelada que ele insistia em colocar ali e, para meu azar, uma senhora estava do meu lado neste momento me fazendo corar furiosamente.
Encontrei Daiki na seção de salgadinhos. E as mãos dele já estavam abarrotadas de coisas. Ele olhou para mim, sorriu, e disse:
— Segura para mim?
— Joga no carrinho. — reclamei.
— Mulher sem coração. — ele colocou os salgadinhos no carrinho de supermercado — Hum... Ainda tenho que comprar azeitonas e suco de tomate para o Hideo, que é conhecido pelo seu péssimo gosto para qualquer coisa. — Ele andou rapidamente até a sessão de materiais de limpeza — O rabugento disse algo sobre ter que comprar materiais de limpeza. Mas vou comprar só papel higiênico mesmo. Um monte! Assim tenho desculpa para não voltar no supermercado pelo menos até a criadagem chegar!
— Criadagem? — falei, engasgando — Vocês têm "criadagem"?
Daiki me encarou, surpreso, como se eu estivesse falando esperanto.
— Lógico que temos. Somos a família Tsubasa e Hideo é o Senhor dos Tengus. — ele cruzou os braços — Você acha mesmo que ele lava as próprias cuecas?
— Eu... Eu não tinha exatamente pensado em quem lava as cuecas de vocês. Ainda assim... Por que a "criadagem" iria "chegar"?
— Seria a saída mais fácil, se essa fosse uma visita rápida como de fato era, no início. Mas, no momento em que saímos do jatinho e percebemos você... tudo mudou. — Daiki olhou para mim — Sei que para você parece que caímos de paraquedas em sua vida, mas a verdade é que eu sempre quis conhecê-la. — Ele pegou vários pacotes de papel higiênico e jogou no carrinho — Até por que sou adepto ao incesto e Hideo nunca fez o meu tipo.
Engasguei com a minha própria saliva.
— E quanto à sua pergunta... Hideo quer manter os olhos em você e ter certeza de que ficará a salvo. Então, a criadagem irá chegar por que Hideo vai mudar a morada dos Tengus para Tóquio. Com a permissão do Senhor do Leste, é claro.
— Senhor do Leste?
— Sim. O Senhor dos Hebis¹. Nós nunca poderíamos entrar no território dele assim, ou as serpentes viriam fazer sopa de corvo. — Daiki riu — Se bem que isso não seria algo fácil. Ei, o que acha de ir para o fliperama depois que sairmos daqui?
— Daiki... — adverti — Não se engane... Eu... Eu ainda preciso de espaço.
— Nós precisamos mantê-la segura.
— Eu estive segura até agora!
— Sim, mas nunca esteve sozinha. — ele declarou, agora estranhamente sério — Nosso pai a amava, sabia, mocinha? Ele sempre tomou conta de você, e sofria por não poder criá-la ou mesmo conviver com você. Ele sempre a vigiou. Alguns anos atrás, ele parecia um louco por sua causa, por que o enviado dele afirmava que você sumia por dias e era incapaz de achá-la. Mais de uma vez Hideo teve de impedi-lo de vir atrás de você. Ainda assim, Raiden nunca deixou de protegê-la. — arregalei os olhos. Ele estava falando das minhas idas à Sengoku Jidai? — Nós, tengus, damos muito valor aos nossos.
— Espera... Que enviado? E quem é Raiden?
— Falei demais... Então, Kagome, qual a melhor marca de café? Eu realmente não entendo nada de café. — ele analisou as embalagens — Enfim, vamos levar a mais cara. Com certeza é a melhor.
Durante o resto das compras, tentei novamente puxar o assunto sobre o "Raiden", mas Daiki estava resoluto a não revelar mais nada.
Infeliz.
Aceitei a carona para casa e, antes de sair do carro, Daiki segurou minha mão, impedindo-me.
— Eu entendo que você precise de espaço — ele declarou — Nós lhe daremos. Isso não significa, no entanto, que não estejamos aqui. Não forçaremos nenhuma mudança em sua vida, a menos que seja necessária.
E então me libertou.
Aquela era, de fato, uma promessa que me dava alguma esperança. Mas eu não podia deixar de esquecer que havia uma condição: eles não iriam interferir, desde que não houvesse necessidade de fazê-lo.
Notas:
¹Hebi: serpentes
