Capítulo IV — Cinco passos para seduzir a sua irmã
Em que momento Daiki passou de "youkai louco psicopata sem uma grama de juízo" para "irmão anormal"? Não sei. Simplesmente aconteceu.
Eu já não tinha mais tanto medo dele (para ser sincera, ele mais me irritava do que provocava medo), a ponto de não conseguir nem pensar em tudo o que significa ser uma hanyou. Muito bem, estou mentindo... É claro que eu não pensava nisso, mas me peguei imaginando que não seria tão ruim ter um irmão como o Daiki.
Se bem que, necessariamente falando, ele não fez nada para que eu tivesse essa boa opinião; muito pelo contrário. Para ser sincera ele apenas foi um louco, inconveniente, possessivo e um estranho que tem valores deturpados, que entende um "Vá embora, me deixe em paz" como "Oi, meu lindo, venha me fazer companhia".
Talvez a minha simpatia pelo Daiki venha do fato de ele ser o meu irmão e o sangue falar mais alto nesses casos. Neste ritmo daqui a pouco estarei ligando para o Hideo e convidando-o para trançar os cabelos um do outro enquanto fofocamos sobre nossas anteriores empreitadas amorosas para chegarmos ao consenso de que ninguém realmente merece nosso coração cheio de amor para dar.
Certo, isso foi tão estúpido de se pensar que vou simplesmente deletar de minha mente.
Esqueça, Kagome. Pare de pensar nisso tudo. Você continua sendo a mesma Kagome de sempre, apesar de ter dois irmãos beldades, a ponto de o seu principal argumento contra ser realmente irmã deles, seja o óbvio fato de você não ter herdado aquela beleza toda.
Já que era para ser assim, o destino ao menos poderia ter me dado beleza de brinde. Não me importaria de ser uma hanyou de vida eterna caçadora de humanos se fosse bonita — claro que nos padrões de beleza dos meus irmãos, diga-se de passagem.
Sim, sou interesseira, pensei que esse fosse um assunto sobre o qual já tivéssemos chegado a uma conclusão.
Enfim, fazia duas semanas desde o episódio do sundae com vela de aniversário (por algum motivo, essa foi a única coisa que ficou marcada na minha mente daquele dia fatídico; acho que resolvi enterrar qualquer memória sobre maníaco vestido de laranja e ter que retirar quinze vezes do carrinho uma revista pornográfica, a qual Daiki por fim comprou apesar dos meus protestos).
Era estranho levar uma vida normal. Se eu era uma hanyou, então que coisa mais estranha conviver com os humanos assim, sem eles nunca desconfiarem da minha natureza, não é? Quer dizer... Eu soutotalmente humana. Nada de orelhas de cachorro ou rabo de raposa. Se bem que, sendo uma tengu, isso seria estranho. Seria mais fácil eu ter bico de corvo ou asas negras saindo das costas.
Aliás, havia coisas mais estranhas para analisar. Coisas que não eram assim há quinhentos anos. Eu sei que é um lapso de tempo gigantesco e que cinco séculos atrás as pessoas sequer sabiam como curar escorbuto, mas, ainda assim, não deixa de ser assustador que os valores que geriam o mundo dos youkais tivessem mudado tanto.
Fechei o livro Medicina Social, do Freud — sim, eu sei, também não entendo por que tenho que estudar sociologia para curar pessoas — e tirei um caderno da gaveta.
No topo da página eu escrevi "Youkais". Depois risquei. Como se esse fosse um assunto ultrassecreto do governo e apenas escrever tal coisa fosse fabricar provas contra mim mesma num possível processo sobre disseminação de segredos do Estado (tenho que parar de assistir os filmes de suspense do Souta).
Para pensar melhor sobre o assunto resolvi colocar no papel tudo que aprendi sobre os youkais, para que assim eu pudesse não apenas pensar no assunto, mas também visualizá-lo.
A questão era: queria fazer uma tabela comparativa, pois a minha mente estava dando um nó sempre que tentava separar os comportamentos dos youkais que conheci na Era Feudal e os que encontrei nessa era. Mas de uma coisa eu tinha certeza, tudo que aprendi na outra era estava ultrapassado... E isso não é nada reconfortante.
Logo encabeçando a lista, escrevi:
"Os youkais têm formas totalmente humanas".
Isso me surpreendeu. Quer dizer, todos os youkais que eu conheci tinham alguma característica animal, que indicava claramente que aquele ser não se tratava de um humano. A questão é: isso era algo realmente imperativo ou apenas uma forma de os youkais se diferenciarem dos humanos? Tentei lembrar se havia algum youkai que mantinha a forma humana, mas o único que me veio em mente foi o Naraku, o qual era um hanyou, e que podia mudar sua forma constantemente. Todos os outros tinham algo: Inuyasha, as orelhas de cão; Kouga, as orelhas pontudas; Shippou, o rabo de raposa; até Sesshoumaru tinha aquelas marcas no rosto, que claramente indicavam que ele não era um humano.
Ainda assim, nem Hideo ou Daiki tinham algo que revelasse quem eles realmente eram. Isso poderia ser algo deliberado ou gerações e gerações de evolução que apontavam que se misturar aos humanos era mais vantajoso.
Anotei um "pesquisar" ao lado do tópico e passei para o próximo.
"Eles são capazes de esconder a própria presença".
Lembro que Naraku contava com uma barreira para esconder a presença dele. Tudo bem que a dele era hiper-ultra-mega-maligna, o que com certeza deve dar lá suas dificuldades para esconder, mas, ainda assim, era necessário a barreira. Tudo bem, os youkais não eram exatamente tão fáceis de serem identificados, o que me leva à questão: como eu identifiquei Daiki tão facilmente na universidade, e, no entanto, não fui capaz de senti-lo no cinema?
Ele falou algo sobre bloquear a presença como uma "barreira pessoal", algo do qual nunca tinha ouvido falar antes e, sinceramente, acredito que nenhum youkai que conheci na era antiga sabia fazer algo do tipo. Então, acho que posso dar o crédito de "youkai parecendo humano" para isso.
Mas e quanto a senti-lo tão facilmente?
Tudo bem, ele poderia ter acentuado a própria presença, mas tanto ele quanto Hideo haviam dado a entender que haviam me sentido ao "chegar" em Tóquio. Acredito que eles tenham pousado no aeroporto — pois não faço ideia se uma pista de pouso qualquer teria tamanho suficiente para a aterrissagem de um jatinho — que ficava há muitos quilômetros da Universidade de Tóquio.
Isso significava que eu deveria emitir a presença de uma supernova (resultado, talvez, dos muitos anos de energia contida). E isso não era nada, nada bom. Talvez os amuletos do meu avô mascarassem um pouco, mas apenas uma verdadeira barreira seria capaz de me esconder por completo — um calafrio subiu pela minha espinha com a memória de Hideo dizendo para a minha mãe que não fazia ideia de quanto tempo eu estava sendo uma antena de presença youkai.
Próximo tópico. Rápido.
"Existem outros youkais além dos (meus irmãos) tengus".
Daiki disse claramente algo sobre um Senhor do Leste, Senhor dos youkais Serpentes. Isso deve ser um indicativo de que os tengus não são exceção, e que há mais demônios por aí do que eu sequer imaginava.
Ótimo. Nada como saber que o mundo está infestado de demônios para uma noite tranquila de sono, lindo, maravilhoso. Eu deveria dar uma festa para comemorar tal revelação.
Menos ironia, Kagome, menos ironia!
Aê! Ao menos um tópico sem que eu embaralhe ainda mais minha mente com dúvidas.
Muito bem, Kagome, também não precisava ficar tão feliz.
Próximo!
"Os youkais aparentemente não odeiam os humanos".
Bem, não tenho nada a dizer quanto a isso. Exceto o fato do Daiki dar em cima da minha amiga Ruri, da garçonete, da caixa do supermercado e de qualquer rabo de saia bonitinho que tenha cruzado nosso caminho, estando ela acompanhada ou não.
Ou seja, ao menos para o Daiki, os humanos... ou melhor... as humanas lhe despertam ao menos interesse sexual.
Não estou disposta a pensar na vida sexual desse maluco. Por isso, nada a mais a declarar e ponto.
"Os tengus obviamente têm algum status, embora nenhum humano saiba da existência deles. Como isso é possível?"
Anotei um: "Pesquisar". Depois escrevi:
"Seita. Com certeza, eles fazem parte de uma seita".
"Os hanyous são aparentemente cobiçados para servos, ao contrário de cinco séculos atrás, onde eles eram considerados páreas".
Levando em consideração que seja verdade o fato de não emitirmos tanta presença quanto youkais puros (eu não entro nessa categoria "imperceptível", como já foi argumentado antes), então faz algum sentido, já que agora os youkais parecem primar tanto conseguir se misturar entre os humanos. A questão é, humano algum, a menos que seja sacerdote ou sacerdotisa, seria capaz de sentir que uma pessoa, na verdade, é um youkai. Então para quê exatamente serviria um hanyou nessa história toda?
A única coisa que consigo imaginar é para espionagem. Ou para proteção desconhecida.
Anotei:
"Raiden".
Não sei por que associei os hanyous ao nome do tal "enviado" do meu pai... Mas eu só consigo imaginar que ele seja um hanyou, se eu realmente não o senti até agora. 'Tá, estou sendo precipitada. Talvez nada tenha a ver com isso. Daiki não falou nada sobre ter alguém me protegendo realmente, apenas sobre "supor" que o tal enviado o estaria fazendo.
Não vou mentir que pensar que meu pai havia enviado alguém para me proteger me dava alguma felicidade, mas também me dava certa raiva. Afinal, eu não tinha conhecimento algum desse fato. Quantas cenas constrangedoras esse tal enviado não poderia ter visto sendo estreladas pela minha pessoa?
Olhei para mim mesma, percebendo que usava apenas uma calcinha e uma blusa branca regata e ruborizei. Ótimo, talvez existisse um hanyou tengu pervertido me vendo nua por toda a minha vida.
Fechei o caderno.
Hora de parar com isso. Essa ideia de analisar coisas só havia me deixado com mais dúvidas e ainda por cima com uma boa porção de constrangimento.
Levantei-me, vesti a calça de um pijama e fiquei deitada na cama, até ouvir minha mãe me chamar no andar de baixo. O tom dela deixava bem claro: desça agora ou te chuto escada abaixo.
Prefiro ir com os meus próprios pés.
Desci a escadaria rápido o suficiente para ela não ter que gritar uma segunda vez (isso era pedir por um sermão). Eu a encontrei na cozinha, sorrindo bobamente para um buquê de flores.
— Arranjou um pretendente, mãe?
Ela sorriu mais ainda.
— Não, são para você.
— Para mim? Eu nem estou doente! — exclamei. Por que a minha vida não é como nos filmes, e flores eu só ganho quando estou doente, e apenas por que minha mãe acha que isso a faz parecer mais civilizada.
— Foram enviadas para Kagome Tsubasa... Então acho que é você, né?
Empalideci.
Daiki, idiota!
— Há um mês a senhora nem queria me falar quem era meu pai verdadeiro e agora fica toda animadinha com esse tipo de coisa. — reclamei, sentindo-me traída. Alguém mais naquela casa tinha que estar em estado de negação além de mim.
— Daiki mandou uma rosa para mim. — ela disse, apontando para um vaso que agasalhava uma rosa vermelha enorme.
— Como a senhora é barata. — resmunguei, olhando para as tulipas que haviam sido enviadas para mim e peguei o cartão.
"Para você não esquecer que tem um irmão gostoso.
Quer dizer, mais gostoso ainda que o Hideo.
Estou aqui sempre que precisar de carne quente para esquentar sua cama fria.
Daiki Tsubasa."
Coloquei as mãos no rosto. A definição do Daiki de "dar espaço" era me assediar. Grande novidade. Eu bem que podia esperar esse tipo de coisa vinda daquele lá.
Mas, ainda assim, aquele maldito consegue me surpreender de formas que sempre me irritam e gera vontade de lhe furar os olhos com um hashi.
Como por exemplo agora, quando um violão começou a tocar do nada e um homem de chapéu (que espécie de chapéu era aquele?!) entrou na cozinha de minha casa, enquanto outro — com roupa idêntica — adentrou tocando maracas, em seguida outro, com violão. Eles me rodearam e ficaram tocando fazendo aquelas caretas de pessoas bobas apaixonadas. Foi quando Daiki apareceu com uma rosa na mão, cantando em um idioma que identifiquei ser espanhol.
Levei algum tempo para assimilar o que estava acontecendo, todo o meu desconcerto deu tempo suficiente para Daiki entregar a rosa para minha mãe, dando um beijo em sua bochecha (fazendo-a corar e dar um sorrisinho cúmplice, traidora) e me segurar pela cintura enquanto me rodopiava.
— Te quiero. — ele falou por fim cessando a música, pisquei algumas vezes enquanto ele voltava atenção para os homens. — Gracias.
Os homens apenas assentiram com a cabeça e saíram... Tocando novamente, mas agora cantarolando algo que não entendia, mas sabia que era em espanhol.
— O que diabos você está fazendo? — questionei entredentes, enquanto me afastava.
— Mostrando a minha irmãzinha que a amo.
— Quando eu disse "preciso de um espaço" você entendeu um "fique me atormentando pelo resto de minha vida"?
— Não, eu entendi "preciso que você me faça te amar, como você me ama". Estou fazendo um bom trabalho?
Minha mãe apanhou a faca que estava no balcão ao meu lado enquanto eu rangia os dentes espalmando minhas mãos no peito daquele idiota, afastando-o.
— Não. — Ele deixou os ombros cair enquanto sua expressão facial ficava amuada, em seguida coçou a bochecha, como em um gesto de desconcerto. Estreitei os olhos. — Não me venha com joguinhos psicológicos.
Ele estralou o dedo.
— Droga. — ele voltou a sorrir. — Ao menos gostou da música? Se não gostou posso chamar os rapazes de volta e fazer de novo.
Ele se virou, abrindo a boca, e eu sabia que ele estava prestes a chamar aqueles homens de novo. Eu o impedi, segurando seu rosto e fazendo ele me olhar.
— Lindo, maravilhoso. Quase me matou de constrangimento e juro que se os chamar novamente, nem mesmo minha mãe lhe salva.
— Sabe, essas suas ameaças me excitam.
Corei furiosamente e esmurrei seu ombro esquerdo enquanto ele começava a rir.
— Aceita jantar, Daiki?
— Claro. — ele respondeu antes que eu pudesse impedir, e com o olhar que minha mãe me lançou, resolvi ir para a sala ter a companhia do único ser vivo normal dessa casa... O meu gato.
Vamos considerar apenas por um segundo que Hideo e Daiki sejam meus irmãos (e, claramente, não estou afirmando isso). O que isso diz de mim mesma?
Meus olhos azuis agora são super explicáveis. Aliás, isso é um alívio; ano passado, no último ano do ensino médio, um professor comentou que olhos azuis eram recessivos e desde esse dia eu comecei a achar que era adotada, pois ninguém na minha família tem olhos azuis (e não adiantava quanto eu argumentasse a mim mesma sobre a possibilidade de cromossomos heterozigotos paternos, que a pulga sempre ficou atrás da orelha).
Imaginar pulga atrás da orelha me lembrou do Senhor Myouga.
Céus, por que minha mente divaga? Voltando ao assunto.
Por um lado, tenho o Daiki, que obviamente tem todos os parafusos frouxos. Sei que ser um demônio de vida-longa te dá direito a ser excêntrico, mas o Daiki está em outro nível. Se alguém me contasse que tinha um irmão que invadia sua casa de noite com uma banda mexicana, eu imediatamente chamaria esta pessoa de mentirosa.
Na minha mente, pessoas assim não existiam.
O.k... Necessariamente ele não é uma pessoa, mas meu argumento é válido.
Por outro lado eu tenho o Hideo, que parece ser razoavelmente centrado e bastante, bastante irritadinho. Ele tem algo de frieza, sim, mas essa imagem se desfez quando ele meteu aquele tapa na nuca do Daiki.
Nota mental: não dar motivos para eu ser a vítima de sua irritação.
Então, o fato de eu ser sarcástica até a medula, com essa mania feia de fazer amizades até com pessoas que me ignoram, faz com que eu seja até que bastante normal. Eu poderia ter nascido pior. Ser psicopata, por exemplo. Embora o Daiki me tente a virar uma serial killer.
Aliás, falando no maldito, eu realmente estranhei quando ele passou quase dez dias sem me procurar. Não sei se isso me causa alívio ou um pouco de decepção. Ok, decepção não. Estou falando demais.
A questão é que o sumiço do Daiki até que era bem-vindo. Quer dizer... Era a minha primeira leva de provas da faculdade, eu precisava de paz interior para estudar. E, particularmente, eu estou me esforçando bastante para isso. Quero que minhas notas sejam perfeitas.
Por isso, eu estava passando realmente muito tempo na biblioteca da faculdade (que nem de longe era tão silenciosa quanto deveria ser). Eu estava sentada em uma das mesas sociais com oito cadeiras, rodeada de livros, quando ouvi alguém sentar ao meu lado. Olhei para ver quem era.
Um ser com óculos de nerd e cabelos negros com pontas azuis amarrados grotescamente no alto da cabeça, vestido em um pullover cinza e calça jeans que com certeza já havia visto dias melhores. Se não fossem os cabelos e o físico de gogoboy, eu nunca teria reconhecido o desgraçado do meu irmão.
— Você é louco?! — exclamei, colocando a mão no peito, surpresa.
— Por você? Sim, com certeza. Sou louco por marshmallows também, mas acho que gosto mais de você. — Ele colocou na mesa os livros que trazia na mão — Passei os últimos dez dias me matando de estudar com um professor particular para poder ajudá-la com a época de provas. Sou quase médico, agora. Só não exerço a profissão por que acho que isso é crime e o do jeito que o Hideo é, o mais provável é que ele me deixe apodrecer na cadeia.
— Não seria mais fácil contratar o professor para mim? — perguntei, com uma expressão irônica.
— E dar a chance de um velho safado se aproveitar da minha irmãzinha? Você está louca? — Ele fungou, como se estivesse contrariado — Além disso, essas são suas primeiras provas. Quero estar envolvido em todas as suas primeiras vezes.
— Inclusive quando eu casar? — perguntei, sorrindo.
— Se depender de mim, essa primeira vez em questão nunca irá acontecer. — Ele fungou outra vez — O.k., vamos estudar. — Bateu a mão contra a outra a gritou — Katsu!¹
Todo mundo olhou para ele e eu escondi o rosto atrás de um livro, com vergonha.
— Certo. — ele apanhou o livro de minha mão. — Hum... Está muito complicado, vamos até seus professores, vou comprar suas notas.
Acertei um murro em seu ombro e enquanto ele gemia baixinho. Apanhei meu livro de volta. Sinceramente, ele paga professor particular para depois resolver comprar minhas notas?
Isso me fez estreitar os olhos e encará-lo.
— Eu não comprei seus professores, juro.
— Se eu ficar sabendo que...
— Confie em mim.
— Essa frase me deu arrepios, agora fique quieto e me deixe estudar.
Tentei com toda minha força de vontade me concentrar nos estudos, mas ter aquele inútil ao meu lado me encarando tirava toda a concentração. Após quinze minutos de pura frustração voltei a encará-lo, o maldito apenas sorriu sonsamente como se soubesse que eu estava pensando e se divertindo com o meu desconforto.
— Dá para parar com isso? — perguntei, estreitando os olhos.
— Com o quê?
— Com..."isso".
— Não.
Suspirei e peguei meu caderno, entregando para ele.
— Então, me ajude e faça algumas questões. — eu disse.
Ele pegou meu caderno, uma caneta, abriu o livro e então sorriu para mim. Depois de meia hora, ele me entregou quinze questões para responder. Foram quinze minutos de paz que eu queria que se estendesse, então resolvi fazer as questões logo de uma vez.
Duas horas depois eu ainda estava na nona questão.
Virei-me para ele, com a testa suada de esforço mental:
— Você por acaso teve aulas particular com o próprio demônio?
— Não, com o Nagi. O que é muito pior. — Daiki respondeu.
— E quem é esse?
— Um psicopata que eu conheço. — Daiki respondeu, dando de ombros. — Poderia ter pedido pro Hideo, mas ele estava ocupado. Da próxima vez ele não escapa, nunca mais quero ter aulas com o Nagi.
— Você disse que tinha contratado um professor particular. — salientei.
— E você acha que Nagi ou Hideo fazem algo de graça?
— Não sabia que Hideo era médico.
— Ele teve tempo para aprender a ser muitas coisas. Só não descobriu como ser interessante. — Ele se virou para mim com um sorriso — Agradeça por ter um irmão delicioso como eu.
— Sim, um irmão extremamente atencioso e solícito. — ironizei.
— Você acha? — ele questionou, feliz — Então o plano está funcionando!
Encarei-o por alguns segundos.
— Que plano? — perguntei cuidadosamente.
— Então, já respondeu todas as questões?
— Estou trabalhando nisso. — voltei minha atenção novamente ao questionário, seja qual for o plano, não tenho tempo para pensar nisso, tenho que me concentrar em meus estudos.
Encarei Daiki. Nós já estávamos na biblioteca há quase seis horas e não havia mais ninguém além de nós. Ele estava com o queixo apoiado numa mão, escrevendo questões no meu caderno (naquela tarde, eu já havia feito quarenta delas, e se minha prova for no mesmo nível, então meu professor é um desequilibrado).
Por algum motivo, eu senti uma onda de carinho me percorrer, a qual tentei frear com todas as forças. Eu estava começando a gostar de Daiki e isso iria contra todos os meus propósitos.
Pigarreei.
— Está cansado? — perguntei, tirando os óculos de nerd do rosto dele. Todo mundo que havia passado pela gente o encarava fazendo caretas por causa daquele maldito visual.
— Não. — ele respondeu, sem desviar os olhos do caderno, não me olhando nem mesmo quando desamarrei o cabelo dele. — E você?
— Um pouco.
Ele sorriu para mim.
— Depois que as provas terminarem, vou levá-la para fazer compras e torrar o limite do cartão de crédito do Hideo, o que acha? — ele convidou, parecendo feliz.
— Acho que o Hideo não vai gostar disso.
— Ele vai superar. — riu Daiki.
Ficamos nos encarando por alguns segundos, então perguntei, em tom de brincadeira:
— Você pinta o cabelo com que frequência? — Apontei com o dedo indicador para as pontas azuis do cabelo dele.
Ele me olhou, surpreso.
— Eu não pinto meu cabelo. — ele respondeu — É natural dos tengus. Quando o cabelo cresce, as pontas vão clareando naturalmente. Você nunca notou que seu cabelo não é negro, mas azul extremamente escuro?
Arregalei os olhos e coloquei o cabelo contra a luz.
Céus. Ele estava falando a verdade.
Eu sempre havia pensado que meu cabelo era tão negro que parecia azul, mas era exatamente o contrário.
Arfei, surpresa.
— Como eu nunca notei isso? — exclamei, analisando as pontas — Espera, por que as pontas do meu cabelo não são mais claras como as suas?
— Provavelmente por que você é uma hanyou... Vai clarear se você deixar crescer mais. — Ele pegou uma mecha do meu cabelo e esfregou os fios com carinho — O Hideo mantém o cabelo mais curto para impedir isso. As pessoas dificilmente confiariam em um executivo com cabelos azuis.
— Ele é um executivo? — perguntei. Então rolei os olhos — Claro que é... Você mesmo disse que ele teve tempo para aprender um pouco de tudo.
— O resto é hobby. Esse é o verdadeiro trabalho dele. Antigamente, nós, youkais, controlávamos o Japão com o nosso poder e apenas isso. Era a lei do mais forte, da violência. Embora hoje em dia isso ainda valha, razão pela qual os tengus são temidos, já não é mais como antes. — ele explicou, suspirando, e ainda brincando com a mecha do meu cabelo — Hoje em dia prevalece a lei do mais inteligente. Os Senhores youkais controlam o Japão através da economia, com intervenções políticas e criações de multinacionais. Nós somos o coração econômico do país e os humanos nem sonham...
Daiki falou isso de forma tão sombria, que eu quase estremeci.
Então ele sorriu.
— Estou falando que nem o Hideo. — ele riu — Você não tem nem curiosidade para saber o que eu faço da vida além de ser lindo? Você é uma irmã relapsa, Kagome.
Suspirei.
— Está bem, Daiki. O que você faz da vida? — perguntei lentamente, com expressão desinteressada.
— Sou modelo. — disse Daiki.
— Então você realmente não faz nada da vida além de ser lindo! — brinquei, rindo.
— Bem, publicamente, não. Mas eu sou um tengu. Tenho minhas funções dentro do clã. — Ele sorriu amargamente — Nada do qual você queira se inteirar. — Ele se levantou, fechando os livros — Vamos? Vou te levar para casa.
O que o Daiki me falou sobre os youkais controlarem o Japão através da economia ficou na minha cabeça. Isso seria mesmo possível?
Num impulso, coloquei "Hideo Tsubasa" no Google, e pelos 0,046 segundos que demorou a pesquisa, eu comecei a tripudiar de mim mesma. Hideo provavelmente usava outro nome em seus negócios. Mas, que ironia, apareceram três milhões de resultados.
Comecei a abrir os links, e a surpresa: Hideo era Diretor Executivo de empresas como a Brothers Industries e a Cervejaria Sapporo (por algum motivo, eu acredito que os nomes tenham sido ideia do Daiki), era acionista majoritário da Toyota e era o C.F.A. da Olympus.
Céus. Meus irmãos eram ricos. Realmente ricos.
Abri os sites das empresas e fucei até descobrir que todas elas tinham algo em comum: haviam se iniciado na cidade de Sapporo. A empresa Olympus, no entanto, me trouxe uma surpresa: havia sido criada por um homem chamado Yamashita Takashi (sendo que Yamashita é uma possível interpretação dos kanjis de Tsubasa).
Depois disso fiquei encarando a tela do computador por um tempo, tentando absorver aquelas novas informações.
Eu o senti.
Não sei por que motivo, não sei porque agora. Mas eu o senti. Era uma presença tão fraca que por todo um segundo eu achei que não passasse de ilusão.
Desci correndo as escadas e senti o celular vibrar no bolso do short jeans. Eu o atendi sem nem ver quem era:
— Alô? — perguntei, abrindo a porta de correr e saindo para o pátio, procurando a fonte daquela presença.
— Kagome, vamos sair hoje? Seu irmão está carente. — ouvi a voz de Daiki. Passei alguns segundos sem responder, enquanto finalmente avistava a fonte da presença. Era um homem moreno e sorriso sarcástico estampado no rosto longo de pele olivácea. Ele estava empoleirado em um dos galhos da árvore sagrada, aquela em que, quinhentos anos atrás, Inuyasha esteve preso. Ele vestia calças negras, camisa negra e coturnos negros.
— Não tenho tempo agora. — eu disse para Daiki, desligando o telefone sem me despedir e passando a encarar o homem. Perguntei: — Quem é você?
O homem pulou do galho para o chão, com destreza. O meio-sorriso continuava em seu rosto. Levantou-se lentamente, encarando-me com o rosto levemente inclinado.
— Você tem certeza que não sabe?
Engoli em seco.
De alguma forma completamente inexplicável, eu sabia.
— Raiden. — respondi, com voz rouca.
Ele acenou afirmativamente, bem devagar. Soltei um riso esganiçado, de descrença e nervosismo.
— Então é verdade... Meu pai pediu para que você me protegesse... — Ele acenou mais vez — Há quanto tempo?
— Dezesseis anos. — Ele se inclinou sobre um joelho — Assim como seu pai me pediu, por todos esses anos eu a protegi. E, agora que têm conhecimento da minha existência, fico feliz em ser seu servo, Hime-san.
Encarei os irônicos olhos dourados dele e afastei-me um passo, odiando que ele falasse aquela palavra como se fosse um insulto velado.
— Não me chame assim. — exclamei, atordoada — Por que você só se mostrou agora? — perguntei, cruzando os braços para impedir o tremor de nervosismo. — Aliás, por que eu nunca o percebi antes?
— Por que você finalmente aceitou a verdade. E por que eu permiti que você me percebesse. — Ele se aproximou lentamente — O que importa é que, apesar de hoje eu ter um novo senhor, eu recebi mais uma vez a mesma ordem. Estou aqui para protegê-la.
— E poderia me dizer quem é o seu senhor? — perguntei, quase gaguejando.
— Hideo Tsubasa, o Senhor do Norte. — ele respondeu sem hesitar.
Depois de horas tentando digerir o episódio "Raiden", eu finalmente consegui dormir (depois de tudo o que aconteceu no último mês, me sinto quase saturada de viver às voltas com revelações bombásticas). Mas alegria de vítima de Murphy dura pouco e acordei às oito da manhã com alguém tocando a campainha insistentemente. Desci as escadas, sonolenta. Era domingo. Quem se atrevia a interromper o meu sono sagrado do final de semana?
Abri a porta, deparando-me com um entregador.
— Kagome Tsubasa?
Apertei os dentes, sabendo o que ser chamada por aquele nome significava e suspirei, enquanto respondia:
— Sim?
— Assine aqui, por favor.
Fiz o que ele pediu e então três homens apareceram carregando uma caixa mediana, colocando-a no meio da sala.
Temi em me aproximar dela. Do jeito que o Daiki era, não duvidaria nada se ele pulasse da caixa gritando "I'm Sexy and I Know It!".
Virei-me para os entregadores.
— O que é isso? — perguntei.
— Cinquenta quilos do melhor chocolate belga, senhorita. Tenha um bom dia. — e saíram.
Havia um cartão em cima da caixa. Ao abrir, havia:
"E com este último passo, o plano é levado a cabo.
Daiki."
Que diabos de plano era esse, afinal?!
