Capítulo V — Proteção em forma de penas negras

Eu estava cansada e queria férias desesperadamente, mas elas ainda estavam longe de chegarem. Isso me fazia pensar se realmente aguentaria tantos anos de faculdade, uma vez que após dois meses eu estava começando a viver a base de chocolate e café.

Café para ficar acordada, logicamente, e o chocolate para ter algum prazer na vida.

Esses dois meses passaram de forma quase que torturante, não apenas pelo estresse de descobrir que tenho um irmão mais velho mala que fica me enviando flores na faculdade, mas também porque o meu outro irmão é o próprio demônio encarnado, que mandou um caderno de estudos com um questionário que me causa arrepios sempre que começo a resolvê-lo. A boa notícia é que nunca fui tão bem aos estudos quanto estou indo esse ano.

Admito que me assustei no dia em que Daiki apareceu com um caderno de brochura dizendo que era um presente de Hideo para mim. Mas compreendi o motivo sem muito esforço: Hideo havia feito aquilo meramente pelo fato de que Daiki (que jurava de pé junto que nunca mais teria aulas com o tal Nagi) sempre o alugava para aulas particulares de medicina para que depois pudesse me ajudar nos estudos. A solução, obviamente, foi fazer tal caderno, o qual temo levar o resto do ano para conseguir resolver.

Meus amigos até se juntaram a mim nos estudos quando souberam do caderno; alegaram que se resolvessem duas questões dali, era garantia de notas máximas o resto do semestre. Daiki que não ficou muito feliz, dizendo que havia perdido a irmã para colegas de faculdade que iriam corrompê-la.

Tenho calafrios de lembrar o dia em que saí para beber com meus amigos e o inoportuno apareceu com um bafômetro para medir a taxa de álcool que eu já havia ingerido. O pior de tudo é ficar ouvindo de Kenjiro e Arusa que o meu irmão era atencioso e preocupado. Eles até o convidaram para se juntar a nós, ainda que eu protestasse ferozmente.

E não contente com isso... Daiki foi embora com Arusa após me deixar em casa. No dia seguinte ela estava com um sorriso suspeito e eu fiquei constrangida de ficar perto dela ao pensar no motivo para tanta satisfação.

Então aqui estou eu, sentada tranquilamente, tentando estudar e ignorar o chato mala que sorriu marotamente para Arusa quando ela passou por nós.

— Está brava comigo? — Daiki questionou apertando o dedo indicador em minha bochecha.

— Vá embora.

— Por que está brava comigo?

Lancei para ele um daqueles olhares de canto. Meu irmão pigarreou nervosamente e mordeu o lábio inferior, baixando a cabeça, como uma criança que estava sendo repreendida pela mãe.

— Já sei... Está brava por que não respeitei o mandamento. — voltei minha atenção para ele, pendendo a cabeça, confusa. — "Não dormirás com a amiga da irmã".

— Então vocês...

— Não sabia? Droga, me delatei. Mas eu juro que não dormimos, então, tecnicamente, não desrespeitei o mandamento...

Fechei o caderno, guardei meu material e saí a passos largos da biblioteca. Daiki me seguiu por alguns andares, mas depois de bater nele com minha pasta e falar para ficar longe de mim, sob a pena de eu nunca mais falar com ele... Daiki finalmente parou de me seguir.

Ao sair do campus da faculdade, vi Raiden se aproximar. Ah, acho que me esqueci de mencionar, mas Hideo, ao descobrir a minha "aceitação" como ser uma Tsubasa — mesmo que eu não tenha realmente aceitado, mas sim apenas estar me conformando —, ordenou que Raiden aparecesse e virasse meu guardião, motorista... Ele até limpou o meu quarto!

Enfim, ergui a mão em um claro sinal para que ele não se aproximasse mais, e me afastei. Precisei me segurar para não gritar.

Certo... Eu vou socar o Daiki quando o ver novamente.


Não lembro mais como era minha vida. Foi tudo sufocado. Não lembro como é ser uma pessoa normal. Agora todo o meu mundo está voltado para essas perspectivas estranhas.

Meu irmão Daiki, com o sorriso fácil e com retardo mental grave. Ele vivia na minha casa, na faculdade... Em qualquer lugar em que eu estivesse. Para fugir dele, inclusive comecei a trabalhar como voluntária num abrigo para cães.

É verdade que eu amo o Daiki (sim, saí do estado de negação) e que acho incrivelmente fofo ele ser tão preocupado comigo. É só que eu nunca tive ninguém cuidando de mim de forma tão aberta (afinal, Inuyasha me protegia, mas não necessariamente contratava uma nutricionista para me manter numa dieta equilibrada) e isso me assustava — mesmo depois de já haver passado quatro meses desde que descobri sobre os meus irmãos.

E havia o fator Raiden, que era solícito e eficiente. Meio irritadinho, também. E mesmo quando estava envolto na missão de me manter protegida, nós dois trocávamos farpas. Admito que ele me divirta, mas, ainda assim, é absurdamente estranho ter um guarda-costas.

E o que esses dois têm de sufocadores, o Hideo tem de indiferente. Tirando a questão de dar ao Raiden a missão de me proteger e enviar o caderno com as questões, nada mais foi dito que desse a entender que ele se importava minimamente comigo.

Aliás, em quatro meses, eu nunca o vi. O que, de certa forma, levando em consideração que enfiei uma flecha nele no nosso primeiro encontro, é algo bom. Sim, sim, as coisas estão boas exatamente como estão. Daiki e Raiden já são suficientes na minha vida. Isso.

A porta da sala de aula se abriu e o reitor entrou, acompanhado de outro homem.

Maldita lei de Murphy! Quem é esse ser divino que sente tanto prazer em me frustrar? Tudo bem, coincidências acontecem, mas não tantas vezes!

Respirei profundamente, enfiando o rosto entre as mãos. Às vezes eu realmente acho que sou uma dessas heroínas de shoujo cheias de frescuras que têm um harém invertido à sua disposição. Do contrário, por que esse tipo de coisa piegas vivia acontecendo comigo? O que havia de tão difícil no fato de esses infelizes irem até a minha casa e tocarem a campainha em vez de vir sempre na Universidade para me constranger?

Cruzei os braços, encarando Hideo (sim, ele mesmo) com ódio, enquanto ele se mantinha calado ao lado do reitor. O fato de ele ser tão malditamente bonito e ter aquele porte de homem de negócios não me ajudava a me acalmar.

— Professor? — chamou o Reitor, sorrindo sonsamente — Queria chamar uma de suas alunas.

Antes mesmo de o reitor dizer quem era a sortuda (anham, claro, claro), todos olharam para mim. Fosse pelo fato de esse tipo de coisa só acontecer comigo, em razão do Daiki que vive invadindo a sala e aterrorizando os professores que permitem que ele faça qualquer coisa ou pelo fato de ser óbvio que Hideo era parente do meu outro irmão espaçoso.

Ruri virou-se para mim:

— Quem é esse?

— Meu outro irmão mais velho. — respondi com um suspiro, consciente de que metade da sala tinha ouvido minha resposta. Levantei e recolhi minhas coisas, sem esperar que o reitor informasse quem era a sortuda do dia. Saí pela porta traseira da sala, tentada a fechar a porta com força.

Fiquei esperando até que Hideo e o reitor saíssem, despedindo-se educadamente um do outro. Meu irmão se aproximou de mim e ficamos parados frente a frente. Nenhum de nós disse uma palavra sequer.

Ele inclinou o rosto, analisando-me.

— Sua presença continua forte. — ele disse. Havia desaprovação na forma como ele havia dito aquilo, como se fosse culpa minha.

— Não posso fazer nada quanto a isso. — respondi amargamente. Pare Kagome! Você não tem amor à vida, maldita?!

Ele ergueu a sobrancelha esquerda, de certa forma entendi que aquele era claramente um sinal de curiosidade, como se a minha atitude "insolente" o fizesse questionar algo a si mesmo. Talvez métodos de tortura contra minha pobre pessoa.

Dei uma tossidela.

— Então... O que o traz aqui? — perguntei — Aliás, me pergunto o motivo de vocês sempre virem atrás de mim aqui, ao invés de irem a minha casa.

— Não quero incomodar. — ele disse. Hum, sei... Difícil acreditar, fera. — Não vou alugar seu tempo... Você deve saber que estar em Tóquio é perigoso... Para todos nós. Esse não é nosso território e as serpentes não são confiáveis. Ainda assim, pedi permissão ao Senhor dos Hebi¹ para que dez dos meus tengus mais poderosos vivessem comigo em Tóquio pelos próximos cinco anos, que é o tempo necessário para você terminar o seu curso. Depois disso, você virá comigo para Sapporo.

Abri a boca para dizer que aquele não era lugar para uma conversa como essa, ou até mesmo deixar bem claro que ele não precisava se dar ao trabalho de me proteger, mas Hideo ergueu a mão, silenciando-me por completo.

— Até lá, você deve ser protegida.

— Não vou morar com vocês. — afirmei ácida.

O olhar que ele me lançou me chamava de tola. Como se meu orgulho valesse menos do que minha vida (de fato, vale, mas minha teimosia vale mais do que tudo junto).

— Então... — Ele retirou algo do bolso da calça, e mostrou um colar de corrente negra, de onde pendia um grande pingente da mesma cor que tinha o formato de uma pena. Hum... Uma pena para um tengu, isso é meio que falta de imaginação. — Use isso. É um sinal de que você é protegida por mim. Os youkais serpentes vão se manter longe de qualquer coisa que claramente me pertença.

Estava tão horrorizada com o fato de ter sido catalogada como pertence de alguém que nem percebi quando ele se inclinou sobre mim e fechou o colar em volta do meu pescoço.

Ai, maldição. Será que achar o próprio irmão cheiroso é pecado?!

Ele pareceu satisfeito ao olhar o pingente repousando no meu colo e se afastou. Simples assim. Nem mesmo se despediu e se foi embora.

— Hideo. — chamei, num impulso. Ele parou e olhou para mim por sobre o ombro. — Você me odeia?

Arregalei os olhos, surpresa ao perceber que eu havia feito essa pergunta. De onde diabos isso havia surgido?

Ele me lançou um olhar condescendente, e respondeu:

— Acho que não.

Ele pareceu sorrir, mas não tive certeza se isso de fato ocorreu, já que ele virou as costas e se foi.


Eu estava contando até cinquenta para não fazer Daiki engolir a cadeira em que estava sentado, fazendo aquele barulho irritante de ferro que precisa de óleo urgentemente. Eu não era a única incomodada, toda a biblioteca estava, mas quem teria a audácia de ir falar com ele?

Exatamente, ninguém.

Em vez disso, eles ficaram me lançando olhares inconformados, por não fazer nada contra a integridade física de meu irmão.

Mais dois minutos, eu virei para ele e falei entre dentes:

— O que você quer?

Ele simplesmente sorriu e disse:

— Hoje você jantará em casa; Hideo fará a comida; combinado? Combinado, então.

Levantou-se e foi embora. A consequência desse estranho convite foi ter Hideo novamente na Universidade de Tóquio, mas dessa vez com uma expressão de poucos amigos. Senti meu sangue gelar quando ergui os olhos e me deparei com um homem de seus quase dois metros de altura, e uma expressão muito irritada. Se eu tivesse um "sentido aranha", ele estaria apitando como um louco neste exato momento.

— A sua sorte é que considero dedicação uma qualidade, mesmo quando é motivo para alguém se atrasar para o jantar.

— Como? — perguntei pendendo a cabeça para o lado. Foi quando vi Daiki ao seu lado. Ele apenas se adiantou, recolhendo as minhas coisas.

— Você realmente a convidou devidamente?

— Claro que sim. — Daiki respondeu meio ofendido. Ele segurou meu braço de forma ansiosa e fez com que eu me levantasse.

Apenas entendi a situação quando já estava no carro a caminho da casa dos meus irmãos. Sabe, isso de ter a minha vontade totalmente ignorada está realmente irritando. Contudo, o que mais eu poderia fazer? Eles são maiores e mais fortes. Por isso precisei me abster de qualquer vontade que possuía — e se não fosse bastante, Daiki ameaçou queimar meus livros caso eu não fosse solícita.

O portão de uma mansão abriu-se para que Hideo estacionasse o carro na frente de um jardim extremamente bem cuidado.

Tudo bem, eu já sabia que eles eram ricos, mas não imaginava que eles torravam dinheiro. Eu também pensava que eles moravam confortavelmente, mas não pensava que eles moravam numa casa gigantesca. Se bobear, essa mansão tem as dimensões de um país de pequeno porte!

Isso me fez perceber que os Tsubasas são muito mais poderosos do que eu imaginava a princípio, e isso me assustou. Fazia com que tudo tomasse uma dimensão maior do que antes. Chegava até ser meio ridículo aquilo tudo, mas contive meus pensamentos e me deixei ser conduzida até a sala de jantar, onde Daiki pediu para que eu me sentasse... Certo... O constrangimento me assolou quando fiquei sentada entre meus irmãos.

Durante alguns minutos pensei em como quebrar o perturbador silêncio que havia se estabelecido. Felizmente, quem fez as honras da casa foi Hideo quando Daiki colocou saquê para mim no copo que antes continha água:

— Não dê essas coisas para ela. — Hideo inclinou-se para afastar o copo de perto de mim, mas Daiki foi mais rápido.

— Ela tem idade para esse tipo de bebida. — Daiki respondeu levando o copo até a minha boca. — Vamos criança, prove do néctar dos deuses.

— Não quero.

— Você nem provou.

— Ela disse que não quer. Preciso fazer você entender isso enfiando esse copo na sua goela?!

— Não. — respondeu Daiki tomando o saquê que era para mim. — Problema resolvido.

— Só não é mais inconveniente por falta de oportunidade.

— Nem tanto, aproveito todas que vocês me dão.

— Deveria aproveitar mais a educação que lhe foi dada.

Daiki se inclinou para o meu lado e sussurrou perto de meu ouvido:

— Ele não é um charme tentando ser um cara educado? Confie em mim, ele nem sempre é assim.

Balancei a cabeça, levemente confusa. Tentei entender aquele amor fraterno e cheguei à conclusão de que aquilo deveria ser coisa de youkai, ou de irmão com irmão. Uma vez me falaram que havia diferença entre o relacionamento fraterno entre homens e os de homens com mulheres.

Hideo afrouxou a gravata que usava enquanto tomava um gole de água, quando notei que ele me observava, voltei minha atenção para o salmão a minha frente.

— Como estão indo os estudos? — perguntou-me Hideo. Algo dentro de mim me dizia que ele estava apenas se esforçando para ser educado e que não estava assim tão interessado na resposta, mas mesmo assim, não pude evitar me sentir feliz por ele ter perguntado.

Engoli em seco, lançando um sorriso quase tímido.

— Está indo bem, obrigada. — baixei os olhos — Bem... Principalmente por causa de suas anotações... Nunca tive a chance de agradecer.

— Não precisa. É meu dever lhe auxiliar. — Cocei a bochecha me sentindo ainda mais constrangida que antes, talvez ele tenha notado, pois estalou a língua chamando minha atenção. — Daiki atrapalha muito você? Posso tomar providências quanto a isso.

— Sério? — perguntei esperançosa. Daiki me encarou, completamente decepcionado. Por um momento, pareceu que ia começar a chorar — Quer dizer... Não, obrigada.

Foi quando Hideo tomou uma atitude difícil de assimilar, já que ele retirou a parte superior do terno elegante que usava e se ergueu, jogando a peça de roupa sobre o rosto de Daiki. Depois voltou a se sentar, encarando-me.

— Agora responda sinceramente.

— Ei... — protestou Daiki.

— Tire e eu chamo a Hiroko. — Hideo ameaçou.

Por incrível que pareça... Daiki não tirou o terno da cabeça.

— Estou esperando a resposta.

Eu me segurei para não rir. Juro que tentei, mas não sei se consegui. Quer dizer... Estávamos todos nós nervosos e desconfortáveis com a reunião familiar forçada (pelo menos no que diz respeito a minha pessoa), rir parecia estranho.

— Está tudo bem. Não precisa se preocupar. — respondi, sorrindo de leve.

— Não estou me preocupando... — Hideo resmungou, cruzando os braços e fazendo a camisa social esticar na área dos ombros. Inclinei a cabeça, perguntando-me por que ele tinha uma expressão tão frustrada.

Daiki riu debaixo do terno, enquanto dizia:

— Ele se preocupa, sim. Só não admite para não queimar a reputação de coração de iceberg que ele luta tanto para ter.

— Posso tirar minha meia e fazer você engolir, que tal?!

— Não, obrigado.

Cocei a bochecha e o silêncio voltou a assolar a sala de jantar. Daiki bufou audivelmente e retirou o paletó de cima da cabeça e o deixou amarrotado no chão.

Não demorou muito para que o meu irmão incrivelmente estúpido começasse a fazer comentários sobre a quantidade de homens que havia em minha turma. Como se não bastasse, começou a debater comigo sobre a minha transferência para aulas particulares e a compra de meu diploma na Universidade de Tóquio.

Todos os argumentos dele envolviam "muitos homens naquele local e você é uma menina casta; estou protegendo sua virgindade". Eu queria matar ele e depois morrer. Como podia ficar me envergonhando dessa forma? Será que esse maluco não tem limites?

Já ouvi histórias de irmãos chatos e sempre me achei sortuda por Souta ser um santinho, mas esse aí que me aparecera estava me dando tiques nervosos, como o de piscar rapidamente e hiperventilar sempre que me controlo para não o fazer engolir o que tenho em mãos.

Quando Hideo se movimentou ao meu lado, notei que o jantar havia terminado, já não havia comida em nenhum de nossos pratos e eu estava apenas jogando conversa fora com Daiki. Ele começou a recolher as coisas, o que me causou estranheza. Como se lesse minha mente, Hideo respondeu:

— A criadagem não trabalha a noite.

— Eu ajudo. — falei, enquanto apanhava a louça que havíamos usado para o jantar.

— Obrigado pela comida... Obrigado por lavar a louça... Eu vou dormir. — E com isso Daiki deitou no chão, provocando um olhar irritado de Hideo.

Continuei a recolher a louça e segui Hideo por um corredor. Deixei o queixo cair ao me deparar com aquela cozinha moderna e totalmente planejada. Não sei qual é o arquiteto que trabalha para os meus irmãos, mas seja qual for, estava de parabéns. Os armários eram de mogno, combinando com o fogão elétrico e um balcão de mármore negro, que se estendia em forma de "L", dando espaço para uma pia na qual Hideo colocou as louças.

Ele se manifestou para começar a lavar a louça, mas meu senso de educação me fez tomar a frente, retirando os utensílios de suas mãos.

— Eu lavo.

— Não é necessário.

— Imagina, se me lembro bem Daiki disse que você faria o jantar, nada mais justo do que eu lavar.

Ele me analisou por alguns segundos, mordi o lábio inferior em hesitação, esperava receber uma bronca ou sei lá, mas ele apenas suspirou.

— Vejo que não vai adiantar argumentos. — Deu de ombros e se afastou. — Apenas passe uma água e coloque tudo na lavadora, vou procurar pelo Raiden.

E com isso ele saiu da cozinha.

Notei a lavadora de louça em uma repartição sob a pia, fiz o que Hideo havia dito, enxaguei a louça e as coloquei na máquina. Olhei ao meu redor, incerta do que deveria fazer agora, foi quando vários bilhetes na geladeira me chamaram atenção.

Eu sabia que era falta de educação ler, mas minha curiosidade me venceu. Quando me aproximei, minha atenção foi aguçada pelo bilhete maior. Não pelo tamanho, mas por conta da letra garranchada que reconheci ser de Daiki, misturada com uma letra mais caprichada e de dar inveja a qualquer professor de japonês.

"Cinco passos infalíveis para seduzir a Kagome By Daiki

(Cinco sugestões razoáveis by Hideo)

1º Seja um irmão presente.

(Morra)

2º Seja um irmão solícito.

(Desapareça)

3º Seja um irmão pagador.

(Comece fazendo isso com o seu próprio dinheiro)

4º Seja um irmão carinhoso.

(Já indiquei morrer antes)

5º Dê chocolates a ela na T.P.M.

(Não sei se vale a pena ver sua cara por chocolate, mas tomara que ela arranque seu olho com um hashi por você ficar a importunando. Será culpa dos hormônios. Nenhuma entidade divina ou autoridade humana irá condená-la)"

Logo abaixo havia o seguinte bilhete-adesivo:

"Sinto pena dessa criança. By Tomoyo"

Ri e continuei lendo os bilhetes, todos com letras diferentes.

"Daiki, desista, nem mesmo sua mãe conseguiu lhe suportar. By Hiroko."

"Eita, que nem conheço a menina e já sinto pena dela. Concordo com as anotações do patrão. By Ryo."

(Puxa saco do chefe. By Daiki)

"Sinto cheiro de incesto. By Nagi."

Havia ainda toda uma sessão de papel-adesivo sobrepostos uns sobre os outros, como se formassem uma conversa:

"Opa, se houver incesto e orgia me chama. By Yuri."

(Conversaremos depois. By Hideo)

(A porra ficou séria. By Daiki.)

(Fugirei para as colinas. By Yuri.)

(Fuja com o seu dinheiro, desgraçado. By Nagi.)

(Nunca disse que seria com o meu dinheiro. By Yuri.)

(Perdeu dinheiro no pôquer de novo, Nagi? By Sajia.)

(Não, ele pegou minha carteira enquanto eu estava dormindo. By Nagi)

(O cansei com o meu amor. By Yuri.)

(Por que não fui incluído? By Daiki.)

(Você estava com a sua irmã. By Yuri.)

(Estava em companhia melhor, então. By Daiki.)

(THIS. By Ryo)

Ergui a sobrancelha esquerda. Certo, não consegui parar de rir com aquilo, aquele conversa se estendeu até o pé da geladeira terminando com um comentário de Hideo, que dizia:

"Irei descontar os gastos dos bilhetes-adesivos do salário de todos."

Mas fiquei intrigada como recado ao lado que dizia:

"Atreva-se a tirar do meu. By Aika."

"E do meu. By Sajia."

(Apenas da Aika que perdoo, pois não comentou até agora. By Hideo.).

(Viado. By Sajia)

(Posso provar que não sou. By Hideo.)

Ouvi um "hum" atrás de mim, fazendo-me levantar assustada (eu havia me agachado para ler os últimos bilhetes). Hideo observou a geladeira atrás de mim e em seguida repousou seus olhos nos meus.

— Raiden não poderá lhe levar hoje, Aika o solicitou para um serviço interno.

— Tudo bem, posso pegar um ónibus ou um táxi.

— Eu vou lhe levar.

— Como? — exclamei, surpreendida.

— De carro. — maldito! — Venha. — Ele se virou e começou a andar, parou abaixo do batente da porta, voltando sua atenção a mim. — Está tendo dificuldade para andar?

— Oi? Não. — respondi, adiantando-me rapidamente até ele.

Já no carro (um sedan preto importado, claro), a atmosfera desconfortável se estabeleceu mais uma vez. Eu não conseguia evitar. O que Daiki tinha de me deixar descontraída (ou, completamente irritada), tinha o Hideo de me deixar desconfortável e nervosa. Os motivos eram muitos, mas, ainda que eu os combatesse ou alegasse que eu não deveria me importar com a opinião do meu irmão mais velho, eu não podia evitar as minhas próprias reações.

Limpei a garganta.

— Então... — comecei, incomodada com o silêncio — Quantas pessoas moram na "Mansão Corvo"?

— Mansão Corvo? — Hideo perguntou, erguendo uma sobrancelha, enquanto ainda encarava o semáforo no qual estávamos parados.

— Foi assim que Daiki chamou a casa de vocês. — expliquei, com medo de ter falado alguma coisa errada.

— Claro que foi. — Hideo revirou os olhos — E quanto à sua pergunta: moram onze tengus na mansão, a criadagem fica nos alojamentos.

— Hum... — resmunguei — É uma casa muito grande para onze pessoas. — Então corei, temendo que Hideo encarasse isso como uma repreensão. — Quer dizer... Eu sou acostumada a viver na minha casa, que sempre parece pequena para nós quatro... Quem sou eu para falar que...

— Está tudo bem, Kagome. — ele disse, interrompendo-me. Percebi um leve traço de sorriso em seu rosto — Eu entendi o que você quis dizer.

— Ah... — falei de forma boba. Então algo me prendeu. — Kagome... Você me chamou de Kagome? — questionei com surpresa.

— Esse é seu nome, ou não?

— É só que... Bem, você não havia me chamado de Kagome antes...— comentei.

— Antes eu não a conhecia.

Fiquei quieta, tentando achar o que responder. Quando desisti, o silêncio desconfortável estava mais uma vez pairando entre nós.

Fiquei apertando as mãos e quase me esqueci de respirar (sim, eu sei que isso não é algo que se esquece, mas do jeito que eu sou isso não seria impossível).

— Eu fiz uma promessa... — disse Hideo, de repente, como se estivesse todo aquele tempo pensando em como começar aquela conversa. Olhei para ele, percebendo que ele tinha um porte elegante inclusive quando dirigia, com as mãos grandes e fortes apertando o volante quase de forma nervosa. — Fiz uma promessa ao nosso pai. — Ele olhou de relance para mim. — Ele me disse que você corria perigos. Alguns dos quais ele alegava que eu nunca sequer poderia entender. Então ele me fez prometer que a protegeria. Ele dizia que morreria em breve e que precisava da minha promessa para ficar em paz. — ele pareceu engolir em seco — Nós tengus nunca fomos sensitivos, então nunca levei a sério a certeza dele de que logo morreria. Então, cinco meses depois de eu fazer essa promessa a ele... Tsubasa Takashi havia partido.

Eu entendi o que ele falou por partes.

Primeiro: então era essa a promessa que tanto fez com que eu me questionasse durante esses meses. Hideo prometera que me manteria viva. Inconscientemente, alisei o pingente negro em formato pena que pendia do meu pescoço, lembrando que me manter protegida era o principal motivo para Hideo ter me dado.

E então, percebi a parte mais importante... O pouco que ele revelou do meu pai e a tristeza de imaginar que alguém seria capaz de sentir a própria morte se aproximando. E ele havia se preocupado comigo.

Senti meus olhos arderem e, por sorte, Hideo já estava parando o carro na frente do templo.

— Obrigada. — resmunguei, e saltei do carro imediatamente, sem dar tempo de ele ver pela minha expressão o quanto eu estava abalada. Antes que eu percebesse, Hideo já havia saído do carro e estava ao meu lado.

Tentei sorrir.

— Não precisa me acompanhar.

— Preciso, sim. Está tarde e o inútil do Raiden sumiu. Quero ter certeza de que você estará bem.

Ele começou a subir na minha frente. Espera... Pensei que a intenção era "me acompanhar"... Não me deixar para trás.

Suspirei e o segui, resmungando, irônica:

— Vou dar a ideia de amarrarem o terminal de uma Babá Eletrônica no meu pescoço.

Hideo parou cinco degraus acima daquele em que eu estava, e se voltou parcialmente, com as mãos nos bolsos das calças.

— Você disse alguma coisa?

Sorri nervosamente.

— Não. — afirmei.

— Que pena. Por um momento, pensei que você tinha feito uma ótima sugestão. — e continuou subindo a escadaria.

Arregalei os olhos, ao perceber algo absurdo: à sua maneira, Hideo era que nem o Daiki!


Na manhã seguinte, encontrei minha mãe na cozinha. Era o feriado do Orgulho de Tóquio, e eu acordei cedo por puro hábito.

Sim, eu odeio hábitos. Ao menos os que não me são convenientes.

— Bom dia. — eu cumprimentei, sorrindo amavelmente. — Como foi a sua noite?

— Eu dormi muito bem. Foi uma ótima noite, apesar dos gritos do seu irmão durante toda a madrugada. Eu realmente estou preocupada com aquele menino. O que será que ele quer dizer quando grita "Kicka, veado, kicka!"? Que palavreado, aliás! Estamos num templo! — ela reclamou suavemente.

— Ah... O noob. — rolei os olhos — É bom esse menino largar os MMORPG's antes de sua vida social se extinguir por completo.

— Noo... O quê? — minha mãe questionou, franzindo o cenho — Ah, tanto faz. Então, falando em noite, a sua também parece que foi muito boa. Saiu com os meninos?

É incrível como minha é barata e volúvel. Cinco meses atrás mal podia ouvir o nome de Hideo e Daiki, e agora eles passaram a serem "os meninos". Como se eles fossem filhos dos vizinhos e não youkais que têm o dobro (no caso do Hideo, o quíntuplo) da idade dela.

Respirei profundamente.

— Sim. Fui jantar na casa deles.

— Que bom. — Minha mãe disse, cruzando as mãos no colo — Nunca foi minha intenção impedi-la de ter esse contato com a família de seu pai. Aliás, sempre imaginei que lhe faria bem, mas, antes, era impossível permiti-lo. Fico feliz em saber que isso não tornou a situação irremediável. Você está feliz, filha?

Senti o sorriso condescendente surgir no meu rosto. Eu não entendo o motivo, mas me senti orgulhosa de ouvir minha mãe dizer isso... Como se, de alguma forma, desde o começo essa fosse minha intenção: torna-la feliz.

— Estou. — respondi — Foi difícil no começo... Mas agora estou feliz, sim.

— Foi difícil para mim também. — Mamãe suspirou — E para seu avô. Tememos perdê-la. Demorou em que eu percebesse que você continuaria sendo minha filha, mesmo se não morasse conosco.

Arregalei os olhos.

— Por que isso está soando como se a senhora estivesse a ponto de tentar me convencer a morar com os meus irmãos?

— Não, Kagome... — ela suspirou — Eu não estou querendo dizer isso... É só que eu me preocupo com você e sei que você é teimosa... Quero que você possa pensar no assunto sem se levar pela sua... perseverança.

Engraçado ela usar sinônimos para teimosia, mas a mensagem estava mais do que clara. Estava a ponto de argumentar contra tudo isso, mas me calei. Ela estava correta. Em parte. Eu era teimosa demais. Tinha que aprender a analisar as coisas de forma mais racional.

Assim sendo, fiz a única promessa que era capaz:

— Se algum dia for necessário... Prometo pensar com cuidado, está bem?

Ela pareceu satisfeita com isso e perguntou o que eu queria para o café da manhã.


O feriado veio e se foi e eu mal o senti. Foi curto demais para o meu cansaço. Maldito curso de medicina. Era a forma mais fácil de tornar pessoas em zumbis. Aliás, esse foi o principal motivo para eu não ter percebido que havia esquecido meus livros de estudo na casa dos meus irmãos. Daiki, o infeliz, havia chamado os coitados de "prisioneiros de guerra" e prometido que os devolveria depois que eu estivesse devidamente alimentada.

Eu precisava dos meus livros para estudar!

Por isso digo, mais uma vez: odeio minha vida.

Havia coisa pior do que ter que acordar às cinco da manhã no dia seguinte a um feriado? Afinal, eu teria que pegar os livros na casa dos meus irmãos e ir correndo para a universidade para chegar a tempo.

Maldito Daiki! Alega se importar tanto comigo, mas simplesmente some com os meus queridos pertences!

Deixei um recado na cozinha de que Souta precisaria ir de ônibus para a escola e saí quando o sol mal havia nascido.

Guiei minha moto pelas ruas vazias, feliz por ao menos não ter que enfrentar o trânsito. Isso permitia que eu fosse a uma velocidade considerável. Ainda assim, vi pelo retrovisor que um carro azul se aproximava em alta velocidade. Guiei a moto para o lado esquerdo da rua, para dar espaço para ele me ultrapassar. Isso, no entanto, não aconteceu.

Que tipo de barbeiro hesita em ultrapassar uma moto numa rua vazia? Dei seta para que ele me ultrapassasse e percebi pelo som do motor quando ele começou a acelerar, até estar em paralelo comigo.

Diminuí a velocidade, para que ele ultrapassasse de vez. Ele também diminuiu.

Ok, agora isso está ficando realmente estranho. Talvez fosse os filmes de suspense ou eu realmente estava em uma enrascada. Sem dar tempo para ninguém perceber minha intenção, freei apenas o suficiente para entrar em uma rua transversa. Acelerei e olhei para trás. Ninguém me seguia.

Sorri para mim mesma. Eu realmente tinha uma imaginação fértil e às vezes até perturbada. E pensar que eu poderia jurar que aquele carro me estivera per...

Só tive tempo de ouvir o motor rugindo a minha direita quando o carro azul veio na minha direção, por uma rua que fazia esquina com aquela em que estava. Não houve muito tempo para que eu analisasse a situação e chegasse a uma conclusão plausível que me ajudasse, afinal, o carro chocou-se contra minha moto. Senti a minha perna sendo esmagada entre os veículos. Rangi os dentes um segundo antes de ser jogada a toda a velocidade contra a calçada, colidindo com o muro de um edifício.

Bati a cabeça — e outras partes do corpo — contra os tijolos. O peso da moto me esmagava. Como era possível que eu estivesse viva depois de um impacto tão violento? Tentei respirar, mas senti minha garganta queimar. Um de meus olhos estava completamente fechado, então minha visão estava razoavelmente comprometida quando vi cinco homens descerem do carro azul e se aproximarem de mim com movimentos calculados e cautelosos.

Todos eles tinham cabelos loiros. Não sei se existem loiros naturais no Japão, mas eles não pareciam do tipo que tingiam o cabelo.

Isso, Kagome, fica pensando esse tipo de idiotice quando está prestes a morrer! Não tem nada mais útil para fazer não? Sua retardada estúpida.

No fundo da minha mente, estava registrado o reconhecimento: eles eram youkais. Se fossem humanos normais, eu poderia pensar inúmeros motivos para eles terem me perseguido e provocado meu acidente, mesmo que esses motivos não fossem exatamente plausíveis.

Eles sendo youkais, a situação mudava de figura. O único motivo para eles estarem atrás de mim seria minha verdadeira natureza: eu era uma hanyou tengu.

Não sei de onde surgiu a força, mas consegui empurrar a moto para longe de mim e me levantar precariamente, apoiando uma mão na parede. Percebi que havia sangue contra os um olhar para o youkais, que pararam de andar, analisando-me. Aproveitei-me dessa hesitação para começar a correr, claudicando em razão da perna que fora esmagada e que não era de muita serventia naquela tentativa de fuga.

Entrei num beco, apoiando uma mão na parede quando sentia que estava quase caindo. Como eu imaginava logo os youkais já estavam bem atrás de mim. E, para minha eterna raiva, pareciam bastante confiantes. Bem... Eles tinham motivo para não ter medo de mim.

Encostei as costas na parede, acuada, e me mantive levemente inclinada, numa posição derrotada e cansada, embora os encarasse com ódio. Os cinco fecharam o meio-círculo em volta de mim, olhando-me com desespero doentio. Mas por que desespero? Por que me atacar?

— Finalmente achamos você, princesinha mestiça dos tengus. — um deles disse ofegante, embora eu duvide muito que tenha sido pela corrida até aqui.

Fiquei sufocada em meu desespero, sentindo um nó em minha garganta, mas eu não queria demonstrar fraqueza, já estava passando uma imagem muito frágil para simplesmente começar a chorar.

"Hideo e Daiki me avisaram que isso aconteceria", pensei consternada. Eles tentaram me proteger e a minha teimosia havia me posto em perigo.

Respirei fundo e esperei que eles me atacassem. Não ia desistir sem lutar, mesmo que não fosse capaz disso, eu morreria tentando. Foi nesse momento que meu coração se aquietou um pouco. De repente, senti a presença de Raiden. Naquele momento eu não entendi por que Raiden se mostraria daquela forma para lutar contra os tengus... Mas ele não o fez. Apenas me abraçou.

Talvez se ele tivesse lutado eu não me sentiria tão calma como me senti com aquele abraço, era quase como se ele estivesse me dizendo silenciosamente que tudo ficaria bem. Ouvi uma risada irônica de um dos youkais, possivelmente pensando em como Raiden me protegeria naquela situação.

Nem me questionei por que motivo Raiden estava emitindo presença (algo que nunca fazia) numa luta contra outros youkais. Era quase como se estivesse indo contra tudo o que tentava me ensinar aos grunhidos.

— Correu tanto para chegar até ela e nem ao menos tenta lutar. — ouvi a voz esganiçada de um dos youkais. Senti-me ainda mais furiosa.

Foi quando as risadas cessaram e os outros youkais apenas nos observaram, com olhos estreitos.

Aconteceu como uma explosão, um deslocamento súbito de ar. Em um momento, era apenas eu e Raiden contra cinco youkais, no seguinte, havia dois pares de gigantescas asas negras entre nós.

Lentamente, percebi que se tratava de dois tengus. Ambos giraram imediatamente para olhar para mim. Os dois pares de olhos azuis que me encaravam eram exatamente iguais: preocupados.

Eram meus irmãos, Hideo e Daiki. Não que a forma demoníaca deles fosse parecida com suas versões humanas... Eu apenas sabia que eram eles. Os dois eram enormes, com penas negras cobrindo todo o corpo e as asas gigantescas que deveriam ter quase cinco metros de envergadura. Pensei em como eles cabiam naquele beco, mas me calei. As pernas acabavam em grandes garras afiadas e seus rostos eram compostos apenas de um forte bico negro e fendas azuis no local dos olhos.

Eu só fui capaz de distinguir qual deles era Daiki por causa das penas que clareavam levemente nas pontas, quase chegando ao azul-claro.

— Cuide dela. — soou Hideo, em uma voz que não se parecia em nada com a dele, mas apenas algo sibilante e animalesco.

Daiki não esperou uma segunda ordem e veio na minha direção. As grandes asas do meu irmão fizeram sombras sobre mim. Um momento antes de desmaiar, vi Hideo virar-se para encarar os youkais. E soube pela expressão de horror deles que os olhos do meu irmão mais velho estariam refletindo fúria como nunca havia se visto.


Eu ouvia vozes.

— ... não a sentimos, e sentimos você, entramos em desespero. — dizia Daiki, soando frustrado — Se nós não tivéssemos chegado a tempo...

— Eu bloqueei a presença dela. — disse Raiden — Tinha esperanças que vocês percebessem.

— Sim, foi muito inteligente. Foi Hideo quem percebeu. Ele praticamente me arrancou da cama dizendo que tinha acontecido algo com a Kagome. — Daiki respirou fundo, como se estivesse tentando se acalmar — Nunca voamos tão rápido na nossa vida.

— Ela está acordando. — soou Hideo ao meu lado, fazendo com que eu finalmente me desse conta de que eu estava acordando, de fato, mas porque havia desmaiado, não porque estava dormindo.

Senti que eles se aproximavam de mim e abri os olhos lentamente, sentindo o direito levemente inchado.

Além de Daiki, Hideo e Raiden, havia outros dois tengus no quarto. Uma mulher ruiva e um homem de frios olhos verdes.

Senti uma pontada de dor na cabeça quando tentei me sentar.

— Tenha calma aí, garota. — disse o tengu de olhos verdes — O processo de cura já começou, mas ainda dói, sabe?

Encarei aquele youkai, tentando me lembrar se o conhecia. Foi Daiki quem respondeu:

— Esse é o Nagi. Ele é médico. — Ver meu irmão tão sério me fez perceber como a situação era mais complicada do que eu supunha.

— O que aconteceu? — perguntei.

Eles ficaram em silêncio, até que Raiden começou a explicar:

— Foram os youkais serpentes.

Olhei para Hideo, que estava sentado em uma cadeira ao lado da minha cama. Ele tinha um olhar vago, de quem não estava mentalmente ali. Então ele piscou e olhou para mim. Bem lentamente, inclinou-se na minha direção, esticando a mão e tocando o pingente negro em formato de pena que descansava na base do meu pescoço.

— Você vai vir morar conosco. — ele disse e eu imediatamente soube que aquela era uma questão sobre a qual Hideo não aceitaria argumentos.

Ele se levantou devagar e Daiki se aproximou, dizendo:

— Dê-me suas ordens, meu senhor. — Nunca havia visto Daiki tão sóbrio e obediente, mas me surpreendeu ainda mais a resposta calma de Hideo:

— Acalme-se, irmão... Essa não é uma tarefa para o executor. Essa é uma missão para o Senhor do Norte. — Ele lançou um olhar resoluto na minha direção — Eu mesmo lembrarei aos hebis o motivo de os tengus serem tão temidos.

E senti naquelas palavras toda a força de uma promessa silenciosa que não havia sido feita em vão.