Capítulo VII — Aceitando as Penas

Kagome, minha querida, vamos encarar a realidade: se você vai mesmo morar nessa casa, então é bom ir se acostumando com o fato de que sua vida não será mais a mesma que antes.

Primeiramente, saiba logo de agora que vai ter de conviver o resto de seus dias com um hanyou que tem complexo de culpa vigiando você de perto... E quando digo "perto", quero dizer "próximo o suficiente para sentir a respiração dele no seu cangote". E por mais gostoso que o Raiden seja, não sei se é possível suportar toda essa atenção em demasia sem ter um colapso nervoso (os homens que alegam se sentir sufocados por mulheres apaixonadas com certeza nunca conheceram um hanyou que acredita que sua protegida quase morreu por negligência sua).

Em segundo lugar, viva com a tristeza de saber que sua mãe não lhe ama e que, no fundo, estava ansiosa para ter um motivo de despachar você da casa dela. Se não fosse o bastante o fato de ela lhe deixar morar com os seus irmãos praticamente sem hesitar, ela arrumou todas as suas coisas para a mudança em apenas algumas horas. Para uma pessoa que sempre brigava por que você deixava o guarda-roupa bagunçado, o fato de ela arrumar suas coisas sem pedir sua ajuda é um claro sinal de que ela queria sua linda pessoa fora da casa dela para ontem (e levando em consideração a exultação do seu irmão pelo fato de poder usar seu quarto como sala de vídeo-games, acredito que ela não seja a única). O seu avô foi o único que pareceu realmente triste com a sua partida... Se bem que o fato de ele se despedir com um "me dê logo alguns bisnetos, minha filha" dá essa ligeira impressão de que seu avô está ficando senil.

E por último, fechando com chave de ouro, sinto informar, mas a partir de agora você viverá nessa casa cheia de youkais hiperativos e/ou sociopatas que não fazem a mínima questão de tornar o ambiente minimamente normal.

Ok. Falar comigo mesma em segunda pessoa não está ajudando a superar meu desconforto, então é melhor parar com isso de uma vez.

Eu só posso dizer que não está sendo nada fácil para mim. Nessa semana tentei retomar a minha vida. Fui à faculdade e, por sorte, enfrentei o primeiro dia sem muito pânico e quase vestígio algum de paranoia — eu estava completamente empenhada em não deixar o atentado contra minha vida me tornar uma covarde.

Na verdade, o que mais me incomodou foi o fato de eu não percorrer mais o caminho para o templo, ao final das minhas aulas, mas seguir em direção ao bairro luxuoso onde a Mansão Corvo ficava.

E agora, neste exato segundo, estou enfrentando mais uma situação de extremo desconforto: estou com sede, mas não quero sair do meu quarto e ficar andando de madrugada por uma casa estranha.

Fiquei encarando a porta do meu quarto, ciente de que eu realmente não estava sabendo lidar com essa situação.

Tenho certeza que Daiki daria um tapa no meu traseiro (foi o que ele fez quando soube que eu tocava a campainha da mansão ao invés de usar a chave que ele me deu para entrar na casa), dizendo um "deixa de ser fresca, essa casa é sua". No fundo, eu sei que estou sendo apenas boba e que as outras onze criaturas que moram sob esse teto em nada estranhariam eu estar perambulando pela casa.

Aliás, da forma como esse lugar é grande, eu duvido muito que eu veja vivalma em meu caminho para a cozinha.

Bati as mãos uma contra a outra e acenei com força. Sim, era bobagem ficar trancada no meu quarto virando uma múmia (exagero, quem disse?) apenas por ter vergonha de sair do meu quarto e ir à cozinha pegar um pouco de água. Nem mesmo os mais rigorosos dos anfitriões me condenariam por isso.

Abri a porta e saí.

Mas antes eu tivesse ficado no meu quarto morrendo de desidratação. Se não bastasse eu me perder na mansão, ainda fiz a proeza de vir parar no corredor do quarto do meu irmão mais velho, que parecia estar tendo uma discussão bem esquentada com Aika.

Ok, Kagome... Seja uma hanyou de orgulho e passe completamente despercebida, volte pelo corredor até sair do alcance do som da voz deles. Quando dei um passo atrás, ouvi algo que me fez paralisar:

— Você nem mesmo ouviu meus argumentos sobre o quanto era precipitado atacar o Senhor do Leste! — A voz de Aika estava algumas oitavas mais alta, o que indicava que estava bastante nervosa.

— Era a minha irmã, Aika... O que você esperava que eu fizesse? — O contraste da voz de Hideo, que estava mais baixa que o normal, com o tom de Aika chegava a ser curioso.

Aika ficou calada por um par de segundos.

— A questão não era o que eu queria que você fizesse... Era a sua irmã, você tem todo o direito de vingança. Meu ponto é outro totalmente diferente. Você ao menos se perguntou o motivo do ataque à Kagome? Você se dignou a investigar?

— Não... Bati primeiro, perguntei depois. — ele respondeu simplesmente.

— É claro que fez isso... — ela suspirou.

— Eu não preciso dos motivos, Aika. — Hideo estava impaciente agora.

— Mas deveria... Vocês, antigos, são todos iguais! Imaginam-se onipotentes, incapazes de serem vencidos. Por acaso você acredita que o fato de ser tão velho faz de você invencível? Você rotulou o Senhor do Leste como inimigo, e não se preocupou com mais nada além de destruí-lo.

— E com o que mais deveria me preocupar?! — Senti um arrepio, ao perceber a fúria naquela única pergunta — Sakamoto atacou a minha irmã! Ela poderia estar morta nesse segundo! Você lembra o que papai dizia? Ele sempre repetia que queria o Senhor do Leste longe dos filhos dele. De todos os inimigos, Sakamoto era aquele com quem eu mais deveria me preocupar! Ele estava certo!

— Mas não acredito que esse tenha sido algo sem um objetivo específico, não era o perfil do Senhor do Leste... Para ele ter feito algo assim, teria que estar completamente desesperado ou fora de si. — Ouvi os passos de alguém andando no quarto do Hideo, e não soube qual dos dois estaria fazendo isso — Havia alguma coisa errada na forma como tudo aconteceu...

— Ouça você mesma, Aika! É quase como se estivesse defendendo aquelas malditas serpentes!

— Eu não estou defendendo ninguém... Estou tentando compreender! Coisa que você obviamente não tentou fazer. Você e sua maldita arrogância são incapazes de tentar fazer algo tão vital.

— Aika... — ele ameaçou.

— Não, agora você vai ter que me escutar, Senhor do Norte. — Foi a vez do tom dela baixar — Você entende perfeitamente as consequências do que fez. As poucas serpentes que sobraram são incapazes de se organizar para manter o poder... Então o que vai acontecer é mais do que óbvio: é hora dos senhores disputarem pelo controle do Leste. O Senhor do Sul e o Senhor do Oeste são magníficos na arte de manipular... Aliás, de todos os senhores, você sempre foi o mais fácil de compreender e prever... — Ela fez uma pausa, como se estivesse procurando a coragem para continuar. — Você pretende lutar pelo controle de Tóquio?

— Obviamente. — disse Hideo, sem hesitar — Não posso me dar ao luxo de ter outro Senhor colocando a vida de Kagome, ou até mesmo a nossa paz nessa casa, em perigo.

— Então se realmente vai fazer isso, tem que ter em mente que não pode simplesmente partir para uma batalha contra os outros Senhores apenas com sua força... Você tem que ser tão ardiloso quanto eles.

— Você me subestima, Aika...

— Não, não faço isso. Eu sei que você é um ótimo negociador... desde que você encare o outro como igual... No momento em que ele se torna inimigo, você simplesmente desiste de tentar prever suas ações. Tio Takashi sempre disse que você é perito na arte de manipular outras criaturas. Você pode ser melhor que qualquer um deles e só não o é ainda, porque se julga inferior. Você tem que perceber que está no mesmo patamar que eles, ou será completamente manipulado pelo Senhor do Sul.

— Não é com ele que eu me preocupo.

— Sei que não... — ela respirou fundo — E quanto à eu subestimar você... Hideo, como se atreve a dizer isso para mim quando é você que me subestima? Eu sou sua Guardiã... É meu dever estar ao seu lado em batalha. Se fosse para o seu irmão acompanhá-lo, então tivesse dado a mim a função de Executora, e não a ele. É como se você não acreditasse em minha capacidade. Se esse é o caso, então eu peço que você me diga abertamente, Hideo.

— Você sabe que isso não é verdade.

— Sei?

— Aika... — de repente, a voz dele era doce, calmante — Você realmente não compreende por que eu não quero você na linha de frente? Depois do que perdemos?

— Não tente me enganar, Hideo. — ela falou, irritada, mas ao mesmo tendo soando tão frágil — Nem se atreva a se aproximar, não vou simplesmente ignorar que... Hideo!

E, de repente, silêncio.

O rubor subiu pela minha bochecha quando ouvi Aika soltar um gemido fraco, fazendo com que eu finalmente percebesse o que provavelmente estava acontecendo naquele quarto.

Muito bem, acho que essa é a minha deixa para parar de bisbilhotar e me embrenhar mais uma vez na busca pela cozinha perdida.


— Está tudo bem com você, Kagome? — Ruri me perguntou, com expressão preocupada. Pisquei algumas vezes, percebendo que todo mundo já havia terminado o almoço enquanto o meu lanche estava praticamente intocado.

Amaldiçoei-me ao perceber que todo mundo me encarava de modo estranho. Eu sou mesmo uma retardada. Caí na besteira de me perguntar como Raiden fazia para me vigiar no meio de tantos alunos e me perdi em pensamentos tolos sobre minha atual situação.

— Está sim. — respondi, sorrindo tranquilamente.

— Tem certeza? — Kenjiro perguntou — Quer dizer... Você é sempre distraída, mas desde que você voltou daquele seu "genocídio de aulas", você está ainda mais desatenta que antes.

Lancei um olhar enviesado para Kenjiro.

— Você a deixou brava. Corre Kenjiro.

Desviei meu olhar enviesado para Arusa.

— Kagome. — quase lancei o mesmo olhar para Ruri, até perceber que o tom dela era gentil — Você pode nos contar qualquer coisa, você sabe.

Posso contar até mesmo que sou uma meio-demônio tengu que quase foi morta por um bando de serpentes ardilosas? Acho que não, sua linda.

— Vamos, Kagome, fala logo o que tem te deixado tão nervosa ultimamente. — gracejou Kenjiro.

Suspirei.

— Eu saí da casa da minha mãe e estou morando com os meus irmãos, agora. — falei baixinho.

Todos eles ficaram me observando, como que se perguntando o que eu sentia quanto a isso para então decidir o que deveriam me dizer.

— Então foi por isso que você passou duas semanas sem vir para a faculdade? — Arusa perguntou.

— Podemos dizer que sim. — respondi, vencida.

— E o que você está sentindo quanto a tudo isso? — Kenjiro perguntou aparentemente interessado. Lancei o meu melhor olhar de "Não banque o terapeuta para mim, querido", mesmo assim, respondi:

— Desconfortável, ansiosa, confusa. — resumi. Todos os meus amigos me olharam com pena, fazendo com que eu começasse a me arrepender de ter revelado tudo aquilo.

— É estranho sair da zona de conforto, não é? — Kenjiro disse, com um sorriso generoso. Pensei em retrucar que eu não era uma covarde, mas me calei. Ele estava certo; sair da zona de conforto realmente incomodava. E a verdade é que eu sou empurrada para cada vez mais longe dessa zona desde que descobri sobre a verdade da minha origem.

— Bem... De qualquer forma, eles são seus irmãos, né? — Ruri sorriu — Vocês têm laço de sangue... E esses são laços fortes. A gente sempre pode confiar em quem é do nosso sangue.

Arregalei os olhos quando Ruri me disse isso. Refleti por alguns segundo e então sorri. Sorri de verdade, como se ela tivesse me falado a verdade de uma vida e senti meu ser se encher de alívio.

Não, eu não concordava com ela. Muito pelo contrário, Inuyasha e Sesshoumaru haviam me mostrado muito bem como laços de sangue não significam muita coisa. Eu fui inundada por esse sentimento de prazer, pois refletir sobre o que Ruri me falou fez com que percebesse algo muito importante: eu confiava nos meus irmãos.

Eu sabia que eu estava protegida com eles, e essa segurança só podia vir da minha confiança no sentimento que eles tinham por mim...


Entrei na cozinha (Sim, vitória! Ovações, por favor!) e encontrei Aika sentada num banco, ao lado do balcão de granito, e Hiroko agitando uma garrafa de coquetéis do outro lado. Aika suspirou enquanto esperava Hiroko despejar o conteúdo em dois copos, antes de finalmente me perceber na porta.

Fiquei vermelha ao encará-la, mas disfarcei rapidamente. E daí que ela e Hideo pareciam ter um relacionamento complicado? Isso não me dizia respeito. E, sinceramente, eu tenho que admitir que o meu irmão tem bom gosto (Aika se parece comigo, afinal).

— Oi, Kagome. — disse Hiroko, amarrando a cascata brilhante de cabelos ruivos num rabo de cavalo — Se aproxime meu bem. Estamos relaxando um pouco depois de ter que suportar seus irmãos durante o dia todo. Sinceramente, me custa acreditar que você seja irmã daqueles cretinos.

Aika suspirou de novo, cansada.

— Tenho que concordar. Lidar com o Hideo me cansa. Ele simplesmente não me leva a sério. — Aika massageou as têmporas, enquanto eu me sentava em um banco perto delas — Para variar, ele simplesmente usa-se de meios bastante desonestos quando não quer ouvir o que tenho a dizer.

O olhar malicioso que Hiroko lançou para Aika deixou bem claro que a ruiva sabia exatamente que "meios" eram esses. Quase sorri, mas me controlei, em respeito ao desespero de Aika.

— Pelo menos Hideo não age como uma criança e tem um colapso nervoso toda vez que você se aproxima. — Hiroko lançou um olhar para mim, e começou a me explicar, franzindo o nariz — O Daiki não sabe lidar muito bem quando acha uma mulher que não consegue seduzir.

Hiroko se inclinou e deu um tapa na nuca de Aika.

— Ai. Doeu. — Aika disse, choramingando.

Hiroko ignorou o protesto.

— Kagome... Agradeça por não ser imatura, teimosa, controladora, manipuladora ou superprotetora como os seus irmãos. — Hiroko falou, sorrindo e arrastando uma taça com Martini na minha direção — Aliás, você é quase perfeita. Vou virar lésbica e ficar com você, o que acha?

— Eu aceito. — falei, rindo da brincadeira.

— Pare de me trair, Hiroko. — reclamou Aika — Se vai fazer isso, ao menos me leve junto com você. Kagome, vamos fazer um triângulo amoroso.

— Aceito você também. — afirmei, inclinando-me e segurando a mão dela com solenidade.

— Que desperdício! — exclamou alguém da porta. Tratava-se de um tengu de cabelos negros e longos, que nos encarava com expressão chocada. Lembro vagamente de Daiki tê-lo apresentado sob o nome de Yuri. Ao lado dele estavam Daiki e Hideo. O primeiro nos encarava com expressão divertida e o segundo gravemente.

Meu irmão mais velho passou a mão no rosto, respirando fundo, e seguiu para a geladeira, enquanto Daiki veio em nossa direção.

— Olha só, Hideo... — Daiki pegou o meu Martini, cheirando como se esperasse encontrar veneno — A bruxa safada está dando álcool para nossa irmãzinha! Aposto que tem alguma substância alucinógena nessa bebida e que a megera quer abusar do corpinho da nossa irmã!

— Você que abusa da minha paciência, Daiki. — Hiroko jogou a garrafa de coquetéis em Daiki, que amparou o objeto com uma mão.

— Quieta, bruxa, seu destino está sendo decidido aqui...

Vi de rabo-de-olho quando Hideo tirou duas cervejas da geladeira, jogou uma garrafa para Yuri e então abriu a outra para si mesmo, bebericando calmamente. Foi com casualidade que ele encostou-se à porta, observando a cena que se desenrolava.

Aika estendeu uma mão pálida na minha direção, e disse:

— Venha para o meu lado, Kagome, pela sua própria segurança. — Obedeci, óbvio. E foi bem a tempo de Hiroko pegar uma frigideira que estava pendurada em um suporte e tentar acertar Daiki do outro lado do balcão.

Meu irmão provocava a ruiva sem cerimônia, enquanto todo mundo ria da briga infantil. Percebi que Yuri e Hideo ficaram em silêncio de repente e notei que Nagi estava parado na porta, de braços cruzados na frente do peito. Ele deu alguns passos, segurou Daiki pela parte de trás da camisa e o empurrou para frente bem a tempo de colocar o rosto do meu irmão na trajetória da frigideira.

O aço acertou o rosto belo de Daiki com um estrondo.

O silêncio se estabeleceu. E então todo mundo caiu na risada. Com algumas exceções, claro, como Daiki, que parecia assombrado, e Nagi, com expressão de serial killer.

— Já mandei você parar de irritar minha irmã, Daiki. — Nagi disse, inclinando-se e pegando a frigideira das mãos de Hiroko.

— Eita, diabo, vou chamar os outros para começar as apostas. — Yuri disse, saindo da cozinha como um raio.

— Hideo me ajuda. — implorou Daiki, colocando as mãos na frente do rosto para se proteger dos golpes de aço que ele sabia que viriam.

Hideo se limitou a erguer as sobrancelhas com deboche.

A cena se desenrolou com Daiki correndo em volta da mesa de café-da-manhã enquanto a cozinha se enchia de tengus que gritavam suas apostas como se o recinto tivesse se transformado num pátio de brigas clandestinas. Hiroko e Yuri controlavam as apostas e Hideo foi nomeado juiz da luta, embora não parecesse inclinado a decidir ou impedir porcaria alguma.

Dado momento, Aika me puxou pela mão para fora da cozinha e ficamos no corredor, rindo dos ocasionais gritos e sabendo pelas reações dos "expectadores" quem estava vencendo a luta improvisada. Hiroko era o termômetro mais claro da situação: quando ela exultava, significava que Nagi estava vencendo, quando resmungava, era porque Daiki tinha conseguido contra-atacar.

Minha barriga doía de tanto rir.

Aika olhou para mim com expressão condescendente.

— Não se preocupa... Você se acostuma a conviver com esse tipo de coisa.

Sorri para ela.

— Espero que sim... Aliás... Aika, eu queria pedir um favor... — comecei, tomando coragem.

Ela me encarou como se esperasse que eu finalmente dissesse qual era esse favor. Quando abri a boca para revelar, ouvi os gritos de frustração dos apostadores (e de Hiroko) e soube que aparentemente Hideo havia decidido colocar fim naquela baderna.


Alguém sentou na minha frente à mesa na biblioteca da faculdade. Não vou mentir que imediatamente pensei que poderia ser Daiki, por motivos já bastante óbvios, mas me surpreendi a dar de cara com Aika.

Esses youkais realmente têm que aprender a não virem à faculdade quando querem falar comigo.

— Boa tarde. — ela disse, sorrindo — Hideo me mandou a Sapporo para realizar algumas negociações em nome dele e resolvi procurá-la, já que eu viajaria antes de você chegar em casa. Você queria me pedir um favor ontem... Fiquei preocupada. Algo está te incomodando?

Ruborizei. Pensei que ela sequer se lembrasse do que eu tinha dito.

— Não, juro. — sorri — É só que eu estava querendo saber mais sobre os tengus... E, bem... Tenho vergonha de pedir para Hideo e tenho medo de que histórias mirabolantes Daiki pode inventar apenas para não tornar tediosa a tarefa de me explicar essas coisas.

— Ah... — Ela piscou algumas vezes — Ah... Eu estava pensando tantas coisas... Nossa, não deveria deixar uma pessoa curiosa como eu nessa situação, é muita crueldade.

Sorri com diversão.

— Desculpe-me.

— Acho que não tem como explicar o que são os tengus sem um vasto estudo da história e dos costumes centenários que os youkais teimam em seguir. É um estudo que vai ter que esperar a minha volta. — Ela mordeu o lábio, pensativa — Se você quiser se adiantar, aconselho ler algumas baladas dos antigos poetas... Há muitas passagens que são relacionadas aos tengus. E, se quiser realmente economizar tempo, eu aconselho você perguntar ao Hideo. Ele é o tengu mais antigo atualmente.

— Entendo... — comentei — Eu vou esperar sua volta. Pretendo pedir ao Raiden para que ele me treine para esconder a presença youkai, então acho que vou ter muito com o que me ocupar.

— Pobre de você... — Aika disse, rindo.

Fiz careta.

— Bom, acho que tenho tempo para explicar uma ou outra coisa sobre a herança cultural dos tengus. — ela disse, observando o relógio — No passado, os tengus eram protetores dos humanos. Curadores. Quando sediávamos no Monte Kurama, era comum que nossos médicos descessem a montanha para curar os humanos de pestes e pragas. Aquela era uma época onde os demônios ainda usavam suas formas parcialmente animalescas para andar entre os humanos, e os curadores do Monte Kurama eram caracterizados como homens com bicos ou grandes narizes. Os médicos do ocidente, inclusive, passaram a usar máscaras com longos narizes aduncos por acreditarem ser esse o segredo para que o curador se mantivesse a salvo das chagas do povo.

Lentamente, fui fechando o livro a minha frente para ouvi-la com perfeita concentração.

— Contei isso para que você possa compreender como os tengus estão acostumados a incluir qualquer criatura em seu sistema pessoal de defesa. Nós somos naturalmente superprotetores e impulsivos. Temos a péssima mania de tratar nossos aliados como iguais, e agir como se nossos inimigos tivessem vindo de outro planeta e seguissem códigos de honra e de moral completamente diferente dos nossos. Quando estudarmos a história dos tengus, você vai perceber que nosso povo está acostumado a entrar em guerras, mas que é quase sempre impossível especificar o motivo para isso ter acontecido. Eu imagino quantas dessas batalhas não aconteceram por bobagens e que poderiam ter sido evitadas se os tengus fizessem algum esforço para entender o inimigo. Os antigos tengus, e muitos da nova geração, são assim: guerreiros exímios, péssimos diplomatas.

Cocei a bochecha, pensativa, enquanto ela também parecia perdida nas suas próprias reflexões.

— Você se preocupa muito com Hideo, não é?

Ela ergueu os olhos, surpresa. Então pareceu se acalmar quanto a minha pergunta.

— Muito. Ele é da velha guarda... Está acostumado a ter as coisas exatamente como quer. E, céus... Ele nem de longe é tão impossível de lidar quanto os outros senhores. O Senhor do Oeste é intratável, o do Sul enervante. O antigo Senhor do Leste era ardiloso. Hideo é apenas teimoso e manipulador. Ainda assim, eu me preocupo muito com ele. Hideo está acostumado a criar guerra por qualquer coisa e o tio Takashi incentivava isso. Sei que ele parece ser frio e cruel, mas ele não passa de um esquentado retardado, não muito diferente de Daiki. Sabe, no passado, numa época em que eu nem sonhava em nascer, Hideo era jovem e imaturo, costumava criar desafetos por onde passava. Muitas guerras tengus se iniciaram por causa dele. Inclusive a Grande Guerra.

— Grande Guerra?

— Os humanos estiveram em guerra civil no mesmo período, mas os youkais a chamam de Grande Guerra. Aliás, uma guerra antiga em que todos os atuais senhores participaram. Na época, o Senhor do Leste, que Hideo matou, era aliado dos tengus. Engraçado como as coisas mudam, não é? — Ela olhou o relógio mais uma vez — Oh, Kagome, tenho que ir, o jato dos Tsubasa já deve estar me esperando no aeroporto. Qualquer coisa que quiser, fale com a Hiroko. Ela me deve um favor, cobre em meu nome, está bem? — Ela se levantou e sorriu gentilmente, antes de se afastar.

Ela mal havia dando alguns passos na direção da saída da biblioteca quando eu comecei a divagar acerca do que ela tinha me revelado. Natureza estranha essa a dos tengus. Parecia ser uma raça youkai generosa e impulsiva, talvez um pouco diferente dos youkais que eu tenha conhecido.

Saí de meu torpor quando Ruri sentou a minha frente, surpresa.

— Acabei de cruzar com uma mulher que se parece com você! — ela exclamou boquiaberta — Você por acaso tem uma irmã e nem me falou?!

— Hã? — perguntei aérea, e finalmente compreendi o que ela estava falando — Ah, não. É minha prima. — Falei a última palavra lentamente, como que para me acostumar com esse fato, embora eu não tenha questionado qual o nosso grau de parentesco, se realmente havia.

— Ela é linda. — Ruri afirmou.

— Vou receber isso como um elogio, já que você disse que ela se parece comigo. — sorri maldosamente.

— Por isso eu disse que "se parece"... Ela é uma versão mais refinada.

— Maldita.


A porta do meu quarto abriu. Meu coração deu um pulo quando lembrei que estava vestindo apenas uma camisola, enquanto estudava um pouco de Introdução a Patologias. Ao olhar para a porta, deparei-me com Daiki apertando a mão contra o peito, enquanto comentava:

— Meu Deus do Céu... Por que ela tem que ser minha irmã? Tão linda, mas proibida!

— Daiki! — exclamei ruborizada.

Ele se aproximou da cama, ainda com expressão chorosa, e tirou o livro da minha mão, deitando-se ao meu lado e me abraçando. Apoiei meus punhos no peito dele, enquanto ele me apertava.

— Daiki. — ralhei suavemente, erguendo os olhos para ele — O que significa tudo isso?

— Saudade da minha irmãzinha?

— Você me viu quarenta minutos atrás no jantar. — comentei, com expressão de desdém. Ele emburrou. — O que foi?

— Nada... Fiquei sabendo que Raiden vai iniciar o seu treinamento de hanyou. Não se deixe enganar por aquela expressão entediada, ele coleciona calcinhas. — Ele se apoiou no cotovelo — Deixe que eu treine você.

— Não.

— Por favor. — ele pediu — Não vou suportar ficar nessa casa sabendo que o hanyou nojento está machucando sua pele macia.

— Não, Daiki. Vai ter que superar. O Raiden sabe exatamente o que precisa me ensinar.

— E o que seriam essas coisas?

— Ele disse que apesar da minha presença youkai ser forte, minha força é apenas um pouco maior que a de um humano, então precisa de estudo aprofundado de técnicas de combate. Como já sei usar um arco-e-flecha, ele vai se limitar a me ensinar outras armas e luta corpo-a-corpo.

— Ele vai torturar você. Você é bobinha demais, vai ser enganada pelo safado. — ele reclamou.

— Por que tenho essa impressão de que você está me ofendendo?

— Não se prenda a detalhes. Deixe que eu a treine. — ele pediu.

— Não.

— Mulher insuportável. Morra na sua ignorância. — ele fez menção de se levantar, mas eu passei os braços em volta do pescoço dele, sorrindo.

— Seu teimoso. Não, você não vai me treinar. Mas pode ficar aqui e assistir um filme comigo. Ainda não estreei aquela maldita televisão de 52".

— É uma televisão linda, né? — ele disse, sorrindo — Escolhi pessoalmente, para ter onde assistir as lutas de boxe.

— Safado!

— Sempre, amor.


Coisas importantes aconteceram na semana seguinte. Raiden e seu péssimo costume de fraturar meus ossos. Daiki e a péssima mania de me incomodar de madrugada para dizer que estava carente. Eu e a minha péssima inclinação de gostar de todos esses malditos tengus.

Lentamente, eu estava me acostumando a casa e àqueles que viviam nela. Pouco a pouco, esse lugar está se tornando minha casa, apesar de quase todos os dias eu ir ao templo visitar minha mãe. Minha sessão de treinamento e meus estudos eram intercalados por horas de estudo profundo de folclore japonês.

Tengus eram figuras bastante comuns na mitologia japonesa. Guardiões de templos, protetores de crianças e de montanhas. Costumavam pregar peças com pessoas de índole ruim. Nas pinturas eles geralmente eram retratados como homens de rosto vermelho e um grande nariz.

Houve, no entanto, uma passagem que me interessou de forma incomum, era a seguinte balada:

E as asas negras se fortaleceram quando o tempo se aproximou.

Na época em que o dragão e a prata se rebelaram contra o destino;

E a vida se rebelou contra o mundo.

A Devastadora Guerra colheu as penas e a lua, a sagacidade e a serpente.

O antigo do antigo tomou seu par e as nobres penas negras

Enamoraram-se da pureza da alma.

A profecia perdida da sacerdotisa, salvando sua amada e nobre aspiração¹.

Da cruel morte pelos caninos.

Balada das Asas Negras

(N/a(s): "Nobre Aspiração" é uma das possíveis traduções para o nome Takashi).

Reli aquela estrofe "A profecia perdida da sacerdotisa, salvando seu amado Takashi da cruel morte pelos caninos". Depois disso, essa bendita frase ficou me perseguindo por dias, até que fui atrás de Hideo para perguntar sobre o assunto.

Fiquei sentada na poltrona do gabinete de Hideo com as mãos nervosamente cruzadas no colo, enquanto ele lia os

versos com concentração. Por fim, ele sorriu, e o efeito no rosto normalmente grave foi incrível.

— Interessante você encontrar essa balada em especial. É a única que fala de nosso pai como um homem capaz de amar. Existe uma dezena que fala de sua força mortal em batalha.

— Então é realmente ele? — perguntei, arregalando os olhos.

— Sim. — ele respondeu — Se trata de nosso pai. Acredito que conheci o humano que fez essa balada, mas nunca saberei se estou certo. — Ele me estendeu o livro de volta e fiquei olhando o poema, completamente fascinada. — Você entendeu do que se trata o poema?

Olhei para ele.

— Não. — respondi, constrangida.

Ele sorriu de novo, dessa vez um sorriso completamente condescendente, do tipo que se lança para crianças.

— Relata algo que aconteceu durante uma guerra... Ou ao menos é o que alguns alegam, já que nosso pai nunca me confirmou tal versão. A Grande Guerra foi o primeiro embate youkai de grande escala. — Hideo parou um segundo, pensativo, e lembrei Aika me contando que Hideo havia sido o culpado do início dessa guerra — Na época, os tengus não se envolviam em políticas territoriais; estávamos reclusos no Monte Kurama há séculos, e gostávamos disso. Bom, ao menos boa parte de nós. Eu era muito imaturo na época. Achava que precisava conhecer o mundo. Pensava que todos os youkais que existiam eram pacíficos como nós. Até que fui atacado por um hanyou que era servo do Senhor do Oeste. Papai ficou furioso, perseguiu o hanyou até Kyoto, e então os Senhores do Oeste e do Sul se voltaram contra nós. Nossa única saída foi nos defender.

Ele fez uma pausa, enquanto coçava o pescoço:

— Foi a primeira guerra da qual participei, e da qual, aparentemente, fui o culpado. A guerra durou décadas. A última batalha foi grandiosa e destrutiva. Ambos os lados sabiam que nosso pai e o Senhor do Oeste iriam se enfrentar em algum momento... Era inevitável. Assim como era impossível evitar a morte de um dos dois. Ainda assim, essa batalha foi impedida. Nosso pai recuou e o Senhor do Oeste aceitou tal retirada. Assim terminou a Grande Guerra, sem motivo aparente.

Ele se levantou da poltrona, olhando pela janela.

— A versão que se espalhou, no entanto, era outra. Muitos disseram que meu pai tinha uma amante humana, uma sacerdotisa poderosa que selou meu pai durante a batalha e enfrentou o Senhor do Oeste no lugar dele. Ela foi assassinada cruelmente e isso satisfez o Senhor do Oeste, que acreditou que ver meu pai sofrendo com a morte da amante valeria mais do que matá-lo. E a guerra acabou, portanto, por causa do sacrifício da amante do meu pai. — ele riu de forma azeda — Isso foi o que afirmaram, ao menos.

— E você acredita nisso? — perguntei curiosa.

— Sim. — ele olhou para mim por sobre o ombro — Acredito. Eu acredito que cheguei a vê-la uma vez, mas a única coisa da qual posso de fato me lembrar é o seu cheiro. E nosso pai demorou décadas para se recuperar da Grande Guerra. Era clara a tristeza que havia em sua alma. Tudo me levava a crer na veracidade de tal boato e que ele realmente amava sua humana, muito mais do que amou a minha mãe e de Daiki...

Ouvir isso doeu um pouco e me surpreendi de ver que Hideo encarava aquilo de forma bastante natural.

— Bem... Depois da Grande Guerra, meu pai foi incapaz de ficar no Monte Kurama e os tengus se mudaram. Foi quando Takashi se tornou Senhor do Norte. — Ele me observou por alguns segundos e então seguiu para uma estante. Ao afastar uma prateleira, ele revelou um cofre, o qual abriu rapidamente. De lá, tirou uma caixa de madeira trabalhada. — Aqui. — Ele se aproximou de mim, depositando a caixa na minha frente — São algumas das coisas que Takashi Tsubasa guardava com a própria vida. Talvez a ajude a conhecer melhor o nosso pai.

Observei a caixa com ansiedade, percebendo que eu finalmente estava frente a frente com algo que havia pertencido ao meu pai. Era como se ele fosse se tornar repentinamente mais real, apenas de eu abrir aquela caixa.

Respirei fundo algumas vezes, analisando Hideo com um olhar indagador. Ele fez um gesto com o queixo que me incentivava a abrir.

Não vou mentir. De alguma forma, eu pensava que, ao abrir a caixa, eu me depararia com efeitos surreais de filmes de ficção, como o som surdo de pressão se exaurindo ou fumaça branca saindo pelas frestas. Isso não aconteceu. E para ser sincera, na verdade não encontrei nada demais, apenas algumas folhas de papel com poemas do Imperador Meiji, uma fita cassete d'O Poderoso Chefão, fotos e objetos aparentemente sem valor, como um copo de saquê ou a ponta quebrada de uma flecha.

Eu tinha desejo de analisar cada um cuidadosamente, mas algo me chamou atenção logo de cara. Era um pingente negro em forma de pena. Ou, ao menos, metade dele, pois estava quebrado. Imediatamente levei a mão ao pescoço, observando que o pingente que Hideo havia me dado algum tempo atrás (e que era bastante semelhante ao que havia na caixa do meu pai) ainda estava comigo.

Peguei o pingente quebrado e o retirei da caixa, para analisar melhor. Estava velho, corroído. As bordas estavam ásperas da ação do tempo, enquanto o centro brilhava como se estivesse polido, era quase como se alguém o tivesse esfregado entre os dedos por dias a fio.

Olhando de perto, eu percebi que o pingente não era nem um pouco igual ao meu. Exatamente no local onde o pingente estava quebrado, era possível ver a metade do que um dia deveria ter sido um arco branco gravado no metal. Era um desenho peculiar, o que me levava a crer que aquele pingente significava mais do que o meu, que era apenas uma pena negra simples.

— Ele quis proteger alguém. — sussurrei, finalmente tomando conhecimento do que aquela pena deveria significar. Provavelmente era da mulher humana que ele amou. Meu pai dera a ela para protegê-la... E o fato de ela estar ali, quebrada, entre as coisas dele... deixava mais que claro qual fora o destino da pessoa protegida. — E não conseguiu. — eu disse, com o peito doendo. De repente me lembrei das inúmeras vezes em que vi Inuyasha correndo perigo e nada pude fazer para ajudá-lo e isso só serviu para exponenciar a dor. Fechei a caixa, de olhos fechados.

Hideo pareceu perceber minha reação.

— Leve a caixa com você, Kagome... Analise com cuidado. — Ele acariciou meus cabelos levemente — Nós temos muito tempo para eu lhe contar tudo o que sei do nosso pai.

Peguei a caixa e coloquei no meu colo com cuidado. Depois de respirar profundamente eu me levantei e, num gesto de agradecimento, beijei o rosto de Hideo. Ele lançou um sorriso triste para mim, e então saí do gabinete dele.

Enquanto seguia para o meu quarto, segurando aquela caixa tão preciosa, a aceitação de que eu era uma tengu finalmente se tornava sólida. E que os céus me ajudassem nisso.