Capítulo X — A proposta (não é o filme)
Acordei com a pior dor de cabeça de minha vida, juntamente com uma dor terrível no corpo. Tudo consequência de ter dormido no chão, enquanto chorava. Estranhei quando notei estar em minha cama e meu coração deu um pulo de susto ao ver Hideo sentado do meu lado, com o notebook em seu colo, obviamente trabalhando. Cocei os olhos enquanto me sentava, ele desviou o olhar do notebook para mim e fechou a tela, colocando o aparelho no criado-mudo.
— Qual o motivo de ter dormido no chão? Desmaiou? Sua pressão caiu? Quer que chame o Nagi?
— Muitas perguntas. — Ele desviou o olhar e se movimentou na cama, como se estivesse procurando uma posição confortável. — Caí no sono sem notar.
— No chão?
— Cansaço.
— Eu não sou o Daiki, Kagome. Não tente se enganar.
Soltei um pesaroso suspiro, abraçando meus joelhos. Olhei de esguelha para meu irmão, que apenas me encarava, esperando que eu começasse a lhe contar o que estava realmente acontecendo. O caso era como eu poderia revelar a Hideo que conhecia Inuyasha, irmão do Sesshoumaru, e, mais que isso, que o amava e que eu era o motivo da Grande Guerra? Que quase causei sua morte, sendo que provoquei, mesmo que indiretamente, a morte da mulher que nosso pai amava?
Lembrar-me de tudo isso fez com que eu sentisse novamente meu coração apertar e meus olhos arderem. Não podia chorar na frente dele; dava para perceber que ele estava muito preocupado com o que estava acontecendo e sinceramente não quero causar mais problemas ao meu irmão.
Em contrapartida, Hideo não sairia desse quarto antes de saber exatamente o que estava acontecendo. Provavelmente ele já estava se questionando de onde eu conhecia Shippou e Sesshoumaru, assim como Daiki estava na noite anterior. Só não acho que conseguiria convencer Hideo de que havia conhecido o Senhor do Oeste e do Sul em uma convenção de anime. Sinceramente, eu deveria ter pensando em algo mais convincente, como palestra do dia das profissões ou evento do colégio que envolvesse a empresa de algum deles, sei lá.
Senti Hideo passar a mão na minha cabeça, reconfortando. Ergui meus olhos para ele.
— Não precisa me explicar, Kagome. Não sei se compreendo tudo o que está acontecendo ou o que aconteceu antes mesmo de eu sonhar que teria uma irmã... Mas não importa. — Ele respirou profundamente — O desejo de nosso pai era protegê-la e agora esse é o meu desejo e o de Daiki. Você compreende isso, não é? Nós vamos proteger você com as nossas vidas, se necessário. Agora pare de pensar no passado e se concentre no que pode vir pela frente.
Ele não falou claramente, mas por que meu instinto me dizia que ele se referia ao meu passado na Era Feudal? Pisquei algumas vezes, confusa, perguntando-me se era possível que ele soubesse algo como isso e a única resposta que eu tive foi um:
— Eu não sou idiota, Kagome. — Então ele apanhou o notebook e a conversa estava encerrada.
Com mais um suspiro, levantei-me da cama e segui para o armário, apanhei uma muda de roupa e fui para o banheiro, inclinada a ficar horas dentro da banheira refletindo sobre tudo aquilo. Consegui ver de relance meu irmão sair do quarto enquanto encarava o celular. Fechei a porta e abri a torneira, deixando a água morna encher a banheira enquanto eu me despia. Senti uma onda de prazer invadir meu corpo quando adentrei no banho quente.
Não pude evitar um suspiro de alívio e me permiti finalmente pensar com calma em tudo que havia acontecido nesses últimos dois dias. Escorreguei o corpo apoiando a nuca no espaldar e observando o teto branco.
Inuyasha estava realmente morto. Eu custava acreditar que era realmente verdade, mas Shippou estava certo, por mais poderoso que ele fosse, ainda assim era um hanyou e, como tal, possuía uma parte humana... Portanto, ele era mortal. Não que youkais sejam completamente imortais, mas, virtualmente, podemos tratá-los assim.
Isso tudo era uma verdade óbvia, mas manter a chama da esperança acesa em meu coração era tudo que podia fazer até o almoço do dia anterior... Enfim, dói tanto... E chorar é a única coisa que me resta. Respirei fundo e submergi. Fiquei assim até sentir a necessidade de voltar a respirar. Quando emergi, aspirei o ar lentamente, sentindo-me um pouco mais calma.
Essa dor vai durar por muito tempo e ficar chorando não vai me ajudar a seguir em frente...
Seguir em frente... Novamente, aqui estou eu pensando em como permanecer em pé e continuar a viver sem ele. Mais uma vez perdida e sem a mínima vontade de me por daqui para fora e encarar o mundo com a cabeça erguida.
Uma vez ouvi que às vezes a ignorância era uma dádiva. Achava isso uma tolice até agora. Quem sabe se eu não soubesse que ele havia morrido... Acalme-se Kagome, pensar dessa forma apenas irá destruí-la. Se continuei antes, só me resta continuar novamente.
— Kagome, você está bem?!
A forma que fui arrancada de minha autoanálise foi tão brusca que sobressaltei na banheira, espalhando água pelo chão de piso azul escuro. Olhei para aquele que havia entrado em meu banheiro sem qualquer tipo de prévio aviso.
— AAAAAH! — gritei enquanto Hideo escorregava na água que espalhei quando fui assustada.
— Droga de piso. — Ele me encarou e começou a corar, acredito que o mesmo ocorreu comigo, pois senti meu rosto ferver.
— Sai daqui!
— Desculpe! — ele ainda patinou no piso duas vezes antes de conseguir sair do banheiro... Oh, senhor, o que foi isso?
Trinta minutos depois, consegui encontrar coragem para entrar no quarto, não o vi lá e agradeci aos céus por isso; não estou certa se aguentaria a vergonha. Levou mais uns bons minutos para que eu achasse coragem e seguisse até a cozinha, onde peguei uma caixinha de leite com achocolatado, com a qual engasguei assim que Aika se aproximou, cumprimentando-me.
— Desculpe lhe assustar. — ela disse, sentando ao meu lado. Abanei a mão em gesto de que não era nada, ainda tossindo. — Hideo pediu para lhe chamar, quer ver você no escritório.
Pronto, agora a tosse consumia toda a minha existência e a preocupação ficou estampada no rosto de Aika enquanto ela massageava minhas costas com a mão direita.
— Kagome?
— Eu... — respirei fundo. — Estou bem... No escritório? Certo... Eu... Bom... Obrigada, Aika.
Ela esboçou uma expressão de quem não estava entendendo nada, enquanto eu reunia aquele último vestígio de coragem para sair da cozinha.
Bati na porta do escritório de Hideo e esperei que ele dissesse para eu entrar. Assim que fechei a porta de correr atrás de mim, eu vi meu irmão de pé ao lado da janela, batucando os dedos no peitoril em um ritmo uniforme, mas ainda assim nervoso.
— Aconteceu alguma coisa? — "além de você ter visto sua irmã nua, claro", quase completei, mas engoli as palavras em tempo.
Hideo suspirou e se virou para mim, com expressão pensativa.
— Sesshoumaru solicitou um novo encontro entre os senhores, com fim de resolver a situação do domínio do território do Leste. — Ele se sentou na cadeira — Vamos nos encontrar em um restaurante no centro comercial, porque, enfim, ninguém confia um no outro para nos encontrarmos em algum outro lugar. E dessa vez você vai conosco.
— Eu? — exclamei, arregalando os olhos — Mas por quê?
— Quero você segura. E acho que a melhor forma de fazer isso é mantendo você perto de mim. — Ele suspirou — Eu não confio no Senhor do Oeste. É muito estranho que ele solicite uma reunião dessas apenas três dias depois da Convenção. Sesshoumaru não é precipitado, então só posso acreditar que ele tem tudo muito bem planejado. Vamos ver o que aquele infeliz quer.
Ao ir à cozinha, percebi que tinha mais recados em papel-adesivo na geladeira. Eu li alguns e comecei a rir. O povo dessa casa é louco, simples assim. E essa geladeira é uma forma de terapia, seja para quem lê seja para quem participa dessas loucuras. Os terapeutas tinham que saber desse método revolucionário de acalmar os ânimos.
Rindo, abri a geladeira finalmente e tirei uma lata de Coca-Cola. Desfrutaria da minha bebida com muito prazer, obrigada, e só depois ia pensar no que vestir para acompanhar meus irmãos (pois Daiki se recusou a ficar na Mansão) a tal reunião.
Aquela situação era toda estranha. Primeiro que esses malditos fecharam o restaurante mais caro de Tóquio por um dia inteiro apenas para essa reunião. Não era mais fácil alugar qualquer salinha de karaokê? Mas nããão! Você acha mesmo que o senhor Hideo-terno-italiano iria ser espremer num sofá cheio de pulgas de karaokê? Você tem fé.
Os tengus foram os primeiros a chegar. Havia uma única mesa posta no restaurante, com três cadeiras. Hideo sentou-se em uma delas e o resto de nós ficou parado em pé atrás dele (o grupo se resumia a Daiki, Aika, Hiroko, Ryo, Yuri, Nagi e eu), como se fôssemos... sei lá... membros da máfia e Hideo fosse o Don Corleone.
Estavam todos rígidos e concentrados, e até Daiki estava silencioso — o que é algo absurdo demais de se imaginar, eu sei.
Quando os kitsunes entraram, falando alto e rindo, todos os tengus deram um pulo de surpresa, de tão tensos que estavam. Menos Hideo, óbvio, que parecia bastante tranquilo. Não sei se ele estava apenas se controlando com muito fervor ou se esse era seu estado normal nesse tipo de situação, mas a calma dele era mais desconfortável de se ver que a rigidez do resto do grupo.
Shippou veio na minha direção, sorrindo e abrindo os braços.
— Kagome! Não pensei que fosse vê-la aqui. — Nem raposas nem corvos se mostraram exaltados quando ele me abraçou, passando um braço pela minha cintura, o que me leva a crer que a notícia de que éramos amigos já tinha se espalhado. — Já te falei que você fica linda de vestido? Suas pernas são deliciosas, meu bem.
— Hideo, a raposa pervertida está olhando para as pernas da nossa irmã. Eu agradeceria se você desse uma pequena advertência para ele, obrigado. — disse Daiki — Com todo o respeito, Senhor do Sul.
— Sim, respeito demais, eu percebi. — Daiki e Shippou sorriram um para o outro. Estranhei o fato de Daiki não surtar com a mão de Shippou ainda na minha cintura, mas então percebi o motivo: para o meu irmão, Shippou era um aliado na batalha contra o cão sarnento.
Acho que descobri de onde herdei o meu lado interesseira. Umbeijo.
As portas se abriram mais uma vez e Sesshoumaru entrou, sozinho novamente. Tenho que admitir que parecia alguém que sabia exatamente o que queria. Shippou tirou a mão da minha cintura calmamente e então foi se sentar à mesa, enquanto Daiki me puxava gentilmente para que eu ficasse ao seu lado.
Simplesmente me deixei levar, resoluta a passar despercebida o quanto fosse possível, mas quando Sesshoumaru passou por nós me encarando, eu percebi que meu intento era completamente impossível.
Os dois Senhores que faltavam finalmente estavam à mesa, mas eu só tinha olhos para Sesshoumaru; para o rosto perfeito aparentemente esculpido em pedra, de tão impassível. Inuyasha não era assim. Inuyasha tinha um rosto expressivo, que mudava a todo segundo. As sobrancelhas de Sesshoumaru também eram mais finas que as do irmão mais novo; linhas perfeitas. Aliás, não havia muita coisa de semelhante neles... Exceto a cor do cabelo e os olhos. Os olhos de Inuyasha também eram desse mesmo dourado.
O olhar dele se encontrou com o meu e eu me recusei a desviar os olhos. E pensar que ele nem sonhava quem eu era. Pobre Sesshoumaru, se acha tão onipotente e mal sabe que a pobre hanyou tengu que ele está encarando sabe de muitos dos seus segredos sórdidos.
Antes que eu pudesse evitar, soltei uma risadinha. Foi completamente involuntário; um som curto e rápido, que naquele ambiente tão silencioso soou como explodir uma bombinha na biblioteca. O fato de tantos olhares se virarem para mim me fez ter ainda mais vontade de rir e temi estar no início de uma crise de riso.
Daiki deu um tapinha no meu ombro e eu me recompus. Olhei para ele a tempo de ver sua expressão séria, mas olhos que brilhavam divertidos.
Vi de relance Sesshoumaru, que havia estreitado os olhos levemente, numa típica expressão irritada. Tinha me esquecido de como ele se irritava facilmente.
Ai, céus, eu estava muito ferrada. Por que eu tinha que atrair a ira do youkai mais psicopata (depois de Naraku e Nagi, claro) que já existiu nas ilhas nipônicas?
Shippou olhou para mim e sorriu, piscando um olho marotamente. Tive que me segurar para não rir mais uma vez.
— Então... — começou Hideo — Já que foi você, Sesshoumaru Taisho, que solicitou tal audiência, esteja à vontade para nos revelar o motivo.
— Pensei que o motivo fosse mais que óbvio. — Ele entrelaçou os dedos no colo, e, mesmo que parecesse me ignorar completamente, algo em sua postura fazia meu instinto de sobrevivência me alertar para o fato de que, na verdade, a atenção dele estava completamente focada em mim — Quero o território do Leste.
Aquela foi uma declaração tão direta que até mesmo Hideo perdeu o fio de sua atuação de homem calmo.
Shippou riu.
— Quanta honestidade, Senhor do Oeste. — ele disse, cruzando os braços e sorrindo.
— Eu ficaria agradecido se vocês também fossem. — foi a resposta do tai-youkai.
Sesshoumaru... agradecido... Imaginar isso foi tão bizarro que me custou não cair na risada de novo.
— Você já deve estar ciente que eu me retirei da disputa pelo território do Leste. — disse Shippou, cáustico — Tranquilize-se, não represento ameaça alguma.
— Nunca representou. — Sesshoumaru disse secamente e o sorriso de Shippou se tornou um esgar amargo. Quando Shippou era um filhote, ele não se agradava muito de Sesshoumaru. Isso não parecia ter mudado muito durante esse tempo.
Era a vez do meu irmão se pronunciar:
— Eu pretendo disputar o território do Leste. — Hideo falou calmamente — Foi nessa cidade que minha irmã cresceu... Não pretendo abrir mão dela. Mas você já sabia disso... Então qual o motivo desta reunião?
— Resolvermos essa questão, obviamente. — Sesshoumaru encostou-se calmamente no espaldar da cadeira — Ambos estamos cientes da força um do outro, Senhor do Norte. Você deve saber perfeitamente qual de nós dois ganharia se houvesse uma guerra.
— Eu não teria tanta certeza desse resultado. — Hideo disse friamente. — Aliás, é provável que você não tenha, ou não estaria tentando resolver essa questão com diplomacia.
— Isso não é diplomacia. — Sesshoumaru respondeu — E sim, tenho plena certeza do conhecimento de qual seria o resultado. Ainda assim, minha vitória custaria baixas aos tai-youkais... É um luxo que não posso ter.
— Então desista da disputa, Senhor do Oeste. Ambos ficaremos felizes. — declarou Hideo.
— Não creio que seja possível. Mas se ambos os lados ficarão satisfeitos, isso vai depender completamente de você. No fundo, eu realmente não ficaria decepcionado em guiar o Oeste contra vocês.
Hideo ficou visivelmente tenso com tal declaração, mas se recompôs rapidamente, fazendo um gesto de descaso com a mão para que Sesshoumaru continuasse seu discurso.
— Estou disposto a fazer uma proposta. — disse Sesshoumaru, simplesmente. Era incrível como todas as frases dele me pareciam arrogantes, principalmente por causa da inexpressividade típica dele.
— E qual seria? — meu irmão perguntou pausadamente.
— Dividir o controle do território do Leste. — Todos os youkais na sala fizeram algum som de surpresa diante da frase de Sesshoumaru, embora eu não entendesse o motivo para tanto espanto. Era uma proposta bastante razoável para mim.
Um kitsune que estava atrás de Shippou teve que pedir silêncio para que a reunião continuasse.
— Explique-se melhor, Senhor do Oeste. — Hideo falou, desconfiado.
— Sua motivação para querer o território do Leste é a segurança de sua — ele fez uma pausa para me procurar com os olhos e Daiki se colocou ainda mais na minha frente, como para me proteger — irmã.
Hideo mexeu-se na cadeira, desconfortável.
Sesshoumaru continuou:
— A minha motivação é menos impulsiva: não posso permitir que os tengus se tornem tão poderosos. Eu não me sentiria seguro nessa posição. Então me parece plausível que a administração do território do Leste seja dividida entre os clãs Tsubasa e Taisho.
Hideo engoliu em seco, encarando Sesshoumaru por vários segundos.
— Mas? — Hideo disse, finalmente — Duvido que essa proposta seja tão simples assim.
— E não é. — Sesshoumaru manteve os olhos fixos em Hideo — Preciso de segurança. Os tengus já montaram morada provisória em Tóquio enquanto os tai-youkais não poderão sair do Oeste por pelo menos dois anos, enquanto resolvemos nossos problemas internos. Você deve perceber que isso nos deixa em desvantagem se vocês quiserem tomar o território.
Eu não fazia ideia sobre que tipo de problemas ele estaria tendo, mas algo na forma como Shippou e Hideo reagiram fez com que eu compreendesse que talvez fosse algo em comum para todos eles.
— Eu nunca quebro minha palavra, Sesshoumaru Taisho. — Hideo afirmou após algum tempo.
— Eu não confio em você. Você não confia em mim. Pensar que eu ficaria satisfeito com apenas sua palavra é muita ingenuidade, Hideo Tsubasa.
— Então qual é essa "segurança" de que precisa? Quer que eu assine um contrato espiritual para que eu me torne seu "familiar"¹? — Ele perguntou ironicamente.
(¹Se refere à uma forma de contrato onde um youkai se torna servo de um humano/sacerdote)
— Algo assim. — disse Sesshoumaru.
O som ultrajado que Daiki soltou foi tão agressivo que me pareceu que o ar vibrava a minha volta. Aliás, todos os tengus ficaram rígidos de horror, mas apenas o meu irmão demonstrou sua raiva de forma tão aberta.
Sesshoumaru lançou um longo olhar de desafio para Daiki. Foi um olhar tão eloquente que cheguei a estremecer, percebendo que essa era a primeira vez desde que ele entrara nesse recinto que eu via algum tipo de reação expressiva vinda dele. Percebi que Daiki estava disposto a aceitar o desafio e segurei o braço dele instintivamente. Eu sabia que Sesshoumaru era poderoso demais para permitir que meu irmão corresse o risco.
Foi Hideo que fez Sesshoumaru desviar o olhar de Daiki, dizendo:
— Estou esperando que você se explique. — Meu irmão mais velho não parecia mais tão controlado ao dizer isso, era possível sentir a raiva em cada uma das palavras.
— Vamos unir os clãs através do matrimônio. — explicou Sesshoumaru.
O silêncio que se estabeleceu agora foi tão pesado que eu tive medo até de respirar. Eu literalmente pulei quando Daiki teve a audácia de quebrá-lo para dizer:
— Eu sei que sou um lindo, Sesshoumaru Taisho, mas não estou interessado em me casar com você. Desista logo da ideia. Você não faz o meu tipo. — Era algo para ser engraçado, mas foi difícil achar quando Daiki parecia estar se controlando para não socar alguém.
É um fato, o meu irmão é maluco! Eu não sei qual o protocolo de tratamento entre youkais, mas não consigo imaginar como esse tipo de comentário seria bem recebido por alguém que está há um tris de virar seu inimigo declarado.
O olhar que Sesshoumaru lançou para Daiki não era mais desafiante, era de escárnio.
Cheguei a estremecer quando ele encarou Hideo como se esperasse que meu irmão mais velho punisse Daiki por tamanha insolência.
Foi com surpresa que percebi que Hideo arregalava os olhos e dizia:
— Então era eu e não o Daiki? Eu não esperava que você tivesse esse tipo de sentimentos por mim, Senhor do Oeste.
O que esses imbecis acham que estão fazendo?! Estão cutucando a fera! E pior, ainda vou ser envolvida se Sesshoumaru resolver fazer churrasco de corvo.
Percebi pela expressão irritada de Sesshoumaru que Hideo havia bancado o tolo para desviar a ofensa de Daiki para ele próprio, e diminuir os riscos de represália — ou ao menos era isso que eu achava nessa época, antes de descobrir que Hideo na verdade era um retardado completo.
— Para selarmos esse acordo, Senhor do Norte, — disse Sesshoumaru, obviamente irritado com o que meus irmãos haviam feito — eu quero tomar sua irmã como prometida.
Se ele tivesse dito que queria uma coleção de criancinhas empalhadas à comoção teria sido menor.
Demorei todo um segundo para perceber que a irmã de Hideo a qual ele se referia, era eu. Minha expressão era obviamente tão chocada que Aika segurou meu braço com medo de que eu caísse.
— Dividimos a administração do território do Leste e sua irmã se tornará minha noiva por segurança. Estes são os termos.
Esse youkai é maluco? Senil?! Os mais de quinhentos anos de vida finalmente fizeram efeito e ele está ficando gagá? Eu?! Noiva dele?!
O.k., acho que vou vomitar.
— Sesshoumaru... — pronunciou-se Shippou — Você está indo longe demais.
Minha cabeça começou a doer de tal forma que mal pude ver qual foi a reação dos outros a tal comentário. Eu simplesmente não conseguia acreditar que Sesshoumaru, irmão de Inuyasha, estava propondo que eu me tornasse noiva dele! Mas ele nem me conhecia. Sesshoumaru havia me visto uma única vez (ao menos que ele se lembre), como poderia sequer cogitar... casar... comigo...? Ai, Deus, se eu desmaiasse aqui seria realmente vergonhoso.
A voz de Hideo conseguiu transpassar o véu de confusão:
— Você se atreve a me intimar para essa reunião e dizer que quer dividir o Leste desde que eu permita que minha irmã seja sua refém? É isso, Sesshoumaru Taisho?! — Hideo se levantou, espalmando as duas mãos furiosamente na mesa — Não pensei que você se atreveria a esse ponto!
— Não vejo isso como atrevimento, mas sim como uma saída viável. Se não aceitar minha proposta, ficarei satisfeito em resolvermos essa disputa do jeito antigo. Sinto falta das antigas guerras.
As palavras "refém" e "guerra" finalmente deram algum sentido a minha confusão pessoal. Sesshoumaru não queria me tomar como noiva porque havia me visto e simplesmente se encantado com a minha beleza... Ele queria me usar como uma forma de controlar meus irmãos... talvez até mesmo Shippou. E se ele tivesse direitos sobre mim, teria como chantageá-los para conseguir o que quisesse.
Senti outra onda de náusea, dessa vez de repugnância pelo que Sesshoumaru estava fazendo. Como ele tinha coragem de ser tão manipulador? Que tipo de criatura vil faria algo assim?
— Se você continuar com isso, Sesshoumaru, eu vou ser obrigado a declarar meu apoio aos tengus se eles quiserem entrar em guerra. — declarou Shippou, visivelmente agitado com o que Sesshoumaru havia dito.
— Se quisermos? — quase gritou Daiki — Você não vai usar a minha irmã, Taisho. Não vou permitir!
Arregalei os olhos ao perceber o fim óbvio daquela situação. Se essa cena continuasse dessa forma, os tengus e tai-youkais declarariam guerra.
De repente, fui assombrada pelas vezes em que Sesshoumaru dera a entender na conversa que ele era obviamente quem venceria uma guerra entre eles. Pensar em perder meus irmãos ou qualquer um dos tengus que eu aprendi a amar fez meu peito se apertar de tal forma que quase não consegui respirar.
Mais uma vez, uma guerra se iniciando por minha causa, porque eu sou uma criatura demente que sempre faz a coisa errada na hora errada. Se eu não tivesse sido teimosa e ido morar logo de início com os meus irmãos, as serpentes não iriam ter abertura para me atacar e hoje não seria necessário uma disputa para decidir quem seria o novo Senhor do Leste.
E agora até Shippou seria envolvido em riscos por causa da minha irresponsabilidade. Será possível que eu não sirvo para outra coisa, além de ser protegida e causar problemas e dor àqueles que estão a minha volta?
Lembrei-me de quando Shippou me contou da Grande Guerra e como eu senti aversão a minha própria existência por ter causado a quase morte de Hideo. Não quero sentir isso novamente. Não quero ser causadora de mais dor.
Ergui os olhos ao ouvir Hideo respirar fundo e começar a dizer:
— Se isso foi apenas um plano ardiloso para me fazer declarar guerra contra você, então você cons...
— Eu aceito. — as palavras saíram da minha boca sem que eu nem mesmo pudesse pensar uma segunda vez sobre o que aquilo significaria. Naquele momento eu não me importava com as consequências que viriam do fato de aceitar fazer parte de um plano tão cruel como aquele... Eu apenas não permitiria que ninguém sofresse quando eu poderia impedir isso. — Você ouviu Sesshoumaru? Eu aceito ser sua noiva. Então espero que você cumpra com a sua parte do acordo e não encoste um dedo sequer em qualquer tengu.
Todos viraram chocados para me encarar. Hideo e Daiki se pareceram tanto um com o outro nesse momento que chegou a ser curioso. Até mesmo Shippou me encarava de forma angustiada.
O único que parecia tranquilo ali era o Sesshoumaru, que abriu um sorriso que era meio malvado, meio realmente malvado. Percebi lentamente que nunca o tinha visto sorrir... E, sinceramente, antes eu passasse toda minha existência sem ver tal ato do que ter que encarar aquele sorriso vitorioso que beirava a crueldade.
Ladie:
Olá, galerinha do mal. Dessa vez vão ter que lidar comigo. 1bj. *Risada maligna*
Então, quanta review inspiradora. Só para constar, eu e a Mary (Fkake) ficamos online pelo skype por quase 12 horas diárias. Então, praticamente, a gente surtava junta toda vez que recebia uma review. Sério, era hilário.
