Capítulo XI — Geladeira da Terapia
Num momento, Sesshoumaru saía calmamente do restaurante e no outro eu estava sentada numa poltrona na sala de estar da Mansão Corvo com Nagi me mandando tomar uma bebida duas a uma: ou os tengus têm o poder de se teleportar ou meu cérebro tinha simplesmente desligado.
Minhas mãos tremiam em volta do copo de vidro.
— Como ele se atreve?! — exclamou Hideo, fazendo-me sobressaltar — Eu simplesmente não consigo acreditar que Sesshoumaru Taisho teve a audácia de sentar a minha frente, olhar nos meus olhos, e dizer que queria que eu entregasse minha própria irmã como refém para ele!
— Na verdade, ele a pediu em casamento. — disse Aika, sorrindo.
Hideo parou de andar pela sala para encarar Aika, completamente assombrado. Notei que Daiki estava sentado no braço da minha poltrona, calado. Uma de suas mãos percorria minhas costas de forma ritmada, em uma espécie de massagem para me passar conforto e tranquilidade. Normalmente eu imaginaria que ele estaria berrando, não Hideo.
— Aika, — disse Hideo lentamente, o que pareceu muito ameaçador — Eu não acredito que você esteja sorrindo em uma situação como esta.
— Eu não estou sorrindo da manipulação dele... Apenas do fato de eu não achar que ele quisesse "apenas" poder usar a Kagome para controlar você.
— E qual seria a outra opção? Ele olhou para Kagome e ficou perdidamente apaixonado? — Hideo soou irônico até a medula quando disse isso. Se eu não estivesse em meio a minha confusão pessoal, talvez tivesse me ofendido.
Mas... Ele estava certo, não estava? Era impossível que Sesshoumaru, ao dizer que me tomaria como noiva, estivesse dizendo que teríamos um "relacionamento". Simplesmente não consigo imaginar ele querendo ter qualquer tipo de envolvimento com outra criatura.
Convenhamos, ele é Sesshoumaru. O mesmo Sesshoumaru de quinhentos anos atrás. Se durante todo esse tempo ele não deixou de ser um cretino egoísta, eu também não deveria acreditar que ele tenha sido capaz de aprender a gostar romanticamente de alguém.
Sinceramente não me surpreenderia se descobrisse que ele é assexuado.
Fiquei tão nervosa nesse momento que até entornei a porcaria do conteúdo amargo desse copo.
— Manipulador desgraçado! — cuspiu Hideo, com expressão irritada.
— Ele... Ele já fez isso antes...? — perguntei hesitantemente.
— Fez o quê? — perguntou Hideo de forma aérea — Nos manipular? Ele faz isso sempre.
— Não... Quer dizer... Ele já... ficou noivo antes?
Agora todos os olhares se viraram para mim, assombrados. Eu realmente não compreendi o motivo de tamanha surpresa, até Daiki resmungar:
— E por que você está interessada em saber se ele já teve outra mulher?
Arregalei os olhos, finalmente compreendendo como eles haviam interpretado minha pergunta. Fiquei roxa de vergonha e abaixei os olhos. Que horror! Onde diabos eu me importaria com quantas "noivas" Sesshoumaru teve (embora fosse de alguma importância descobrir, caso ele tenha tido alguma, se ela ficou viva por muito tempo)? Eu só queria saber se era costume dele tomar mulheres como reféns dessa forma.
"Refém não... Noiva" veio o pensamento insano. Quase ri.
Eu não tenho idade para ser noiva de ninguém! Muito menos para casar! Ou ter filhos! Ou ter que suportar um youkai perturbado das ideias pelo resto da minha vida!
Espera... Casar? Ter filhos?!
Meu cérebro desligou de novo. Quando me toquei, Hideo parecia um pouco mais calmo e falava com Yuri e Ryo sobre quanto tempo seria levado para organizar os tengus para declarar guerra contra os tais¹.
Guerra?!
Balbuciei alguma coisa e Hideo olhou para mim.
— O que foi Kagome? — ele perguntou, franzindo o cenho, e até meio ríspido.
— Você vai declarar guerra contra Sesshoumaru! — Arregalei os olhos.
Isso era exatamente o que eu não queria!
Eu sabia que Hideo era poderoso, mas se Shippou, que quinhentos anos atrás não era capaz de fazer frente nem à Kirara, virou um Senhor de youkais... Então o que Sesshoumaru seria capaz depois de todo esse tempo, quando o poder dele já era assustador naquela época?!
— Obviamente. — disse Daiki ao meu lado, grave e com voz embargada de ódio.
— Você acha mesmo que vamos deixar aquele cão ditar as regras? Escute bem o que vou dizer Kagome, ninguém obriga a minha família a fazer algo que ela não queira. Muito menos vou deixar que você fique em risco sendo refém daquele cão. — Hideo soltou uma risadinha de desdém — Vou matá-lo antes mesmo de ele absorver o fato de que está noivo.
— Não! — exclamei. Depois disso, pisquei os olhos, confusa com a intensidade da minha negativa.
— Não tente nos proteger, Kagome. — disse Hideo — Está decidido.
— Não. — eu repeti, dessa vez de forma mais calma — Vocês não farão isso.
— Faremos.
— Não farão! — Levantei-me da poltrona — Eu não aceitei ser noiva dele apenas para proteger os tengus.
Minha capacidade de falar baboseiras sem pensar é incrível, O.k.? O.k.
— Então por que foi? — Hideo perguntou de forma condescendente.
— Eu... Eu... sou apaixonada por ele. — Velho, nem eu acreditei nisso.
— Você o quê?! — gritou Daiki. Hum... Talvez ele tenha acreditado.
Virei o rosto para Daiki, procurando nele um aliado na minha nova empreitada: convencer os meus irmãos a me entregar de bandeja para o psicopata do Sesshoumaru.
— Lembra que eu disse que eu já o conhecia? Pois é... Desde aquela época... — Pigarreei e fiz esforço para soar acreditável — ... eu sou apaixonada por ele.
— Você é uma péssima mentirosa. — sentenciou Hideo, virando-se novamente para Ryo e Yuri, como se o que eu tivesse dito não importasse nem um pouco.
— Não! — exclamei — É sério. Eu quero casar com ele. Eu juro. — Apertei as mãos, nervosa. — Ele não é como vocês imaginam. Sesshoumaru tem algo de bom, eu acho... Quer dizer... Enfim... Apesar de tudo. Ele só não sabe demonstrar muito bem. Por favor, não entre em guerra com ele.
Agora eu parecia mais convincente, acho que é porque no fundo eu acreditava no que afirmava. Se Rin conseguiu balançar o coração daquele youkai, isso já quebra qualquer teoria de que ele não tem coração, mesmo que este seja mais gelado que a Antártida. Espero estar certa, meu traseiro está em jogo. Isso soou pervertido. Ai, deixa para lá! Kagome, foco.
— Não pode ser possível... — Daiki ofegou.
— Desculpe não ter contado para vocês antes. — Nessa hora quase chorei, mas foi mais de tensão do que realmente de culpa.
Meus irmãos e Hiroko ficaram me olhando com pesar, Aika com um sorriso matreiro, e Nagi com interesse. Yuri e Ryo limitaram-se a sair da sala, como se tivessem decidido que a conversa era íntima demais para ficarem ali.
— Como você é capaz de gostar daquele traste? — questionou Daiki — Quer dizer... Aquele lá não deve nem ter mãe... Aposto que Daimaô-sama o criou da própria costela!
— Eu conheci a mãe dele. — falei, sem pensar. Então coloquei as mãos na frente da boca.
— Ela morreu há séculos. Bela senhora. — disse Nagi, divertido.
— Ah, foi? Então como você a conheceu? — Daiki perguntou, satisfeito em ter me pego mentindo para poder alegar que todo o resto era mentira também.
Fiquei calada. Ergui os olhos para Hideo, percebendo que ele me encarava com expressão pensativa. Então ele disse:
— Você já o conhecia?
Ele deu tanto ênfase nessa palavra que eu não duvidei sobre o que ele se referia. Essa era a prova de que eu precisava para ter certeza de que ele sabia que eu voltava ao passado. Empurrei o assunto para o canto da minha mente, disposta a pensar nas implicações disso mais tarde.
Acenei afirmativamente.
— Desculpe-me. — pedi.
Meu irmão suspirou.
— Você realmente quer isso? — perguntou angustiado.
— Sim. — Acenei afirmativamente para acentuar a resposta.
— Eu não acredito em você.
— Bem... Então corra o risco de me ferir. — Dei de ombros. Não sei se fazer chantagem emocional funcionaria, mas eu tinha que tentar... Não podia deixar que ele se voltasse contra Sesshoumaru. Fiquei encarando meu irmão enquanto sua expressão demonstrava seu desgosto pela situação toda. Por fim, ele respirou violentamente.
— Está bem. Se é isso que você realmente quer.
— Hideo! — exclamou Daiki — Você não pode permitir!
— Não é nossa escolha. — disse Hideo.
Sentei novamente na poltrona, aliviada. Estava feito... Espero que meu sacrifício valha a pena.
E daí que eu sou a noiva virginal que está sendo entregue como sacrifício pro demônio maligno? Havia coisas mais importantes para serem feitas, como por exemplo, conseguir sair viva de mais uma das semanas exaustivas de entregas de artigos científicos na faculdade.
Ruri, Arusa, Kenjiro e eu resolvemos nos reunir para fazermos o trabalho de Simbiose Hormonal juntos. Infelizmente, era dia de os alunos do último ano de Preparatória visitar a Universidade de Tóquio e o campus de medicina inteiro parecia um formigueiro sob ataque.
O trabalho era para o dia seguinte, o que deixa tudo ainda mais desesperador, sendo assim, tive que tomar medidas drásticas. Eram quatro da tarde, horário em que a maioria dos tengus trabalhava (sim, eles fingiam ter vidas humanas normais), então era razoavelmente seguro levar meus amigos para lá.
Assim foi feito, liguei para o Raiden e pedi para ele nos buscar na faculdade. Meus amigos pareceram meio constrangidos de entrar no sedã caro que Hideo havia designado para mim (leia-se: me fez usar sem se importar com a minha opinião sobre como era exagerado), mas eu fiquei brincando com eles todo o caminho até relaxarem. Relaxamento muito superficial, já que logo chegamos à Mansão Corvo e eles ficaram tensos novamente.
— Nossa! — exclamou Kenjiro, logo quando entramos no hall — Esse lugar tem quantos cômodos?
— Não faço ideia. — respondi, constrangida — É que meus irmãos têm mania de grandeza e moram muitas pessoas aqui.
— Um exército inteiro? — Arusa perguntou, surpresa.
Quase respondi que os tengus que viviam ali valiam por um exército em força, não em número, mas me limitei a sorrir amarelo.
Hideo escolheu essa hora para aparecer com Aika ao seu lado, que segurava algumas folhas enquanto lia em voz alta para o meu irmão. Vendo assim, eles bem que pareciam um executivo bem-sucedido e sua fiel assistente. Aliás, eles faziam um casal lindo, mas isso é comentário à parte.
Meu irmão parou ao nos perceber e Aika fez o mesmo.
— Oi, Kagome. — disse Aika.
— Oi, Aika. — Sorri cordialmente para ela, aliviada por ela não ficar apenas parada, nos olhando, como Hideo estava fazendo — Esses são meus amigos, viemos fazer um trabalho. Espero que você não se importe Hideo. — falei nervosa.
Ele piscou algumas vezes e por fim deu um sorriso educado.
— Lógico que não, essa é sua casa. — O sorriso se tornou mais caloroso ao dizer isso — Fiquem à vontade e é bom aproveitarem enquanto a casa está silenciosa. Assim que Daiki e Yuri chegarem, a paz vai ser produto raro. — E começou a andar, retomando o seu caminho.
Antes de segui-lo, Aika ainda disse:
— Espero que fiquem para jantar. Hoje é o dia de a Tomoyo dar conta da cozinha. Até mais.
E se foram.
Sorri para os meus amigos, que finalmente puderam respirar quando meu irmão saiu de vista (embora pela expressão deliciada de Arusa a falta de ar dela tenha sido causada por outro motivo que não o nervosismo), e os convidei para irmos ao meu quarto, onde sentamos no chão para começar o trabalho.
Imediatamente, livros, cadernos, apostilas e notebooks se espalharam em volta de nós e todos começaram a pesquisar e discutir sobre o assunto do trabalho.
Ainda assim, eu ouvia as vozes dos meus amigos ao longe, incapaz de realmente prestar atenção. Era estranho como aparentemente tudo o que eu fazia parecia estar sendo feito em segundo plano pelo meu cérebro, sendo mais importante toda aquela questão de estar noiva de Sesshoumaru.
Estranho pensar nisso e principalmente nas consequências dessa relação. Eu não compreendia muito bem o que era esperado de mim como "noiva" dele, muito menos quais eram as pretensões de sê-lo.
Eu duvido muito que Sesshoumaru pretenda realmente se casar comigo. Pensando cuidadosamente depois, eu percebi que acreditava que Sesshoumaru era uma criatura orgulhosa demais para se sujarcasando-se com uma hanyou. Isso só me faz acreditar que essa história de noivado não passava de algo que ele pudesse usar contra os meus irmãos e que nem mesmo poderia ser levado por "aparências".
Não vejo por que motivos Sesshoumaru fingiria ser um noivo devotado. Eu teria mais motivos que ele, uma vez que o meu principal argumento para conseguir que meus irmãos aceitassem essa situação era gostar de Sesshoumaru.
Humf. Até parece.
Eu fico pensando... Naquela época, três anos atrás para mim e quinhentos anos para ele... Quando eu o vi pela primeira vez e o temi, e quando ele me viu pela primeira vez e me odiou... Nenhum de nós sequer cogitaria que, um dia, estaríamos "noivos". Chega a ser absurdo pensar nisso. E triste. Realmente triste.
Eu ser noiva de Sesshoumaru, quando amei tanto o irmão dele. É como se o destino estivesse rindo de mim. Sapateando no meu espírito.
Bem... Não importa realmente, importa? Eu conseguiria impedir o mal maior ao aceitar ser noiva dele. Conseguiria paz, e eu sinceramente quero isso. Ultimamente minha vida tem sido agitada demais para eu desejar qualquer outra coisa.
No fundo, acho que não é tão ruim a situação em que eu estou. Eu mesma não tenho nenhuma pretensão de "encontrar o amor da minha vida"... Eu havia amado Inuyasha e ele já não existia. Se o destino queria assim, então que assim fosse. Eu ainda me recordo como foi amar Inuyasha. Como tudo parecia girar em volta da existência dele e como eu sempre estava fragilizada emocionalmente em razão disso. Por ele, valeria a pena viver com isso, sem ele... Bem, paz de espírito não é um objetivo tão difícil assim de se conseguir, espero.
Fui tirada de meus devaneios ao ouvir Ruri dizer:
— Eu me interesso bastante por noivados, principalmente quando se fala de casamentos. Eu vi uns bens legais envolvendo extrato de noivas de briófitas.
Ouvi-la dizer isso fez meu coração saltar.
— Do que você está falando, Ruri?! — perguntei de olhos arregalados.
— De tratamentos. — ela respondeu tensa. Acho que assustei a pobre com a intensidade da minha pergunta.
— Estava?!
— Sim... Eu... Eu estava comentando sobre o uso de coifas de briófitas no tratamento contra o resfriado.
Encarei-a, surpresa. Eu estava tão impressionada com essa situação de ser noiva do Sesshoumaru que já estava até confundindo Resfriado com Noivado, Tratamento com Casamento e Coifa com Noiva. Frutaquecaiu.
Passei a mão no rosto, exasperada.
— Kagome, deixa de se distrair com a fuga da karpa e se concentra no trabalho. — ralhou Kenjiro.
Kenjiro estava certo. Eu tinha que fazer o trabalho e pensar em Sesshoumaru não iria ajudar. Hora de ouvir a explicação de Kenjiro sobre metabolismo.
Depois de quinze minutos com Kenjiro enrolando na explicação, sem falar coisa com coisa, Arusa retrucou:
— Kenjiro... Eu não estou entendendo nada, juro.
Estreitei os olhos, resmungando:
— Pensei que você tinha dito que era "excepcional" em estudo metabólico.
— É... Bom... — Ele se voltou para mim, encabulado — Foi meio que um exagero.
— Tipo uma mentira? — perguntei.
— Não. Tipo um exagero.
— É a mesma coisa.
— Não, não é. — Ele sorriu — Prometo que vou ser excepcional até o fim da noite.
Revirei os olhos.
— Muito bem, vou salvar a pátria. — Levantei-me, orgulhosa — Me esperem aqui.
Quinze minutos depois eu voltei com uma caixa de cereais açucaradas e um gênio da medicina a tiracolo. Não, não era o Hideo, ele estava ocupado. Tratava-se do outro gênio: Nagi.
Quando entrei no quarto, todos os olhares se arregalaram ao ver o tengu de um metro e noventa, olhos verdes e cabelo negros desalinhados, vestindo um jaleco branco (o qual se trata de uma espécie de segunda pele, afinal sempre está vestido com este bendito jaleco, impressionante), fechando a porta do quarto atrás de mim.
— Gente, esse é o Nagi. Ele vai nos ajudar a estudar. — Sentei em meu lugar de antes, abrindo a caixa de cereais, enquanto Nagi sentava-se calmamente na minha cama, observando cinicamente aquele bando de olhares desejosos em sua direção.
Kenjiro comentou:
— Kagome, o que tenho que fazer para ser adotado pela sua família? — Eu super compreendo o choque deles. E olha que eles só haviam conhecido Daiki, Hideo, Raiden e Nagi. Ainda faltavam outros machos lindos na casa para eles verem.
Decidi ignorar a pergunta e sorri para Nagi.
— Sente-se no chão... Como você vai nos ajudar sentado aí? — falei, apontando o local vago entre Kenjiro e eu.
— Ajudar? Pensei que você tinha dito que estava precisando de mim para um encontro em grupo. — Engraçado que se Daiki tivesse dito isso, soaria incrivelmente pervertido. Como era Nagi quem dizia, parecia apenas... cínico.
— Se fosse um encontro em grupo eu teria trazido cereais de chocolate. Agora senta logo aí.
Ele deu um daqueles típicos sorrisos tortos e finalmente se sentou.
Depois de cinco horas, eu estava mentalmente exausta, mas o artigo estava praticamente finalizado. Aika veio ao meu quarto nos chamar para jantar e resolvemos dar uma pausa pela comida. Nagi levantou-se e me ajudou a levantar, o que causou um olhar bastante malicioso de Kenjiro e Arusa. Revirei os olhos mais uma vez. Amigos alcoviteiros... Ninguém merecia.
Entramos na cozinha e vimos Tomoyo correndo de um lado para o outro brigando com as panelas. O calor havia feito seu cabelo ondulado cachear. Percebi que ela usava um chapéu de mestre-cuca esvoaçante e um avental com os dizeres "BEIJE O COZINHEIRO", que provavelmente era de Daiki.
— Desculpa. — falei, fazendo com que ela me olhasse — Não sabia que o Top Chef Japan ia ser gravado aqui hoje à noite.
Ela sorriu para mim, com os olhos cinzentos brilhando, divertidos.
— Vai ser de arrasar. Por que vocês não esperam na sala de jantar com os meninos? O jantar vai ficar pronto em meia hora.
Acenei afirmativamente e levei meus amigos para a sala de jantar. Quer dizer... Eu acho que aquela era a sala de jantar, mas não tenho certeza. Talvez tenha errado de porta e tenha entrado sem querer no porão da Máfia Italiana.
Nagi acabava de se sentar à mesa, onde estavam Daiki, Yuri e Ryo. Os últimos dois organizavam em cima da mesa grandes somas de dinheiro, enquanto meu irmão observava aquela movimentação fumando um charuto, com olhar astuto.
Não acho que Aika vai gostar de saber que ele estava fumando na sala de jantar.
— Vocês assaltaram um banco? — perguntei.
— Não. — Yuri respondeu — Já que esta noite Tomoyo está tentando nos servir uma refeição civilizada, decidimos que seria necessário um passatempo civilizado.
— Lavagem de dinheiro?
— Pôquer. — Daiki respondeu sorrindo jovialmente, com o charuto preso entre os dedos.
— Acho que Bridge seria um jogo mais civilizado. — afirmei.
Ryo pareceu em dúvida.
— Bridge é coisa de gente velha, patroa.
Com essa, tive de sorrir. "Velho" era um termo meio relativo quando a maioria deles contava a idade em décadas e séculos. Fazia tempo que eu suspeitava que todos eles tinham mais de cem anos de idade. Hiroko mesmo me confidenciou que Nagi tinha quase a mesma idade que Hideo, apesar da afirmação otimista na carteira de motorista dele que afirmava que ele tinha vinte e oito anos.
— Vocês vão jogar? — Daiki perguntou, sinalizando as cadeiras vazias — Vamos, pessoas, não se acanhem.
Sorri para os meus amigos e sinalizei para eles sentarem. Ruri e Arusa pareciam não acreditar no fato de estarem na mesa com tantos homens bonitos. Eu entendo as pobres. Afinal já haviam ficado tão extasiadas ao conhecer os outros, e agora ver que havia mais, como Yuri e Ryo, quais possuíam o mesmo porte físico, ou seja, os de rato de academias combinado com jogadores de basquete.
Mas tinham suas diferenças. Ryo tinha boa parte do cabelo preso em um rabo-de-cavalo, apesar de alguns fios teimarem e ficar lhe cobrindo um pouco dos olhos castanho-achocolatados, e o queixo dele era pronunciado, o que dava a ele uma expressão meio equina, que, por incrível que pareça, era bem atraente.
O Yuri, no entanto, possuía o cabelo realmente longo e o rosto dele era eventualmente coberto por uma barba rala (como hoje), pois sempre sentia preguiça de se barbear, ele também tinha tatuagem de uma karpa no braço, mas meus amigos não puderam vê-la por causa da camisa de manga comprida que ele usava.
— Afinal, desde quando se joga alguma coisa nessa casa? — perguntei-me em voz alta.
Nossa última tentativa tinha envolvido uma partida de Banco Imobiliário com Hideo. Competir com um Senhor numa disputa por posses e controle total é meio inútil, haja vista que Hideo conseguiu me falir, pois adquiriu todos os terrenos e colocou no mínimo seis hotéis ou casas em cada, obrigando-me a fazer hipotecas e terminar o jogo toda às promissórias.
Daiki não conta nesse jogo, pois assim que faliu, foi preso, e depois de trinta minutos apenas observando sua única irmã vender todos seus imóveis para seu irmão mais velho... Bem, Daiki resolveu que era hora de se aliar aos presos, fazer rebelião, fugir da prisão e roubar um banqueiro, resultando nesse louco apanhando de Hideo por ficar tentando roubar o dinheiro do banco.
Mas esse fato não vinha ao caso nesse momento. O mais importante era que jogos nessa casa nunca terminavam bem. Todos odeiam perder, por isso sempre termina em uma discussão completamente aleatória àquilo que realmente interessa. Ou então em Daiki correndo pela casa sendo perseguido por Hideo, Hiroko... ou qualquer outro tengu que aqui viva.
— Agora descobri como é que vocês acabam com o salário de vocês tão rápido. — disse Hideo da porta. Aika encarava o charuto de Daiki com ódio, até que meu irmão se viu obrigado a apagá-lo com um sorriso embaraçado.
Hiroko chegou logo depois e se juntou às lamentações de Aika sobre gente "sem consideração social" que fumava em locais destinados à alimentação. Nesse meio tempo Yuri havia se aproximado de Ruri para tentar ensiná-la a jogar pôquer e Arusa não parava de encarar Daiki, ruborizada.
Hiroko percebeu o interesse da minha amiga e deu um tapa na testa do Daiki.
— Você pegou a menina, seu pedófilo nojento?!
Arusa ficou tão pálida ao ouvir isso que quase reclamei da grosseria de Hiroko, mas percebi a tempo que a intenção da ruiva não era humilhar a minha amiga, mas sim reclamar da atitude estúpida de Daiki (eu também achava isso) de ficar com uma garota que mal tem um quarto da idade dele.
Hiroko e Daiki começaram mais uma de suas discussões clássicas que só finalizou quando Nagi ameaçou a integridade física do idiota que atende como meu irmão, caso ele continuasse provocando a irmã dele.
Tomoyo finalmente entrou na sala com um suflê, berrando para todo mundo fazer silêncio para o prato não murchar (sendo que quem fazia mais barulho era ela) e colocou na mesa, espalhando as fichas do jogo, o que gerou muitos comentários de indignação. Ela deu de ombros e foi pegar os outros pratos.
Os tengus que faltavam, como Sajia e Raiden, chegaram atraídos pelo cheiro da comida.
E essa foi uma noite extremamente divertida, a qual me fez sentir feliz por ser uma Tsubasa. Os problemas poderiam ficar para depois.
Entrei na cozinha para pegar refrigerante e encontro a seguinte conversa na geladeira:
"Quem concorda que Sesshoumaru tem de ser obliterado dessa terra grita "piolho"! By Daiki"
"PIOLHO! By Hideo"
"Sesshoumaru é bonito demais para ser obliterado. By Aika"
(Vamos conversar seriamente sobre isso depois. By Hideo)
"Eu voto na Kagome fazer uma cirurgia de troca de sexo. Eu cansei de ter irmã, agora quero o irmão que eu nunca tive. By Daiki"
"Nagi conhece ótimos cirurgiões. Vamos pedir os telefones de contato. By Hideo"
"09087127391 — Dr. Kishiro
08087635121 — Dr. Matahiro
09087526355 — Dra. Hitome
By Nagi"
"Obrigado. Vou efetivar o seu aumento salarial, Nagi. By Hideo"
"Cara... Finalmente vou poder fazer programas de macho com a minha irmã! By Daiki"
"Assistir Sex and the City não é programa de macho, Daiki. By Hiroko"
"Tem 'sexo' no nome! Como não é de macho?! By Daiki"
"Não adianta espernear, Daiki, a gente sabe que você joga no mesmo time que a gente. By Sajia"
"Sajia, eu, você, minha cama. Quero ver você se atrever a dizer isso depois de passar uma noite comigo. By Dailicia"
(Dailicia? Oo By Ryo)
(Abreviação de Daiki-delicia. By O Próprio)
(Tanta propaganda... Já provei da fruta, não é lá essas coisas. By Yuri)
(Você não me ajuda. By Daiki)
(Ajudar em que sentido? Se meu corpo sexy não foi suficiente para te deixar excitado, nem ajuda divina te salva, meu bem. By Yuri)
"Gente, vocês tem ideia de como as criadas ficam escandalizadas com essas conversas pervertidas na geladeira? By Hiroko"
(Você que sente inveja do nosso amor. By Daiki)
(Sim, arranje alguém para você! By Yuri)
"Eu estou aqui, Hiroko. By Aika"
(Ailoviu. By Hiroko)
(Também vamos conversar seriamente sobre isso, Aika. By Hideo)
(Aumente meu salário também, aí a gente conversa. By Aika)
"Marquei com dois cirurgiões. Quem avisa a novidade para a Kagome? By Hideo"
(Aika, o patrão tá fugindo da conversa sobre aumento. By Ryo)
(Quantas vezes eu disse que ia deixar gente sem salário por um mês toda vez que se metessem em conversa que não lhes cabem? By Hideo)
"Eu aviso para a Kagome. By Daiki"
Em um impulso, peguei um papel adesivo, caneta e escrevi:
"Nada de obliterar Sesshoumaru. Nada de eu virar homem. E quanto a você, Hideo, faz essa pose de nervosinho, mas no fundo é que nem o Daiki! By Kagome-muito-irritada."
Respirei fundo e saí da cozinha. Quando me acalmei, coisa que aconteceu apenas depois de um banho demorado, voltei para a cozinha. Estava com fome. E havia mais um recado na geladeira, que me fez rir e esquecer pelo resto da tarde os meus problemas e lembrar que tinha mais coisas para fazer além de ficar me lastimando. O recado era do Nagi:
"Ainda quer ajuda no trabalho de Coagulação do Sangue? Podemos pegar um espécime vivo. Se habilita Daiki? By Nagi."
"Amo ajudar minha irmã... Só que não. By Daiki"
Segui para sala rindo daquilo pelos próximos dez minutos, enquanto pensava nas possíveis respostas de Nagi. Voltei apenas para responder que queria ajuda.
— AH! — abaixei, colocando a mão no rosto. Quando a coragem voltou para mim, consegui afastar as mãos, podendo ver o pé de Raiden a alguns centímetros de me acertar. Ele suspirou e abaixou a perna, passando a mão pelo cabelo, pensativo.
— Ficamos por aqui hoje.
— Nem treinamos muito. — Cale a boca, Kagome, e fique feliz com a sua sorte.
Raiden cruzou braço sobre o peito e me analisou, em seguida soltou um riso fraco, quase despercebido. Balançou a cabeça e me questionou:
— Você realmente não percebeu que não está em condições de lutar comigo hoje?
Certo, eu sei que estou meio distante esses dias e tudo mais, mas eu estava me esforçando para me manter atenta aos movimentos de meu professor. Contudo, apesar dos meus olhos acompanharem perfeitamente os movimentos, meu corpo não respondia na velocidade que precisava ou com a força necessária.
— Realmente, você não percebeu. — Ele suspirou e repousou a mão sobre meu ombro. — Acabamos de descobrir o dia do mês que você é totalmente humana... Lua minguante. — ele apontou para o céu com o dedo indicador. — Treinar comigo nessas condições pode provocar muito mais que ferimentos em seu corpo. Aproveite a noite para dar atenção ao seu irmão pegajoso, ele já vem aqui para atrapalhar nosso treino mesmo.
— Daiki?
— Quem mais é pegajoso?
Ri, mas ainda me senti um pouco confusa com a informação. Raiden já havia ido embora quando me lembrei de que Inuyasha possuía dias que era totalmente humano, também.
Balancei a cabeça, sorrindo, e segui para o irmão pegajoso que estava me encarando com uma expressão confusa, possivelmente se indagando sobre o que havia acontecido com Raiden. Quando notei seu sorriso, bati levemente em seu ombro e com uma expressão condescendente, disse:
— Não, ele não desistiu e eu não o dispensei. Apenas sou humana hoje.
— Hoje é seu dia de humana? Não basta ter TPM, tem dia de humana também? Onde esse mundo vai parar?! — Daiki ergueu as mãos, dramatizando. Então sorriu e olhou para mim. — Ah! Seus olhos estão castanhos, mesmo! 'Tá gatinha.
Anotei mentalmente que deveria ir olhar um espelho o quanto antes. É estranho pensar que durante toda a minha vida meus olhos mudavam de cor por um dia inteiro e eu nunca tenha notado.
Suspirei.
— Bom... Vou sair com a minha mãe para um shopping center. Vou ligar para ela.
Daiki se animou.
— Vou junto, estou com o cartão do Hideo.
— Cartão do Hideo?
Ele assentiu com a cabeça, e nós dois trocamos sorrisos cúmplices. Enquanto ele ligava para minha mãe para fazer o convite, eu fui tomar um banho. Uma hora depois estávamos no shopping center com minha mãe e o Souta... Daiki achou que seria legal comprar um videogame para o meu irmão caçula.
O argumento usado foi:
— Seu irmão, meu irmão. Venha Souta, vamos comprar mais algumas coisas para você.
Foi incrivelmente bom, ter uma noite sendo apenas Kagome, uma jovem adulta que não precisa se preocupar com youkais, treinos, guerras e agora... Um noivo tai-youkai. Apenas me preocupei com o que Hideo iria dizer quando visse a fatura de seu cartão. Quando chegamos em casa, Daiki e eu ficamos treinando desculpas e biquinhos que eu poderia usar contra Hideo no "dia D" (vulgo dia "D"a fatura).
Alguém bateu na porta do meu quarto. Era manhã e por sorte hoje não tinha aula, o que me dava o direito de ficar até bem mais tarde na minha cama usando um baby doll azul-claro de seda que Aika havia me dado.
— Kagome... — Disse Daiki — Deixe-me entrar, trouxe algo para você. — Alguns meses antes eu teria ido vestir alguma coisa antes de mandá-lo entrar, mas ele já havia me visto com roupas diminutas tantas vezes que agora nem fazia tanta diferença assim.
— Entre.
Meu irmão abriu a porta e colocou o rosto sorridente para me olhar, antes de finalmente mostrar o que trazia nos braços.
Soltei um grito.
— Buyô! — berrei, correndo na direção do meu irmão para pegar meu gato. — Own, seu lindo, estava sentindo a sua falta.
— Fui à casa de sua mãe e pedi para trazê-lo. — ele disse, acariciando a cabeça do gato, que começou a ronronar — Achei que ia animar você.
Ergui os olhos para meu irmão.
— Não estou desanimada. — disse, forçando um sorriso.
Ele me olhou, triste, e então se inclinou para beijar minha testa.
— Eu te amo baixinha. Agora aproveite seu gato. — Ele piscou um olho e saiu do meu quarto, deixando-me plantada com Buyô nos braços.
Ok, isso foi estranho. Meu comportamento ultimamente deve estar sendo patético, para Daiki ficar assim tão preocupado.
Coloquei meu gato na cama, cruzando os braços. Ele se espreguiçou todo, cravando as unhas no edredom.
— Eu não tenho culpa de parecer desanimada. — resmunguei, olhando enquanto ele se deitava em cima do meu travesseiro — Eu não sei o que fazer, apenas isso. Você não teria alguma sugestão de como lidar com essa situação com Sesshoumaru, teria?
Ele me lançou um olhar languido.
— Não, não posso me esconder embaixo da minha cama como você faz. Ele não iria acreditar. — respirei profundamente, sentando-me pesadamente na cama. Talvez a melhor coisa a se fazer nessa situação fosse deixar acontecer, ser guiada pela corrente.
Olhei novamente para o meu gato, sorrindo.
Vou só levar a vida e esquecer tudo isso.
Eu resolvi, a partir desse momento, não me preocupar com o quanto o fato de eu ser "noiva" vai afetar minha vida. Há coisas mais importantes no momento como, por exemplo, aprender a ser uma tengu de respeito.
Notas:
Tais¹ se refere à tai-youkais. Inutaisho, primeiro Senhor do Oeste, era um inu tai-youkai, que seria um "demônio cão nobre", expressão que foi simplificada para tai-youkai (referência ao episódio 05 do anime InuYasha). Na mitologia xintoísta, youkais cães são considerados "nobres servos de divindades". Nessa fanfiction, tai passou a ser o termo para se referir ao clã, e não apenas a youkais isolados.
Ladie:
Nossa, gente. oO As reviews desse capítulo foram... sei lá... FO-DÁS-TI-CAS. Sério, foram tão perfeitas, que a gente SURTOU. Na boa... Nos empolgamos tanto que surtamos a escrever e já montamos roteiros para uns bons capítulos!
Velho, velho, VELHO! CONTINUEM NOS MANDANDO REVIEWS ASSIM E EM POUCOS MESES ESSA FIC TÁ TERMINADA. /fato
Ah, acho que agora vocês entenderam algumas coisas da história. A gente sabe muito bem que Sesshoumaru demorou muito para aparecer, mas acredito que vocês finalmente compreenderam o motivo: para o enredo dar certo, tínhamos que fazer com que Kagome estivesse afeiçoada aos irmãos, e que eles se sentissem da mesma forma. Tínhamos que tranformá-los em uma família, antes de Sesshoumaru aparecer e usar isso para transformar ela na noiva dele. Ou seja... TUDO TEM MOTIVO NA HISTÓRIA. U.U
Ah, outra coisa... Quem aqui já deu uma olhada na capa da fic (imagem no canto superior oeste)? :porn:
E só para constar, capítulo que vem as coisas esquentam.
*muahahahahahahaahahaha*
