Capítulo XII — Missing Scene¹

(E eu, Nagi, tomo as rédeas dessa narrativa por um capítulo)

Em algum momento nos dois anos seguintes ao capítulo anterior

Kagome estava bêbada. Ela é sempre retardada e desajeitada, mas bêbada estava de parabéns. Nunca a tinha visto rir tanto e falar tanta bobagem. E estava bonita. Mas Kagome era sempre bonita, apenas achei interessante como estava especialmente atraente com as bochechas rosadas e o riso fácil ainda mais fácil.

Se ela não fosse a ironia em forma de hanyou, o fato de ela ser bonita perderia completamente o atrativo cinco minutos depois de eu conhecê-la. Aliás, esse é o comum para mim. As outras pessoas me entediam facilmente depois de apenas alguns minutos, de tão fáceis de ser compreendidas que são.

Isso não aconteceu com Kagome. E não, isso não é por que ela é difícil de entender. Nem perto disso — ela é fácil de entender, de provocar e de manipular —, mas porque na primeira vez que a vi ela estava desmaiada e com uma dezena de sérios hematomas espalhados pelo corpo. A ocasião importante era o ataque muito estranho, diga-se de passagem, das serpentes.

Eu cuidei de seus ferimentos, como sempre fiz com alguém que necessitou da minha ajuda (quer dizer, como quase sempre fiz), e o fato de ela ser bonita em nada interferiu meu discernimento ou a forma como lidava com seu quadro clínico. Ela ficou desmaiada por duas horas, razão pela qual foi impossível me entediar dela em poucos minutos: não se entedia daquilo que não lhe é apresentado.

Depois disso, meu interesse se baseou apenas no fato de todos naquela casa acharem que ela era especial e se encantarem tão facilmente por ela. Até minha irmã parecia simplesmente fascinada com Kagome. A bonita, doce e gentil hanyou. Ou ao menos era o que eu imaginava. A doce Kagome se tornou uma fábrica de comentários divertidos. Para mim, era realmente fascinante ficar perto dela, mas não pelos mesmos motivos que os outros. Tenho certeza que eles não se interessavam tanto assim na parcela ácida da personalidade dela.

Apesar de nesse momento ela não passar de uma bêbada língua de trapo. Uma bêbada linda e risonha que simplesmente não percebe que a saia subiu o suficiente para eu ver muito — mas muito mesmo — de suas pernas.

Imagino como Hideo e Daiki surtariam se soubessem que tipo de pensamentos eu tenho envolvendo as pernas da irmã deles. Pensar nisso fez um sorriso torto brotar em meu rosto e tomei um gole de saquê para disfarçar a reação.

— Você se importa tanto com o que seus irmãos acham Kagome! — gritou Ryo — Seja feliiiiz!

— FELIZ! — berrou Sajia, que foi a primeira a ficar bêbada naquela sala. Ela sempre era. — Espera quem é feliz? Conheço essa pessoa? É uma pessoa?

— Feliz é um estado de espírito. — tentou explicar Yuri. Alguém o avise que explicar essas coisas para bêbados não funciona? Quero evitar a fadiga de falar por enquanto.

— Estado? Espírito? Yuri me dê esse saquê, você bebeu demais. — E assim Sajia pegou o saquê dele e tomou todo o conteúdo, caindo estirada no chão em seguida e começando um diálogo com o tapete sobre como ele havia sido simpático em amparar sua queda.

Rolei os olhos e voltei minha atenção para Kagome, que apenas balançou a cabeça rindo da situação da bêbada atirada no chão.

— Não entendi nada. — disse Kagome, rindo.

— Pegue machos, mulher! — disse Yuri — Eu estou aqui esperando por amor! Me mame!

— Você quis dizer "me ame"? — questionou Ryo, franzindo a testa.

— Não, me mame, mesmo. — Yuri piscou para Kagome, numa expressão engraçada que deveria ser sedutora, mas nem de longe foi possível.

— Vocês são todos doidos. — Kagome reconheceu, rindo. Lentamente, apontou para cada um enquanto repetia aquela palavra dando cada vez mais ênfase — Doido. Doido. Doido. Doido! DOIDO!

Ergui uma sobrancelha.

— Ora, eu também? — perguntei.

— Você é o pior de todos. — ela disse, rindo (perceba que a única ação relevante dela até agora foi rir).

— Você tem um namorado? — questionou Yuri, aparentemente usando cada grama de concentração para parecer sério, mesmo estando usando a cabeça de Sajia para apoiar a garrafa de saquê.

— Não. — disse Kagome, tentando se manter séria também, não conseguiu por muito tempo, teve uma crise de riso que se perpetuou, parando apenas alguns minutos depois. Fiquei esperando ela continuar a frase — Sabe... Não tenho lá muita certeza... Eu tenho um noivo, que não parece noivo, mas ele alegou ser meu noivo, mas não age como noivo, tipo, ele nunca apareceu, mandou flores, quem sabe um postal? Será que ele morreu? Será que esqueceu? Será que...

— Será que você pode esquecer esse cachorro? — perguntei, estalando a língua, um tanto irritado, felizmente ninguém ali estava são o suficiente para notar isso.

— Isso, Kagome, esqueça o cachorro... — resmungou Ryo.

— Au-au. — Não sei Kagome queria ser sexy, gozadora ou sei lá o quê. Apenas sei que aquilo ficou muito estranho, ainda mais estranho foi todos rirem. Estou cercado de idiotas.

— Você já o beijou? — Yuri apontou o dedo indicador para Kagome, mas esqueceu de que ainda estava com a xícara de saquê em mãos e entornou seu conteúdo sobre Sajia que se levantou. — Eita.

— 'TÁ CHOVENDO!

Ela tentou correr, mas logo tropeçou no tapete e caiu sobre Ryo que ergueu as mãos para os céus gritando um "Obrigado, deuses". Voltei minha atenção para Kagome, que ainda não havia respondido, mas estava ruborizada.

— Do que estão falando? — questionou Sajia sentando ao lado de Ryo e lhe roubando a xícara de saquê.

— Se Kagome já beijou o noivo.

— Mudaremos de assunto. — resmungou Kagome.

— BEIJOU! — berrou Sajia.

— Quem beijou? — resmungou Tomoyo deitada no colo de Yuri, com voz enrolada e sonolenta.

— A Kagome beijou. — respondi interessado no desconforto da hanyou.

— QUEM? — perguntou Sajia, aparentemente assombrada — ELA ME BEIJOU?

— Não, mulher, o cachorro. — explicou Ryo.

— E O DAIKI SABE DISSO?!

— Eu não beijei ninguém! — exclamou Kagome.

— COMO ASSIM NÃO BEIJOU? TODA MULHER PRECISA TER BEIJADO PARA SABER O QUE É A VIDA! — Se eu não estivesse tão interessado na resposta de Kagome, teria reclamado daquela gritaria toda da Sajia.

— Vamos fazer uma campanha: "Kagome, beije! GO!" — disse Yuri. — Sou primeiro da lista, venha cá, sente meus lábios macios e cálidos.

— Você tem namorada. — Kagome disse séria.

— Ela não é ciumenta. — disse Yuri, dando de ombros.

— Vamos fazer cartazes! — afirmou Ryo. — "Kagome, beije Ryo, ele sabe como esquentar uma mulher".

— Vou fazer panfletos sobre como sou um tengu beijável. Farei um abaixo-assinado se for preciso.

— VAMOS ARRANJAR UM CANDIDATO DECENTE! — gritou Sajia, dessa vez não briguei com ela, pois havia tido um lapso de razão em gritar aquilo.

— EI! — os dois esbravejaram.

— Ah, pelo amor de Deus, quero dormir. — resmungou Tomoyo.

— Eu não vou beijar ninguém. — Kagome afirmou.

— Ah, vai beijar, sim. — disse Yuri — Se está com medo de não saber beijar, eu te ensino. — Ele se levantou para tentar ir à direção dela.

— Vai mesmo encarar o Hideo? — questionei fazendo Yuri voltar ao seu lugar, Ryo coçou o queixo ponderando sobre o que eu havia dito.

— De fato... Encarar o patrão me fez mudar de ideia quanto a beijar a Kagome. — ele disse.

— Eita. Esqueci isso! — Yuri fechou a mão no queixo, como se estivesse pensando (o que eu duvidava muito) — E quem iria ser doido o suficiente para pegar a Kagome e enfrentar a ira dos irmãos dela?

Três pares de olhares se viraram para mim.

Olha só, então eu era o doido que enfrentaria a ira dos irmãos? Eu preferia o termo "interessado nas reações violentas do Senhor do Norte e de seu Executor". E sim, eu estava interessado nessa empreitada.

— Kagome... — declarou Yuri, esperançoso, enquanto ainda me encarava — Você vai beijar o Nagi.

— Como é que é?!

— Beije ele, Kagome!

— Não vou beijar, seu bêbado.

— VOCÊ TAMBÉM ESTÁ BÊBADA!

— Eu bebi, mas não me lembro de ter fumado nada.

Essa doeu.

— Deixem a Kagome fazer o que quiser. — falei, cruzando os braços — Eu sou exigente demais para me contentar com o beijo de uma garota inexperiente.

— Mas o quê? — Ela me olhava, boquiaberta — Garota inexperiente?!

— E não é?

— Eu sei beijar.

— Claro que sabe.

— É sério!

— Então o beije! — exclamou Yuri, apontando com as duas mãos na vertical para mim, como fazem um daqueles auxiliares de pousos de aeronaves, sinalizando a área para aterrissagem.

— Pois vou beijar!

— Beije logo, infeliz!

— BEIJA! BEIJA! BEIJA!

Ela tomou de uma vez o resto do saquê em sua xícara e se levantou, andando até parar do meu lado e se ajoelhando na minha frente.

— Faça rápido. — comentei aparentemente desinteressado.

Ela estreitou os olhos, e colocou a mão no meu rosto para me puxar em sua direção. Imediatamente me afastei um pouco dela, fazendo com que Kagome me encarasse completamente confusa.

— Vamos fazer do meu jeito, então.

Passei um braço pela cintura dela, forçando-a a sentar de lado entre as minhas pernas. Aproveitei para puxá-la ainda mais para perto, de tal forma que ela teve que colocar as mãos no meu peito para se equilibrar. Quase sorri quando ela ergueu o rosto para me encarar, surpresa.

Eu sempre achei a boca dela bonita. Tinha um formato harmonioso e atraente, com o lábio inferior ligeiramente mais carnudo que o superior. E o bom da posição em que estávamos é que eu não tive que me aproximar muito para alcançá-los.

Eram ainda mais macios do que imaginei, se é que era possível. Isso fez com que eu me afastasse um pouco apenas para atestar tal fato mais uma vez.

Nossa.

Ela me encarou com aqueles olhos azuis enormes, aparentemente também surpresa com a sensação daquele primeiro beijo rápido.

Lancei um sorrisinho de canto para ela e me inclinei novamente em sua direção, prendendo levemente o lábio inferior dela entre os meus. Ela pareceu hesitante no começo, mas logo entreabriu a boca e permitiu que o beijo se aprofundasse, emitindo um suspiro de entrega.

Aquele suspiro mudou completamente a forma clínica como eu estava encarando o beijo. O desejo que me inundou foi tão avassalador que eu mesmo soltei um gemido de prazer antes que pudesse refreá-lo.

As unhas dela arranharam a base do meu pescoço antes de levar a mão até minha nuca e me puxar para ainda mais perto.

Toquei os lábios dela com a língua antes mesmo de pensar que avançar demais naquela situação poderia fazer ela se retrair e terminar o contato, mas a forma como ela reagiu foi muito melhor do que eu esperava. Kagome começou a me beijar de forma apaixonada, em um daqueles beijos que depois de terminarem dão aquela sensação de lábios inchados e sensíveis.

Ficamos nos beijando até o ritmo desacelerar gradualmente e nos afastarmos devagar, completamente ofegantes. Eu não diria que eu estava satisfeito, porque no fundo não acredito que eu posso algum dia ficar satisfeito no que diz respeito a beijá-la.

Só percebi que ainda estávamos na presença dos nossos amigos quando Tomoyo (que acordou em algum momento) disse:

— Uau. Me beija também, homem, por favor.

— Eu fiquei constrangido de ficar vendo isso. — resmungou Ryo — Parecia até que eu estava vendo meus pais me concebendo. Argh.

Kagome ficou roxa de vergonha e saiu do meu colo imediatamente. Ela tomou duas xícaras de saquê de uma vez e eu fingi que não estava nem um pouco abalado com a situação. Na verdade, eu não consegui pensar em mais nada pelo resto da noite.


— Nagi... — Kagome sussurrou, perto do meu ouvido — Eu acho que bebi demais.

— Você acha? — ironizei.

Sim, ela havia bebido demais. Só que era um tipo estranho de bêbada, aquela que passava de "chapada até a morte" para "trêpada consciente". Nesse momento ela mal conseguia andar, mas parecia perfeitamente ciente do que estava a sua volta, principalmente da precariedade de sua coordenação motora.

Eu abri a porta do quarto dela e a ajudei a entrar.

— Obrigada. — ela disse — E desculpa pelo que aconteceu antes... Eu me deixei levar pelo imbecil do Yuri.

— Ah. — falei simplesmente.

Sério, estou estranhando essa lucidez. Nunca ouvi falar de alguém que ficasse menos bêbado quanto mais bebia. Talvez ela seja bêbada naturalmente e ingerir álcool apenas faça o efeito reverso.

— Agora me ajude a tirar a roupa. — ela disse.

Retiro o que eu disse, ela não está em pleno gozo de suas faculdades mentais. Ela queria mesmo que eu a ajudasse a se despir? Nada contra a ideia, mas realmente não acredito que esse pedido teria sido feito caso ela estivesse raciocinando direito.

— Você não deveria pedir isso, a menos que queira que eu a beije de novo. — respondi simplesmente, com um sorriso de gracejo.

— Foi um beijo muito bom. — ela disse, afirmando precariamente com a cabeça.

— Hum... Você achou? — A puxei lentamente de encontro a mim — Talvez possamos repetir o ato enquanto eu a ajudo a se despir.

Ela ficou me encarando, como se tentasse compreender minhas palavras, mas aí eu já estava descendo o zíper da saia jeans dela. A peça de roupa estava no chão quando eu segurei a barra de sua camiseta e a puxei para cima, passando por sua cabeça e braços.

Lancei um olhar apreciativo para o corpo dela. Tudo em seu perfeito lugar, com as formas exatas. Um corpo feminino forte, sensual, cálido e atraente, vestido em roupas íntimas de cor azul-clara e detalhes em renda. O sutiã meia-taça sustentava seios redondos e cheios, e embora a calcinha fosse mais um short do que uma tanga, ainda assim fazia o quadro inteiro parecer a tentação em pessoa.

— Pensei que você iria me beijar... — ela comentou confusa.

— Vou fazer isso, estava apenas apreciando a vista. — Coloquei uma mão na cintura dela, enquanto com a outra tirava minha camisa.

Por fim, abracei-a, adorando completamente a sensação da pele nua dela contra a minha. Ela gemeu quando eu a abracei.

Não perdi tempo e me inclinei novamente sobre ela para beijá-la. A mágica aconteceu novamente. Perdi completamente o controle da situação, entregando-me totalmente ao perceber que ela fazia o mesmo.

Gentilmente, eu a guiei para a cama, onde deitei com ela. Livrei-me rapidamente da calça jeans e voltei a acariciá-la enquanto a beijava. Kagome arranhava as minhas costas.

Continuamos naquele emaranhado de carinhos, até que os lábios dela já não correspondiam aos meus beijos e as unhas se acalmaram em minhas costas.

Das duas uma: ou ela havia morrido...

Afastei-me para observá-la.

... Ou a filha de uma mãe havia dormido de tão bêbada!


Kagome entrou na cozinha apertando a palma da mão contra a testa e uma careta de dor estampada no rosto. Limitei-me a continuar tomando o meu café e encará-la com ódio por cima da minha caneca.

— Hey, Kagome! — disse Yuri, que preparava algum de seus famosos sucos gororobas — Está de ressaca?

— Sim. — ela gemeu — Minha cabeça dói horrores. Parece que tem uma agulha tentando furar meus olhos por dentro. — Ela sentou em um dos bancos que ficavam em frente ao balcão — Eu acho que bebi demais. Não me lembro de nada.

— Nem mesmo que beijou o Nagi? — Yuri perguntou risonho.

Os olhos dela me procuraram, arregalados.

— Eu beijei você? — ela perguntou assombrada — Sério?!

Estreitei os olhos, recusando-me a responder aquela pergunta. Quer dizer então que ela havia se esquecido de tudo, até mesmo que quase transamos na noite passada?

Coloquei a caneca na pia e saí da cozinha sem dizer nada, enquanto Yuri ria e comentava que eu havia ficado magoado com a "amnésia seletiva" da Kagome.

Sim, e ele não faz ideia de como.


¹ Missing Scene é um termo usado normalmente no mundo das fanfictions para cenas que não fazem parte do relato original, ou a narração de um certo acontecimento por um ponto de vista diferente do comum.


Fkake:
Ah!
Saudades de mim?
Eu sei que não, Ladie é uma companhia muito melhor que a minha. Enfim, sim, surtamos com um shipper alternativo nessa fic, mas se acalme que não vãos mudar o shipper, muito longe disso, apenas fizemos um capitulo introdutório preparador de terreno para nova etapa da fic, que é "Sesshoumaru me possua"... só que não... mas se preparem para overdose de Sesshy.
Bom, chega de nhe nhe... beijos!