Capítulo XIV — Missing Scene II

(E eu, Aika, descrevo um dia na minha pele, para dar informações que podem servir no decorrer dessa história)

Eu acordo pela manhã. Abro os olhos. Levanto-me da cama. Vou ao banheiro. Escovo os dentes. Tomo um banho demorado. Seco-me. Visto-me. Olho-me no espelho e então tento convencer a mim mesma que estou pronta para encarar um novo dia.

Por puro hábito, relembro as notas mentais do dia anterior, notando que duas delas ainda precisavam ser realizadas no dia de hoje.

Início o rol de notas diárias com elas:

Nota mental diária #1: devo pedir demissão, mudar de nome, fugir para as Bahamas, ter um caso tórrido com uma celebridade, me exilar nas montanhas e virar escritora de romances com homens-que-não-brilham.

Nota mental diária #2: realizar a pesquisa orçamentária da Sacramento Inc.

A primeira nota mental é sempre adiada, mas um dia irei realizá-la. Quanto à segunda, diz respeito à nova fusão empresarial que Hideo quer levar adiante. E, como sempre, o trabalho pesado fica para mim.

Dou uma olhada no meu quarto, certificando-me de que ele está limpo e que tudo está em seu devido lugar. Infelizmente, eu sou metódica e cheia de rituais — faz parte da minha natureza controladora.

Ainda assim, eu me orgulhava de meu espaço pessoal ser acolhedor e confortável. De alguma forma, fazia eu me sentir em casa e esse era exatamente o objetivo que eu tinha em mente quando o decorei. Gosto de me encaixar aos locais (ou fazer eles se encaixarem a mim, tanto faz).

Sei lá, acho que quando sua mãe resolveu se suicidar dois anos depois de você ter nascido alegando que já havia "vivido demais" você tende a querer fazer parte de algo, a pertencer a algum lugar. Devo agradecer a minha mãe por essa necessidade. Embora a única pessoa a quem eu possa culpar seja eu mesma. Aparentemente, eu sou um imã para causar dor às pessoas que eu amo; minha mãe, Hideo, tio Takashi, e até mesmo um amontoado de células sem gênero com poucas semanas de gestação que jamais chegou a conhecer o mundo... Todos haviam sofrido por minha causa.

Paro com a autolamentação. Pego minha bolsa, então saio do meu quarto, a fim de ir ao quarto do Hideo apressá-lo. Depois, vou à cozinha, tomar o café da manhã que duas cozinheiras muito talentosas haviam providenciado.

Isso me faz lembrar de outra obrigação:

Nota mental diária #3: organizar a tabela de férias anuais dos criados.

Sim, sou controladora. E organizada. E penso demais em tudo.

Isso me torna eficiente. Necessária. E eu gosto muito de ser necessária.

Embora eu não tenha certeza da veracidade de tal revelação, Hideo afirma que torno a vida dele mais fácil, apesar de essa ser uma atribuição estressante. Ele é uma pessoa (um tengu, na verdade) muito difícil de lidar. Ele é superprotetor, autoconfiante, poderoso e genioso. São características bem complicadas quando fazem parte de um mesmo indivíduo.

Alguns diriam também que ele é uma pessoa fria, mas essa não é nem de longe da verdade, uma vez que ele de fato aparenta sê-lo, mas essa frieza não ser natural.

Não é, por exemplo, como a frieza de Sesshoumaru, que é um youkai velho o bastante a ponto de existir pouca coisa (talvez nada) nesse mundo que não conheça... É compreensível que ele seja cínico. Tampouco é como a frieza de Nagi, que tem um cérebro que só funciona de duas formas: obcecado ou indiferente.

A frieza de Hideo está em outro âmbito: é autoimposta, resultado da culpa que ele sente das muitas vezes em que se viu em situações complicadas por causa de sua impulsividade.

Como que atraído por meus devaneios, Hideo apareceu na porta da cozinha, impecável num terno azul-escuro. Era simplesmente incrível como ele passava essa atmosfera de homem inatingível, daqueles que não comem, não têm necessidades fisiológicas, vivem de ar e sol, e já saem da cama perfeitamente vestidos.

— Vamos, Aika? — perguntou, ajeitando o nó da gravata de modo displicente.

— Senhor Hideo, não quer comer alguma coisa? — perguntou uma das criadas, com o rosto ruborizado. Ele causava essa reação nas mulheres como mais frequência do que eu gostaria.

— Não, obrigada. — E então ficou me encarando, como se esperasse que o Bon Jovi brotasse da minha testa. Fingi que não percebi que ele esperava que eu me levantasse e o seguisse, e continuei meu café da manhã. — Aika?

Ergui a xícara de café para ele e sorri, como se dissesse "espere só um segundo, querido".

Impaciente, ele olhou o relógio caríssimo que exibia no pulso e disse:

— Estou esperando você no carro. — para qualquer observador amador, pareceria que ele estava me dando uma trégua, mas a mensagem subliminar era "Me acompanhe em 27 segundos, por motivos de: eu quero".

Respirei fundo e terminei de tomar meu café.

Esse seria um dia muito, muito longo.


Nota mental diária #48: arquivar os relatórios dessa reunião.

Nota mental diária #49: enfiar um grampeador na garganta do Hideo por ele ser um insensível desgraçado.

Hideo, você precisava mesmo ser tão grosseiro?

— Ela estava se estendendo demais. — ele disse simplesmente, enquanto andava pelos corredores da Heishing (uma empresa de desenvolvimento tecnológico especializada em concentrar pequenos negócios; havia pertencido ao grupo Hebi, mas, tal como todas as outras, foi absorvida para o espólio dos Senhores do Norte e do Oeste) como um deus vingador que era venerado por seus servos (a.k.a. funcionários).

— Ela apenas queria explicar os detalhes dos resultados. Sabe, a equipe de desenvolvimento teve muito trabalho e eles queriam mostrar isso.

— Qualquer pessoa com bom senso teria percebido que aquela reunião estava demorando demais para acabar.

Resolvi deixar o assunto para lá. Hideo não era exatamente o tipo de youkai que poderia ser convencido quando o assunto dizia respeito ao quanto o (ou a falta de) tato social dele era completamente inadequado em algumas situações.

Eu ainda estava suspirando de cansaço quando entramos na antessala que levaria ao escritório provisório de Hideo, enquanto a diretoria não escolhesse o novo presidente. De sua mesa, a nova secretária (uma das muitas que ele tinha espalhadas por aí) dele me encarou com ódio. Ela não compreendia o porquê de Hideo precisar de mim quando já tinha ela para atender os telefonemas.

Pelas costas dela, eu a chamava de gusano¹. Pelas minhas costas, ela espalhava boatos de que tinha me visto com as pernas abertas em cima da mesa do Hideo.

Não que isso nunca tenha acontecido (para minha eterna vergonha), mas eu tenho certeza absoluta que ela nunca chegou a ver.

Entramos no escritório de Hideo e ele teve que controlar um sorriso quando percebeu Kagome no recinto, observando com interesse alguns quadros de hiper-realismo — Hideo os achava completamente enfadonhos, mas eu os adorava, e como era eu quem decorava os escritórios dele, aqueles quadros estavam ali para me fazer feliz, não ele.

— Então, me esperou muito? — perguntou Hideo, desabotoando o único botão do terno que o mantinha fechado e sentando com elegância em uma das poltronas. Olhei para Kagome, finalmente percebendo o motivo para esse maldito homem estar tão completamente desesperado para sair da reunião.

Rolei os olhos e sentei na cadeira dele (sim, não me importo de sentar na cadeira do chefe e ele se importava muito menos) para abrir alguns arquivos de pautas e atas e confirmar que a secretária incompetente do vice-presidente interino da Heishing havia agendado todas as visitas dessa semana conforme eu havia solicitado para ela.

Nota mental diária #50: descobrir se a secretária de Hideo e a do vice-presidente têm algum parentesco sanguíneo.

Enquanto eu trabalhava, Kagome e Hideo conversavam sobre como havia sido a semana de provas dela (eles poderiam conversar sobre isso em casa, não compreendo por que perdem tempo fazendo isso aqui).

Ergui os olhos por um momento e fiquei observando Kagome conversando animadamente. Hideo parecia completamente relaxado na presença dela... Aliás, essa parecia ser uma constante com qualquer pessoa. Kagome era uma dessas raras pessoas que atraíam todo mundo e que eram amadas por todos. Onde quer que ela fosse, ela sempre se tornaria o centro das atenções e das relações. Todos convergiriam para ela.

O tipo de pessoa que poderia facilmente se odiada por alguém como eu, que têm complexos sobre não ser digna de ser amada por alguém. Admito que no começo eu ofereci real resistência contra Kagome. Afinal, quando eu voltei de Sapporo ela estava instalada na minha casa, com todos os outros que eu considerava como minha família se mostrando capazes de morrer por ela. O efeito que ela causou no Hideo, então, era devastador. Ele foi completamente cativado por ela.

Resumindo: Kagome tinha todos os motivos para ser facilmente odiável.

Mas aí ela me cativou também.

Foi tão natural, que quando percebi já estava pensando no bem-estar dela. Sou tão fraca de opinião — embora, nesse caso, isso não me desagrade.

Suspirei e deixei para pensar nisso depois. Havia algo mais urgente para refletir. Kagome estava aqui por um motivo: Hideo inventou de tentar ensiná-la a arte da administração. Então, para tal, está dando livros e mais livros para ela estudar e tem pedido para ela cumprir determinadas funções básicas em algumas das empresas dos Tsubasa, para ensiná-la como uma empresa funcionava da "base da cadeia alimentar" até o "topo" (leia-se: seja faxineira para aprender a ser presidente).

Por causa do período de provas, Hideo havia concedido algumas semanas de folga e hoje supostamente seria o retorno dela para seu trabalho de meio-período, que consistia basicamente em fazer tudo que o Hideo mandasse fazer.

Primeiramente: Kagome não deveria ter um trabalho de meio-período, já que o curso dela é integral. Claro que bastou apenas um empurrãozinho dos Tsubasa para que a faculdade desse a ela folgas estratégicas, mas tenho certeza que não era nada cômodo para ela ficar faltando às aulas dessa maneira.

Segundo: eu compreendo que Kagome precisasse aprender administração um dia, mas ela é uma criatura de vida eterna (virtualmente, claro); ela pode se dar ao luxo de fazer isso futuramente sem ter que se sobrecarregar.

Terceiro: Hideo está planejando alguma coisa. E isso não me agrada nada. Afinal, existem pouquíssimas coisas que ele faça sem ter planejado de antemão. Se tem algo em que ele consegue ser melhor que todo mundo junto é em manipular as pessoas próximas a ele. Eu realmente gostaria de compreender o que ele tem em mente com tudo isso, mas não tenho nem pista de por onde começar a tentar descobrir.

Nota mental diária #51: mudar as senhas das minhas contas bancárias. Hideo não é digno de confiança.

— Hoje quero que você acompanhe a minha secretária. Quero que observe a rotina, nada demais. Se ela solicitar que você faça algo, fique à vontade para atender, desde que você ache que ela não está se aproveitando de você. — Hideo falou, enquanto Kagome afirmava com energia. Não vou mentir que até achei fofo o entusiasmo dela.

Por fim, Hideo se levantou e foi apresentar Kagome para a gusano. Pobre Kagome... Aposto que vai ser autora de um homicídio antes do cafezinho da tarde.


Essa era a quinta reunião do dia. Já estava para lá de exaustivo. Mas esse era o único dia do mês que Hideo poderia dispor para a Heishing, então tínhamos que fazer malabarismos com os horários.

Nota mental diária #187: usar o cartão de crédito do Hideo para me pagar alguns dias em um spa.

Dessa vez estávamos meio que no início de uma negociação que poderia ser vantajosa. Enquanto apresentavam as propostas, percebi a mensagem de novo e-mail no meu tablet. Ao abrir, percebi ser de Kazuki, o braço direito de Sesshoumaru (ou o mais perto disso, já que Sesshoumaru é absolutamente autossuficiente).

Hideo gostava de Kazuki. E eu até entendia o motivo: ao contrário do chefe dele, Kazuki era um emissário calmo, flexível e gentil. Alguém com quem Hideo se sentia confortável para negociar. Sesshoumaru, no entanto, era outra história. O tai-youkai colocava os nervos dele em polvorosa.

Abri o e-mail:

"Senhor Sesshoumaru quer se encontrar com o senhor Hideo ainda hoje, provavelmente para tornar oficial que fui destituído de meu posto de emissário e que os assuntos que envolverem a administração do território do Leste devem ser resolvidos diretamente com ele. Estamos indo nesse momento para o prédio da Heishing.

Yagiu Kazuki"

Respirei fundo, pensando em como o dia parecia ficar mais tumultuado a cada segundo. Mas agora isso era o de menos... De alguma forma, eu sentia que era intenção de Sesshoumaru pegar Hideo desprevenido para tratar de negócios com ele.

Encaminhei o e-mail para Hideo, e vi quando ele inclinou os olhos para o celular, notando seu recebimento. Enquanto ele lia, enviei uma resposta para Kazuki:

"Estamos em uma reunião nesse momento, mas vou tentar adiantá-la. Por favor, leve o senhor Sesshoumaru para o escritório de Hideo e tente acomodá-lo confortavelmente enquanto nos apressamos para encontrá-los.

Tsubasa Aika."

Ergui os olhos para ver qual a reação de Hideo depois de ter lido o e-mail e... Ele simplesmente não estava em sua cadeira, nem na sala... Nem em lugar algum!


A reunião foi adiada, uma vez que a principal peça para o jogo de negociação tinha simplesmente fugido do local. Depois de pedir desculpas uma centena de vezes, corri na direção do escritório de Hideo, completamente confusa, sem compreender o motivo de ele ter fugido.

Ao entrar no escritório, encontrei gusano lixando as unhas (sério? lixando as unhas?!), não tive espírito de reclamar, apenas uma coisa importava:

— Onde está Hideo? — perguntei, com tom inflexível de quem esperava uma resposta imediata.

Ela arregalou os olhos, meio ultrajada, mas respondeu:

— Ele pegou a senhorita Kagome pela mão e a levou daqui.

Ele fez o quê?!


Nota mental #221: vou esquartejar o Hideo.

Nota mental #222: vou jogar óleo quente nos olhos do Hideo.

Nota mental #223: vou enfiar agulhas de bambu debaixo das unhas do Hideo.

Nota mental #224: vou dar o CD da Selena Gomez para o Hideo.

Parei de pensar em formas de torturar o Hideo quando finalmente o encontrei. Não apenas ele, como Kagome, que estava atrás do balcão da cafeteria (porque grandes empresas de serviços teriam muito prejuízo se dessem café de graça para os clientes) vestindo um avental.

Aproximei-me como uma cheeta, furiosa e com rapidez, bem a tempo de ouvir Hideo dizer:

— Então, você vai ajudar aqui na cafeteria pelo resto da tarde, tudo bem?

— O.k. — disse Kagome, confusa, mas ainda assim solícita.

Hideo virou-se para se afastar e deu de cara comigo, completamente fora de mim, de tanta raiva.

— Você deixou a reunião!

— Era importante. — ele disse simplesmente, começando a andar.

Eu segurei o braço dele.

— Era importante... trazer a Kagome para trabalhar na cafeteria?!

— Claro que sim. — ele afirmou sério — Você acha que Sesshoumaru compraria o próprio café?

E então foi que eu percebi que esse inferno todo se deu em razão de Hideo querer manter Kagome longe de Sesshoumaru.

Nota mental diária #225: eletrocutar o Hideo.

Nota mental diária #226: arrancar as orelhas do Hideo com um alicate cego.


Era estranho ver Sesshoumaru na sala de Hideo. Realmente, muito estranho. Era como se Hideo já fosse presença mais que suficiente para o recinto. Os dois estarem ali era quase um exagero.

O Senhor do Oeste não era exatamente o tipo falante, embora algumas ocasiões já tivessem me demonstrado que ele era daqueles que não aceitavam afronta de nenhum tipo. Os únicos que estavam falando ali eram Kazuki e Hideo (esse numa falsidade que doía meus olhos). Todos nós estávamos cientes de que os Senhores deveriam ao menos fingir civilidade, se eles quisessem que a administração em conjunto do Leste desse certo. Afinal, essa não era exatamente uma aliança com tempo determinado para acabar. Pelo contrário, levando-se em conta o tempo de vida médio dos Senhores, poderia durar muito mais tempo que a sanidade permitiria.

Suspirei, exausta, apenas de ver o quão desconfortável estava aquele encontro. Hideo já esperava que Sesshoumaru viesse procurá-lo para negociar a divisão de administração de empresas de capital, mas eu não havia me preparado para ter que assistir tudo isso de camarote.

Suspirei e continuei fazendo anotações... Foi quando percebi a presença de Kagome do outro lado do corredor, vindo do elevador, provavelmente quando ela adentrou naquele andar. Todos naquela sala estavam escondendo suas presenças, pelo simples motivo de manter o encontro dos Senhores em sigilo... Então quando Kagome apareceu, com aquela presença ofuscante de supernova, foi quase como se uma onda de choque corresse toda a sala.

Sesshoumaru pareceu completamente impassível, mas Hideo me encarou, eloquente: tire ela daqui neste exato segundo.


Eu parecia meio exasperada quando interceptei Kagome na antessala do escritório do vice-presidente. Ela segurava uma bandeja de papelão com quatro copos grandes de café.

— Kagome... — arfei nervosa — O que você está fazendo aqui, querida?

— Hum... — ela hesitou, sem entender a minha reação — Kaori me pediu para trazer café. Ela disse que se esqueceu de comprar as passagens do vice-presidente e que não podia descer para comprar o mocha de chocolate branco dele.

Maldita secretária com cérebro de invertebrado!

— Entendo... Pode deixar que eu levo o café, pode voltar para a cafeteria.

Ela me encarou, sem compreender a situação, mas entregou a bandeja para mim.

— Vocês estão muito estranhos hoje. — ela disse — Mais ainda que o normal, e olha que isso não é nada fácil.

Lancei um sorriso.

— Está tudo normal... Agora vá logo.

Esperei que ela entrasse no elevador e então entrei na sala da secretária do vice-presidente, pronta para dar o maior sermão em Kaori, sobre como ela se atrevia a pedir para a irmã do CEO trazer café para ela.

Entrei na sala e Hideo parecia um poço de alívio. Sentei-me no meu lugar, pegando o tablet novamente em mãos para continuar minhas anotações, quando Sesshoumaru disse (era, provavelmente, a segunda vez que abria a boca desde que estávamos naquela sala):

— Acredito que seja possível fazer uma pausa para que eu possa comprar um café.

Sesshoumaru... comprando... café? Não, né? A menos que ele... Observei o olhar de desafio sutil que ele lançava para o meu chefe. Claro, ele estava provocando Hideo, provavelmente havia percebido desde que entrara no prédio onde Kagome estava e esperara até aquele momento para dar o bote.

Esperei nervosamente a reação do Hideo.

— Você está ficando velho, Sesshoumaru, se precisa de café para aguentar um dia de trabalho. — comentou, com um sorriso maldoso, e continuou a discussão que travava anteriormente sobre cálculos de royalties.

Meu tablet vibrou, quando recebi um e-mail de Hideo (é um mistério como ele conseguiu me mandar um e-mail enquanto conversava):

"Tem alguma coisa errada sobre esses relatórios que Kazuki me enviou (em anexo). Analise-os rápido, antes que eu caia em alguma armadilha desses infelizes."

Meu sangue gelou ao ler isso. Sesshoumaru realmente se atreveria a tentar enganar Hideo de forma tão óbvia? Nervosa, abri os arquivos e comecei a analisá-los, completamente concentrada. A discussão já não me importava nem um pouco. E como as planilhas eram extensas e detalhadas, demorei uns pares de minutos para analisá-las devidamente.

Mas não havia erro algum ali.

Ergui os olhos para Hideo, com cenho franzido... Mas ele não estava mais ali. Ele havia sumido! De novo!

Maldito homem! Havia me distraído com as planilhas e agora provavelmente estava correndo pelas escadas para tirar Kagome da cafeteria antes de Sesshoumaru se atrever a pisar lá.

Nota mental diária #271: R.I.P. Hideo.


Eu acompanhei Sesshoumaru e Kazuki até o térreo, onde um carro já os esperava. Eu fui com eles apenas por vergonha do fato de Hideo ter sido abduzido da reunião sem qualquer desculpa. Sesshoumaru não era o tipo que esperava, bastou olhar uma única vez para o relógio elegante no pulso esquerdo para que Kazuki entendesse que era para chamar o motorista.

Eu juro que vou matar o Hideo. Tudo tem limite, até essa maldita mania de ser superprotetor.

As portas do elevador se abriram e a presença de Kagome me paralisou. Depois de todo o estardalhaço de Hideo, manter Kagome longe de Sesshoumaru parecia vital. Mas, ao que parecia, de nada adiantara tanto trabalho.

Saímos do elevador a tempo de vê-la no balcão, conversando com uma das recepcionistas. Ela estava de costas para nós, e Sesshoumaru, curiosamente parado, ficou observando-a por longos dez segundos. Então, como se já tivesse visto o suficiente, seguiu adiante e saiu do prédio com Kazuki, entrando em um caríssimo sedã prateado que os esperava na porta.

Eu me limitei a ficar estática no meu lugar, vendo toda a dinâmica se desenrolando. Chegava a ser irônico que Hideo tivesse se preocupado tanto por nada.

Por fim, aproximei-me de Kagome, que pegava com a recepcionista os endereços das empresas em que trabalharia nas próximas semanas a pedido de Hideo.

— Oi de novo Kagome. — cumprimentei — O que está fazendo aqui?

Ela terminou de anotar o endereço e sorriu para mim (aparentemente não notara que o noivo dela passara por aquele saguão há apenas um minuto).

— Hideo disse que eu tinha que ir mais cedo para casa. Sabe-se lá o porquê. — Ela deu de ombros — Já liguei para Nagi e ele disse que vem me buscar. Falou algo sobre me mostrar um seriado de psicopatas que preste, ou qualquer coisa macabra do tipo.

— Bom, não deixe ele te levar para lugares desconhecidos nem beba nada que ele te ofereça. Ninguém em sã consciência confia no Nagi. — brinquei.

Nesse momento, o telefone dela tocou. Imaginei que se tratava de Nagi, uma vez que ela apenas disse, sorrindo:

— Eu sei. — e começou a se afastar, acenando um adeus.

Suspirei e percebi que eu também precisaria da intervenção de um amigo.

Liguei para Hiroko:

— Preciso de uma noite de garotas. — eu disse, sem nem cumprimentá-la.

— Noite de garotas que odeiam os irmãos Tsubasa? — ela questionou, rindo. Incrível como ela sempre acertava em cheio quando eu estava puta da vida com Hideo. — Ok, vamos num salão. Vamos fazer as sobrancelhas! Toda vez que faço as sobrancelhas, eu fico me amando.

Apenas sorri. Bendita Hiroko.


Hiroko estava certa. Ir a um salão de beleza fazia bem à alma. Eu inclusive poderia dizer que estava feliz quando entrei no meu quarto, no final daquele dia. A felicidade, no entanto, se esvaiu como pó quando me deparei com um tengu de um metro e noventa saindo do meu banheiro usando apenas uma toalha em volta do quadril.

Nota mental diária #312: trocar a fechadura do meu quarto.

Nota mental diária #313: parar de babar pelo Hideo.

— O que você está fazendo aqui? — perguntei ríspida. Era apenas uma pergunta retórica. Por algum motivo, Hideo achava que meu quarto era o quarto dele (e esse era o motivo para os aposentos de Hideo terem um estilo tão espartano; ele passava mais tempo aqui do que lá).

— Vim tomar banho.

— Não tem banheiro no seu quarto? — Joguei minha bolsa sobre a cama e sentei pesadamente.

— Até onde me lembro, tem sim.

Ficamos nos encarando por longos minutos, ele em pé, seminu, e eu tentando manter a minha raiva e não ceder ao charme dele.

— Você tem ideia que hoje abandonou duas reuniões importantes sem dar motivo algum e sem se desculpar? — perguntei lentamente, em tom acusatório.

— A meu ver, não eram importantes. — ele disse simplesmente, por sua vez com tom de quem não iria discutir aquele assunto.

— Você me fez correr o dia todo atrás de você como se eu fosse sua babá! — exclamei realmente irritada — Sua atitude hoje foi completamente irresponsável! Sabe quantas vezes tive que pedir desculpas em seu lugar?

Após ouvir minha exaltada reclamação, Hideo se limitou a me encarar.

— Aika... — disse, respirando profundamente — Eu sinto muito. Estou consciente de que às vezes eu passo dos limites com você.

— Passar dos limites? Você me leva à completa exaustão, Hideo! — Exasperada, levantei-me da cama e fui para o banheiro, a fim de deixar a banheira enchendo enquanto levávamos essa discussão adiante.

Arfei quando senti as mãos dele envolverem minha cintura, como se quisesse fechar os dedos em volta da circunferência, mas nem minha cintura era tão fina nem suas enormes mãos eram grandes o suficiente.

— Exausta demais para me deixar passar a noite aqui? — ele perguntou ao meu ouvido. Maldito tengu. Eu o odeio. Como ele é capaz de me transformar em manteiga apenas com essa voz de timbre rouco?

— Saia de perto de mim, Hideo. — pedi, de forma débil.

Ele riu.

— Estava pensando em te recompensar pelo dia estressante. — Ele me soltou — Mas já que você não me quer aqui...

Sem dizer mais nada, virou as costas e saiu do banheiro.

Então, a dúvida remoeu minha alma: qual eu deveria escolher? O orgulho ou o prazer? A discussão íntima não durou muito tempo. Meu orgulho sempre perdia quando travava essa batalha em questão.


Notas:

¹Verme


Ladie: Bom, pessoas, só posso me desculpar pelo atraso de dois meses para lançarmos um capítulo, assumo completamente a culpa, uma vez que esse capítulo era inteiro da minha responsabilidade. E a pobre e gostosa Fkake ainda tentou me fazer escrever *imaginem um chicote estalando ao fundo*.

Sei que esse capítulo não é bem o que vocês esperavam (eu sei, suas pervertidas, que vocês queriam um ménage Nagi/Kagome/Hideo (tá, tá, eu sei, apenas eu queria isso)), mas já é alguma coisa — espero, gessuis.