Capítulo XV — Destino gritando: fica na cama, minha filha
Os sinais estavam lá, a tola aqui que insistiu em não ver.
Sendo mais clara, existem sinais quando você acorda que indicam a porcaria de dia que lhe aguarda. Infelizmente sou terrível para identificar o grito do destino de: "Kagome, fique na sua cama, não saia daí minha filha!"
Quais foram os sinais?
Simples, primeiro, o aquecedor do meu quarto estava quebrado o tornou necessário usar mais cobertas essa noite, portanto, quando o meu despertador começou a apitar, eu estava quentinha e confortável e sem qualquer vontade de me levantar daquele ninho de preguiça. Daiki não apareceu em meu quarto gritando que era bom eu estar apenas de roupas íntimas e nem mesmo ninguém veio ao meu quarto questionando se poderia comer a minha parte do café da manhã. Portanto, perdi hora.
Claro sinal de: "Continue na cama, você já se atrasou mesmo, se permita um dia de folga".
Não percebi o que o destino me gritava e saí correndo da cama me trocando às pressas (pelos deuses eu nem ao menos estou com um par de meias combinando) e segui para faculdade, roubei a chave do carro do Nagi na correria... ou seja, até o horário do almoço ele estará aqui na faculdade com uma careta de serial killer amaldiçoando todos que cruzarem seu caminho. Lindo isso, nem ao menos me dei conta do que poderia me acontecer ao pegar o carro dele sem avisar... E está aí outro sinal do destino, o de: "fique em casa minha querida, você merece um dia embaixo das cobertas sem preocupações".
Eu sei que estou reclamando demais, mas é que a situação na qual me encontro agora me faz pensar no quanto fui tola de ter ido para a faculdade. Primeiramente, havia o fato de que minha língua traiçoeira havia revelado o fato de ter um noivo, mas como desgraça nunca é pouco, teve a festa em que precisei ir naquela noite infernal com aquele ser diabólico que me trata como uma gravata nova que quer mostrar aos outros, o qual havia saído em fotos comigo em todas as revistas e jornais do Japão.
Sim, agora eu era conhecida nacionalmente como noiva de Sesshoumaru Taisho. Só os deuses sabem o quanto precisei ser arisca para escapar das perguntas de meus amigos. Só que eles são verdadeiros agentes secretos quando querem descobrir algo, portanto, não demorou muito para Kenjiro e Asura sentarem ao meu lado no intervalo para o segundo tempo, os quais sorriam de forma cúmplice, deixando evidente o preparo para não me deixar escapar.
Não quero responder perguntas, quero minha casa, minha cama. Lugar seguro onde a vida não me faz de palhaça e ninguém tenta me matar, seja física ou mentalmente. Acredito que terei problemas no coração em um futuro próximo, mesmo sendo uma hanyou.
Pois bem, aqui estamos. Kenjiro com seu costumeiro meio sorriso malandro que esboçava quando queria arrancar alguma informação confidencial (como se minha vida pessoal fosse algum que merecesse investigação da guarda nacional). Enquanto que Asura jogava seu cabelo de um lado para outro, algo costumeiro de quando está curiosa e ansiosa ao mesmo tempo. Fiquei tentada a perguntar se seu aplique não sairia com toda aquela movimentação, mas sou apegada aos meus dentes e fiquei calada.
Eles estavam me encurralando descaradamente. E, para meu desespero, o meu querido amigo Kenjiro (não tão querido nesse momento) colocou uma maldita revista a qual havia dedicado sua capa para uma foto em alta resolução de mim e do demônio albino. Fiquei olhando a mim mesma, naquele vestido ridiculamente sexy que Aika me fez trajar aquela noite. Ao meu lado estava Sesshoumaru com a mão apoiada na minha cintura, o momento da foto era aquele no qual eu havia virado para falar com ele, o que parecia aos olhos alheios que éramos realmente o casal lindo e maravilhoso que o título sugeria.
Tal título era: "Sesshoumaru Taisho e Kagome Tsubasa, nova aliança entre empresas nascida do amor".
Por que raios "amor"?!
De onde esses desgraçados tiraram a ideia de que nos amamos? Só por que eu estava na festa com ele? Ou por causa da adita mão que, em todas as malditas fotos, estava na minha cintura (explicando assim o Daiki em minha cama na manhã seguinte à festa, reclamando de que eu deveria ser uma criança fofa e não uma mulher linda e sexy).
— Explique. — Foi tudo que Kenjiro pediu, coisa difícil de fazer, abri a boca algumas vezes mas nenhum som saiu.
Arusa franziu o semblante em uma típica demonstração de impaciência, rolei meus olhos em resposta e decidi mentalmente que não precisava me explicar para eles. Mas como todo dia lindo em que se deve ficar na cama, logo apareceu mais meninas para a me questionar sobre se aquilo era realmente verdade. Quando dei por mim havia mais do que as pessoas da minha turma na sala, todos me questionando ao mesmo tempo e me deixando cada vez mais confusa.
Eram tantas perguntas ao mesmo tempo que elas nem ao menos me esperavam responder, simplesmente se respondiam e começavam a criar histórias aleatórias à realidade, nas quais existia um amor impossível entre uma estudante universitária e um grande executivo, o qual estava fazendo uma fusão entre empresas com o irmão mais velho da referida universitária para que assim pudesse passar mais tempo com seu único e grande amor.
Elas sabem que estão falando de Sesshoumaru?
Sei lá, parece que estão falando de algum personagem de um shoujo muito popular, mas que por algum caso fortuito eu não conheço.
Respirei fundo, estava começando a ficar zonza com tantas perguntas, tudo que conseguia falar era "hum", "tá", "não sei". Aquilo estava me deixando com dor de cabeça e tão alheia à realidade que nem ao menos notei quando me puxaram para fora da sala. Na verdade eu apenas reconheci aquelas costas quando já estava na escadaria para o andar térreo.
— Nagi?
— A chave do meu carro?
— Na minha bolsa, lá na... — Ele ergueu minha bolsa. Quando foi que ele a pegou?!
— O que era aquilo?
— Aquelas fotos...
— Ontem foi a mesma coisa?
— Não, estou matriculada como Higurashi aqui, levou todos esses dias para associarem a foto a minha pessoa... Sério, estou mesmo tão diferente nas fotos?
Ele me olhou por cima dos ombros, em seguida voltou a olhar para frente, andando sem se importar com a velocidade.
— Precisamos ir para casa.
— Por quê?
— Menos perguntas e mais passos. Parece uma lesma andando.
— Essa lesma vai lhe jogar da escada.
— Tente.
Então eu o empurrei e saí correndo com a minha bolsa, claro que não levou muito tempo para ele se recuperar do susto e vir apressadamente atrás de mim, cheguei antes no carro e fiquei fazendo caretas enquanto ele me ameaçava do lado de fora. Quinze minutos depois estávamos indo para casa, claro que o Nagi não estava nada feliz.
Fiquei analisando minhas anotações, apenas como desculpa para não ficar encarando ele enquanto Nagi estava em seus surtos de irritação.
Depois de vários minutos dele dirigindo com uma expressão demoníaca, Nagi suspirou como se estivesse exausto demais até mesmo para ficar com raiva de mim.
— Sesshoumaru entrou em contato com você ultimamente? — ele questionou de supetão.
Depois de tantos minutos de silêncio, ouvir a voz dele teve o mesmo efeito de um choque térmico.
Pisquei algumas vezes.
— Não. — disse, como se fosse uma resposta óbvia — Por que ele faria isso?
Foi uma sorte estarmos parados em um sinal vermelho, ou teríamos batido em outro carro quando ele se virou para me encarar.
— Você está brincando, por acaso? — Nagi questionou — Eu tenho percebido que nos últimos dois anos você tem simplesmente ignorado o fato de ser "noiva" do Senhor do Oeste. Como se de alguma forma isso não passasse de algo passageiro, com o qual não devesse se preocupar. Eu entendo perfeitamente como deve ter sido confuso de início, mas daí a ignorar esse fato por dois anos é passar do ponto da estupidez.
Fechei a cara, ao perceber que Nagi estava me passando um sermão. Eu simplesmente odeio quando ele faz isso. Preferia levar sermão do Hideo ao invés do Nagi. Pior do que ele me intimidar com seu discurso imbatível, era quando me intimidava com o fato de ser quarenta centímetros mais alto do que eu.
— Vou perguntar mais uma vez: Sesshoumaru entrou em contato com você para lhe informar que ele irá transferir a sede dos tai-youkais para Tóquio?
Arregalei os olhos, e sequer pensei em responder a pergunta. Estava assombrada com o que ele havia dito.
— Os tai-youkais vão se estabelecer em Tóquio?!
Ele olhou mais uma vez para mim, de esguelha.
— Essa era obviamente o plano original do Senhor do Oeste. Ficaria dividido entre a administração dos dois territórios mantendo a sede aqui, para inibir qualquer tentativa dos tengus tomarem o território do Leste. E ele levou dois anos para organizar-se para a mudança.
Franzi o cenho, pensativa. De alguma forma, eu já tinha percebido que isso iria acontecer, só não tinha pensado nisso com mais cuidado. Apenas... Tornou-se uma verdade tão brutal quando Nagi falou em voz alta. Se Sesshoumaru estava ali, então eu me veria exposta a sua presença mais vezes do que um dia poderia desejar.
Mas... Será que isso realmente aconteceria? Não vejo de que forma Sesshoumaru possa desejar a minha presença. Eu não passo de uma ferramenta, uma caução, um penhor... Um dia, quando minha posição como "noiva" não fosse mais necessária, ele me livraria dos laços que nos prendiam.
Não havia forma de Sesshoumaru querer levar adiante essa história de noivado, e talvez este seja o momento exato para desatar o compromisso.
Acreditando nisso com fé, falei para Nagi:
— Agora que Sesshoumaru está em Tóquio, provavelmente irá me devolver para os meus irmãos. — Sorri timidamente — Talvez seja algo bom ele estar na cidade.
— Não há forma de ter duas facções de poder youkai num mesmo território se tornar algo bom. Em algum momento, haverá choque de interesses. — Ele olhou para mim mais uma vez, dessa vez quase com pena de mim — E você é uma tola se realmente acredita que Sesshoumaru irá livrá-la de suas correntes, Kagome... Agora você é ainda mais valiosa do que antes. Sesshoumaru irá mantê-la acorrentada ao seu lado não apenas como segurança, mas para lembrar que você pertence a ele e que, portanto, estará em perigo se Hideo tentar qualquer coisa.
Senti o sangue fugir de meu rosto enquanto Nagi dizia aquilo com voz cortante.
— Mesmo que ele não queria ameaçar Hideo, Kagome, você servirá para que ele estabeleça sua posição diante dos outros youkais. Para qualquer youkai que o veja, inimigo ou amigo, a mensagem é clara: eu tenho poder sobre propriedade de outro Senhor, portanto, estou acima dele. — Nagi riu amargamente — Eu me surpreenderia muito se ele a livrasse do compromisso, quando é um objeto representativo de tanto poder.
Ao final do discurso de Nagi, eu sentia minhas orelhas formigarem, como se eu estivesse no ápice do nervosismo e fosse ter uma convulsão a qualquer segundo.
Eu fui arrancada de meu estado desesperado pelo toque do meu celular, que berrava por atenção de algum lugar nos bancos traseiros.
Ainda meio anestesiada, estiquei meu braço para pegar a bolsa e achar o celular antes que a pessoa que estivesse me ligando desistisse. Por sorte, consegui achar o aparelho no buraco negro que era a minha bolsa bem a tempo. Ou não.
— Kagome Tsubasa! — Exclamou minha mãe, quase ferindo meus tímpanos. O que ela pensava que estava fazendo? Treinando para explodir cérebros alheiros apenas com a voz, como se fosse uma personagem do Mortal Kombat?! Nem mesmo liguei para o fato de ela ter me chamado de "Kagome Tsubasa". Era meio triste pensar que até mesmo minha mãe se recusa a me reconhecer como uma Higurashi. — Por que o jornal está dizendo que você está noiva?! Você está grávida?!
Mas o quê? Como é que ela pulou para essa conclusão assim tão rápido, sem sequer parar para dizer "de onde eles inventaram isso"?
— Mãe...
— Quieta! Como é que você fica noiva e não tem a decência de dizer para a sua própria mãe?! — Abri a boca para dizer que tudo que o jornal dizia era uma mentira, mas... Bem... Dizer isso seria uma mentira também. Afinal, eu estava noiva. Só nunca tinha dito para a minha mãe.
Vi de relance Nagi me olhar e lembrei-me do que ele tinha dito: "nos últimos dois anos você tem simplesmente ignorado o fato de ser 'noiva' do Senhor do Oeste". Ele estava certo, mas jamais vou dizer isso a ele.
— Mãe... — tentei falar, em meio às frases nada calmas da minha genitora — É complicado.
— Você está grávida, não é?!
Por que ela insiste nessa pergunta, meu Deus?
— Não! — exclamei — É só que... — Ainda pensei em dizer que era um compromisso por negócios, mas acho que ela me mataria se eu dissesse isso. Com certeza, arranjaria um jeito de lançar partículas cancerígenas pelo telefone e eu teria uma morte lenta e muito dolorosa. Então, diante disso, apenas me calei.
Enquanto ela continuava o monólogo enfurecido, eu comecei a pensar em como era estranho que minha mãe só ficasse sabendo disso dois anos depois de eu ter aceitado ser noiva de Sesshoumaru. Aliás... As notícias dos jornais e as fotos das revistas já estavam em circulação há uns poucos dias... Como ela só fora perceber agora?
A menos que, assim como meus amigos, ela tivesse demorado em me reconhecer na mulher elegante e atraente das fotos.
O.k., é para entrar em depressão pensar que nem sua própria mãe a reconhece como uma mulher digna de atenção.
Enquanto eu estava perdida em meus pensamentos, minha mãe disse algo que me prendeu:
— Traga o moço aqui e ao menos tenha a vergonha de apresentá-lo para sua mãe.
— O quê?! — exclamei, mas ela já tinha desligado, para não me deixar saída senão obedecê-la.
Passei a encarar o telefone, assustada.
— Ela quer que eu leve Sesshoumaru para conhecê-la. — falei em voz alta, como se precisasse disso para acreditar.
Nagi suspirou.
O que eu faço?
Entrei na cozinha da casa da minha mãe com um grande sorriso no rosto.
— Oi, mãe. — falei, estendendo uma caixa customizada em rosa e marrom com um enorme laço magenta — Daiki mandou chocolates para a senhora.
Mentira. Eu mesma havia comprado os chocolates. É só que aparentemente o coração da minha mãe se torna mais caridoso quando ouve o nome do meu irmão.
Ela colocou as duas mãos no rosto, numa reação ultra fofa.
— Own! — e sorriu — Seu irmão é sempre tão atencioso. Traga ele para jantar aqui sexta-feira, Kagome. Essa casa ainda é sua, sabia?
Sentei à mesa, quase suspirando de alívio. Talvez eu tivesse me livrado da bronca...
Ela olhou para a porta da cozinha, como se esperasse que o circo russo aparecesse para lhe fazer uma apresentação particular.
... Ou talvez eu estivesse falando cedo demais.
— Onde está o seu noivo — ela deu tanto ênfase à palavra noivo que achei que ela estivesse invocando o próprio demônio para a conversa — que eu tão claramente lhe instruí a trazer aqui?
Respirei fundo.
Droga.
— Mãe... Sesshoumaru é... bem... muito ocupado. — Sorri amarelo — A senhora sabe como são esses homens de negócios. Hideo mesmo nunca tem tempo.
— Não, não sei. — Ela me olhou feio — Ocupado demais para vir aqui conhecer a mulher que pariu a futura esposa dele?
Fiquei vermelha só de ouvir minha mãe falar em "parir" com tanta naturalidade. Sei lá, não gosto de pensar em como nasci. Prefiro acreditar que ela me achou no fundo de uma lata de Coca-Cola.
Pigarreei.
— Ele virá... — falei hesitante — Ocasionalmente... Só... dê-me algum tempo.
— Isso está tudo errado! — ela exclamou, batendo a colher de pau na mesa. O.k., vou ser espancada. Vou levar cicatrizes pelo resto da minha vida. — Eu deveria conhecer esse homem "antes" de vocês noivarem. Olha só como eu descubro! — E para enfatizar as palavras, jogou o jornal de dois dias atrás na minha direção.
Olhei nervosa para uma foto minha ao lado de Sesshoumaru. Estávamos meio de lado, e, droga!, fazíamos um casal bonito. 'Tá, foi idiota pensar isso. Enquanto minha mãe tagarelava, eu comecei a ler a notícia, que tinha o título "Encontro Beneficente de Outono do Tai Group arrecada para a caridade o equivalente a soma das últimas cinco edições do evento".
Mais adiante na matéria havia:
"Sesshoumaru Taisho, C.E.O. do Tai Group e velho conhecido pela confidencialidade de sua vida pessoal, foi visto em boa parte da noite na companhia de uma mulher que posteriormente foi identificada por nossa equipe como Kagome Tsubasa, irmã mais nova de Hideo Tsubasa, com quem Taisho está, atualmente, realizando negociações.
Os boatos que chegaram aos nossos ouvidos, e, consequentemente, às nossas páginas, é de que Sesshoumaru Taisho e Kagome Tsubasa estão de data marcada para casório, resultado de em um relacionamento amoroso já de alguns anos, iniciado muito antes das negociações entre os grandes monstros do nicho de investimentos que são o Tai Group e a Empreendimentos Tsubasa. Preparem seus bolsos para o leviatã comercial que surge."
Fiquei encarando a matéria, meio desolada. Naquele meio tempo, o discurso de minha mãe perdeu grande parte de sua força. Por fim, ela apenas sentou perto de mim.
— Por que você não me contou, querida?
Ergui os olhos, surpresa com o tom doce. Então sorri tristemente.
— Acho que eu não acreditava ainda. — disse, e era toda a verdade.
Acredito que ela tenha percebido isso, pois vi meu sorriso triste se refletir no rosto dela.
— Eu queria ao menos ter aprovado o homem que você escolheu. — Ela se queixou.
Abri minha bolsa e tirei uma foto de um bolso. Como era impossível levar o original para ela, pensei em abrandar a fúria da mulher levando a foto de Sesshoumaru, eficientemente conseguida por Raiden e seu vasto filtro de espionagem (não duvido nada que ele seria capaz de hackear a Enterprise).
Ela analisou a foto por vários minutos, estudando Sesshoumaru em um terno de corte silhuetado que parecia ter sido feitos para homens altos, esguios e bem-proporcionados como ele. Ele estava saindo de um prédio, completamente alheio à câmera que capturava a sua imagem com histeria.
Ele estava lindo. Lindo demais. Tive medo de minha mãe vetá-lo apenas com medo de ele se tratar de um homem mimado e arrogante, incapaz de me fazer feliz.
Isso tudo podia bem ser verdade, mas eu não queria que ela notasse.
— Eu... — Ela parou, franzindo a testa como se tentasse encontrar as palavras certas para dizer — Eu já o vi em algum lugar... 'Tá... Eu sei que ele é um homem que sai na mídia, mas... Ele é tão familiar. Um tipo de familiar que só se tem com alguém que se conhece pessoalmente. — Então ela olhou para mim — Por acaso eu já o encontrei antes?
Fiquei pálida.
Ela estava falando de Inuyasha. Obviamente havia se lembrado dele ao ver a foto de Sesshoumaru, que, embora diferentes, ainda se pareciam tanto.
Engoli em seco.
Como explicar para a minha mãe que Sesshoumaru era irmão do meio-youkai que havia ficado tantas vezes nesse templo, causando problemas? Como explicar para ela que estava noiva do irmão do homem que eu havia amado?
Sem saber como lhe contar isso, apenas neguei com a cabeça, odiando-me por mentir para ela. Mas isso era algo que eu havia aprendido a fazer nos últimos dois anos com mais facilidade do que eu gostaria.
Aquilo era definitivamente um ultraje. Como ele podia ter feito aquilo? Como ele tinha a pachorra de fazer isso?!
Respirei fundo procurando aquele resquício de paciência que poderia — repito, poderia — estar presente em minha pessoa, contudo, ao analisar novamente aquele vestido cinza no qual meu corpo estava vestido, meu rosto corou em fúria. Não era como se o vestido estivesse feio, não, muito pelo contrário, por incrível que parecesse ele estava ainda mais lindo do que o usado na festa beneficente.
Bufei furiosa, enquanto lia novamente a mensagem que estava sobre a caixa onde eu encontrei o bendito vestido. Tal objeto que foi deixado sobre a minha cama essa tarde e encontrado por mim assim que entrei em meu quarto. O bilhete era curto e grosso. Dizia:
"Esteja pronta as sete.
T. S."
Como eu queria que esse T. S. fosse a sigla da Taylor Swift e não Sesshoumaru Taisho — para ver o tamanho do desespero, prefiro encarar a Taylor. Mas isso é apenas um sonho, uma esperança que é constantemente esmagada pela cruel realidade. E por dedução (leia-se: vestido, arrogância, horário) acredito que vamos a mais uma festa, mas não vi qualquer movimentação na casa que indicasse que haveria alguém além de mim lá... Isso me deixou realmente preocupada, não quero ficar sozinha com ele.
Certo, não estou realmente irritada por ficar sozinha com ele. Por mais que sinta certo receio e até um pouco de medo de ficar no mesmo cômodo que ele, ainda assim não ficaria tão irritada por isso. Minha fúria se origina do fato desse retardado não me fazer um convite decente, sem passar a impressão de que me trata como um objeto.
Tudo bem, eu sei que ele me trata e me vê como um objeto e não como uma pessoa em si. Ou hanyou, tanto faz. Contudo, não custa nada fingir que não trata... Sei lá, ele é rico, contrate alguém para escrever um bilhete decente!
Calma Kagome, você está surtando.
— Kagome... Uau.
Olhei para o reflexo de Tomoyo enquanto ela se aproximava de mim com a boca entreaberta, em seguida ela fez um "joia" com as duas mãos, me virei para encará-la cruzando os braços abaixo dos seios, séria.
— Você está linda, precisa de ajuda com a maquiagem? O motorista dos cachorros já está lhe esperando.
— Não, está tudo bem.
— Tem certeza? Sei de uma maquia...
— Tenho sim, obrigada.
— Tudo bem.
Ela saiu do meu quarto, fechando a porta, suspirei me sentindo um pouco culpada por ter sido grossa com ela, afinal, minha raiva era para com outro ser vivo.
Voltei a encarar o meu reflexo no espelho, devo admitir que esse vestido valorizou meus seios e quadris, e também de que se trata de algo de muito bom gosto... Eu parecia mesmo a noiva de um grande executivo. Uma boneca escolhida a dedo.
Um objeto.
Caramba, isso realmente me deixa muito nervosa. Eu sei que o noivado foi algo que eu decidi por mim mesma, então eu estava tentando convencer-me mesma a aguentar com tranquilidade o péssimo caráter de Sesshoumaru, mas ser tratada daquela forma me deixava realmente irritada.
Apertei as mãos, forçando as unhas contra a carne. Sei que vou me arrepender disso, mas preciso desse pouco de infantilidade para conseguir paz para lidar com ele de agora em diante. E com um meio sorriso em meus lábios, segui até o guarda-roupa. Isso seria apenas um recado. Depois disso, eu faria um esforço para aguentar o machismo do meu noivo.
— O que...
— Senhor Taisho. — Um homem alto, magro, com cabelos grisalhos e rosto expressivo marcado pela idade, adiantou-se até Sesshoumaru e se inclinou em uma reverência tradicional. Sesshoumaru apenas o olhou de esguelha, em seguida voltou sua atenção a mim, com uma expressão fria, mas tenho certeza que vi certo ar de inconformismo em seus olhos. — Quem é a jovem?
Sorri, virando-me para o homem ao lado do meu noivo. Sorri gentilmente e me inclinei em uma reverência, apresentando-me como Kagome Tsubasa. O homem me encarou, incrédulo, como esperado. Kazuki foi rápido em se adiantar e levar o senhor até a mesa do restaurante onde o Tai Group havia reservado a metade da ala dos fumantes para um encontro de negócios.
Primeiro: odeio o fato de ser ala dos fumantes, isso só pode significar uma coisa.
Segundo: a careta de confuso e incrédulo daquele senhor foi repetida por todos que estavam ali. O motivo? Simples... Eu estava trajando uma calça jeans que havia ganhando no natal do ano retrasado e uma camisa com estampa do símbolo do "Nirvana".
Sesshoumaru repousou a mão em minha cintura, conduziu-me até uma das cadeiras e puxou para que me sentasse. Os homens e mulheres ali presentes me encaravam, curiosos, desviando o olhar de mim para Sesshoumaru, que desabotoou o paletó enquanto se sentava na cadeira ao meu lado.
— Kagome Tsubasa. — ele disse secamente. Sorri gentilmente enquanto os olhares me encaravam agora ainda mais surpresos.
— Senhorita Tsubasa? — questionou uma mulher.
— Sim? — olhei para ela, mas ela não iniciou uma conversa, possivelmente desconcertada demais pela minha aparência nada formal naquele lugar em que os homens trajavam terno e gravata e as mulheres, vestidos.
Recostei-me na cadeira e observei enquanto Sesshoumaru desviava os olhares curiosos de mim para uma conversa de negócios. Nem todas as mulheres ali estavam realmente para discutir sobre negócios, identifiquei-as como sendo acompanhantes, assim como eu era. Essas mulheres constantemente desviavam os olhares de Sesshoumaru para mim, com certo ar de reprovação.
Eu estava me divertindo horrores com a situação. Estava meio envergonhada também, mas essa questão eu não demonstrava. Pelo contrário, esbanjava confiança, como se fosse mais que merecedora de ser a prometida de Sesshoumaru — opinião que obviamente não era compartilhada com os outros.
Por sua vez, Sesshoumaru parecia estar totalmente alheio a minha presença e aos olhares de desaprovação que eram eventualmente lançados a mim. Não houve conversas comigo e em um determinado momento da noite simplesmente era como se eu não estivesse mais lá, como se ignorar minha presença era a melhor coisa a se fazer.
De certa forma, as coisas estavam seguindo tranquilamente, até a hora que o garçom apareceu para atender nossos pedidos e Sesshoumaru escolher o que eu iria comer. Como ele ousou fazer algo assim?
Tenho muitos problemas com isso, pois acredito ser um ato machista e completamente insensível... Tudo bem, ele é realmente machista e insensível, mas mesmo assim isso não me impediu de ficar nervosa. Afinal de contas, sou perfeitamente capaz de escolher minha própria comida e bebida.
A minha vontade era de jogar o vinho que o garçom depositou na mesa na cabeça do Sesshoumaru, contudo a educação me freou. Por mais que quisesse extravasar o quanto estava irritada com aquilo tudo, precisava pensar nos meus irmãos e como minhas ações poderiam afetá-los, afinal, já estava ali de jeans e camisa, aquilo com certeza não sairia de graça. Ah, com certeza não.
Usando os últimos vestígios de autocontrole que ainda me restavam, respirei fundo e bebi um pouco do vinho... Certo, machista a insensível, mas o maldito tem bom gosto. Outro suspiro e comecei a ficar tentada a ficar bêbada. Ideia válida, ideia linda. Olhei o youkai a meu lado... Ideia tentadora, quem sabe bêbada não digo umas verdades a esse maldito?
— Me diga senhorita Tsubasa. — Voltei a minha atenção, um tanto surpresa, para uma mulher de cabelos negros ondulados e olhos estreitos, como se estivesse com uma dor aguda que não passava. — Esse é um dos melhores restaurantes do Japão, seu noivo foi muito atencioso ao fazer essas reservas. É tudo de muito bom gosto.
Olhei ao meu redor notando o quanto aquele restaurante era refinado e captando a indireta.
— Sim, muito atencioso. E pensar que ele me disse que estávamos indo comer um macarrão na barraquinha do senhor Karamura. — Voltei minha atenção para Sesshoumaru. — Querido, deveria ter me avisado que viríamos aqui antes.
Sesshoumaru abaixou a taça me olhando de esguelha. Admito, minha espinha gelou.
— Eu avisei.
— Avisou que sairíamos. Mas não mencionou nada sobre um encontro de negócios.
— Sempre tenho encontro de negócios.
— Deveria relaxar um pouco. Acabará gordo e careca dessa forma.
Ele não respondeu dessa vez, como se decidisse que a conversava não merecia ser continuada. Por fim, se concentrou em comer (ou fingir que comia). Mexi-me na cadeira, sentindo-me desconfortável... Por incrível que parecesse, a impressão de que tudo aquilo me passava era de que ele estava ganhando. Como ele poderia estar ganhando? Quer dizer, sou eu quem está dando a última palavra e fazendo o que bem entendo... De certa forma. E mesmo assim, a sensação que ele passa é de que está tudo sobre controle e que será vitorioso no final.
De que forma estou perdendo? Como alguém pode transbordar tanta arrogância assim? Não me lembrava de me sentir dessa forma em sua companhia quando estávamos em Sengoku.
Uma hora depois, após o jantar, alguns homens acenderam seus cigarros e voltaram à discussão sobre negócios. Eu daria um rim para que algo acontecesse e eu fosse embora daquele lugar chato. Já havia perdido a conta de quantas taças havia bebido e não fazia a mínima ideia do motivo dos garçons estarem me servindo apenas água.
Não consegui segurar o bocejo quando um homem com sotaque engraçado... sei lá quem ele era... começou a falar sobre o mercado mobiliário na América do Norte. Senti muitos olhares de reprovação em minha direção, mas não me importei, depois de tanto tempo naquela situação havia acostumado com a censura.
Completamente entediada, desenhei pequenos círculos com o dedo na toalha, e só percebi que meu óbvio desinteresse estava chamando atenção quando todos se calaram.
Ergui os olhos.
O homem de sotaque estranho me encarava, vermelho de raiva, completamente ofendido com o meu comportamento. Ele virou-se para Sesshoumaru, como se este fosse meu pai e pudesse me dar chibatadas para me dar lições de etiqueta.
— O senhor terá que me perdoar senhor Sesshoumaru, mas sua noiva é completamente inadequada para este tipo de encontro social.
Nossa.
Arregalei os olhos. Eu devia estar feliz por aquele homem achar isso, afinal, era meu objetivo desde o começo irritar Sesshoumaru e deixá-lo consciente de que eu não era uma boneca de porcelana para ser exibida. Mas, apesar disso, eu estava muito, muito ofendida.
— Espero que você não esteja dizendo que a minha escolha como noiva é inadequada. — disse Sesshoumaru, em voz tão cortante que por um instante eu quase senti que as palavras eram feitas de lâminas de aço.
Olhei para Sesshoumaru, meio estarrecida por ele, aparentemente, estar indo em minha defesa. Sesshoumaru parecia impassível, cruel, intocável.
Engoli em seco.
O homem foi incapaz de até mesmo isso.
Sobressaltei quando Kazuki se inclinou entre mim e Sesshoumaru sussurrando algo para ele e em seguida segurou minha cadeira gentilmente para que me levantasse, Sesshoumaru se levantou e sem quaisquer esclarecimentos, saiu. Assim, simplesmente. Estava tão anestesiada, que apenas me levantei, inclinei-me e segui Kazuki para fora do restaurante.
— Seu carro já a está esperando. — sussurrou-me Kakuzi, enquanto saíamos para a noite fria. Ele imediatamente seguiu para um dos dois carros luxuosos que esperavam na porta do restaurante — aparentemente um para mim e outro para Sesshoumaru. Essa criatura em questão estava parada na calçada, com as mãos nos bolsos, como uma estátua.
Isso me fez hesitar um segundo, mas finalmente me recompus e segui na direção da porta do carro que Kazuki segurava aberta.
Uma mão sólida se fechou no meu braço. O aperto era forte, o que provavelmente causaria um hematoma roxo.
Voltei-me para encarar Sesshoumaru, que estava furioso. Vê-lo daquela forma fez-me lembrar da primeira vez em que o vi, quando tentava matar Inuyasha e a mim, embora minha morte fosse bastante insignificante para que fosse lembrada por ele.
Tive medo.
— Não me desafie. — ele disse, semicerrando os olhos e com voz cortante.
E com isso, ele voltava a ser o cretino imbecil que sempre imaginei que fosse.
Eu o odiei. Mas ainda assim, sorri. Não resisti. Fui embora.
Fkake: E aí galera, me amem. Pois sou eu que estou surtando no momento com essa budega e falando para a Ladie que temos que escrever loucamente. Geralmente é ela que surta e me faz escrever, enfim... amem mais ela.
Espero que gostem do capítulo, não esqueçam de deixar os comentários. Acredito que agora a história engrena para Sesshome, afinal, finalmente acabamos a parte introdutória da Kagome em seu novo mundo, espero que entendam o nosso cuidado com a fic, estamos realmente a tratando como se fossem um filho nosso. As vezes tem uns errinhos de digitação e tal, mas é que herrar é umano.
Enfim, estava querendo responder os comentários, mas resolvi que vou terminar o próximo capítulo aqui, então, se acalmem que vou responder a próxima postagem.
Se preparem, a fic está só começando galerinha.
ME DE SUA FORÇA PEGASUS!
Vou indo, bjs!
