Capítulo XVI — Hannibal, me come (mas não literalmente)

Biblioteca, abrigo dos fugitivos de perguntas constrangedoras. Bom, ao menos das perguntas constrangedoras de pessoas desconhecidas, pois mal estava ali sentada há dez minutos e Kenjiro sentou-se ao meu lado, com aquela careta que sempre fazia quando queria uma informação e as respostas estavam demorando demais para serem dadas, senti em meu âmago que hoje teria que responder as perguntas dos meus amigos. A certeza ficou mais viva quando Ruri e Arusa sentaram nas cadeiras a minha frente com expressões decididas.

Soltei um pesaroso suspiro e repousei a lapiseira sobre o caderno. Sabia quais eram suas perguntas por isso não era necessário que elas fossem proferidas novamente, com mais um suspiro pensei em como começar as explicações ocultando completamente o fato de eu ser uma hanyou e meus irmãos e... noivo serem youkais.

— Não sei como explicar para vocês. — confessei sentindo-me realmente exaltada com aquilo tudo. Ainda no corredor do portão principal para o portal de entrada do prédio do curso de medicina foram tantas perguntas que levei quarenta minutos para fazer um percurso que geralmente gasto entre cinco a seis minutos.

— Comece dizendo quando o conheceu e porque escondeu que estava saindo com ele. — sugeriu Kenjiro. Massageei minhas têmporas.

— A gente não chegou a sair... até o dia da festa... — Eles me olharam visivelmente confusos. — Fica entre nós quatro. — Eles concordaram com a cabeça e se aproximaram, eu continuei em uma voz muito baixa: É um casamento arranjado, aquele foi o primeiro dia que saímos juntos.

— Como assim, casamento arranjado? — questionou Kenjiro, parecendo um tanto indignado.

— Por causa da união das empresas? — agora foi a vez de Ruri perguntar com uma expressão indignada.

— Seus irmãos estão de acordo com isso?

— É meio complicado de explicar, de certa forma tem a ver com as empresas sim e meus irmãos não gostam nada da ideia, na verdade o Hideo e o Daiki mudariam de time e se casariam com o Sesshoumaru apenas para evitar meu casamento com ele.

— Não entendi, por que vai se casar com ele, então?

Certo, aquilo era uma pergunta que o Kenjiro não deveria ter feito, afinal, mentir para meus amigos é tão difícil quanto mentir para minha família. Contudo eu não posso desmentir a mim mesma; precisava sustentar a mesma história, por isso respirei fundo e respondi a pergunta buscando todo o resquício de confiança que existia em mim:

— Sou apaixonada por ele... Já o conhecia e o admirava... Ele deu a ideia de casamento para manter a união das corporações mais forte... Eu aceitei sem pestanejar. Meus irmãos estão apenas seguindo a minha vontade.

— Você o admirava? — questionou Arusa. — Apaixonada? Por que nunca nos contou?

— Não sabia como contar... E ele nunca demonstrou muito interesse por mim...

— Ele é um idiota por não se interessar por você. Eu me interessaria se não gostasse da mesma fruta.

— Obrigada, Ken.

— Como é o relacionamento de vocês dois?

— Somos como dois estranhos se conhecendo. É um pouco bizarro, mas torço para que fiquemos bem.

Meus amigos sorriram e começaram com as frases de incentivo e ressaltar minhas qualidades para que eu entendesse que apenas um cego, surdo, mudo e estúpido não se apaixonaria por mim e que eles estariam sempre comigo para me ajudar no que fosse possível, mesmo que possível se resumisse em me consolar e dar palavras de ânimo e no final compartilharem de minha felicidade.

Sério, fiquei me sentindo um monstro por ter mentindo para eles. Mas o que eu poderia dizer?


Por que o mundo se importa tanto com o meu relacionamento com Sesshoumaru? Não era como se ele fosse o Bono Vox ou qualquer coisa assim. Era só um cara — um cara de mais de quinhentos anos com poder para destruir milhares de seres humanos apenas por desejar; mas, ainda assim, apenas um cara.

Quando entrei no meu quarto, já foi com medo de encontrar outra caixa em cima da mesa. Dessa vez, em vez de um vestido, haveria uma corda, e o recado diria: "Enforque-se. T. S.".

Não havia caixa, no entanto.

Suspirei, aliviada, e continuei o meu ritual de desapego (leia-se, espalhar roupas, livros, sapatos e meias por todo o quarto e me jogar na banheira). Depois fui para o computador, enxugando o cabelo com uma toalha, e abri minha caixa de e-mails.

Surpresa, vi um e-mail que nunca esperei receber. Era um e-mail de Eri, uma antiga amiga da época do ginásio. Receber um e-mail de repente me lançou um vórtex de nostalgia e saudades. Nossa, aqueles tempos eram tão bons. Tão inocentes e primaveris.

Lembrei-me de repente de minhas outras amigas, e da escola, e de Houjo. E pensar que naquela época eu achava que os únicos problemas que eu tinha estavam na era feudal. Céus, como eu podia ser tão iludida?

Com um sorriso triste, abri o e-mail e me irritei, numa reação que estava se tornando bastante comum nos últimos dias. Eri, com quem eu não falava há séculos, mandava-me um e-mail perguntando como eu havia sido capaz de ficar noiva de um homem do cacife de Sesshoumaru.

Como se eu fosse uma mulher medíocre, incapaz de ter um relacionamento amoroso com um homem que valesse o preço bilionário de Sesshoumaru. Tá, ok... Isso é, de fato, verdade. Acho que isso é o que torna tudo ainda pior. Suspirei e respondi e-mail apenas perguntando sobre como ela estava e se ela tinha notícia dos nossos amigos. Não me estendi explicando sobre meu relacionamento com o demônio.

Meu celular tocou e eu não reconheci o número. Atendi.

— Senhorita Kagome, aqui é o Kazuki. — O assistente de Sesshoumaru disse, com voz calma. Estremeci. — Estou ligando para avisar que irei mandar para o seu e-mail a agenda dos eventos do próximo mês em que a senhorita terá que participar com o senhor Sesshoumaru, tal qual ele me solicitou que o fizesse.

Como é que era a história?

— Sesshoumaru pediu que você fizesse isso? — perguntei baixinho para Kazuki, sem crer.

— Sim, senhorita Kagome.

Aquilo era tudo o que eu precisava. Despedi-me de Kazuki e saí do quarto para procurar por Raiden, já que iria precisar mais uma vez dos seus serviços de espionagem.


Disquei rapidamente o número do celular particular de Sesshoumaru (Raiden me assusta seriamente com seu talento para o mal). Sei que deveria ter medo de Sesshoumaru. Qualquer pessoa teria. Até Hideo o teme. Ele é poderoso demais. Misterioso demais. Inflexível demais. No mínimo, eu deveria estar tímida em relação a ele. Isso em condições normais. Mas, poxa, era impossível agir assim, pelo simples motivo de que eu o conheço há séculos. Literalmente. Não é como se ele fosse um desconhecido. Havia visto muitas facetas dele no passado para simplesmente fingir que não tinha conhecimento disso.

Por isso, talvez, eu fosse tão impertinente. De alguma forma, não acreditava que ele pudesse fazer algo contra mim. Sei que é tolice pensar isso, mas não deixo de sentir como se fosse verdade.

— Taisho. — ele atendeu direto.

— Esse é o meu número, Sesshoumaru, caso você não saiba. E sim, quem está falando é sua noiva. — Cruzei os braços e, embora ele não pudesse me ver, acredito que a irritação era muito bem percebida no meu tom de voz — Caso queira me dar algum recado, tenha a decência de me ligar e dizer. Não mande seu cãozinho de estimação lidar comigo. Nós temos um compromisso de aparências, mas não sou uma prostituta para ficar lidando com o seu assistente.

Desliguei a chamada.

Nossa, eu iria pagar muito caro por esse meu discurso acalorado, ai, se iria.


Aquela movimentação no pátio só poderia significar uma coisa, e tal coisa me fez sentir um frio na barriga de nervosismo: finalmente as listas de aprovados para os estágios em hospitais em Tóquio estavam pregadas por grampo no painel, fazendo com que todos os alunos de medicina do terceiro e quarto ano estivessem ali presentes buscando seus nomes naquela esperança que, quando perdida, doía muito mais que um soco na boca do estômago.

Levei algum tempo para conseguir passar pela multidão, foi um trabalho árduo e realmente cansativo e dolorido, mas o resultado foi realmente satisfatório. Ver meu nome na lista dos estagiários para um grande hospital da cidade, um dos mais rigorosos para contratação e com certeza com a melhor equipe medica, foi umas das melhores sensações que tive nos últimos anos.

Além do meu nome estavam os nomes do Kashimoto Edward e Masako Sumire. Para se ter uma ideia de como esse hospital é rigoroso, todos os outros aceitam de cinco a seis estagiários, mas esse aceitava no máximo três, houve anos que apenas um nome estava na lista.

Fiquei tão eufórica que precisei colocar as duas mãos sobre a boca para não soltar um gritinho. Eu havia conseguido o melhor estágio! Embora esse estágio não tenha peso curricular algum, ele pode abrir portas para mim quando em momento de fazer a residência.

Quem se importava com Sesshoumaru Taisho, youkais ou seus problemas, quando se passa para uma vaga de estágio no Aiiku Hospital, o mais famoso e mais conceituado complexo médico de Tóquio e que, ainda por cima, foi o hospital onde eu nasci?

A minha euforia era tanta que nem ao menos liguei para comentários que começaram a ser proferidos ao meu lado, tais como:

— Era de se esperar que ela conseguisse.

— Esse tipo de concorrência não é justa.

Afastei-me daquela multidão e segui para sala de aula sentindo a felicidade preencher todo o meu ser enquanto aquele espanto de ter passado desvanecia.

Horário do almoço foi reservado para nossa comemoração. Kenjiro e Ruri havia conseguindo estágio no mesmo hospital e Arusa ficou reclamando que ao menos queria ter conseguido o estágio no mesmo hospital que eles, enquanto que na verdade havia sido aprovada para atuar em um hospital pouco conhecido, mas que estava atualmente crescendo muito em Tóquio.

— Nós aqui humildemente em nossos estágios e essa exibida passando no melhor hospital do Japão. — comentou Kenjiro me empurrando com o ombro, ri, meio sem graça com aquele comentário.

— Temos que convir que a Kagome estuda demais. — Agora foi a vez de Ruri comentar. Arusa apenas ergueu o suco de laranja, sorridente.

— Um brinde à Kagome que tem nos espantado a cada dia, sejam com irmãos, moradores lindos em sua casa, noivo tão rico e gostoso como os irmãos mais velhos... Com todo respeito.

— Eu entendi a intenção. — respondi rindo.

— Parabéns a essa exibida que fica nos colocando no chinelo... Maldita.

Rimos e brindamos.


Não era comum chegar em casa e encontrar Daiki sentado nos primeiros degraus da escada que levava para a porta da frente. Ele se levantou assim que me viu, o que indicava claramente que estava me esperando. Pude ver algo em suas mãos, mas não consegui identificar o que era.

— Quando foi que você se candidatou a essa vaga?

Ele ergueu uma cópia do papel que estava no painel de aviso essa manhã, lá estava o nome do hospital que eu iria estagiar, logo abaixo estava o meu nome. Pendi a cabeça para o lado entreabrindo os lábios, tentando entender o motivo de ele parecer transtornado com o fato de eu ter me inscrito em uma vaga de estagio, afinal, era de se imaginar que havia interesse de minha parte em me tornar residente em um grande hospital em Tóquio, uma vez que não estou fazendo o curso de medicina apenas para engavetar o diploma.

Daiki estalou a língua em um claro sinal de que estava irritado. Estreitei os olhos, ainda mais confusa com a reação dele.

— Não vai me responder?

— Até responderia, se eu soubesse porque raios você está me perguntando isso. — Passei por ele, entrando em casa, notando que aquilo era só o começo da conversa.

— Mas esse hospital?

— É um dos melhores do Japão, vai pesar no meu currículo quando for fazer residência.

— Faça estágio em casa... Temos praticamente uma clínica aqui.

— Não é a mesma coisa.

— Claro que é.

— Estou estudando para cuidar de humanos, não de youkais.

— Por que essa discriminação conosco? Queremos lindas médicas também. Não aguento mais ir aquele lugar e encontrar o feio do Nagi.

— Daiki, por favor. Isso que você quer não faz sentindo algum.

— Claro que faz sentido... Você não precisa fazer estágio nesse hospital.

— Eu realmente não quero discutir isso com você. — Entrei em meu quarto e coloquei o material sobre minha mesa de estudos, Daiki encostou-se ao batente da porta e ficou me encarando. — É sério, não faz sentido esse seu chilique. É um ótimo estágio, que vai pesar muito no meu currículo.

— Não sabe o motivo? Como não sabe o motivo?!

— Você está falando alto.

— Eu te proíbo! — Ergui a sobrancelha, ele estava com o rosto um pouco corado, indicando que estava falando sério.

— Daiki, vem cá. — Entrei no banheiro, ele me seguiu. Quando chegamos perto do boxe, eu o coloquei lá dentro e liguei a ducha.

— Kagome! — Ele tentou sair, mas espalmei minha mão em seu peito, o impedindo. Sabia que ele não usaria a força contra mim e me aproveitei lindamente disso.

— Volte a falar comigo quando ficar calmo e quando tiver motivos além de sua vontade para que eu não aceite o estágio... Até lá... Fique aí esfriando a cabeça. Tchau, maninho. — Saí, derrubando-o dentro do boxe.

— Você poderia ao menos entrar nua comigo! — O ouvi falar antes de sair do banheiro.

Segui para cozinha e comecei a torcer intimamente para que ainda houvesse iogurte em casa, e, com muita fé em meu coração, adentrei no local, encontrando Hideo sentando em uns dos bancos que circulavam o balcão. Ele estava com a gravata afrouxada e dois botões da camisa abertos, claro sinal de que havia tido um dia difícil e precisava relaxar... Engraçado que o relaxar dele se resume em ler jornal e tomar café com uma cara de poucos amigos que fazia a criadagem evitar o local onde ele estava "relaxando".

— Bem-vindo de volta.

Ele desviou o olhar do jornal para mim, acenando com a cabeça em seguida, voltei minha atenção para a geladeira encontrando uma enquete sobre se o vídeo de dança de ventre da Tomoyo deveria ser transmitido no sábado ou domingo à tarde; domingo estava ganhando.

— Graças. — Peguei o meu iogurte e sentei ao lado do meu irmão, que havia depositado o jornal sobre o mogno do balcão para me encarar. Hideo não costumava me olhar daquela forma a não ser quando estava procurando as palavras certas para iniciar uma conversa, resolvi poupá-lo desse trabalho — Quer me falar algo?

— Daiki me mandou algo hoje no escritório... Sua lista de aprovação em um estágio... no Hospital Aiiku.

— Vai me dizer que apoia a ideia dele do meu estágio ser aqui em casa com o Nagi?

— Ele não havia me dito sobre essa ideia... É uma boa ideia, vou conversar com o Nagi, você começa amanhã.

E com isso ele se levantou e saiu, resmungando que Daiki havia sido finalmente útil.

Aquilo foi tão bizarro que meu cérebro levou um minuto inteiro para entender o que havia acontecido. Corri atrás de Hideo e o encontrei conversando com Nagi em seu escritório, por algum motivo que apenas os deuses sabem, meu irmão estava determinado em não me deixar fazer aquele estágio, até mesmo Daiki apareceu — molhado — dizendo que poderiam me enviar para a Coréia do Sul todos os dias para estagiar em algum hospital lá... Quando me vi completamente perdida e sem saber como dobrar meus irmãos (e malditamente irritada com o sorriso torto do Nagi) gritei pela última salvação: Aika.


Foi impossível convencer Hideo a me deixar fazer o estágio. E olha que meus irmãos tentaram de tudo para me dissuadir. Desde promessas de chocolates pelo infinito até a chantagem emocional de dizer que eu já estava estagiando para a Empreendimentos Tsubasa, e deveria colocar em primeiro plano os compromissos que eu havia firmado anteriormente.

Para aliviar minha barra, eu fiz a promessa de estagiar para a Empreendimentos Tsubasa nos sábados e qualquer outro dia livre. De fato, seria cansativo, mas, ao que parecia, fazer esse estágio para apreender sobre administração e gestão era muito importante para o Hideo.

A questão é que fazer esse estágio no Aiiku era importante para "mim", e meus irmãos tinham que entender isso. Assim como tinham que entender que eu era dona do meu nariz e fazia o que bem entendesse com o meu tempo.

Portanto, depois de muita luta e discussões, aqui estou eu, orgulhosa em meu jaleco branco (no qual estava pendurado um crachá com os enormes dizeres ESTAGIÁRIA), ao lado de Masako Sumire e Kashimoto Edward, esperando que o Diretor-Geral do Aiiku viesse nos receber.

Estou tão emocionada que quase não consigo aguentar. É como um sonho se realizando, mais perfeito que isso seria voltar aqui para a residência, mas essa era uma luta para daqui a alguns anos e todos diziam que o programa de pós-graduação financiado pelo Aiiku era muito concorrido.

Agora tenho que me contentar com ser Estagiária (e ouvir piadas toscas sobre como estagiários estavam na base da cadeia alimentar de Yuri ou Nagi).

Enquanto observava Kashimoto torcer as mãos ao meu lado de nervosismo, eu percebi, confusa, a presença de um youkai se aproximando. Ansiosamente, levei minha mão ao pingente negro em forma de pena que pendia de meu pescoço — desde o dia em que fui atacada pelas serpentes, eu nunca mais me atrevi a ficar sem aquele colar.

Como se o nervosismo que eu já sentisse não fosse suficiente, agora tinha isso!

O youkai finalmente apareceu, um senhor baixinho de nariz pontudo, usando um jaleco branco que tinha os botões querendo sair da casa na região de sua barriguinha saliente. E por saliente, digo, tinha um formato muito estranho, como ele usasse uma boia em volta da barriga.

Ele manteve um olhar de escrutínio fixado no pingente em meu pescoço antes de erguer os olhos para me encarar. Parecendo insatisfeito, ele finalmente disse:

— Sou Hazari Kaishi, Diretor-Geral do Aiiku Hospital.

Que ótimo, agora, para variar, o diretor do hospital no qual eu estagiaria era um youkai! Perfeito! Lindo. Respira Kagome, força na peruca e vai — não sei para onde, mas vai.


Para minha intensa felicidade o Diretor-Geral tinha mais o que fazer além de ficar guiando estagiários pelo complexo. Por essa razão, após sua apresentação e fala poética de como o Hospital Aiiku se tratava de um lugar de grande legado de um século e índole inabalável e como deveríamos ser dignos de estar nesse local e que tínhamos o dever moral de sermos adequados para tal estágio (quantos "e", meu deus, esse homem não tem noção que isso só nos confundiu mais?). Lindo, começar um estágio com esse tipo de sermão.

Ele se despediu de forma condescendente e pediu para que sua assistente, uma humana magricela e pálida — que me fez pensar se não havia algo de errado com essa mulher — levasse a mim e aos meus colegas em um tour pelo hospital. Como se tivéssemos seis anos e estivéssemos em uma excursão.

Enquanto isso, em minha mente se passava um filme, em meu primeiro ano quando toda aquela loucura de irmãos, youkais, casa nova passou e comecei a me focar completamente em meus estudos. Lembro-me de quando ficava conversando com meus amigos mais chegados sobre as possibilidades de estágio que a Universidade nos oferecia e nossos planos quanto ao nosso futuro na medicina. Conforme ia saindo os resultados anualmente de estágios e vendo como era difícil alguém conseguir entrar nesse hospital, comecei a me interessar mais, primeiramente havia apenas o fato de eu ter nascido aqui, mas, depois, pelas oportunidades que um estágio nesse local dava aos estudantes quando estes concluíam o curso. O peso do nome Aiiku era realmente significante no currículo de um estudante de medicina.

Agora, mesmo estando aqui, parece irreal, estou com aquela sensação de sonho e com um sorriso bobo no rosto, tentando conter, mas estou falhando miseravelmente. Senti-me um pouco ofendida quando a assistente do diretor-geral — a qual não guardei o nome — nos levou até um escritório onde tivemos quer ler um contrato, o qual deixava claro que o primeiro mês era meramente avaliativo, no qual seria decidido se iríamos ou não ser oficialmente admitidos. Assim que assinamos, ela nos mandou embora. Assim pura e simplesmente disse:

— Estão dispensados, começam segunda as dezessete horas, não se atrasem.

E ela saiu sem nos dar qualquer oportunidade de perguntar o que estava havendo, respirei fundo e segui para fora do escritório. O que mais poderia fazer? Gritar e implorar para que me deixasse trabalhar?


— Você não cozinha mais. — comentei, olhando para a televisão.

Nagi ergueu a sobrancelha e se moveu no sofá me fazendo deslizar pelo tecido e ficar escorada em seu ombro.

— Primeiro, você nem sabe se aquele pedaço de carne que ele está cozinhando é de um humano...

— É Hannibal, claro que é humano!

— Como pode saber?

— É... HAN-NI-BAL!

— Grita de novo no meu ouvido e juro colocar no canal de compras.

— Tem certeza? Da última vez comprei aquela fantasia de coelho para você... Coloca lá, o que será que está vendendo hoje?

— Desligo, então.

Ele cruzou os braços enquanto eu imitava o que ele havia falado com uma voz esganiçada que teoricamente deveria ser a dele. Voltei a prestar atenção na nova série que havia obrigado Nagi a assistir comigo. Aliás, péssima ideia, estou com medo de tudo que ele cozinha com carne agora, afinal, estamos ainda nos primeiros episódios, eu apenas vi o Hannibal cozinhar e já estou pensando em como esses dois são parecidos.

— Caraca... Hannibal, seu lindo! Sou sua! — Eu me levantei, Nagi segurou meus quadris e me obrigou a sentar de novo; quase caí em seu colo.

— Vou desligar essa porcaria.

— FAÇA ISSO E EU VOU COMER SEU RIM NO JANTAR!

— Mão.

Olhei para baixo e lá estava minha mão na virilha de Nagi. Acho que vermelho foi o único tom de cor que não atingi naquele momento. Cruzei os braços e fiquei encarando a televisão emburrada, quando o olhei de canto notei que esse safado estava com aquele meio sorriso pretensioso.

— Cheguei, me amem! — um idiota gritou.

— Sai da frente da TV, Daiki.

Daiki me olhou de forma magoada, mas em seguida olhou para televisão e sentou ao meu lado abrindo a latinha de cerveja que trazia consigo.

— Hannibal, bom... O único cara para quem eu daria. — Olhei perplexa para o meu irmão. — Daria mesmo! Hannibal, o meu c...

— Não diga isso!

— ... é seu! É seu! — Ele apontou várias vezes para televisão e por fim fez um coração no ar e voltou a se recostar no sofá passando o braço pelo meu ombro e me fazendo inclinar para ficar com a cabeça em seu peito.

— Seu louco.

— Kagome, precisamos conversar. — disse Hideo, da porta.

— Agora não, estou admirando o pai dos meus filhos nesse momento.

Eu não me virei para encarar Hideo, mas pelo suspiro que ele deu, acredito que entendeu de quem eu estava falando.

— Me encontre na biblioteca.

— HANNIBAL, SEU LINDO!

Gritar isso não foi assustador, assustador foi que Daiki gritou junto comigo.

— Sempre soube que esse tubarão era golfinho. — resmungou Nagi.


— Queria falar comigo? — Entrei na biblioteca meio cautelosa, pois mesmo batendo antes de entrar já havia flagrado algumas coisas que faço questão de esquecer naquele local envolvendo Aika e Hideo.

— Sim, sente-se.

Sentei na cadeira em frente à mesa que meu irmão estava. Hideo ficou encarando o papel que tinha em mãos, como se eu tivesse invadido sua sala enquanto estava ocupado e não que tivesse me intimado para ir ali no meio do episódio de Hannibal.

Eu conheço bem esse teatro. Não existe ninguém mais dissimulado que meu irmão mais velho.

— Então? — perguntei ansiosa para voltar à sala e ver pelo menos o gran finale do episódio.

Hideo abaixou a folha de papel.

— Então, como foi seu primeiro dia de estágio, o qual eu claramente me coloquei contra, no Hospital Aiiku? — Ele questionou, cruzando as mãos sobre a barriga. Havia mesmo necessidade de ele enfatizar que desaprovava meu estágio?

— Não aconteceu nada relevante. — falei, tentando controlar minha decepção. Se ele percebesse que eu estava infeliz, só iria ter mais forças para reclamar da minha escolha.

— Não encontrou ninguém... relevante?

Cruzei os braços e fechei minha expressão.

— Sim, encontrei. — falei. A reação de Hideo foi descruzar as mãos e se inclinar para frente, meio ansioso — Precisava mesmo fazer todo esse estardalhaço por que não queria que eu encontrasse um mísero youkai? Aquele diretor é mais gordo que meu gato, e bastou olhar para o pingente para resolver me ignorar. — disse, tocando o colar para explicar o que eu queria dizer.

— Diretor? — disse Hideo, confuso.

— KAGOME, HANNIBAL JANTANDO COM A GOSTOSA! — ouvi Daiki no corredor.

Não faço ideia do que o Hideo falou, simplesmente saí correndo da biblioteca quase derrubando a cadeira ao me levantar. Pulei no sofá caindo sobre meu irmão e o psicopata médico que atende pelo nome de Nagi, ambos soltaram um "ai", mas eu os mandei ficarem quietos enquanto encarava a televisão.

Mais tarde, naquela mesma noite, quando fui à cozinha para tomar meu habitual copo de leite antes de dormir, encontrei um seguinte recado em bilhete adesivo.

"Foda-se se sou hétero, Hannibal me coma! By Daiki."

"PORRA, NEM ME CHAMAM PARA VER O HANNI-ME-POSSUA-BAL? by Hiroko"

"Kagome que foi ver com o psicopata da casa. By Daiki"

"NAGI NÃO COZINHA MAIS! by Hiroko"

"Traído pela irmã. By Nagi"

"Vem cá Nagi, que te consolo. By Yuri"

"Vai atrás de vibrador e suma daqui. By Nagi"

"Nagi... Você vibra de alegria? By Ryo."

"Estava pensando, como será o corte de um motosserra em carne youkai? Fiquei curioso, vou até um departamento de ferramentas adquirir um. By Nagi"

"CORRE NEGADA! By Daiki"

"Pela primeira vez, concordo em tudo que meu irmão disse, HANNIBAL ME POSSUA. By Kagome."

Rindo como uma lunática, voltei para cama. Como podem morar tantos loucos em uma casa só?

Para aumentar minha incredulidade, acordei durante a madrugada com Tomoyo e Daiki me abraçando. Sério. Simplesmente invadiram meu quarto e deitaram comigo. Fiquei meio atordoada com aquilo, ainda mais quando notei que a luz do meu quarto estava acesa e Ryo e Yuri deitavam em minha cama, apavorados. Quando minha mente ficou completamente desperta foi que notei que aquele barulho de motor não era da televisão que certo mal-educado — leia-se Daiki — insistia em deixar no último volume quando assiste filmes de terror.

— O que está havendo?

— Sei lá, os vi vindo para seu quarto, vim tirar casquinha também. — respondeu Tomoyo dando de ombros.

Pisquei algumas vezes e tentei me levantar, mas os três marmanjos em minha cama me seguraram.

— Não, ele está vindo. — comentou Yuri.

— Irmã, não saia daqui. Me proteja.

— Que diabos está acontecendo?!

Nagi entrou em meu quarto deixando claro que estava havendo a duas da manhã naquela casa: ele estava com um motosserra. Sim, exatamente, um motosserra!

Meu coração batia que nem um louco. O que é isso? Uma espécie de pesadelo? Passei muito tempo assistindo Hannibal? Daiki me abraçou, apertando-me contra ele enquanto Ryo e Yuri se aproximavam mais de mim. Sou pequena, mas no meio daqueles três estava me sentindo minúscula.

— Venham aqui e sejam youkais machos.

— Minha macheza ficou no quarto. — disse Yuri.

Nagi se aproximou, acelerando o motosserra. Pude ver Hiroko encostada no batente da porta rindo, mas rindo como se não houvesse amanhã, às vezes ela se apoiava sobre os joelhos recuperando o ar, mas logo voltava a rir.

— Venha aqui, é para o bem da ciência.

— Pega a ciência, dobra ela e enfia lá.

— Daiki, você será o primeiro.

— Primeiro, teu rabo... Desliga essa porcaria e venha lutar comigo como um tengu de verdade.

Nagi desligou e ergueu a sobrancelha, em uma clara intimação para que Daiki fizesse que o que havia prometido. Foi nesse momento que Hideo resolveu aparecer para saber o que diabos estava acontecendo. Corei ao notar que ele estava apenas com uma cueca boxer azul, Aika estava logo atrás com um roupão — que pelo tamanho deveria ser do meu irmão — com a sobrancelha franzida, quase pude ler em sua testa a frase "Eles são os motivos de eu ter cabelo brancos um dia, mesmo eu sendo uma youkai".

— Que porra é essa?

Ok, Hideo falando palavrão... Ferrou.

— Eu estava apenas tentando fazer testes, mas eles não são solícitos. — respondeu Nagi com aquela cara lambida dele, de quem estava completamente sério em suas convicções.

— Todos para o quarto de vocês... Preparem para ficar esse mês sem pagamento.

— Mas chefe... Ele que apareceu do nada com esse motosserra. — tentou argumentar Yuri.

— Eu avisei na geladeira.

— SUMAM DO QUARTO DA KAGOME E TODOS SEM SALÁRIO!

— O tiramos do bem bom com a Aika, aí está as consequências. — comentou Tomoyo, saindo calmamente do meu quarto.

— Eu durmo aqui. — respondeu Daiki deitando em minha cama e me puxando para deitar com ele.

Ryo e Yuri saíram correndo quando Nagi ligou de novo o motosserra e ameaçou ir até eles, Hideo o obrigou a desligar e confiscou a motosserra, mandando-o sair dali antes que o enviasse de volta para Sapporo. Aika foi até Daiki e o levou do meu quarto pela orelha. Hideo precisou ajudar Hiroko a se levantar de tanto que ela ria.

— Bando de anormais. — reclamei, tentando voltar a dormir... Não consegui... Fui para a sala assistir Hannibal.


Ladie: Gente, a gente não respondeu reviews por que entramos em consenso QUE PRECISÁVAMOS POSTAR ESSE CAPÍTULO O QUANTO ANTES.

A Fkake escreveu praticamente tudo nessa porra, e me fez passar mal três vezes de tanto rir. (Sério, gente, ela está de prova, foi algo horrível).

O capítulo está cheio de piadinhas internas, então espero que vocês nos perdoem. Mas o bom de se ter sua escritora preferida escrevendo uma história com você é que você surta e ainda dá para obrigá-la a reescrever se você não gostar.
Então, até mais, espero que gostem. 1bj.