Capítulo XVII — OAB Chinesa em Forma de Estágio de Medicina

Domingo, ah, doce domingo.

Em toda a minha vida, nunca fiquei tão feliz em estar na minha cama. Sério. Nem mesmo quando voltava das semanas na Era Feudal, época onde dormia no chão, às vezes, quando tínhamos sorte, nas casas de senhores onde Miroku realizava algum exorcismo vagabundo e assim conseguia um teto para nosso grupo, eu ficava tão feliz em estar na minha cama. Viagens exaustivas, batalhas que consumiam toda minha energia, tanto física quanto mental; rotinas loucas de estudo no meio de batalhas e depois ficar em casa suportando o estresse de estar atrasada na matéria e ter que correr atrás do prejuízo... Mesmo com esse tipo de experiências em meus poucos quinze anos de vida, eu posso dizer que neste domingo em questão minha alegria de estar em minha cama, sem ter qualquer preocupação de universidade ou estágio, é inenarrável.

Aquela semana havia sido a demonstração de que o inferno está na Terra, e que nós estamos aqui para sofrer. Que estágio filho de uma mãe! Cada fibra muscular dos meus pés estava me matando.

Quando estou no hospital, sinto-me uma escrava no meio de alguma colônia rural. Cada enfermeira ou enfermeiro, médico ou médica, faxineiro ou faxineira, ficava me encarando. E me davam tarefas. Simplesmente levei uma bronca porque os meus sapatos sujaram o chão do hospital e a faxineira me deu o esfregão. Sim, ela me fez limpar o andar inteiro! E ainda fiquei ouvindo durante a limpeza o quanto eu não possuía consideração por não ter limpado os sapatos antes de sair do elevador. Minha vontade era de falar:

— Dane-se, velha maldita!

Mas a educação me fez ficar calada e limpar o andar como havia sido ordenado. Isso foi no meu primeiro dia. Imagina como foram os outros.

Sim, muito piores.

Um dos médicos mandou que eu levasse o paciente até a casa dele. Outro ordenou que eu fizesse uma análise clínica e depois ficou me humilhando na frente de todos dizendo o quanto eu estava sendo pretensiosa de achar que tinha qualquer qualificação para dar algum diagnóstico (por que perguntou então, desgraça?). Dar banho de esponja em senhores de idade, pois as enfermeiras acharam que eu deveria fazer isso, mesmo que esse tipo de tarefa fosse exclusivamente da enfermaria.

A questão é que isso se tratava de um estágio, eu não deveria estar realizando quaisquer trabalhos, nem mesmo lidar diretamente com pacientes, pois minha formação ainda não está completa. Estou aqui apenas para observar os médicos e as instalações. Então por que inferno estou fazendo esse tipo de trabalho? Aliás, por que apenas eu estou fazendo isso? Kashimoto e Sumire estão fazendo o que deveriam: observar e anotar. Eu sou a única que está sendo tratada como prisioneira de guerra.

Para variar ainda existia a inegável existência de youkais no hospital. Durante a semana consegui encontrar todos, claro que me mantive afastada, mas minha curiosidade me fez investigar aquilo. Eram três. Dois médicos e uma enfermeira. Conforme informava meu catálogo mental, eles não eram tengus, kitsunes ou tais, o que me fazia questionar que outros youkais superiores existiriam. Há também a possibilidade de haver hanyous, mas estes podem encobrir suas presenças com facilidade, então eu não conseguiria identificá-los.

O Hospital Aiiku tinha grande potencial para ser perigoso. No entanto, por mais horripilante que fosse, eu aguentaria aquela situação e faria o meu melhor. Afinal, estar aqui foi escolha minha e, portanto, a responsabilidade de fazer isso dar certo é apenas minha também. Se vou ter que aguentar desaforos e tarefas dispendiosas... Bom, então assim será.

Para comprovar em como esse estágio é na verdade o treinamento russo de espionagem, logo no começo do meu horário, na segunda-feira após o meu domingo glorioso de descanso, o médico responsável pelos casos de pronto-socorro me questionou diretamente (sim, ele disse "Higurashi-kun" e tudo) sobre o que fazer em caso de queimaduras de terceiro grau. Eu respondi em termos técnicos sobre os métodos de raspagem de pele estudado pelos cirurgiões plásticos e sobre as substâncias que poderiam ser utilizadas para impedir infecções e acelerar a regeneração.

Assim que terminei de responder, o médico riu e disse:

— Sempre pretensiosa, Higurashi, sempre pretensiosa. — E deu mais uma risada condescendente, daquelas que se dá para crianças que repetem tudo o que os pais dizem, sem, no entanto, ter conhecimento de seu significado.

Pálida, acompanhei Kashimoto e Sumire enquanto o médico nos levava para as clínicas de emergência. Percebi que Kashimoto atrasou-se um pouco para ficar meu lado e então tocar meu braço com gentileza. Ergui os olhos para ver o sorriso dele. Kashimoto sempre foi admirado como um rapaz de beleza ímpar, mas eu o achava apenas insosso. Acho que isso é efeito colateral de conviver com os tengus-modelo-da-Vogue.

— Está tudo bem, Higurashi... Você respondeu corretamente. — Ele aproximou-se mais, para sussurrar — Tem algum motivo em especial para a equipe ter sido instruída a te assediar moralmente?

Duas enfermeiras nos olharam feio, como se fôssemos um casal de namorados e aquele fosse o local errado para termos demonstrações de afeto. Da palidez mórbida fui para o rubor extremo, e me afastei de Kashimoto, fazendo-o perceber como sua aproximação era inadequada.

Mas aquela pergunta ainda estava na minha cabeça.

Quem seria poderoso o suficiente para fazer a equipe de um renomado hospital dar tanta importância em tentar humilhar uma mera estagiária?

Apertei os dentes com tanta força, que quase podia ouvi-los ranger.

Maldição!


— Hideo! — gritei enquanto tirava os sapatos na entrada da Mansão Corvo. Meu irmão mais velho odiava gritos, mas quando se vive com aquela corja de tengus, gritos às vezes era a única forma de se comunicar.

Yuri que estava passando pelo arco que separava a sala do hall de entrada, deu meia-volta enquanto gritava:

— FIQUEM LONGE DA KAGOME! ELA SURTOU DE VEZ?! NAGI, EU DISSE QUE ELA NÃO IRIA ESQUECER VOCÊ COM AQUELE MOTOSERRA!

Desviei o olhar do local onde Yuri havia desaparecido e rolei os olhos. Comecei a subir as escadas correndo. Meu sangue estava fervendo de raiva, mas tanta raiva, que nem ao menos me preocupei em ser educada e bater na porta do quarto do meu irmão antes de adentrar no aposento.

— Kagome?

Respirei fundo e ignorei completamente o meu desconcerto de ver meu irmão apenas de cueca. De novo. Ele estava com cabelo úmido e a toalha em volta do pescoço, deixando claro que havia saído do banho. Respirei fundo e me concentrei em minha raiva.

— O que diabos você fez?! Quem você está pagando?!

— Como? — Ele cruzou os braços.

— Não se faça de inocente!

— Não faço ideia do que está falando. — Ele voltou a caminhar seguindo para o closet, eu o segui.

— Estou falando de você, usando sua influência para me fazer odiar o meu estágio! — falei apoiando as mãos no batente da porta, bloqueando a passagem dele.

— Repito, não faço ideia do que está falando. — Ele se inclinou abrindo uma das gavetas e apanhando uma calça de moletom, vestiu-a e pendurou a toalha em um dos ganchos na parede. Voltou a me encarar, cruzando os braços. — Aconteceu algo?

— Estou sendo perseguida até pelos faxineiros daquele lugar. Todos me fazendo cumprir tarefas que nenhum outro estagiário precisa. Fazendo de tudo para eu odiar estar naquele lugar.

— Está odiando o seu estágio?

— Não!

— Você disse... — Ele parou no meio da frase e franziu o semblante. — Como assim sendo perseguida até pelos faxineiros?

— Me fizeram lavar o banheiro todo vomitado hoje... quase que vomitei também. Sinceramente, não acredito que você...

Em um momento eu estava brigando com o Hideo e em outro momento eu estava sendo jogada como se fosse um saco de batatas na cama de casal dele, enquanto ele saía aos berros chamando Aika. A última coisa que consegui ouvir dele foi:

— Chame meus advogados. Vou levar aquela espelunca à falência! Como ele ousa fazer a minha irmã de faxineira?!

Fiquei tão confusa com a reação do meu irmão que levei uns pares de minutos para me levantar e ir atrás dele, cheguei a tempo de ver Aika massageando as têmporas com uma expressão cansada enquanto Hideo falava rápido, agitando os braços pelo ar, completamente envolvido em seu monólogo.

— Eu quero o diretor daquela joça na minha sala amanhã. Eu vou fritar as orelhas dele no óleo e servir aos cachorros! — Aika ainda resmungou um "não temos cachorros" — Quero que aquele local fique sem dinheiro para comprar um clipe de papel.

— Que o papel higiênico da casa do diretor seja de segunda qualidade e ele fique com a bunda assada! — completou Daiki, que só então eu percebi que estava do outro lado de Aika.

— Calados! Estou ficando com dor de cabeça de tanto que vocês dois estão falando. — O olhar dela veio para mim. — Kagome, querida, o que está acontecendo?

Aika empurrou Hideo para cima de Daiki com tanta brutalidade que os dois quase foram para o chão. Ela repousou a mão sobre meu ombro. Pelos seus trajes sociais, acredito que ela havia acabado de chegar em casa.

— Hideo usou a influência dele no hospital e estão todos me perseguindo lá.

— Ele fez o quê? — Aika se voltou para o meu irmão com um olhar tão tenebroso que me fez dar um passo para trás.

— Você é o responsável por ela estar limpando vômito?! — Daiki me abraçou. — Agora eu sou seu único irmão. Esse monstro nunca mais irá lhe atormentar.

— O quê? Eu não fiz nada.

— Então por que todos lá estão me perseguindo? Quem mais teria tanta influência naquele lugar? Os meus professores me tratam como princesa até hoje por causa de suas visitas na Universidade, por que seria diferente no hospital?

— Eu não acredito que você está fazendo nossa irmã sofrer assim. Papai ficaria magoado.

— Hideo, se explique. — pediu Aika, ameaçadora.

— Eu não usei minha influência... Até porque seria mais fácil impedir que eles a admitissem em vez de fazê-la sofrer desse jeito. Eu seria incapaz de fazer algo assim com a minha única irmã.

— Então por que estão me perseguindo? — A pergunta foi mais para mim que para os três tengus que estavam ao meu lado.

— Não faço ideia — Hideo responde, estreitando os olhos, Aika se aproximou dele segurando seu ombro. — Eu não sou culpado, mas vou resolver essa história.

Ele se soltou das mãos de Aika e saiu a passos largos, ela o seguiu, mandando esperar... Estou mais confusa agora. Olhei para Daiki, mas ele apenas deu de ombros com um sorriso ingênuo.

— Vou contigo amanhã no estágio para te proteger desse povo malvado.

— Longe do meu estágio. Caso contrário, volto para casa da minha mãe por um mês.

Ele ainda reclamou enquanto via me afastar. Entrei em meu quarto e, sem me preocupar com o que estava vestindo, apenas me joguei em minha cama, empurrando meu gato para o lado. Apaguei. Simplesmente assim. Sem sonhos. Acordei mais cansada do que havia ido deitar.


Tenho certeza que não era função de um estagiário fazer uma relação dos móveis que estavam no almoxarifado e que ainda poderiam ser úteis para a instituição. Tenho certeza absoluta que essa é uma questão administrativa e não médica. Mas, tudo bem, tudo ao seu tempo.

Afinal, eu não tinha dito que aguentaria tudo? Pois aguentaria.

Muito embora Hideo tenha dito que daria um jeito na situação, eu preferi resolver a questão sozinha (afinal, depois da reação deles, devo crer que eles não resolveram fazer um inferno da minha vida, mas que estou sendo perseguida apenas pelo acaso). Inclusive, tive que pedir para que Aika intercedesse. Para a minha sorte, Hideo teve que viajar para Sapporo urgentemente sobre um problema com algum investidor de Taiwan (não entendi muito bem, então, não me peça para ser esclarecedora).

Resultado: Ryo e Daiki estavam organizando uma orgia, da qual Yuri não faria parte (já que estava namorando minha amiga Ruri) e Nagi deveria ser despistado para não estragar a "diversão". Engraçado que eles falaram isso na minha frente sem preocupação alguma, mas foi só Aika aparecer na porta e eles mudaram de assunto.

O.k., tenho mais o que fazer do que me preocupar com aquelas pragas. Como, por exemplo, listar essas porcarias de móveis.

Soltei um gemido de cansaço. Olhar aquela pilha de móveis me dava preguiça de existir.

— Caramba... A renite lhe manda um abraço.

Sobressaltei e girei meu corpo para encarar o dono daquela voz. Kashimoto pegou uma cadeira que estava sobre duas mesas que deveria ter pertencido ao refeitório. Ele colocou a cadeira no chão e me fez sentar. Estreitei os olhos, confusa. Ele apenas sorriu, tirou o jaleco branco e começou a dobrar as mangas da camisa social preta que usava.

— Eu vou abrindo espaço e você vai anotando. Mulheres não devem carregar tanto peso. — Ele sorriu de forma charmosa e empurrou uma caixa com o pé, observando o local.

— Não precisa...

Tentei me levantar, mas ele apoiou as mãos em meus ombros e me fez sentar novamente. Corei ao perceber sua aproximação, afinal, ele havia se inclinado em minha direção.

— Você tem sido explorada essas duas semanas por esse pessoal... Permita que eu lhe ajude um pouco.

— Não precisa.

— Eu sei, mas infelizmente quem decide que vai ajudar ou não sou eu. Então, anote o que vou lhe dizendo. Em dois acabamos isso mais rápido.

Fiquei constrangida em recusar ajuda dele novamente. Então, apenas sorri e agradeci. Kashimoto sorriu, afastou-se e começou a empurrar algumas mesas, comentando se elas estavam firmes o suficiente para serem usadas. Depois de duas horas cansativas em que precisei ocasionalmente ajudá-lo a empurrar um armário de arquivos ou um baú com velhas roupas-de-cama, nós dois nos sentamos cansados em volta de uma mesa que deveria ter sido de algum dos consultórios.

— Obrigada.

— Imagina. Não foi nada.

— Vem. — Apertei levemente o braço dele. — Vou lhe pagar um café.

— Não precisa.

— Você também não precisava me ajudar. — Sorri. — Não seja um machista chato, não lhe cai bem.

— Certo. Mas apenas um café. — ele respondeu, levantando-se. Fomos até uma das salas de descanso.

Chegando lá, fui pegar o café que havia prometido e sentamos em uma das mesas do centro. Já estava tarde, perto das vinte e duas horas, mas mesmo assim se via alguns grupos de médicos e enfermeiros por ali. Nunca tinha vindo aqui nesse horário, fiquei realmente surpresa com a quantidade de pessoas. Kashimoto pareceu ler minha mente e explicou que uma longa cirurgia havia se iniciado mais cedo e que provavelmente aquela era a equipe, ao julgar pelas suas expressões cansadas.

Soltei um "hum" de entendimento e voltei minha atenção ao meu colega de estágio, foi aí que percebi que ele havia sentado na cadeira ao meu lado e não de frente para mim, o que geralmente aconteceria. Senti-me um tanto constrangida.

— Não entendo essa perseguição que você está sofrendo. — comentou Kashimoto, dando uma golada em seu café logo em seguida. — Tudo bem que você tem as melhores notas de nossa turma e é esperado que se destaque. Mas isso é... sei lá... nem tem palavras para explicar o que está acontecendo aqui.

— Me destaque?

— Claro... Quer dizer, não me entenda errado. Mas você tem chamado muita atenção desde o começo do curso. Entende, seus irmãos... Suas notas.

— Meus irmãos são loucos... Um normalmente age como retardado, mas às vezes é estranhamente calculista. E o Hideo finge ser uma pedra de gelo, mas é um retardado pior que o Daiki. — Pendi a cabeça para o lado, curiosa. — Espera, chamo tanta atenção assim?

— Não estou falando apenas de sua vida pessoal, digo, seus irmãos apareceram, todos descobriram que você é de família rica... Só que não é apenas isso... Você sempre chamou. Todos da nossa turma dariam um braço pelas suas anotações. E eu estou me incluindo nesse rol.

— Caramba. Mas minhas anotações nem são tão boas. O Kenjiro é muito mais organizado e muito mais esclarecedor em suas anotações.

— Mesmo assim, suas notas são melhores.

Fiquei sem graça de dizer a ele que morava com dois formados em medicina que me davam exercícios tão demoníacos que faziam com que as provas dos meus professores fossem equiparadas a exercícios da pré-escola nos quais você precisa ligar os pontos para fazer um desenho. Kashimoto se inclinou para o lado oposto ao meu, pegando o celular no bolso da calça jeans.

— Desculpe Kagome, mas preciso ir. — Ele sorriu e beijou minha bochecha. — Obrigado pelo café.

E sem esperar que eu me recuperasse do constrangimento que o beijo em minha bochecha causou, ele se afastou. Levei quase dez minutos para entender que Kashimoto era mestiço e por isso deveria estar acostumado com aquele tipo de gesto, como se despedir com um beijo na bochecha.

Recuperei a compostura, terminei meu café e fui embora para minha casa. Torcendo para não me darem nenhuma tarefa entre o percurso do refeitório ao estacionamento. Eu estava com sorte hoje.


Ruri havia me ligado mais cedo dizendo que o pessoal iria sair, e perguntou se eu não queria ir também. Já que Yuri iria buscá-la, ele poderia muito bem me dar uma carona.

Geralmente eu não perco uma chance para sair com meus amigos, mas hoje não dá. Sério. Eu estou exausta e só quero sentar em algum lugar confortável e virar um vegetal.

Então, quando saí do meu quarto, eu fiz questão de evitar a sala de cinema (era impossível chamar um lugar com uma tela de 120 polegadas de sala de televisão) quando ouvi a gritaria de Daiki, Ryo e Tomoyo. Eu sei que meu irmão é um lindo e tudo o mais, mas qualquer pessoa que viva na Mansão Corvo precisa de um descanso de vez em quando. Até mesmo eu preciso me distanciar do Daiki vez ou outra. Ele é simplesmente intenso demais. Parece que a bateria nunca enfraquece.

Peguei duas cervejas na geladeira e fui para o jardim, onde surpreendentemente encontrei Raiden sentado, olhando pro nada.

Aproximei-me e estendi uma cerveja:

— Quer uma?

Ele encarou a garrafa por uns segundos, então finalmente pegou, abrindo sem muita cerimônia e tomando um gole.

— Então... — falei, usando o cós da minha camisa para abrir a minha cerveja — Por que está aqui sozinho?

— Eu sempre estou sozinho em algum lugar, hime-san.

— Já disse para você não me chamar assim. — reclamei, rolando os olhos, e tomando um gole da cerveja — Nossa... Como essa cerveja está doce... Acho que isso é por que minha vida está amarga.

— Isso era para soar poético? — Raiden perguntou, destilando ironia de novo. Case com ela então, maldito, e sejam felizes. — Você não tem treinado ultimamente.

— Estou sem tempo. — falei, com um suspiro — Fico entre a escravidão no Aiiku, a ditadura do Hideo na Empreendimentos Tsubasa, faculdade... Quando o dia tiver 48 horas eu volto a treinar.

— Bom... — Ele disse, respirando fundo — Amanhã é lua minguante, eu aconselho você a não ir para o estágio. Tem youkais lá e eles podem tentar alguma coisa se descobrirem que é o dia em que você é completamente humana.

— Eles não são perigosos. — argumentei, tocando o pingente em forma de pena.

— A gente não brinca com essas coisas, hime-san. — Ele disse, enfatizando o tratamento como forma de ameaça e me lembrar que eu não era uma hanyou qualquer — Lembre-se que você é uma peça importante nos jogos dos imortais.

— Nós também somos imortais. — falei, sorrindo inocentemente e lembrando-o que éramos hanyous, embora não fôssemos youkais completos.

— Somos? — ele simplesmente perguntou, e então voltou a se concentrar no nada. A resposta ecoava no silêncio, é claro.

Não, não éramos. Inuyasha não fora imortal. E nem eu vou ser. Um dia, embora talvez demore umas tantas vidas para chegar, eu também vou morrer.

Depois dessa, acho que vou precisar de vodca, não de cerveja.

Pensei em me levantar para ir atrás de alguma bebida quente, mas vi novamente aquela expressão perdida do Raiden.

— Não, sério, Raiden, o que está acontecendo? — perguntei, inclinando-me para ele de forma conspiratória, como se dissesse que ele podia me confiar qualquer segredo.

Ele me olhou de esguelha.

— Já disse que nada.

— Você parece tão... solitário. O que foi?

Ele lançou um sorriso irônico para mim, e então respondeu:

— Estou pensando na minha mulher.

Ok, depois dessa eu acho que meu queixo bateu no chão de madeira. Como é?

— Você é casado?! — exclamei.

— Eu tenho uma vida além de proteger você. — ele disse, rolou os olhos nas órbitas e terminou a cerveja com um último gole.

— Mas como?! Eu conheço você há dois anos e nem sonhava que você era casado! — Aproximei-me dele, ansiosa, e segurei seu braço — Quem é ela?

Ele me olhou com irritação.

— Ah, sério? Você não pode me dizer que é casado e depois simplesmente não contar mais nada, Raiden. Quem é ela? É uma humana? Youkai? — Ele se afastou de mim, com medo da minha animação, e respondeu:

— É uma hanyou tengu, hime-san. — Sim, ele havia dito isso com uma exasperação bem clara. — Ela é a líder do centro de espionagem do seu irmão.

— Você é casado com a sua chefe? — perguntei, quase rindo. Ok, quem iria imaginar que o todo-insensível-Raiden seria também um bobo apaixonado?

— Isso seria se eu fosse casado com o Hideo. — ele disse simplesmente.

— Qual o nome dela?

— Honorável destino! — ele disse, levantando-se. Tenho certeza que este não era o nome dela. — É o suficiente. Estou indo dormir. E você... Realmente não aconselho a ir ao estágio em sua forma humana.

Observei com expressão desanimada enquanto ele ia embora.


Nada como acordar com sua mãe puxando sua coberta em um dia frio reclamando de sua falta de consideração com ela, afinal, eram duas semanas sem fazer qualquer contato e dois finais de semana sem levar o noivo para que ela conhecesse. Como hoje era meu dia de humana, eu havia resolvido ficar em casa mofando na cama, perdendo tempo apenas para ligar para o hospital e avisar que a minha lepra havia piorado hoje (aposto que eles vão sentir falta da escrava). Doce sonho. Minha tão sonhada folga começou com ameaças e travesseiradas.

Levantei contrariada, dizendo que ia arrancar os olhos dela, caso não me deixasse ir ao banheiro lavar o rosto. Acho que minha expressão a amedrontou, pois se afastou e deixou que eu seguisse ao banheiro onde lavei o rosto e escovei os dentes. Quando voltei ao quarto vi minha mãe ao lado de Daiki, ambos sentados em minha cama.

— Eu entendo, senhora Higurashi, ela realmente é muito fria. — disse meu irmão piedosamente, abraçando minha mãe.

— Essa menina. Não a criei para ser assim, tão fria com as pessoas, ainda mais com a própria mãe.

— Ando ocupada, apenas isso. — respondi.

— Ocupada demais para ligar para sua mãe?

— Sim. — disse asperamente e me senti culpada ao vê-la com expressão magoada. — Desculpe, mamãe. É só que estou muito ocupada ultimamente.

— Tenho uma ideia... Compras! Consegui afanar o cartão do Hideo antes de ele partir. Vamos, vocês duas vão experimentar roupas e eu vou avaliar o quão lindas ficarão.

Confesso que não estava com vontade de sair, mas estava devendo dar atenção a minha mãe, sendo assim, apenas peguei uma troca de roupa e fui substituir meu pijama por algo que pudesse ser usado em um shopping center. Pouco mais de duas horas depois Daiki estava com sacolas de quatro lojas diferentes em cada uma das mãos.

Eu simplesmente odeio essa ironia do destino, que faz com que tudo em que você acredita sentir cair por terra. Eu estava leve, feliz, apreciando estar na companhia de Daiki e da minha mãe. Finalmente havia alegria em minha vida... Então ele apareceu. Assim, pura e simplesmente apareceu.

Tudo bem que ele não veio na minha direção, na verdade, nem pareceu me notar de primeiro momento. Mas senti aquele arrepio na nuca, aquela sensação de formigamento na ponta dos dedos, tudo provado pela ansiedade e preocupação.

Minha mãe estava comigo! E se ela visse Sesshoumaru e tentasse falar com ele?! Olhei para minha mãe; ela estava distraída com Daiki. Suspirei aliviada; ambos não tinham notado a presença de Sesshoumaru. Talvez nada estivesse perdido ainda.

O sentimento de alívio se foi mais rápido do que veio. Daiki notou a presença de Sesshoumaru e passou o braço ao redor de meu pescoço e, para minha felicidade (sentiu a ironia?), os olhos de Sesshoumaru se encontraram com os meus. Ele ficou me encarando com cara de quem estava me passando um sermão mentalmente enquanto um grupo de homens com ternos bem alinhados tagarelava ao seu lado. Imagino que ele esteja aqui em razão de algum investimento no shopping center, e não para comprar meias. Duvido que Sesshoumaru compre sequer as próprias cuecas.

Comecei uma oração silenciosa. Minha mãe não poderia vê-lo. Caso contrário, se a conheço bem, seriam questões de minutos para que ela estivesse lá o convidando para aquele bendito jantar ou almoço que queria que ele fosse na casa dela.

Daiki colocou um dos chapéus que minha mãe havia comprado sobre minha cabeça, pude notar Sesshoumaru parar de me encar e voltar a andar, sendo acompanhado pelos executivos, enquanto meu irmão me arrastava para o lado oposto reclamando que precisava de lenços... Juro que se ele tentar cobrir meu rosto com um, eu lhe dou uns tapas.

— Algum problema filha? — minha mãe questionou, notando meu nervosismo.

— Daiki me estressa.

— Que cruel. — o meu irmão reclamou.

— Não seja tão dura com seu irmão, ele apenas não consegue conter o amor dele por você.

— Viu? Sua mãe me entende.

Os dois começaram a destilar palavras de carinho e compreensão e eu comecei a ignorá-los. Ao menos ganhei sorvete e uma barra de chocolate. O meu dia melhorou um pouco depois disso.


O destino sempre é bom para aqueles perseveram! Um mês de estágio, e mesmo sendo uma escrava na maior parte do tempo, posso dizer com bastante franqueza que agora até que estou acostumada. Até mesmo ouvi uma enfermeira dizer que se surpreendia com o fato de eu ser tão humilde, mesmo sendo de uma família tradicional e riquíssima.

Sim, querida, sou humilde! Sou uma deusa!

Tudo bem, estou precisando de café, e esse discurso todo é apenas para tentar me animar a continuar aqui, firme, enquanto seguíamos um médico que vez ou outra lançava uma piadinha para o meu lado.

Kashimoto havia se tornado uma espécie de "protetor" nesse mês de trabalho em conjunto. Nunca tinha percebido esse lado dele. Sempre o vi apenas como o mestiço insosso que ficava calado em quase todas as aulas. Eu poderia dizer para ele "não, Kashimoto, não precisa me ajudar nessas tarefas braçais, apesar de tudo, sou uma hanyou e vinte vezes mais forte que você", mas acho que ele iria achar que eu era louca e me levar para ala de psiquiatria.

— Higurashi, mostre que você é algo mais do que uma princesinha e vá ajudar na enfermaria. Aqui você não está sendo lá muito útil, quem sabe tenha mais sucesso por lá?

Céus! Não sabia que estava fazendo estágio no exército norte-coreano.

A vontade era de responder "Ah, meu querido mentor, sonho com o dia em que terei habilidades como a sua: dar ordens inúteis e fazer um estágio prestigiado se tornar algo vago e sem sentido", mas me controlei muito bem. Apenas sorri e me inclinei, antes de sair andando na direção da enfermaria.

— Doutor, se não for incômodo, também quero ajudar na enfermaria. — disse Kashimoto. Tive vontade de dizer a ele para cuidar de seus assuntos e me deixar lidar com os meus, mas não iria esmagar o orgulho do pobre assim.

— Se realmente quer, fique à vontade. — disse o médico, e levou Sumire com ele.

Olhei para Kashimoto, recriminando-o por ter feito isso. Por que custava a ele entender que não precisava passar por aquilo comigo apenas para ser cavalheiro?

— Não me olhe assim. Não aguentava mais ouví-lo. — Ele segurou meus ombros, para me forçar a andar — Além do mais, odeio andar atrás dele. Aquela peruca fica pulando, e eu sempre acho que ela vai criar vida própria, reclamar de como ele é chato, fazer as malas e partir... Estilo "Priscilla, Rainha do Deserto".

Não entendi a referência, mas tive que rir com essa. Jurava que apenas eu havia notado aquela peruca que parecia ter sido encomendada, cada fio dela escolhido a dedo. Até imagino o velho chato dizendo "esse fio não, ele não brilha com a luz".

Enquanto eu era tomada pela risada, percebi que todos no corredor, incluindo pacientes, haviam parado.

Será que eu estava rindo alto demais? Corei, questionando-me se realmente havia sido a minha risada que chamou a atenção deles. Foi quando olhei para a ponta do corredor e Ah! Que surpresa! Não sei como ainda me surpreendo de me deparar com Sesshoumaru em cada esquina que viro. Tóquio é um ovo, por acaso?

Estranhei de vê-lo sozinho, andando no corredor de um hospital (mesmo um de tão alto prestígio) com um terno elegante. Afinal, é impossível pensar que ele estaria aqui por motivos de doença. Imaginem, o médico dizendo "Senhor Taisho, você pegou a o vírus influenza youkai12, fique em repouso". Nunca!

Prendi a respiração quando ele parou a minha frente. Esse maldito não estaria aqui por minha causa, estaria?

— O que você quer? — perguntei ríspida — Agora deu para me seguir?

Sesshoumaru apenas ficou me olhando, com aquela expressão de iceberg, e então desviou os olhos para a mão de Kashimoto, que ainda repousava no meu ombro. Fiquei vermelha por não ter percebido até aquele momento que o meu colega ainda estava me segurando daquela forma embaraçosa como se fôssemos um casal.

Tive vontade de me afastar de Kashimoto, mas fiquei firmemente parada. Não daria esse gosto para Sesshoumaru, e se Kashimoto não estava se sentindo intimidado, eu é que não o afastaria.

Olhei para o meu colega, apenas para perceber que ele estava petrificado, e não indiferente à presença de Sesshoumaru. Traíra. Revirei os olhos e voltei a encarar o meu noivo. Essa é uma batalha apenas minha, obviamente.

— O quê? — perguntei — Se tem algo a dizer, apenas fale. Já sei! Como Kazuki não está aqui para falar por você então ficará apenas me encarando?

— Higurashi! — exclamou o Diretor-Geral, que brotou de algum lugar — Isso são modos de falar?

— Usei palavras e construí frases coerentes, acredito que sim. Ou o meu japonês está errado?

Certo, acho que meu mau-humor veio totalmente à tona de uma só vez. Como se a válvula que estava impedindo que eu falasse tudo que estava pensando finalmente tivesse se rompido e agora, não importava quem fosse, se me cutucasse, receberia uma resposta grosseira.

Voltei a encarar Sesshoumaru, e, embora parecesse ter a mesma expressão fria de sempre, ele parecia quase... divertido com a minha resposta.

— O que você veio fazer aqui? — perguntei novamente, ácida.

— Peço perdão pela grosseria da nossa estagiária, senhor Sesshoumaru. Vou levá-lo para a sua sala imediatamente. — disse o Diretor-Geral — O senhor pode me acompanhar?

— Sala dele?

— Acontece quando se é o dono. — Sesshoumaru respondeu friamente começando a andar e esbarrando propositalmente em meu ombro. Ele parou ao meu lado, e continuou a falar de forma que apenas nós dois ouvíssemos. — Com todo trabalho que seu guarda-costas vem tendo em espionagem, pensei que esse tipo de informação não fosse novidade. — Os lábios de Sesshoumaru de repente tomaram um contorno diferente do usual. Depois de longos dois anos, lá estava eu novamente tremendo de medo diante do sorriso cínico dele — Talvez eu tenha superestimado os Tsubasa.

E então, como se já estivesse farto de lidar com a ralé, saiu andando com o Diretor-Geral e duas assistentes afoitas em servi-lo.

Espera... O que ele dissera? Dono de onde?

Arregalei os olhos, finalmente entendendo o que estava acontecendo.

"Tem algum motivo em especial para a equipe ter sido instruída a te assediar moralmente?", perguntara-me Kashimoto, quase um mês atrás.

Sim, tinha, e como tinha. Simplesmente eu estava trabalhando no hospital de Sesshoumaru, o youkai mais antigo que há nas terras nipônicas, com mais poder do que um helicóptero Apache, meu noivo, e a quem eu ofendi algumas vezes nos últimos meses.

Ao que parece, minha sorte tirou longas férias e me deixou à mercê do azar.


Comentário da Fkake/linda/tesuda #falomemo:
E ai galerinha do mal! Espero que gostem desse capítulo e realmente espero que vcs gostem e comentem se gostaram ou não gostaram.
Pq as vezes tenho impressão de quem ninguém lê essa bagaça, por conta de comentários que temos em uns capítulos e ai nos seguintes não tem mais nada, como se simplesmente a pessoa não gostasse mais e parasse de ler.
Então, pf, comentem, nem que seja para falar mal, pois a gente cresce com as criticas e não diminui, vamos tentar evoluir a fic como um mestre pokemon, ou seja, seus comentários são nossa XP! (sim, referencia ao pokemon blue que estava jogando mês passado).
Bjs.