Capítulo XVIII — Meu sangue ferve por você (de ódio)

Eu sei que é deprimente ficar sozinha na sala, assistindo programas infantis enquanto acabo um pote gigantesco de sorvete de chocolate. Mas não importa, porque, necessariamente falando, eu estou deprimida de verdade.

É querer demais que apenas um aspecto da minha vida seja normal? Ao que parece, sim. Eu pensei que o estágio no Aiiku seria o ápice da minha vida acadêmica normal e sem manchas, mas sempre tem aquele youkai estúpido para estragar a minha vida.

Para variar o diretor do hospital havia mandado que eu ficasse em casa por uma semana para pensar sobre a forma grosseira como lidei com o senhor Sesshoumaru. Estou surpresa de não terem cancelado meu estágio.

Gritei quando alguém colocou as mãos na frente dos meus olhos.

— Kagome kagome kago no naka no tori wa. Itsu itsu deyaru yoake no ban ni, tsuru to kame to subetta ushiro no shōmen daare¹**. — Cantarolou uma voz atrás de mim. Já disse como odeio essa cantiga infantil? Meus colegas de escola sempre a usaram para tirar sarro da minha fuça por meu nome ser Kagome, e isso desde que me entendo por gente. Se bem que se eu for pensar direito, essa cantiga combina absurdamente comigo. Essa coisa toda de "pássaro" e ser um "demônio". — Então? — a voz masculina voltou a perguntar.

(**Kagome, Kagome, o pássaro em uma gaiola. Quando você vai se libertar? Na noite da madrugada, o grou e a tartaruga escorregaram e caíram. Quem está atrás de você agora?)

Comecei a soltar exclamações de excitação.

— Shippou?!

Ele tirou as mãos do meu rosto e contornou o sofá para sentar ao meu lado. Gente, como eu estava com saudades desse maldito! Desde o infeliz dia em que Sesshoumaru decretou nosso noivado, Shippou tem vindo à Tóquio várias vezes ao ano para me ver, mas para mim é tão pouco!

— Espera... — falei, arregalando os olhos — Hideo deixou que você entrasse na Mansão Corvo?!

— Seu amigo Nagi intercedeu por mim. — Shippou disse, abraçando meus ombros e me puxando na direção dele. — Tenho péssima notícias, Ka-chan... Você vai ter que lidar com o fato de me ver com muito mais frequência, por que os kitsunes vão trazer a sede do território do Sul para Tóquio.

— Como? — exclamei, arregalando os olhos. — Por quê?

— O que mais poderíamos fazer? O Senhor do Oeste e do Norte estão com suas sedes em Tóquio. Tanta concentração de poder nos coloca em desvantagem, então a única saída é ficarmos de camarote vendo o que acontece por aqui. — Fiquei encostada no peito de Shippou enquanto o observava falar — Claro que tivemos que ceder alguns privilégios para seu irmão e aquele crápula do Sesshoumaru... Mas nada que eu não consiga lidar.

— Então você vai morar em Tóquio?

— Sim. — Ele sorriu e eu soltei outro gritinho, abraçando-o.

— Que bom, Shippou! Sério, estou tão feliz que seria capaz de dividir meu sorvete com você!

— Obrigada, estava mesmo querendo um pouco. — Ele se inclinou para pegar o sorvete no móvel de centro da sala, mas eu fui mais rápida e afastei o pote dele.

— Eu disse que "seria capaz" não que "iria te dar".

Ele suspirou e me puxou novamente para me aconchegar nele, enquanto eu o encarava desconfiada usando meu corpo para proteger o sorvete.

— Case com seu egoísmo. — ele disse.

— Seremos felizes para sempre. — respondi enquanto colocava na boca uma porção exagerada de sorvete.

Shippou olhou para a televisão com expressão curiosa, acho que ruborizei quando ele sorriu ao perceber que eu estava assistindo programas infantis.

— Você não está bem, não é? — Shippou perguntou, com sorriso juvenil — Aconteceu alguma coisa?

Observei-o, enquanto mantinha a colher na boca como desculpa para não responder de imediato. Daiki estava me perguntando isso constantemente e eu evitava responder simplesmente para manter meu orgulho. Afinal, eu é que não iria admitir que eles estavam certos todo aquele tempo e que agora entendia perfeitamente o motivo de tentarem me manter longe do estágio.

Mas esse era Shippou. A quem mais eu confiaria contar sobre como Sesshoumaru havia se tornado um bastardo nojento? Respirei fundo e comecei a contar para ele o que tinha ocorrido no estágio e como eu tinha sido perseguida pelo maldito do meu noivo.

Estava tão feliz de finalmente poder contar isso para alguém que até deixei que ele roubasse meu sorvete.

— Sabe, a gente sempre soube que o Sesshoumaru era um infeliz sem coração... Mas por que ele perde tempo me perseguindo? — perguntei, suspirando mais uma vez.

— Bom, ele normalmente não perde tempo com nós, meros mortais. — ironizou Shippou — Mas ele é vingativo, isso eu tive quinhentos anos para comprovar. Você fez alguma coisa para que ele reagisse assim?

Engoli em seco, lembrando do meu telefonema enraivecido. Eu devia ter me tocado que ele não deixaria aquilo barato, até o fato de ele nunca mais ter "ordenado" que eu fosse a qualquer evento deveria ser um indicativo que ele estava preparando a maior humilhação da minha vida.

— Algo assim... — respondi sem muita convicção. — Sesshoumaru mudou tanto. — sussurrei.

— Você acha? — Shippou perguntou, surpreso.

— Eu tinha uma ideia diferente dele. Não é como se eu gostasse dele ou o odiasse. Ele nunca deixou que eu me aproximasse para decidir. — Sentei-me em posição de lótus no sofá e equilibrei o pote de sorvete entre os pés — A não ser Rin, claro. Ele realmente sentia algo por ela. Ela foi a única que conseguiu se aproximar.

— Está com ciúmes dela? — Shippou perguntou, jocoso.

— Muito engraçado! — reclamei — Onde eu quero chegar é: aquela garotinha inocente confiava cegamente nele... Então deve haver algo de bom nele, não é?

— Ou ela era apenas inocente de fato. — Shippou resmungou — Não vejo Sesshoumaru com bons olhos, mas não vou tentar fazer você vê-lo da forma como eu vejo, por que nós fomos inimigos por muito tempo, e minha opinião já está contaminada.

— Está bem. — sorri para ele — Obrigada por me ouvir, Shippou.

— Sempre vou te ouvir, bebê. — Ele me abraçou de novo — E não precisa me agradecer, apenas me pague.

— Hã? Pagar?

— Com dinheiro, de preferência.

— Idiota. — Rolei os olhos e me concentrei novamente nos programas infantis. Shippou ficou mais meia hora comigo e então disse algo como "Tenho que ir, eu literalmente tive que fugir dos meus homens para vir te ver". Ele ainda teve tempo de jogar uma almofada em mim quando eu resmunguei "ui, meus homens, hum?" antes de sair correndo.

Respirei fundo, sentindo-me um pouco mais feliz. Acho que vou gostar bastante de ter Shippou por perto.


Num momento você está feliz, pensando na porcaria que é sua vida, e no outro está no jatinho particular da família (eu sabia que a gente tinha um!) indo para Taiwan, participar do baile de debutante (pensei que só ocidentais tivessem isso, credo) da filha de um investidor chinês que fazia negócios com Hideo. Não entendo o que havia de tão importante nesse baile para que todo mundo tivesse que ir participar, mas a única explicação que consegui foi a Aika dizendo "Ele é Sung Chen, CEO da Shangai Investments Group, e o Senhor do Oeste vai participar do evento... Alguma coisa está acontecendo". Lembro de ter ouvido sobre um problema com um investidor de Taiwan algumas semanas atrás, mas não imaginava que Sesshoumaru estivesse envolvido.

De qualquer forma, tenho que concordar com ela, o fato de Sesshoumaru estar participando de algo assim era realmente preocupante.

Ok, entendi a lógica. Mas isso não foi muito de repente, caramba?

Sério, eu fui avisada de que iríamos viajar quinze segundos antes de ser arrastada pelo Nagi em direção ao carro. Ainda estou usando pantufas!

Ao menos a viagem foi divertida, com Daiki e Ryo fazendo trocadilhos pervertidos sobre as roupas íntimas da Aika até Hideo ficar puto e ameaçar despressurizar o avião para jogá-los a 10.000 pés de altura em direção ao chão. Daiki riu e disse "sou um tengu, mano, sei voar",

— Quero ver você voar com as asas em chamas, querido irmão.

— Ar quente faz voar não faz?

Eu pude ver perfeitamente o rosto de Hideo se contorcer em uma expressão confusa, mesmo não estando na frente dele. Depois de dois anos, você aprende a prever as pessoas, mesmo as mais complicadas.

— Você disse isso mesmo?

— Que ar...

— Não repita.

— Então por que diabos perguntou o que eu disse?

— Eu estava tentando me convencer de que você poderia ser ainda mais idiota.

— Idiota?

— Vocês podem fazer silêncio, por favor? Estão atrapalhando o piloto. — Ryo gritou da porta da cabine. Espera, ele não deveria estar pilotando?

— Engraçado que ficar gritando bobagens com o Daiki não te atrapalhava, não é? — resmungou Aika, pela primeira vez parecendo estar ouvindo aquela bagunça.

— Por acaso a minha voz é um pano cobrindo a porra do vidro? — gritou Daiki, rolei os olhos imaginando se o nível de qualidade daquela discussão poderia cair ainda mais.

— Sua voz me tira a concentração!

— Eu vou aí gemer no seu ouvido!

— Aí que eu bato essa merda!

— O.K., gente, por favor, para. — pedi.

Conhecendo como conheço os Tsubasa era bem capaz do Ryo deixar o avião cair para vir brigar com o Daiki. Olhei para Nagi, pedindo silenciosamente que ele intercedesse, mas ele só sorriu perversamente para mim. Claro, Kagome, vai pedir ajuda para o psicopata.

Olhei para Hiroko, que dormia com a cabeça apoiada no ombro de Aika. Ok, essas duas também não iriam ajudar.

— Você que não para de fazer escândalo, Ryo!

— 'Tá me chamando de barraqueiro?!

— A carapuça serve, né?!

— Daiki cala a boca, antes que o Ryo deixe essa merda cair só para ir te dar uns tapas! — ouvi Yuri gritar do fundo do avião... Não era necessário ele gritar e eu sinto em meu âmago que ele apenas fez isso para entrar no clima da discussão.

Daiki se levantou, pronto para iniciar uma briga. Ele pisou no prego até o talo essa manhã? Que humor!

Resolvi não ficar mais esperando que alguém parasse aquela discussão, puxei meu irmão para voltar a se sentar com tanta força que ele até mesmo soltou um "eita" quando atingiu o estofado. Quando ele me olhou, sentei em seu colo e segurei seu rosto entre minhas mãos.

— Calado ou saio do seu colo.

— Não! — Ele me abraçou pela cintura e repousou o rosto na curva do pescoço. — Vou ficar quietinho.

— Eu deveria ter gritado também. — ouvi Hideo resmungar ao lado, em seguida ele tomou um gole de alguma bebida e cruzou os braços.

O restante da viagem foi feita em paz.


Nagi colocou um casaco sobre meus ombros, pois o meu vestido era perfeito para o tempo quente em Tóquio, mas uma tortura para esse frio que estava em Taipei.

— Podiam ao menos ter me avisado para trocar de roupa. — resmunguei para Nagi.

— Claro. — ele disse, e então colocou a mão nas minhas costas para me guiar. A pista de pouso estava bem iluminada e havia três carros esperando. Um deles era uma limosine prateada tão chamativa que me causou arrepios. Por que Hideo tinha pedido um carro daqueles?

Olhei para o meu irmão, percebendo que ele estava tão confuso quanto eu. Foi quando a porta de trás da limusine se abriu e dela saiu uma mulher usando um vestido chinês com uma fenda profunda que dava para ver toda uma perna até a altura do quadril. Ela se aproximou de nós e sorriu, enquanto se inclinava:

— Eu sou Tan-ying Fong, a assistente de Sesshoumaru Taisho na filial chinesa do Tai Group. Ele me pediu para acompanhar sua noiva, Kagome Tsubasa, até o hotel em que ele está hospedado. — Ela falava japonês com um leve sotaque e me encarava com olhar frio. Fiquei meio ofendida de ela não usar nenhum honorífico de tratamento, mas ela não era japonesa, então fiquei quieta.

Tan-ying não esperou nossa resposta e seguiu de novo para a limusine, segurando a porta aberta para mim.

— Maldito Sesshoumaru. — resmungou Hideo, apertando as mãos.

— Ele está nos dizendo que sabe que viemos atrás dele para descobrir o que está tramando. — disse Aika, suspirando.

Fiquei olhando na direção da limusine, sem saber o que fazer. Ouvi Hiroko soltar risadinhas ao meu lado.

— Não precisa ficar assim, Kagome. — ela comentou, tocando meu braço — Tenho certeza que seu noivo não está tendo um caso com essa chinesa de pernas longas.

Lancei um olhar irritado para ela, que apenas riu.

— Essa aí deve ser mais rodada que pratinho de microondas. — ela disse, com uma piscadela.

Resolvi ignorar Hiroko.

— O que eu faço? — perguntei para Aika.

— Por que está perguntando para ela? — Hideo quis saber, irritado — É lógico que vai com a gente. Quero você longe daquele cão.

— Você devia ir. — respondeu-me Aika — Ele é seu noivo, não?

— Aika! — exclamou Hideo.

— Não fique se prendendo a esses detalhes, Aika. — reclamou Daiki ao lado dela. — Noivo, não-noivo, não importa. Irmãos que se amam devem ficar sempre juntos. Os três juntinhos no banco de trás cantando cantigas infantis... Que acha Hideo?

— Concordo.

— Até com as cantigas?

— Nesse caso, sim.

Aika soltou um pesaroso suspiro enquanto balançava levemente a cabeça. Tan-alguma-coisa deu uma daquelas tossidelas educadas que são usadas quando se quer chamar a atenção. Suspirei, apesar de a limusine ser ridícula, eu tinha que tomar cuidado, já que meus irmãos eram capazes de amarrar a chinesa e enviá-la em caixa com um cartão dizendo: "Para Sesshoumaru, com todo amor, da família Tsubasa". Eu precisava evitar esses tipos de confronto, portanto, sorri gentilmente para os meus irmãos.

— Irei com a senhorita Tan... — Voltei minha atenção para ela, notando seus olhos ficarem mais sérios.

— Tan-ying. — Ela repetiu provavelmente com a voz mais controlada que podia usar.

Sorri educadamente para ela e comecei a andar em sua direção. Aika segurou meu braço e se pôs de costas para Tan-ying, para que ela não pudesse ler seus lábios enquanto me dizia:

— Descubra o que Sesshoumaru está tramando. — ela sussurrou, e eu apenas a encarei, surpresa — Você trabalha na Empreendimentos Tsubasa, não?

— É apenas um estágio.

— Faça valer a pena o salário que lhe pagam.

— Mas não me pagam nada. — respondi, ultrajada. Aika não me respondeu e somente me empurrou na direção da limusine gentilmente.

Suspirei. Droga, sabia que um dia iria ter que devolver a fortuna que eu e Daiki sempre torramos no cartão do Hideo.


Estávamos no W Taipei, o hotel mais caro daqui. Sei disso por que Hideo e sua comitiva também estão aqui, e meu irmão não aceita nada menos que o melhor e mais caro. Sim, todos nós sabemos que os Tsubasa não têm senso comum.

Tan-ying não-sei-das-quantas me guiou por um corredor opulento no último andar e bateu em uma porta. Acredito que ela viu algum sinal invisível, pois usou um cartão magnético para abrir a porta e me deixar entrar.

Não sei se estou preparada para lidar com o demônio, mas aqui vamos nós.

Sesshoumaru estava sentado numa poltrona, analisando uns papeis. Estava impecável em seu terno, mesmo já sendo meia-noite. Hideo uma hora dessas já estaria só de cueca se engraçando com a Aika em algum lugar. A diferença entre os dois chegava a ser engraçada. E, sendo bastante sincera, entre eles dois, tenho certeza absoluta que Sesshoumaru é o mais infeliz.

Andei pela sala-de-estar do quarto de luxo de Sesshoumaru (que estava mais para flat do que para quarto) e fiquei encarando-o. Afinal, o senhor cretino me arrastou até aqui, ele que tome a iniciativa de me explicar o que estava acontecendo.

Bom... Isso era lindo na teoria, mas minha perseverança começou a ruir rapidamente quando o bastardo apenas me ignorou e continuou analisando os documentos. A situação já não estava bizarra o bastante? Eu fui arrastada de Tóquio para Taipei, raptada por uma chinesa de pernas longas, carregada até o último andar do hotel mais caro de Taiwan... Ele queria mesmo acrescentar "fazer o meu noivo engolir um taco de golfe" à lista?

— E então? — perguntei, incapaz de me controlar — Posso saber o motivo de ter sido raptada?

— Já que os Tsubasa tiveram tanto trabalho para trazer minha noiva até mim, achei que era meu dever arranjar acomodações para ela. — Sesshoumaru respondeu, sem desviar os olhos de seus documentos.

— É o suficiente. — respondi, com um suspiro exausto — Está tarde e não tenho forças para lidar com você. Tem como chamar a sua cadelinha chinesa para me levar ao meu quarto?

— Você já está nele. — Sesshoumaru respondeu simplesmente.

— Como? — Comecei a rir — O que você pensa que isso quer dizer?!

Ele ergueu os olhos para mim.

— Eu falei em alguma língua desconhecida? — questionou.

Não... Não! Ele só pode estar brincando. Ele não espera mesmo que eu durma no mesmo quarto que ele, espera? Claro que não.

— E o seu quarto, onde é? — perguntei usando meus últimos resquícios de esperança.

Sesshoumaru não respondeu.

— Você não espera que eu vá dormir no mesmo quarto que você...

— Você é uma tola se acha que eu tenho tempo para dormir. — Ele levantou-se, deixando os papéis de lado — Quer dizer que você viajou para outro país e não sente vontade alguma de dividir o quarto com o seu noivo?

Espera, isso foi uma piada?

— Isso não é engraçado. E se você acha que é, então é melhor rever o seu senso de humor. — Virei para sair, decidida a bater de porta em porta até descobrir o quarto de algum dos meus irmãos.

— A porta está trancada. — ele disse — Não me force a dissuadi-la da ideia de sair daqui. Não será agradável.

Aquilo só poderia ser alguma espécie de piada de muito mau gosto. Dormir no mesmo quarto que ele? Como isso? Se bem que estamos falando de Sesshoumaru e ele não tem senso de humor. Sendo assim, não era uma piada.

— Vou ter que arrombar a porta?

— Se quiser sair, sim. Os jornalistas vão adorar o espetáculo.

Rangi os dentes. Arrombar a porta de um hotel como este não seria algo fácil de explicar para a imprensa. Claro que teria algum repórter por aqui. Definitivamente, fazer escândalo não era opção. Pular a janela também é uma péssima ideia. Voltei a observá-lo.

— E as minhas coisas?

— Se são suas, então você deve saber delas.

Estreitei os olhos. Respirei fundo. Pensei em ligar para os meus irmãos perguntando das minhas coisas, mas meu celular ficou na bolsa, que estava sendo carregada pelo Nagi.

Droga. E agora?

— Preciso das minhas coisas. — Ele virou o papel que estava lendo e se mexeu na cadeira, como se eu não estivesse ali.

Suspirei.

— Isso não é um pouco demais? — falei, tentada a implorar para Sesshoumaru me deixar sair — Sério, qual o motivo disso? Você quer me castigar por alguma coisa? Ou quer castigar o meu irmão? Já conseguiu, agora me deixe sair.

— Não posso me dar o luxo de perder tempo com esse tipo de coisa. — Sesshoumaru parecia perto de perder a paciência. O quê?! Ele me sequestra e eu sou a garota mimada?! — Você está aqui porque deve estar, porque no momento em que você se tornou minha noiva você passou a levar meu nome com você, e eu não vou dar espaço para que você o manche.

— O que... O que você quer dizer com isso? — perguntei, confusa.

Sesshoumaru se levantou, irritado. Vou morrer. Sinto isso. Ele vai usar aquelas unhas venenosas que me faziam ter pesadelos alguns anos atrás.

— O casaco que você está usando tem o cheiro de um youkai que não é um de seus irmãos. Quando a vi no Aiiku, havia um humano tocando-a de forma despretensiosa, na frente da equipe do hospital que me pertence e que provavelmente estava consciente de que você é minha noiva. — Ele parecia ameaçador demais agora, para meu desespero. — Não pense que conseguirá me expor ao ridículo e ainda sair ilesa por tentar.

— O quê? — questionei revoltada — Que tipo de idiotices você pensa que está dizendo?

— Pegue aquela pasta.

— Como?

Ele indicou uma pasta branca que estava sobre a mesa. Não gosto de pastas. Esse tipo de coisa sempre vem acompanhado de notícias ruins, como contas bancárias em atraso e fotos do seu marido te traindo com a governanta. A questão é que mesmo sabendo que não haverá nada bom ali, a curiosidade é mais forte. E eu sempre perco para a minha curiosidade, que me fez ir até a maldita pasta.

Logo ao abrir, havia uma foto minha sorrindo enquanto conversava com alguma pessoa que não havia sido enquadrada na imagem. Junto da figura havia uma ficha sobre mim, com nome, data de nascimento e essas banalidades comuns. Era na segunda página que a coisa ruim começava.

Havia uma foto de Nagi e um relatório bastante detalhado de nosso relacionamento, inclusive sobre as vezes em que saíamos juntos. Havia uma anotação em caixa alta acerca de um "percalço noturno após uma noite festiva com outros tengus" que me fez franzir o cenho, sem saber a que se referia. Assustei-me com os detalhes bastante inocentes, como as horas em que passávamos estudando juntos e a minha liberdade de entrar em seu gabinete para pegar livros ou fugir de Daiki, quando ele estava sendo inoportuno (sempre, mas as vezes em que não queria aturá-lo).

Depois de Nagi, havia Kenjiro. O relatório sobre este era algo menos malicioso, embora houvessem investigado ao fundo a vida de meu amigo para saber se ele era realmente gay.

Shippou mereceu cinco páginas detalhadas de todos os nossos olhares, toques, abraços, jantares, lanches, cinemas, e até o roubo do meu sorvete quando ele foi a minha casa da última vez estava ali. Gente, tinha câmeras na Mansão Corvo! Vivo no Big Brother Japan e nem sabia!

Ergui os olhos, indignada, para Sesshoumaru, que continuava me encarando com cara de quem chupou limão... Ou seja, sua cara frequente. O "dossiê" que eu tinha em mãos era gigantesco e eu mal havia começado a ler.

Kashimoto, Yuri, Ryo, Raiden, Houjo, o velho que ia todas as quintas visitar o templo e até meus irmãos faziam parte do dossiê. Qual era o título dessa porcaria? "Kagome Higurashi, a puta tengu"? Porque era o que parecia. Da forma como as informações estavam dispostas eu parecia a maior vagabunda de Tóquio. Dava moral para qualquer homem bonitinho que se aproximasse e o tratava como se tivéssemos um relacionamento mais íntimo do que deveria. Tipo, como se fôssemos amantes há anos e estávamos tão acostumados um com o outro que não possuíamos mais o senso comum de "ser íntimos".

Não era assim! Não é por que sou uma pessoa expansiva que eu sou promíscua. E sim, é verdade que tenho sério problema em agir com as pessoas como se fosse íntima delas, mas ninguém reclamou disso até agora. E além do mais, o que eu havia feito de tão errado para merecer ser investigada como uma mulher adúltera? Quer dizer, ao menos eu e Sesshoumaru estávamos noivos de verdade para ele achar que tinha esse direito?

— Você é inacreditável mesmo. — Ele não esboçou qualquer reação a minha acusação e eu respirei fundo antes de continuar. — O que significa isso? Acha que sou algum tipo de prostituta? Com que direito fica investigando minha vida e quem pensa que é para julgar com quem eu converso ou saio?

— Essa é a forma como as pessoas veem a noiva de Sesshoumaru e eu não vou permitir isso. — ele disse rudemente.

— O que se passa nessa sua mente perturbada? Com que direito você achava que poderia invadir minha privacidade?

— Não me importo com sua vida pessoal. O que me diz respeito é apenas aquilo que pode me afetar. — Ele lançou um olhar significativo para a pasta que eu estendia em sua direção de forma acusatória — Esse é o tipo de coisa que me afeta.

— Então é isso? Me trancou no seu quarto para todos os outros acharem que nosso relacionamento está tão adiantado que eu não teria olhos para nenhum homem?! — Agora eu estava realmente gritando.

Ele ficou parado, apenas me encarando com um olhar que dizia que por muito pouco não me dava um tapa para me pôr em meu lugar: a de hanyou.

— Se quer gritar, vá para o quarto. Não tenho paciência para lidar com crianças. — Ele virou as costas e sentou-se novamente na cadeira, pegando os documentos — Pode se retirar.

Criança?!

Sabe aquele momento que sua irritação chegou ao auge e a única coisa que você pode fazer para manter o autocontrole é respirar fundo, soltar o ar audivelmente e pisar fundo, controlando-se para não começar a gritar? Foi desse modo que segui para o quarto. Chegando lá, fechei a porta e comecei a falar coisas desconexas quase rugindo de raiva. Quando respirei fundo pela décima vez tentando me acalmar, fui na direção do closet. Como previsto, as roupas dele estavam metodicamente arrumadas, perfeitas para não amassarem. Amanhã ele poderia vesti-las e estar perfeitamente alinhado... Pois bem... Peguei uma camisa de linho, a vesti e deitei. Com sorte ela ficará tão amassada que não poderá ser usada jamais. Quando deitei, pensei no que havia acontecido, soquei o colchão e gritei duas vezes contra o travesseiro. Eu o odeio!


Notas:

¹É uma brincadeira folclórica infantil japonesa. Uma criança é escolhida como oni (literalmente "demônio" ou "ogre"), essa criança senta com os olhos fechados. As outras crianças juntam as mãos e andam em círculos em volta do oni enquanto cantam essa música. Quando a música para, o oni tem que falar qual é a pessoa atrás dele, se ele estiver correto, a pessoa atrás dele vira o oni.


Olá, gente, hoje quem vai fazer companhia a vocês sou eu, Ladie.

A história finalmente está andando, né? Sesshoumaru já está dando as caras mais vezes e as coisas estão começando a esquentar. Espero que todo mundo esteja gostando, até por que Fkake e eu só revelamos 1/4 dos segredos dessa fic. Sim, vocês não fazem ideia do que vem pela frente.

Para aqueles que gostam do nosso estilo de histórias, que tal dar uma lida nas outras fics da Fkake (Personagem Fictício, Rapaz do Baile e Festa de Halloween) e a minha (The Beauty and The Geek)?

Aproveitando, tem uma nova fic Sesshoumaru e Kagome sendo lançada chamada O VIRGEM DE DEZESSETE ANOS. Ela é simplesmente a melhor fanfic Sesshome que e a Fkake lemos desde "Como agarrar um cara em três feiras". Então, eu super indico essa fanfic para ser lida. Se vocês acham que dão risada com Senhor do Norte, então podem se preparar para rever conceitos.

Vamos às respostas das perguntas feitas nas reviews:

"quanto mais tempo passa e mais caps vcs fazem eu me pergunto ansiosamente se ele lembra dela, se ele quer se vingar por causa da guerra que aconteceu no passado, por causa de Inuyasha..."

Isso eu não posso dizer. Por razões de IA CONTAR O PLOR INTIERO! UHAUHAUA

"E o que aconteceu com a Rin? Jaken?"

Rin envelheceu e morreu. Ela foi protegida pelo Sesshoumaru por toda a sua vida, e foi feliz. Quanto ao Jaken, ele morreu alguns anos antes de Rin para salvá-la de um ataque de um Yaoguai (demônio chinês).

"O que aconteceu realmente com o ele que o fez ficar mais fechado e frio do que era no começo de tudo?"

A morte da Rin. Mas tem outro aspecto, que ainda vai ser revelado, que o tornou mais frio... Na verdade, eu diria mais "cuidadoso", mas isso é algo para se ver.

"E será que é agora que a interação dele com a Kagome aumentará?"

A interação, sim. O relacionamento, não. Nós realmente temos tudo planejado na fic, e, por mais que tentássemos, não há forma de fazer o relacionamento deles andar se não for a passos curtos.

"E ela completamente humana, teremos algumas surpresas? Emoções?"

Por enquanto não temos nada em mente. A Fkake e eu apenas resolvemos ficar relembrando alguns aspectos para não ficarem esquecidos e parecer que foi jogado de qualquer jeito na fic.

"Na verdade fico curiosa pq o Shippou é um dos Senhores, sempre pensei que o Kouga teria essa posição. Mas tbm houve uma guerra, ele morreu?"

Ele já morreu, sim, mas ele tem filhos que a Kagome vai conhecer em breve. O Kouga nunca ia conseguir seguir toda aquela etiqueta de Senhor youkai. Ele era muito esquentadinho. Mas não se preocupa, que ele ficou tão poderoso quanto um Senhor.

"E, mesmo agora sendo moderninho, com quem ficou a Tessaiga e a Tenseiga?"

Tessaiga e Tenseiga estão sob posse do Sesshoumaru, mas ele usa apenas as Tenseiga, pois a Tessaiga só pode pertencer a um hanyou da linhagem de Inutaisho. A Tessaiga tinha absorvido a Tenseiga na Sengoku Jidai, mas Toutousai as separou, a pedido de Sesshoumaru, alguns séculos depois.

"Senti falta da Kirara, super imagino ela com o Shippou ou com o Sesshoumaru, rs."

Prejudicado. Não posso dizer isso. 1bj. UHAUAHUA

Cara, vai ser muito dificil fazer o Sesshoumaru, por que a gente não consegue imaginar ele dizendo "eu te amo" ou "eu não consigo viver sem você".

"Não sei se vcs curtem, mas assisti esses dias um dorama chamado Gu Family Book, que é sobre a relação entre seres imortais e humanos , e sobre as crianças que são fruto de um romance, gostei mto da história..."

Ui, me interessei. Vou olhar imediatamente.

"2— Vcs pretendem desenvolver mais a história da mulher amada pelo pai da Kagome e que morreu na guerra?"

MUITO PREJUDICADO. UHAUHAUA Sim, vamos desenvolver até demais.

"3— O colar que ela usa é um amuleto de proteção?"

É algo como isso. É mais uma forma de o Hideo deixar claro que ela está sob a proteção dele. Mas o colar vai ter um papel absurdamente importante nessa história. Só esperar.

"4 — E o Souta ,irmão da Kagome? E o avô? Houjo?"

Sou vai crescer normalmente e se tornar um adulto responsável, embora provavelmente vai ser pervertido pelo Daiki. O avô dela pode morrer, mas isso é algo que vamos decidir ainda. Não sabemos se vamos trazer o Houjo para a história – mas quem sabe, tá aí uma ideia linda.

"5— Uma amante pra apimentar a relação amo-ódio do Sesshoumaru com a Kagome! Adoro casos de família, hsuhauhsuaus"

CREDO, QUE CORAÇÃO RUIM! uhauhaua O romance já é dificil sem umazinha metendo o bedelho entre eles. UHAUAHA

"6— Um bebê da Kagome e dele seria um meio-humano?"

Não, embora as chances de a Kagome ter um bebê com o Sesshoumaru sejam quase nulas, ele seria algo mais perto de um youkai do que um hanyou, uma vez que metade do código genético da Kagome é de um youkai.

"7 — Podia ter uma cena do Shippou desnudo tbm... Amo aquele ruivinho... :D"

CLARO!

"8 — Sem o Naraku como vilão, vcs pensaram na hipótese de outro?"

O grande vilão dessa história é o Sesshoumaru. Só que ele também é o mocinho. Por isso que o final não está tão definido para nós como queríamos. T_T

"9 — Se a Kagome é meio humana, o poder de sacerdotisa dela não a deixa vulnerável? Não entra em conflito com a parte youkai? O Raiden ajuda com a parte youkai, mas e quanto a manipular a energia sagrada dela?"

Nesse ponto da história o poder de sacerdotisa dela é quase inexistente, sufocado pelo lado youkai, assim como o youkai um dia foi sufocado pelo lado sacerdotisa. Conforme ela vai expandindo suas habilidades de hanyou, os poderes youkais vão se tornando mais estáveis, o que dificultaria muito a volta dos poderes de sacerdotisa. Só que, por outro lado, a Kagome sempre teve poderes de sacerdotisa muito fortes. Tudo pode acontecer.

"10 — O Sesshoumaru, vindo a gostar da Kagome, não ficaria com um pé atrás pensando que ela so veria ele como um representante "do grande amor da vida dela", o Inuyasha?"

Será? Vamos ver ainda. 1bj.

"11— Fico na dúvida se ele a reconhece e ignora, ou se ele tenta lembrar dela e por alguma coisa não consegue... Até pq o tempo que passou pra ela foi diferente pra ele..."

Olha... UAHUAUAHUHA Não, não vou te contar.

"12— Imagino a reação dos irmãos dela quando souberem a verdade sobre o próprio passado que ela escondeu..."

Isso pode acontecer muito em breve.