Capítulo XIX — Bancando a espiã industrial

Apesar da raiva, eu fui vencida pelo cansaço e pela cama confortável e acabei dormindo em algum momento. Ao acordar, assustada por não lembrar onde estava, sentei-me no colchão e respirei profundamente. Passei a mão pelos cabelos, sentindo os nós que haviam se formado durante o sono agitado e olhei para a camisa de Sesshoumaru, sorrindo satisfeita ao ver como estava amassada. Era uma vingança infantil, mas que me deixava bastante feliz.

Eu estava intrigada. Ontem minha irritação era tão grande que nem havia parado para pensar no detalhe gritante: onde Sesshoumaru iria dormir se eu estava na cama? Pensando melhor agora, eu dou graças a Deus de ele ser um psicótico que não dormia. Suspirei. Provavelmente ele fora para outro quarto, apesar de ter feito aquele terrorismo acerca de ficarmos os dois aqui.

Abri a porta que ligava o quarto à sala e me deparei com Sesshoumaru exatamente no local onde eu o havia deixado: sentado na poltrona lendo documentos, com o terno tão impecável que parecia ter acabado de vesti-lo.

Fechei a cara.

— Você não relaxa? — perguntei, sem acreditar que ele passara a noite inteira trabalhando, como um daqueles worchaholics dos doramas. Só que mais malvado. Bem mais malvado.

Ele desviou os olhos do documento para me observar. Lembrei que estava usando apenas a camisa dele e ruborizei.

— E você faz isso em qualquer circunstância? — ele perguntou, deixando o documento de lado e se levantando. Não se espreguiçou, não bocejou, não coçou os olhos, apenas olhou o relógio no pulso e pegou o celular, dirigindo-se para a porta — Não saia desse quarto e esteja pronta às seis e meia. — Sequer olhou para mim enquanto me dava ordens, abriu a porta e foi embora.

Maldito bastardo filho de uma youkai (linda e) desgraçada.


Por volta das nove horas da manhã, a chinesa de pernas longas entrou no quarto com uma empregada, trazendo o café da manhã. Eu ainda estava usando a camisa de Sesshoumaru, motivo pelo qual recebi um olhar irritado de Tan-ying. Era quase como se eu fosse a amante que Sesshoumaru estivesse escondendo no sótão e ela fosse a governanta sisuda que não concordasse com o comportamento libidinoso do patrão.

Muito obrigada, mas acredito que já tive o suficiente de desprezo ontem à noite.

— Preciso das minhas roupas. — disse irritada.

Tan-ying se limitou a me encarar, acredito num sinal de que tinha me escutado, e voltou a prestar atenção na empregada dispondo os pratos na mesa. Eu estava ficando farta disso. Estava a ponto de hastear bandeira branca e deixar Sesshoumaru sapatear no meu cadáver.

Meu momento depressão foi interrompido pelo som de batidas secas na porta do quarto. Tan-ying franziu o cenho, o que me leva a crer que não estava a par dessa nova visita, seguindo para para a porta e a abrindo apenas o suficiente para ver quem estava na soleira.

— O que quer? — ela perguntou rudemente. Educada a moça, hem?

— Vim trazer os pertences da Kagome, poderia pedir para ela sair? — soou a voz de Nagi. Sorri ao ouví-lo.

— Ela não tem permissão para sair desse quarto. — a chinesa respondeu para Nagi, com voz cortante.

— Então creio que terei que entrar. Com licença. — Nagi apenas empurrou a porta e entrou. Tentei segurar a risada ao ver a expressão desconcertada de Tan-ying. Creio que ela não está exatamente acostumada a ser desobedecida. Uma pena para ela que Nagi também estava acostumado a fazer o que quisesse. Sempre. — Bom dia, Kagome. Como foi sua noite?

Estreitei olhos, deixando para trás a expressão divertida que exibia ao lembrar-me do inferno que havia enfrentado. Apenas segui na direção dele e peguei a mala que trazia. Antes de falar com Nagi, creio que tenho direito a tomar um banho e vestir algo que não fosse a camisa de Sesshoumaru.

Saí do quarto usando uma calça de moletom e camiseta. Normalmente eu não usaria isso, mas como vou passar o dia trancada nesse quarto, vou me dar ao menos o luxo de usar roupas confortáveis. Entrei na sala, estranhando não ver a chinesa ou a empregada. Esperava que ela não fosse me deixar sozinha com Nagi por nada nesse mundo, mas imagino que o psicopata deve ter conseguido intimidá-la o suficiente para afugentá-la. Quanto à Nagi, eu o encontrei sentado num dos sofás, lendo o dossiê que Sesshoumaru havia me mostrado na noite anterior.

Fiquei pálida, lembrando que Nagi era a primeira vítima do dito relatório. Mordi o lábio inferior, sem muita vontade de saber qual seria a reação do psicopata ao ler aquilo — se bem que ele estava apenas sorrindo.

— Isso aqui é bem interessante. — disse Nagi, balançando a pasta e erguendo os olhos para me encarar. Fitei o meu amigo, surpresa. Pensei que ele não havia notado minha aproximação... Se bem que imagino que youkai algum deixaria passar despercebido se uma hanyou com a minha presença se aproximasse.

— Obrigada por trazer minhas roupas. — falei, tentando mudar de assunto. Sentei-me ao lado dele no sofá, enquanto tentava enxugar melhor o meu cabelo com uma toalha.

— Disponha. — Ele pegou um envelope marrom que estava ao seu lado no sofá e estendeu para mim — Aika pediu que eu lhe entregasse isso. São alguns documentos coletados por Raiden. Ela acha que podem ajudá-la a identificar os planos de Sesshoumaru.

Respirei profundamente.

— Ela quer mesmo que eu faça o trabalho sujo, não é?

Nagi apenas lançou um sorrisinho cínico.

— Como andam suas habilidades de camuflagem? — ele perguntou, referindo-se à bendita barreira pessoal para encobrir minha presença.

— Razoáveis, mas não exatamente estáveis. — respondi com sinceridade. Tecer as salvaguardas era uma arte sutil e que requeria muito da minha concentração inconsciente. Por isso, erguer a barreira tinha muito mais a ver com capacidade de desenvolver tarefas em segundo plano do que exatamente com poder. Hideo me dizia com regularidade que dominar a barreira era um processo lento, que só seria realmente fácil quando se tornasse uma segunda natureza... E isso não acontecia da noite para o dia. Ainda assim, eu vivia frustrada por não conseguir fazê-la corretamente.

— Talvez você precise usá-las. — ele sugeriu — Bem, acredito que devo me retirar. — Ele levantou-se e eu fiz o mesmo, para levá-lo até a porta. Ainda pensei em pedir para ele ficar, mas, bem... estamos falando do Nagi, se ele quisesse permanecer ali por mais tempo, não seria necessário que eu pedisse.

Ao chegar à porta ele parou e sorriu, virando-se lentamente para mim.

— Vai dançar comigo hoje à noite? — perguntou, provavelmente se referindo a um dos "tópicos" do dossiê que descrevia de forma vergonhosa a forma como Nagi havia me tocado quando dançamos no baile beneficente do Tai Group alguns meses atrás.

— Nagi. — ralhei, revirando os olhos.

Ele riu e então segurou meu queixo para me puxar em sua direção e me beijar com firmeza. Não foi um beijo apaixonado ou qualquer coisa assim. Foi apenas contato. Lábios contra lábios, por um pouco de tempo demais. Ele se afastou, enquanto até minhas orelhas ficavam ruborizadas e abriu a porta enquanto dizia:

— Será que ele vai ser informado disso?

E se foi, deixando para trás uma hanyou tengu que não sabia como reagir.


Você tem que acreditar em mim quando eu digo que estava linda. Absolutamente perfeita. Aika havia providenciado que um vestido azul fosse entregue no meu quarto (ou quarto de Sesshoumaru, tanto faz) por volta das quatro da tarde. Era um modelo de um ombro só, do qual se estendia uma manga que ia até meu pulso. O vestido era bem colado ao corpo e acabava um palmo acima do joelho, o que seria algo vergonhosamente curto, se não fosse por uma linda barra de renda de cor ferrugem que o alongava o suficiente para ser respeitoso, mas que era transparente o bastante para parecer sensual.

Por sorte, Tomoyo era uma especialista em maquiagem elegante e dois anos serviram para que eu aprendesse alguns truques bastante úteis. Eu nem sei porque estou me esforçando tanto para me arrumar, senão pelo fato de que meu orgulho feminino não suportava a ideia de parecer medíocre na frente de Tan-ying.

Estava pronta um pouco antes das seis horas. Pouco depois, de forma assustadoramente pontual, Sesshoumaru entrou no quarto. Eu estava sentada no sofá, lendo uma revista de artigos médicos que Nagi providencialmente colocara na minha mala.

Ergui os olhos para ele.

Se eu estivesse esperando que ele de alguma forma demonstrasse admiração pela minha aparência, provavelmente morreria de desgosto. Por sorte, eu não estava esperando isso — embora eu também não estivesse preparada para receber o olhar de desaprovação que ele me lançou.

Fiquei pálida.

Ele sabia. De alguma forma, esse demônio sabia do beijo de Nagi. Céus, esse homem tem um clã de ninjas-semideuses-shinigamis trabalhando para ele? Sem uma palavra sequer, ele seguiu para o quarto e fechou a porta, e apenas quinze minutos depois foi que eu percebi que Sesshoumaru ainda iria se arrumar para o baile. Se era assim por que ele fizera eu me arrumar tão cedo?!

Irritada, limitei-me a ficar sentada, de braços cruzados. Tudo em Sesshoumaru parecia brincar com os meus nervos. Tudo era em excesso. E como se não fosse o bastante, Aika também queria que eu o espionasse.

Suspirei, lembrando-me dos documentos que ela tinha enviado por Nagi. Ao que parecia, a filial do Tai Group na China era algo muito recente, o que não dava a Sesshoumaru apoio suficiente para entrar em grandes negociações de espólios que naturalmente seriam de empresas nacionais. De acordo com os documentos, o Shangai Investments Group entraria em breve em uma concorrência para construção de um complexo hoteleiro e estava à procura de investidores. Isso daria a Sesshoumaru a oportunidade perfeita para entrar efetivamente no mercado chinês, assim como, em médio prazo, daria um grande retorno financeiro ao Tai Group e, consequentemente, poder de controle em negócios japoneses.

Hideo não podia permitir isso. No último documento Aika havia feito uma anotação que dizia: "Se isso for verdade, Hideo pode tentar competir para ser investidor ou pode colocar obstáculos no caminho de Sesshoumaru; qual desses caminhos você acha que o teimoso do seu irmão vai seguir?".

Aika parecia bastante confiante de que eu saberia a resposta para essa pergunta, mas a verdade é que eu não sabia. Eu entendia muito pouco de investimentos de risco – e menos ainda de como a mente do meu irmão funcionava. Pouco a pouco isso me faz compreender por que Hideo parece ter tanta urgência que eu aprenda esse tipo de coisa.

Se não bastasse o estágio (o qual eu fazia apenas para agradar meu irmão, já que o estágio no Aiiku Hospital me deixava exausta), Hideo sempre me sabatinava com questões de economia e administração. Agora começo a compreender por que ele necessita que todos em volta dele estejam dotados desse tipo de conhecimento. Ele não pode ter pessoas incapazes ao seu redor.

Respirei fundo mais uma vez, prometendo a mim mesma que desse dia em diante eu levaria mais a sério as lições de Hideo.

Olhei curiosamente para a porta fechada do quarto, questionando-me por que o youkai safado estaria demorando tanto. Havia coisa mais estranha do que imaginar um youkai tomando banho e se vestindo como uma pessoa comum? Sim, eu sei que meus irmãos também são youkais... É só que eu me esqueço desse detalhe a maior parte do tempo.

Passei mais algum tempo pensando no assunto, até que Sesshoumaru finalmente saiu do quarto, usando um smoking e seguindo para a porta.

Ele sequer olhou para mim, mas algo me dizia que devia segui-lo.


Acho que a única diferença que teria se eu fosse uma boneca inflável era que as pessoas ficariam escandalizadas. Porque, necessariamente falando, minhas funções eram ficar calada e parecer bonita — acho que uma boneca inflável não é exatamente bonita, mas, enfim. Ah. Claro, nesse caso eu também teria outra função bastante peculiar, que por sorte não é da minha alçada. Talvez fosse função da chinesa de língua longa (ou seriam pernas ferinas?), mas é meio estranho imaginar Sesshoumaru como um homem de necessidades sexuais. Na verdade, é estranho imaginar qualquer pessoa dessa forma.

Encarei a taça de champanhe metade cheia — ou metade vazia? — pensando no assunto. O.k., hora de parar com o álcool.

Coloquei a taça na bandeja de um garçom, quando ele passou. Sesshoumaru estava ao meu lado, completamente impassível, com uma mão firme em minha cintura. Vi de relance uma das mulheres que haviam estado no jantar em que eu tinha ido de calça jeans me encarando com surpresa. Quase sorri e acenei para ela, mas me controlei a tempo.

Hideo, Aika, Daiki, Nagi e Hiroko haviam chegado a pouco menos de meia hora, mas ainda não haviam conseguido se aproximar de mim. Provavelmente sequer tinham me visto, embora minha presença fosse forte o suficiente para aclarar qualquer dúvida sobre a minha localização.

Respirei fundo e fiquei observando junto com os demais convidados a debutante homenageada descer as escadarias para ser recebida por aplausos e uma música melosa tocando no último volume.

Quase vomitei.

Mais tarde fui com Sesshoumaru desejar parabéns a ela. Quer dizer, apenas acompanhá-lo nessa tarefa, já que eles falavam chinês e nem de longe eu era capaz de compreendê-los. Acho que depois que voltar para o Japão vou começar a fazer alguns cursos de idiomas. É meio desesperador passar uma noite inteira sem entender o que as pessoas falam a sua volta.

— Ryuuji, fique com Kagome. — disse Sesshoumaru para um tai-youkai de cabelos prateados que havia ficado perto de nós a noite inteira, enquanto meu noivo andava na direção de Shung Chen, o presidente da Shangai Investments Group. Droga, Aika me mataria se soubesse que eu havia perdido a chance de ter certeza que Sesshoumaru estava ali para negociar com o Presidente Chen.

Suspirei, observando com irritação a muralha tai-youkai que estava ao meu lado. Pensei em comentar como era estranho um youkai cão ter o nome de Dragão, mas achei melhor deixar para lá. Eu não gostava do olhar nervoso estampado perenemente no rosto dele.

— Aqui está você. — soou Nagi ao meu lado, fazendo com que eu sorrisse instantaneamente. Graças. Uma pessoa que falava japonês. — Você está me devendo uma dança, recorda?

Ele estendeu a mão para mim e eu de imediato estiquei a minha para alcançá-lo. A muralha youkai se pôs na minha frente, segurando o braço de Nagi com força e encarando-o com expressão raivosa.

— E aqui está o Executor de Sesshoumaru.— perguntou Nagi com expressão neutra. — Como seu irmão está, Executor? — Nagi fingiu estar realmente interessado na resposta, chegando, até mesmo, a parecer decepcionado quando Ryuuji apenas ficou encarando-o — Você não sabe? Pensei que você adorasse seguir Richard como um cãozinho. Ah, entendeu a piada? Cãozinho, tai-youkai. É mais engraçado se você se esforçar para entender.

Ergui as sobrancelhas, pensando sobre o fato de Ryuuji ser o executor de Sesshoumaru. Se não fosse por Nagi, eu nunca saberia desse fato. Tive que desviar o olhar para o Muralha, numa tentativa de analisá-lo. Eu não fazia ideia do que Nagi estava falando sobre o tal irmão de Ryuuji, mas, pelo tom das provocações, eu imagino que eles não sejam bons amigos.

— Se não quiser perder suas mãos, acho melhor se afastar, tengu. — disse Ryuuji, entredentes — Acho melhor não me provocar. Se bem me lembro, ainda te devo uma surra fodida.

Nagi exibiu uma expressão preocupada, embora esse sentimento não alcançasse suas palavras:

— Se você iniciar uma briga aqui, quem acha que vão culpar? — Nagi soltou o braço do aperto de Ryuuji quase sem esforço e então sorriu para mim. Um sorriso que dizia "me diverti o suficiente irritando esse aqui". — Nós vamos embora às onze. Hideo acha que o custo de ter vindo a esse baile foi alto demais. Então, não se atrase.

E se afastou.

É claro que Hideo estava odiando o fato de Sesshoumaru ter me sequestrado. E se não estivesse irritado com isso, ficaria com Daiki torrando sua paciência por que a irmãzinha dele estava nas mãos do demônio-desvirginador-de-irmãs.

Observei Ryuuji parado ao meu lado, tão rígido quanto um homem que espera um açoite. Parecia bastante frustrado por ter sido manipulado por Nagi. Isso fez com que eu começasse a gostar um pouquinho dele, pois eu sabia muito bem como era ser manipulada pelo psicopata em questão.

Sesshoumaru voltou algum tempo depois, dando um olhar significativo para Ryuuji que logo se afastou e saiu de vista, indo sabe-se Deus para onde.

— Por quanto o tempo vamos ter que ficar aqui? — perguntei para Sesshoumaru. Eu estava entediada e estressada. Queria apenas deitar em alguma cama, mesmo que a cama em questão fosse a dele.

— O quanto for necessário. — ele respondeu.

Queria saber que horas eram, mas não trouxe meu celular. E também não havia a possibilidade de perguntar para o meu noivo — não que eu achasse que ele fosse responder — uma vez que ele não estava usando relógio. Isso, ao que parecia, era um costume bastante comum, já que Hideo também não os usava quando ia a eventos. Pergunto-me se isso é alguma regra de etiqueta que diz "Usar um relógio é o mesmo que dizer ao anfitrião que você está ansioso para se retirar (ele provavelmente sabe que você está, mas faça um esforço para não ofendê-lo). Grato, O Manual Moderno de Etiqueta". Eu estava em meio a uma discussão interna sobre regras de etiqueta quando Hideo se aproximou. Sozinho.

Hum... Isso é estranho.

Quando Hideo parou a nossa frente, foi que percebi que ele estava pálido e irritado. O que o meu irmão havia visto para ficar tão irado?

— Senhor do Oeste — Meu irmão cumprimentou secamente, apertando os dentes com força como se estivesse se segurando para não socar o meu noivo, recebendo apenas um aceno curto de volta. — Kagome, venha dançar comigo. — Meu irmão disse, estendendo a mão, sem dar espaço para Sesshoumaru dizer que não deixaria.

Eu não esperei que Sesshoumaru se pronunciasse e fui ansiosa na direção do meu irmão. Por sorte, Sesshoumaru não me impediu. Na verdade, parecia não se importar em absoluto com isso, então fui guiada por Hideo até a pista de dança.

— Por que... — disse Hideo, irritado — Sesshoumaru está com o seu cheiro?! O que aquele infeliz fez?!

— Meu cheiro? — perguntei, confusa.

— A roupa dele...! É como se vocês... — ele engoliu em seco — Que merda aconteceu?!

O.k., ele estava irritado para caramba se estava falando palavrão. Mas... Por que Sesshoumaru estaria com o meu cheiro? Não é como se nós tivéssemos dado uns amassos no caminho para cá.

Ruborizei, quando finalmente notei por que o meu irmão estava tão perturbado. Olhei de esguelha para Sesshoumaru e finalmente percebi o motivo de ele estar com o meu cheiro. Ele estava usando a camisa com a qual eu havia dormido.

Infeliz. Maldito.

Sem perceber, eu havia dado uma ferramenta para o desgraçado deixar claro para o mundo que o nosso relacionamento estava bem adiantado. Escondi meu rosto ruborizado no ombro do meu irmão, enquanto ele resmungava:

— Não é possível que... Você... Você parecia muito ansiosa para sair de perto dele para alguém que se diz apaixonada... Mas ainda assim... — Hideo afastou-se para me observar, completamente aturdido.

Kagome, tenha muita calma ao responder. Seu irmão precisa acreditar que você e Sesshoumaru têm um relacionamento e talvez essa situação absurdamente vergonhosa tenha alguma utilidade.

Limpei a garganta.

— Nós... brigamos. — respondi, titubeando uma mentira. Droga, eu sou péssima nisso. — Por causa... você sabe... daquela chinesa.

Hideo não acreditou em mim, ou ao menos não queria acreditar, muito embora as provas estivessem ao meu favor.

— Isso não pode ser verdade. — ele disso, guiando-me com eficiência em uma dança lenta — Você não precisa se forçar a isso por nós, Kagome.

— Eu... Já expliquei para você que as coisas são complicadas. — falei, nervosa. — Você não entenderia.

— Talvez entendesse se você quisesse explicar.

Ergui os olhos para o meu irmão, estudando os olhos azuis semelhantes aos meus, que demonstravam preocupação. Será que eu poderia explicar realmente para ele o que tudo aquilo implicava? Que eu conhecia Sesshoumaru de quinhentos anos atrás? Que eu pulava em um poço e saía dele na Era Sengoku?

Baixei os olhos.

— Quando chegarmos a Tóquio... eu prometo que conversaremos. — disse, torcendo para não me arrepender disso posteriormente. Eu não queria que meu próprio irmão achasse que eu era louca. — Eu explicarei tudo.

Hideo se limitou a me encarar, desconfiado, mas por fim pareceu aceitar minhas condições. Vi por sobre o ombro de Hideo quando Ryuuji se aproximou a passos largos do meu noivo e falou algo disfarçadamente. Depois disso, Sesshoumaru se dirigiu para uma das portas de serviço do saguão.

Aonde Sesshoumaru estaria indo?

Encarei Hideo, ansiosa.

— Hum... Hideo... Agora que estou olhando de perto... — Ergui a mão que estava no ombro do meu irmão para tocar os cabelos negros dele — Seu cabelo está ficando com pontas azuis. Qual foi a última vez que você os cortou?

Meu irmão empalideceu. Normalmente os tengus mantinham os cabelos curtos para evitar que as pontas ficassem azuis, enquanto que as mulheres os pintavam com regularidade. Daiki era o único louco que adorava esse pequeno detalhe da nossa raça.

— O quê?! — Então parou de dançar e se afastou apressadamente de mim, chamando por Aika.

Aproveitei a deixa e saí da pista de dança, seguindo para onde Sesshoumaru havia ido.


Enquanto andava apressadamente pelos corredores, eu começava a erguer a barreira pessoal para esconder minha presença. A barreira não era perfeita, mas serviria por ora. O complicado seria mantê-la, já que eu ainda preciso me concentrar nela por todo o tempo, o que torna complicado prestar atenção em qualquer outra coisa.

Aliás, isso é provado nesse momento, já que eu me perdi em meio aos corredores.

Praguejei. Como eu tinha sido capaz de me perder?! E mais, onde diabos estava Sesshoumaru? Fazia quase meia hora que o procurava, e mesmo assim não via nem rastro dele.

Continuei andando até me deparar com uma porta de vidro que dava no estacionamento subterrâneo. Passei por ela. Apesar dos carros, o imenso espaço parecia completamente ausente de qualquer criatura viva.

Foi quando senti a presença de Sesshoumaru. Estava clara, sem nenhum tipo de anulador, quase como se ele estivesse projetando-a de propósito. Surpresa, olhei em volta, procurando algum lugar onde me esconder. Abri uma porta do que poderia ser um armário e entrei, fechando-a silenciosamente.

Senti o cheiro forte de graxa e fluídos mecânicos e percebi que provavelmente estava dentro da sala de algum maquinário, como o motor do elevador ou até mesmo circuitos elétricos. Fiquei rigidamente parada, com medo de tocar em qualquer coisa.

A porta de ferro tinha algumas frestas por onde eu poderia observar o estacionamento, embora os carros não possibilitassem que eu enxergasse muito longe.

E, então, Sesshoumaru entrou no meu campo de visão e eu arfei, surpresa. Era como se todos os anos que me separavam da era Sengoku evaporassem e Sesshoumaru fosse apenas... Sesshoumaru.

Ele estava vestido em seu quimono branco, com detalhes vermelhos e obi amarela. Na altura de seus ombros havia a armadura dentada que eu me lembrava com tantos detalhes. Até mesmo aquela coisa felpuda que ele usava por cima do ombro, e que por tantas vezes eu me questionei o que seria. Na cintura, estavam duas espadas embainhadas: a Tenseiga e a Bakusaiga.

Por um momento, era como se eu estivesse novamente na Era Sengoku, e isso causou um aperto no meu peito. Então percebi o cabelo curto e me toquei da verdade: esse Sesshoumaru que eu via era o mesmo que estava comigo no baile, não aquele que eu havia conhecido no mundo além do poço.

Só que... esse Sesshoumaru e aquele Sesshoumaru eram a mesma pessoa. E só nesse momento eu percebo como em minha mente as duas figuras sempre eram vistas como distintas.

Eu sou realmente estúpida.

Enquanto eu me martirizava, um homem de alta estatura apareceu dentre os carros, usando uma roupa tradicional chinesa. Ele parou na frente de Sesshoumaru, mantendo as mãos atrás do corpo.

Eu não o conhecia, mas havia algo nele que era... estranho. Talvez ruim, talvez apenas diferente, mas que me deixava desconfortável.

— Pensei ter deixado claro que nenhum youkai seria permitido em território chinês. — disse o homem em japonês, sibilando furiosamente — Quer iniciar outra guerra, youkai?!

Sesshoumaru parecia irritantemente calmo.

— Oitenta anos atrás, eu entrei em guerra contra você, yaoguai¹. — Sesshoumaru respondeu — Não preciso lembrá-lo quem venceu, acredito.

— Nós não somos quem éramos há oitenta anos. — sibilou mais uma vez — Adentrar em território chinês é uma afronta, uma quebra de acordo. Se quer guerra novamente, eu lha darei.

Estranhei que ele usasse um japonês tão formal, como se ele tivesse aprendido nossa língua há muito séculos. Era impossível levar a sério alguém que falava assim, já que o primeiro instinto era associá-lo àqueles bonecos de parques de diversões vestidos de samurais que terminam todas as frases com um "gozaru"².

— Taiwan não é exatamente território chinês, mas já que estamos falando de transgressão, que tal falarmos do fato de seus servos tentarem invadir meu território com bastante periodicidade nos últimos três anos? — Ryuuji finalmente apareceu no meu campo de visão, trazendo nas mãos uma grande caixa de madeira — Todos eles foram mortos, claro, então achei que precisava vir lhe dizer o que estava acontecendo, já que seus espiões não lhe davam notícias. — Com descaso, Sesshoumaru abriu a caixa que Ryuuji segurava e tirou de dentro uma cabeça decapitada, a qual ele segurava pelos cabelos.

Eu já tinha visto muitas coisas chocantes na Era Sengoku. E mesmo que não fosse assim, o curso de medicina acaba tornando alguém insensível para esse tipo de coisa. Ver sangue ou partes decepadas não me abalavam.

Foi o som que realmente me deixou nauseada. O som da cabeça humana batendo contra o concreto quando Sesshomaru a jogou na direção do homem, que hiperventilava de tanta fúria.

O som foi tão errado, tão ultrajante, que eu senti o gosto de bile no fundo da minha garganta e a barreira oscilou por um milésimo de segundo.

Encostei minha testa à porta, tentando me recuperar.

— Da próxima vez que um yaoguai adentrar em meu território, eu virei atrás da sua cabeça, Niu Mo Wang³. — ameaçou Sesshoumaru. E então tudo ficou em silêncio. Ouvi os passos do homem se afastando dentro do estacionamento, e depois passos entrando novamente no prédio.

Enquanto isso, eu apenas fiquei ali, com a testa encostada na porta, sentindo suor frio escorrer pela minha nuca. A porta se abriu e eu caí para a frente. Soltei um grito, mas uma mão segurou meu ombro e me colocou em pé novamente.

Ergui os olhos para Sesshoumaru.

— O voo dos seus irmãos vai sair em breve. — ele disse, com uma expressão de cruel ironia no rosto. Engoli em seco, me sentindo como uma pequena órfã tentando furtar comida.

Por fim, apenas fiquei encarando-o, sem saber o que dizer. Desviei os olhos para o local no estacionamento onde eles estiveram, mas, por sorte, não havia nenhum sinal do que acontecera, nem mesmo a cabeça decapitada de algum espião. Questiono quem a levou, se o yaguoai ou um dos homens de Sesshoumaru.

Voltei a encarar meu noivo e depois a Tenseiga em sua cintura. Fechei os olhos com força, tentando colocar as ideias no lugar. Por fim, apenas saí andando, afastando-me de Sesshoumaru, chegando à conclusão de que o melhor a fazer era me encontrar com os meus irmãos e sair daquele lugar o mais rápido possível.

— Não pensei que um Tsubasa fosse descer ao nível de ouvir atrás da porta. — Sesshoumaru soou acidamente atrás de mim — Corra para dizer tudo ao seu irmão, ele deve ficar feliz de ver que a irmã dele é uma ótima rata.

Parei e me virei para Sesshoumaru. Não o Sesshoumaru de séculos atrás ou o Sesshoumaru de agora. Apenas Sesshoumaru, o irmão de Inuyasha, aquele que havia me salvado um par de vezes numa época que ele sequer recordava.

Parecia estupidez confiar nele, mas, bem, eu nunca fui um exemplo de sabedoria.

Suspirei.

— Não direi nada a Hideo. — eu disse calmamente — O que acontece em seu território não diz respeito a mim, e muito menos ao meu irmão.

Ele não pareceu surpreso ao me ouvir dizer isso, então fui embora. De uma forma estranha, mas realmente bem estranha, eu sentia que naquele momento Sesshoumaru e eu havíamos estabelecido uma trégua.


Notas:

¹Yaoguai é um termo chinês que geralmente significa "demônio". É uma classe de criaturas sobrenaturais da Mitologia chinesa, principalmente espíritos de animais maléficos ou seres celestiais caídos que adquiriram poderes mágicos através da prática do Taoismo. Ele tem um equivalente japonês, é o youkai, queé um termo que provém do chinês, equivalente no japonês nativo, às vezes escrito com o mesmo Kanji.

²Gozaru é uma forma mais formal de dizer o habitual Desu (equivalente ao "ser", "é", "sou" em português). Era usado principalmente pelos Samurais, na Era do Bakumatsu/Bafuku (Era Edo).

³Niu Mo Wang literalmente, "touro rei demônio".


ALOHA GALERA DO MAL!

Aqui quem fala é a linda e maravilhosa Fkake, falo memo. Enfim, espero que vocês gostem da budega desse capítulo, não esqueçam de comentar, dizendo que está tudo um lixo ou tudo lindo e o que podemos fazer para ficar mais legal.

Acredito que agora a história esta dando uma engrenada, sendo que algumas questões vão começar a ser esclarecidas, finalmente, pois é assim, nois gosta tanto dessa joça que enrola pra caralho.

Ladie mandou avisar que dia 15 ela posta o próximo capítulo... se ela não postar é culpa dela.

Ai tiro mesmo o meu da reta xD

Para fazer alegria de vocês... temos muitos capítulos adiantados =D

Agora vamos às respostas dos lindos lentores que deixam comentário, a você que lê e não comenta, Deus esta vendo isso.

PS — Admito que a culpa foi minha por três dias de atraso... esqueci de atualizar a fic e a Ladie ficou me xingando aqui xD