Capítulo XX — E a trégua durou pouco

De volta à Tóquio. De volta à Mansão Corvo. De volta à faculdade. De volta ao estágio no Aiiku e na Empreendimentos Tsubasa. De volta à minha mãe cobrando que eu levasse meu noivo para conhecê-la.

Ou seja, de volta à realidade, assim, ao menos, eu poderia esquecer do percalço em Taiwan. Embora obviamente Aika e Hideo não estivessem dispostos a esquecer assim tão fácil.

Aika queria saber o que eu havia descoberto, e embora eu tenha deixado claro para ela que deveria se tranquilizar sobre os motivos de Sesshoumaru ter ido a Taiwan, ela não acreditou muito no que eu disse, uma vez que não quis revelar o motivo para achar isso. Hideo, por sua vez, estava me cobrando a promessa que fiz.

Essa, com certeza, era a parte mais difícil.

Então, já que tinha que ser feito, levei meu irmão mais velho ao templo da minha família e mostrei o Poço Come-ossos.

A cara de Hideo quando comecei a explicar tudo foi, no mínimo, hilária. Apesar da incredulidade, ele lidou bem com o fato de eu lhe dizer que pulava num poço e matava youkais na Era Sengoku.

Pensei que ia doer menos trazer tudo isso à tona. Era, talvez, a primeira vez que eu falava sobre tudo o que havia acontecido desde quando fui jogada de volta à essa era, e cada palavra era dita como se fosse um espinho sendo retirado da pele. Era doloroso, cheio de pesar. Nostálgico, e não no bom sentido.

Hideo respirou fundo, cruzando os braços, parecendo absorver tudo o que eu havia lhe dito.

— Eu sabia que, de alguma forma, você tinha visitado o passado. Era a única explicação para Shippou se referir a conhecer você da época em que era jovem. Mas eu não pensava que seria algo tão físico... Não sei, algo espiritual, por causa dos seus poderes de sacerdotisa. — Ele lançou um sorriso amarelo — Então era isso... Quando o irmão de Sesshoumaru gritava que eu tinha matado uma "Kagome"... — O sorriso, lentamente, tornou-se amargo.

— Isso... — falei, respirando profundamente — Quando Inuyasha te atacou, duzentos anos atrás... Ele fez isso por que achou que você era o culpado quando desapareci. — Falei quase engasgando, enquanto Hideo apenas me encarava com expressão grave — Sinto muito, Hideo... Você e papai sofreram por minha causa. Eu me pergunto se você seria capaz de me perdoar.

Não esperava que Hideo fosse me abraçar, então quando ele o fez, eu apenas fiquei rígida em seus braços, de olhos arregalados.

— As coisas são como são, Kagome. A culpa não é de ninguém. — ele respondeu, respirando profundamente. E então me vi relaxando aos poucos — Não se pode lutar contra o destino.

Apenas acenei afirmativamente, quase começando a chorar por causa disso. O alívio que me percorreu foi uma sensação ótima.

— Obrigada. — eu disse, num sussurro.

Hideo se afastou o suficiente para sorrir. E então mamãe escolheu esse momento para entrar no galpão do poço e nos chamar para comer alguma coisa. Enxuguei as lágrimas com as costas da mão e sorri para a minha mãe.

"Não se pode lutar contra o destino", Hideo havia dito. Talvez fosse verdade.


Ao chegar em casa naquela noite eu fui diretamente para o meu quarto. Tinha que colocar as ideias no lugar, principalmente quando Hideo parecia estar lidando com o assunto muito melhor do que eu. Era óbvio que meu irmão já tinha noção desde muito tempo que tinha viajado para o passado, mas apenas hoje soube como e o porquê.

Eu, no entanto, estava muito sem jeito. Sentia como se tivesse contado aos meus pais que tinha perdido a virgindade com o filho delinquente do vizinho.

Mesmo assim, estou consciente que contar para Hideo era uma coisa, mas para Daiki era outra história completamente diferente. Eu não queria sequer imaginar como meu outro irmão reagiria.

Fiquei deitada, olhando para o teto. Meu gato pulou na cama e ficou se esfregando em mim. Suspirei, pensando em como Hideo reagiria de hoje em diante depois de saber que eu conhecia Sesshoumaru há séculos e que ele nem sempre fora tão sem sentimentos como hoje em dia.


— Oi, Kagome! — disse Kashimoto, ao me ver saindo do vestiário feminino do Aiiku. — Senti sua falta esses dias.

— Recebi uma espécie de punição por ter respondido Sesshoumaru daquela forma. — falei, enquanto nos dirigíamos para a ala de descanso dos médicos. — Tive que ficar uma semana em casa pensando no que fiz. — Muito embora viajar para Taiwan não seja exatamente ficar em casa.

Kashimoto estudou minha expressão.

— Ouvi dizer que aquele homem que veio ao hospital é seu noivo. Eram o que todos estavam comentando no hospital semana passada.

Ruborizei.

— É mais complicado que isso. — respondi — Então, você tem alguma novidade?

— Além de descobrir que você tem um noivo? — ele perguntou, erguendo uma sobrancelha.

Parei no meio do corredor para observá-lo.

— Espera… Você não sabia? — questionei. De acordo com os meus botões, até os gatos vira-latas que viviam na faculdade sabiam que eu era noiva de Sesshoumaru. — Era só no que se comentava dois meses atrás…

— Bem… As pessoas não conversam comigo. De alguma forma todos me cumprimentam e são gentis, mas não sou a primeira pessoa que procuram para sair ou para contar fofocas. — disse Kashimoto — A única amiga que tenho é você.

Oi? Eu não esperava por essa. É bem verdade que Kashimoto é excluído, mas isso é por que as pessoas são meio tímidas e ficam com medo de fazer papel de bobas na frente de um estrangeiro — muito embora Kashimoto tivesse apenas descendência estrangeira.

É só que de repente receber na fuça a bomba de "única amiga que tenho é você" é um pouquinho assustador. Não que eu não queria ser amiga de Kashimoto, apenas parece que eu tenho a responsabilidade de ser uma ótima amiga, por que ele não tem ninguém mais.

Nem preciso falar como isso é estranho, aliás.

Lancei um sorriso amarelo para Kashimoto e voltamos ao nosso caminho.


O dia era sexta-feira. O horário era 21:13. O programa era sair com os meus amigos e aproveitar uma noite de coisas vergonhosas num karaokê.

O que ninguém esperava era que eu entrasse na sala de karaokê alugada com Kashimoto a tira-colo — leia-se, Kenjiro quase teve um orgasmo. É claro que ninguém esperava isso, mas também ninguém reclamou; afinal, ele é muito bonito.

E ai é hora de perguntar? Mas por que, Kagome, você levou o Kashimoto a uma reunião de amigos?

Por que ele é meu amigo, oras. Ele não havia deixado isso tão claro? E se eu era amiga dele, a minha função era fazê-lo ter alguma vida social. E cá estamos nós. Ruri ficou tentando fazer ele se soltar e brincar conosco e o Yuri (sim, como namorado da Ruri ele achava que tinha o direito de intrometer nos nossos programas) ficou tendo crises de ciúmes.

Kenjiro saiu e depois voltou com salgadinhos, refrigerante e saquê. Yuri disse que pessoas de verdade deveriam beber vodca e saiu para comprá-la. Quando ele finalmente voltou, Kashimoto disse algo como:

— A arte de beber vodca é algo que eu domino. — todos ficaram em silêncio, até que caíram na gargalhada e Yuri bateu no ombro de Kashimoto gritando algo como "É assim que se diz, guri!".

Com essa, Kashimoto sorriu de leve e pareceu relaxar por completo. O suficiente, ao menos, para me estender uma dose de vodca.

Todos pararam de conversar nesse momento, e ficaram nos encarando. Yuri foi quem se pronunciou:

— Não, cara, não faça isso… Se os irmãos dela descobrem que deixei que ela bebesse, é capaz de um arrancar meu fígado e o outro roubar minha namorada.

Irritada com o que ele havia dito, apenas peguei o copo na mão de Kashimoto e virei o conteúdo na boca.

Não sou controlada pelos meus irmãos! Posso beber se eu quiser! Viva!

— Vai com calma, Kagome. — pediu Kenjiro ao meu lado quando mandei a segunda dose de vodca goela abaixo.

Ergui a sobrancelha para Yuri, desafiando-o silenciosamente a me reprimir novamente por causa do que os meus irmãos poderiam fazer ou falar. Felizmente, ele apenas deu de ombros e se recostou no sofá ao lado de Ruri resmungando algo que não ouvi, mas minha amiga sim e soltou um "como?" alto suficiente para que Arusa e Kenjiro se aproximassem para perguntar o que havia acontecido.

Preferi não dar atenção. Conhecendo bem aquele tengu, deve estar resmungando dos cortes de salários feitos pelo Hideo e as tachinhas que apareceriam em qualquer lugar que ele fosse sentar, por culpa de Daiki.

— Irmãos protetores? — questionou Kashimoto.

— Coloque um mega/hiper/super na frente de protetores. — respondi, enchendo mais um copo de vodca, ele fez o mesmo e brindamos.

Sinceramente, não faço a mínima ideia de quantos copos foram... ou garrafas... apenas sei que eu não estava conseguindo acompanhar a letra da música com a Arusa. Yuri estava estirado no chão com Ruri sentada sobre sua barriga perguntando se ele estava bem. Para Ruri estar ali sentada, é só por causa do álcool. Kenjiro se encontrava deitado no sofá, abraçado ao menu de músicas enquanto imitava o som da guitarra com a boca.

Sentei no chão ao final da música, na verdade, meus joelhos cederam e eu cai de bunda, mas, para todos os efeitos, sentei-me.

Kashimoto segurou o meu braço enquanto Arusa se apoiava nas costas dele. Apertei os olhos obrigando a imagem a entrar em foco, suspirei enquanto me deixava ser erguida, não fiquei em pé muito tempo, pois tentei andar e fui de encontro a Kenjiro no sofá.

— Homem moreno de olhos claros, nem pensar, né? — Ele reclamou enquanto eu espalmava a mão em seu peito, sentei em sua barriga.

— Sofá ondulado. — puxei a camisa de Kenjiro. — Salve academia, meu filho.

— Onde acha que conheço meus namorados?

— São tantos assim?

— Quem come quieto, come duas vezes.

— AAAHH! — gritei com a imagem que me veio à mente, Yuri se levantouk derrubando a namorada no chão.

— Quem tá comendo a Kagome?!

— EU! — respondeu Arusa. — Espera, quem come o quê?

— Hã? — Yuri coçou a nuca. — Por que eu levantei?

— Sei lá, amor.

Observei os dois, que ficaram sentados no chão, ele serviu mais saquê à namorada. Kashimoto segurou meu braço, mais uma vez fazendo-me ficar em pé, Kenjiro se levantou em seguida gritando que precisava libertar a diva que estava dentro de si.

— Tudo bem? — questinou Kashimoto.

— TUDO ÓTIMA!

Acho que não precisava gritar dessa forma, mas tudo bem.

— Melhor te levar para casa.

— A MINHA SENHORA EU LEVO! — ouvi Yuri gritar, então ele pegou Ruri no colo e saiu andando.

— Por um momento achei que ele estava falando de você.

— Ainda bem que ele não me levou junto. Ele é bonito, mas não faz meu tipo e nem sou muito adepta a essas coisas de trio, entende?

Kashimoto franziu a sobrancelha.

— Não.

— Sabe... Quer mesmo que eu te explique?

— Certo, você bebeu demais. Venha, vou te levar para casa.

— A minha ou a sua?

— A sua.

— E você sabe onde fica? Porque eu não faço ideia.

— Lembro de você comentando mais ou menos onde morava uma vez... Eu te levo e você me mostra qual casa é.

— TEMOS UM PLANO! GO!

Não sei ao certo quem levantou, se ele me levantou ou se eu levantei sozinha, ou se simplesmente já estávamos em pé. Não faz diferença, o que importa é que Kashimoto segurou meu braço e me conduziu para fora da sala de karaokê. Maldita bebida que não me deixa pensar direito.

Fiquei ainda mais confusa quando senti meu corpo indo para o lado esquerdo, assim que saímos do karaokê. Kashimoto tentou me segurar, mas um braço coberto por um pano branco passou diante meus olhos, pisquei umas duas vezes, notando que o pano branco era um jaleco e o dono do braço era o Nagi. Franzi o semblante, enquanto me sentia sendo pressionada contra o corpo do tengu psicopata, a mão do referido tengu estava sobre o peito de Kashimoto.

— Yuri me mandou um email avisando que estava bebendo. — ele disse me olhando. — Vou levá-la para casa. — Então o olhar dele caiu sobre Kashimoto. — Não é seguro deixar você sozinha nesse tipo de situação.

Acho que ouvi um "ela não estava sozinha" ou algo parecido com isso, não sei ao certo. Quando dei por mim estava no carro do Nagi quase em casa...

— Teleporte!

— Não grita no carro.

— Seu demônio!

— Pare de gritar. — ele suspirou. — Louca.

— Tua mãe!

— Rogo por paciência... ou um objeto letal. — Ele deu de ombros — O que vier primeiro.


É clássico você se arrepender do que faz quando está bêbado. Porque o álcool causa esse efeito nas pessoas, as deixa frágeis, alegres e de língua solta. Mas, mesmo sabendo disso, tenho certeza que eu podia ter evitado de ter falado tanta besteira na frente do Kashimoto. Quer dizer... Nós somos amigos — ou assim ele diz —, mas não somos íntimos o suficiente para encarar como algo normal.

O.k., acho que temos a mesma opinião de que eu preciso tentar me desculpar sobre o ocorrido "vodca no karaokê".

Na segunda-feira, resolvi faltar às aulas, por que ainda sentia efeitos da ressaca de vodca. À tarde me levantei com uma força que estava além de mim para ir ao Aiiku.

Kashimoto não estava lá. Por incrível que pareça, o Sr. Assíduo havia faltado um dia de trabalho. Pensei se era possível ainda estar de ressaca. Se esse de fato era o caso, então ele não era tão especializado em beber vodca como dissera.

Por ora, apenas agradeci o fato de não ter que enfrentar a vergonha de me desculpar de imediato, embora ficar ansiosa até o dia seguinte não fosse exatamente atraente.

Encarei meu trabalho como escrava de hospital até que bem nesse em dia, já que eu mal tinha forças para ficar irritada com a forma como me tratavam.

No dia seguinte, fui à faculdade, e Kashimoto havia faltado à aula novamente (já que, como foi confirmado pelos meus amigos, no dia anterior ele também não havia posto os pés por ali). À tarde, apenas eu e a outra estagiária comparecemos, e a médica que era nossa supervisora de estágios no informou que nos colocaria em alas específicas a partir daquele dia. Eu fui designada para a ala de maternidade e pediatria.

Isso foi meio que um bálsamo depois de meses trabalhando como uma serva. Afinal, se era para trabalhar como uma escrava, ao menos queria fazer isso numa área que me interessava — como eu havia dito anteriormente, o principal motivo para eu ter me inscrito para estágio no Aiiku é o fato de eu ter nascido aqui.

Admito, fiquei tão animada com a ideia de ter sido designada para a nova ala que esqueci completamente de Kashimoto. Aliás, veio o sábado (o dia em que eu tinha que estagiar com o Hideo) e foi quando finalmente eu percebi que eu não havia visto Kashimoto uma vez sequer em toda aquela semana.

Alguma coisa estava errada. E eu era uma péssima amiga se tinha percebido isso somente agora.


Como ontem era o dia da Tomoyo dar aula de Rumba para os tengus — menos o Hideo, porque ele ameaçou tirar o salário dela, e o Nagi, porque ameaçou tirar a vida dela — eu acabei indo dormir exausta e perdi a hora da faculdade. Por causa disso, eu tive que esperar até o horário do almoço para perguntar para os meus amigos:

— Vocês têm alguma notícia de Kashimoto?

Kenjiro e Arusa apenas me encararam como se eu tivesse perguntado se alguém tinha trazido cookies polvilhados com drogas.

— Você não soube? — perguntou Ruri, observando-me com expressão confusa.

— Não... Nossa, você tinha saído mais cedo para o estágio... — Kenjiro bateu a mão contra a testa — Desculpa, Kagome, eu fui um freelancer de fofocas realmente muito falho! Esqueci de te contar!

— Me contar o quê?

— Kashimoto foi transferido. — disse Arusa — Ele viajou na segunda-feira passada algumas horas depois de receber um telefonema da Partè d'Universidad, na França. O coitado teve que ir às pressas pois do contrário perderia o prazo para as matriculas desse semestre.

Meus olhos com certeza estavam redondos quando encarei Arusa.

— Ele foi o quê?!

Todos caíram na risada com isso, como se meu assombro fosse algo realmente hilário. É claro que era, vocês tiveram sete dias para se acostumar ao fato que Kashimoto foi transferido do nada! para o outro lado do mundo, apenas um dia depois de ter me embebedado!

O.k., quando coloco as coisas assim a situação parece ainda mais estranha. Isso realmente não me cheira bem.


Poucas vezes fiquei realmente agradecida do fato de meus irmãos serem neuróticos ao ponto de permitir que Raiden desperdiçasse todo aquele talento para o mal dele apenas em me proteger.

Sentada no banco de trás do sedã Corvo — o nome que dei para o carro que Hideo entregou ao Raiden apenas para me levar e trazer da faculdade —, eu lia os documentos que ele havia conseguido, uma vez que eu lhe pedi para investigar a fundo a transferência de Kashimoto.

Deixei o maço de folhas pousar nas minhas coxas e ergui os olhos, suspirando.

— Raiden... — chamei — Você sabe onde Sesshoumaru mora, não sabe?


Eu fiquei olhando a entrada de uma casa japonesa tradicional do banco de trás do Sedã Corvo, refletindo se era realmente uma boa ideia fazer o que eu pretendia. Qualquer pessoa — ou youkai, tanto faz — saberia que enfrentar Sesshoumaru era uma péssima ideia. Enfrentar Sesshoumaru no território dele era suicídio.

Muito bem.

Abri a porta do carro e respirei fundo, enquanto apertava meus dedos em volta dos documentos que Raiden havia coletado. Aliás, ele em questão desperdiçou segundos preciosos do seu tempo para olhar para mim com desaprovação. Sim, eu sei, sou uma idiota e não deveria estar fazendo isso. Agora diga algo que não sei.

Andei pela calçada nivelada até o portal gigantesco. Vi a campainha cromada na lateral de uma porta menor. Ergui a mão para tocar a campainha quando, repentinamente, a porta da frente se abriu, antes que eu fizesse a campainha soar.

Dei um pulo para trás, encarando um homem de cabelos prateados que me encarava. Mas não, não era Sesshoumaru. Esse tinha olhos azuis e expressão entediada, olhou-me dos pés a cabeça, e então apenas ficou me encarando, com uma sobrancelha erguida. Lembrei vagamente de já ter visto esse hanyou antes, mas não consegui me recordar de quando.

Era óbvio que ele esperava que eu dissesse alguma coisa, mas eu estava muito ocupada me perguntando como puta que pariu ele sabia que eu estava na porta antes mesmo de eu tocar a campainha. Pensei em câmeras ou vidência, mas logo percebi que era apenas a minha presença de supernova me denunciando.

Outro youkai apareceu na porta, esse quase uma cabeça mais alto que o de expressão irônica... E, percebi, era alguém conhecido. Se tratava de Ryuuji, o executor de Sesshoumaru. Ele usava uma regata branca que estava suada e carregava uma garrafa de isotônico.

Era óbvio que ele havia acabado de sair de alguma espécie de exercício.

— Eu não acreditei que era realmente você... Mas parece que me enganei. — ele comentou, lançando um sorriso de gozação. Ótimo, vir aqui era algo tão idiota que até meus antagonistas acham apropriado comentar.

Revirei os olhos.

— Eu quero falar com Sesshoumaru. — disse, aparentando uma segurança que com certeza não condizia à verdade, mas esses dois idiotas não precisam saber disso.

— Deixe ela entrar, Dmitri. — disse Ryuuji.

O hanyou pareceu ligeiramente surpreso.

— É por sua conta em risco, Ryuuji. — ele comentou, dando de ombros.

O executor começou a dar risadas e se afastou, enquanto eu entrava. Ouvi a porta do carro se abrir rapidamente — imagino que Raiden esperava que eu fosse até a porta e desistisse, e agora que viu que isso não aconteceria, resolveu interceder —, mas a porta da casa de Sesshoumaru já havia sido providencialmente fechada. E trancada. Se não fosse suficiente, Ryuuji ficou encostado nela, num claro sinal de que ninguém entraria na casa sem antes passar por ele.

Muito bem, acho que eu mesma me coloquei numa armadilha.

Dmitri me levou por um jardim tradicional japonês, para uma casa tradicional japonesa, com portas tradicionais japonesas e decoração tradicionalmente japonesa.

Eu me sinto como se tivesse entrado no Museu Nacional de Tóquio.

As portas de correr se abriam por criados invisíveis e eu já havia entrado em tantos corredores que com certeza não acharia o caminho de volta sozinha. Não encontrei vivalma, em todo o caminho. Parecia um daqueles locais muito solenes, como um monastério. Só que sem monges. E sem a sensação de paz. Aliás, paz, sua linda, sinto sua falta!

Dmitri finalmente parecia ter chegado ao destino, e indicou com o dedo para uma porta dupla e se foi, deixando-me sozinha para enfrentar o demônio.

Muito bem, eu vim até aqui, não vim? Então tenha coragem, menina, e entre nessa sala! Pegue o maldito de surpresa e encha-o de acusações antes que ele tenha tempo de pensar ou pegar uma espada para cortar você ao meio.

Então, como um pombo, estufei o peito e caminhei adentrando na sala, da qual não me ative a nenhum detalhe; minha atenção estava completamente voltada a Sesshoumaru, que estava sentado, de braços cruzados e expressão imutável, obviamente me esperando.

Plano A: falhou completamente.

Partindo para um "Plano B", o qual não existia pois o "Plano A" me parecia não ter falhas. Então, respirei fundo e busquei aquele restinho de dignidade e coragem que se escondia nos cantos mais escuros de minha pequena existência.

Vamos parar de rodeios e jogar na mesa o que me trouxe aqui nesse rompante de loucura:

— Por que diabos você transferiu o Kashimoto para a França?! — exclamei, completamente furiosa. Desde que havia lido os documentos que o Raiden havia coletado e descoberto que, absurdamente, Sesshoumaru era quem havia mexido os pauzinhos para que Kashimoto fosse parar do outro lado do planeta, eu estava com uma vontade incontrolável de matar o meu noivo.

E o infeliz em questão apenas levantou calmamente da cadeira, enquanto dizia:

— Ele estava muito interessado em algo que me pertence.

Espera… O que te pertence, idiota, que Kashimoto está tão interessado? Foi quando a ficha caiu. Eu. Higurashi Tsubasa Kagome, essa pessoa que escreve esse relato fatídico, era o tal pertence de Sesshoumaru.

Isso me irritou. De tal forma que meu rosto começou a queimar de raiva. Apertei os dedos com tanta força que fez com que minha mão doesse depois.

— Isso é algum tipo de piada? — questionei com os dentes cerrados.

Eram quase palpáveis o meu desconcerto e ira naquele momento.

— Não… Não pode ser possível. — balbuciei — Você o transferiu por que… por que a gente era amigo?

Sem resposta. Respirei fundo e contei mentalmente até dez.

— O transferiu apenas por ser meu amigo? — perguntei mais uma vez, com os olhos fechados. Respirei mais uma vez. — Quem você acha que é, para simplesmente decidir a vida dos outros? Quem você pensa que é para achar que pode controlar minha vida desse jeito? É absurdo!

Novamente, ele não disse coisa alguma, nem mesmo me olhou. Nenhuma reação. Ele simplesmente não se importava com que eu pensava ou sentia, tudo precisava ser do jeito dele, e não era necessário dar explicações quando ele fazia algo que fizesse tudo se adequar ao que a mente deturpada dele acreditava ser o ideal.

— Me responda! — exclamei — O que você acha que ganha com isso? O que você prova? A única coisa que consegue é me irritar, e você mesmo me disse que não tem tempo para esse tipo de futilidade! — Balancei os papéis que ainda segurava violentamente, sentindo lágrimas de ódio queimarem nos meus olhos — Você sequer gosta de mim, para ficar bancando o ciumento!

— Terminou? — Foi então que ele se levantou. — Tenho... — ele olhou o relógio de pulso. — cinco minutos ainda, se for demorar mais que isso podemos adiar essa conversa para outra hora.

Eu simplesmente me calei. Sim, fiquei sem palavras, diante de tamanha grosseria. Ele estava me tratando mais uma vez como uma tola.

— Só me diga o motivo de ter transferido Kashimoto. — pedi, engolindo em seco. Meu orgulho ferido não me deixaria sair dali sem uma resposta.

— Você pode descobrir sozinha. — Então, senti ele passar por mim. Alguns segundos depois, a porta se fechava às minhas costas.

Apoiei a mão na parede e respirei fundo, antes de segui-lo.

— Pode esperar bem aí! — gritei, quando o alcancei. Ele parou e virou-se para me olhar com expressão de escárnio. Kazuki estava ao lado de Sesshoumaru, mas isso não inibiu que eu começasse a falar o que vinha à minha mente. — Para que se dar ao trabalho?! Por que ficar fazendo tudo isso? Nosso noivado era apenas uma ferramenta para você! Uma forma de ter certeza que Hideo não se voltaria contra os tais! Mas isso era antes, quando você estava resolvendo o problema com os yaoguais … Mas e agora? Você está em Tóquio! Por que levar isso adiante? Apenas… nos livre do compromisso, e eu não vou mais poder manchar seu precioso nome!

Sesshoumaru apenas ficou me encarando, impassível.

Suspirei.

— Vamos ser honestos, Sesshoumaru. — falei, cruzando os braços e com expressão cansada — Você nunca iria se unir a uma hanyou. Nós dois sabemos como você preferiria arrancar os dois braços a ter que fazer algo assim. Chega de rodeios e acabe logo com isso. Ambos não querem esse relacionamento.

Esse monólogo estava realmente me deixando frustrada. Todavia, quanto mais eu falava, mais entendia o quanto o que eu dizia fazia sentido, portanto, para mim, tudo estava sendo convincente e perfeito, com argumentos lindos e glamorosos.

Sesshoumaru continuou me encarando. Sim, Sesshoumaru, eu sei que meus argumentos são precisos.

— Nós vamos nos casar. — ele disse.

Como odeio estar errada.


PESSOAS LINDAS, OI! Ladie aqui. Como prometido, novo capítulo no dia 15! O/

O próximo capítulo sai no dia 01/11, sem falta. Então não se esqueçam de dar uma passada por aqui. Essa história já está bem adiantada, e atualmente Fkake e eu estamos escrevendo o capítulo XXIX. O/ Então se preparem para grandes emoções, a história vai dar guinadas ASSOMBROSAS nos próximos capítulos.

Aliás, agora vai começar a part "hard" da história. Então, não percam, viu?