Capítulo XXII — 'Tá né, fazer o quê?

Hideo e Daiki são incrivelmente parecidos, você apenas nota isso quando ambos estão quase caindo das poltronas nas quais estão sentados, rindo; se acabando de rir. Entre os risos, conseguia ouvir meus irmãos comentando sobre a cara do cachorro ou de como eles me amavam por constranger Sesshoumaru tão lindamente.

Sim, achei que ia levar aquela bronca do Hideo, mas ele apenas me abraçou dizendo que me amava e pediu detalhes, quando contei, ambos caíram sentados nas poltronas, dando risada.

Continue rindo, Hideo, quero ver se vai continuar depois de ver a banda mexicana que mandei passar o dia no seu escritório — ele estava enganado se achou que sairia ileso da minha turnê de vendetta. Aika saíra da sala de estar, ouvi-a rir, mas não tenho certeza.

Segui para meu quarto. Havia acontecido uma vingança, ela havia sido linda... Mas mesmo assim esse cachorro não saiu perdendo. Sinceramente, é quase como se eu estivesse tentando derrubar uma montanha.

Manter-me alerta e ficar sempre preocupada com o que ele possa estar planejando, realmente está me deixando exausta. Eu queria apenas estudar, fazer meu estágio. Por que diabos minha vida insiste em não ser simples? Qual o problema do simples? O simples é digno!

Irritada fui até a sala do Nagi e comecei a esfaquear o boneco de anatomia que ele tinha. Claro que teria que comprar outro, mas ainda tenho o cartão do Sesshoumaru, e gastar dinheiro dele com o Nagi deixa meu humor melhor.

— Kagome, ele não sangra. Posso buscar o Daiki, se preferir.

— Não enche.

— Você é balão por acaso?

— E você é comediante? Vai morrer de fome, hem...

— Aqueles dias? — Lancei um olhar furioso. — Tempo para matar. — Ele deu de ombros e sentou em sua cadeira barulhenta que a cada movimento fazia um rangido irritante. Quando pergunto o motivo de não jogá-la fora, ele diz que ela o mantém acordado.

— Sacerdotisa, 'tá aí, vou voltar para minha casa com mamãe e seguir essa vocação!

— Você é uma hanyou.

— Não me atento a esses detalhes pequenos, sou uma pessoa que agora tem uma visão mais abrangente da vida.

— Sua visão abrangente precisa de óculos.

— Calado! — retruquei.

Respirei fundo e esfaqueei mais algumas vezes o boneco.

— Presumo que seu problema seja Sesshoumaru. — ele disse com expressão condescendente.

— Aquele cão.

— Se empenhe mais, cão não se adequa a ele como praguejamento. Porque… você sabe… ele é um cão. — Nagi comentou, abrindo um pequeno bloco de notas para rabiscar algo. Imagino que não sejam flores e coraçõezinhos.

— Eu só queria um pouco de paz. Mas aquele maldito está empenhado em não permitir isso. — reclamei, sentando pesadamente numa poltrona — É tão difícil esquecer que eu existo?

— Levando em consideração que você sempre o provoca? Provavelmente. — Nagi respondeu — Olha, sei que irritar Sesshoumaru é divertido e tudo o mais…

— Só se for para você… — resmunguei.

Ele ergueu a mão, para me interromper.

— Mas talvez esteja na hora de você simplesmente deixar as coisas acontecerem. — Nagi disse, com expressão fechada. Franzi o cenho, não entendendo por que ele estava tão sério. — Não é como se você estivesse interessada em alguém… — ele respondeu, largando o bloco de notas bruscamente — E também não é como se Sesshoumaru fosse querer ter realmente um relacionamento amoroso com você. O relacionamento de vocês é apenas um negócio, um acordo. Comece a pensar nisso dessa forma. Não é necessário ter sentimentos.

— Você fala como se fosse fácil.

— E pelo menos nenhum outro imbecil ficará dando em cima de você. — ele resmungou.

— Outro? — perguntei, rindo. Levantei da poltrona e me dirigi para a porta. Antes de sair, eu apontei para o boneco mutilado. — Obrigada pela diversão.

— Disponha. — ele respondeu. Fui embora.


Depois de gastar mais alguns milhões de ienes de Sesshoumaru, eu pude finalmente esfriar a cabeça. Era uma vitória, afinal. Pequena, mas uma vitória, e isso deveria me deixar um pouco mais tranquila.

Voltei ao estágio-escravo no Aiiku com um pouco mais de tolerância, por mais que a equipe da maternidade e pediatria fosse tão exigente quanto na ala de emergências. A contragosto, eu também voltei a estagiar para o Hideo, e agora que finalmente entendo a finalidade disso, comecei a ter uma visão diferente de administração — embora eu não entenda como isso ajudaria a administrar um território inteiro. Aliás, não quero dizer com isso que eu me ache apta para aceitar a tarefa. Pensar a fundo sobre o assunto só me fazia ter vontade de rir… Apenas vou deixar para tomar decisões quando for o momento oportuno.

Quanto à faculdade, estava tudo indo às mil maravilhas.

Kenjiro brincou que eu estava parecendo mais adulta. Bati nele com a minha bolsa; ele retirou o que disse. Também entrei em contato com Kashimoto, e ele me disse, todo feliz, que estava adorando estudar medicina na Platè. A mãe dele, que era americana, adorou a ideia de passar uma temporada com o filho em Paris, e agora ele estava muito bem instalado e feliz num sobrado francês.

Ele comentou como estava alegre por ter ganhado a bolsa, e que saíra do Japão sem sequer agradecer ao presidente do Aiiku, que, oficialmente, tinha pleiteado a bolsa para Kashimoto. Depois de ver (na verdade ouvir) como ele estava satisfeito, minha raiva de Sesshoumaru cedeu muito. Mas lá no fundo eu ainda estava irritada por ele achar que controlava a minha vida.

Foi numa tarde de folga que eu entrei no carro e pedi para Raiden me levar onde Sesshoumaru estivesse. Sim, assim de supetão, apenas pedi para ele me levar a onde ele se encontrava. Raiden achou que eu tinha enlouquecido e eu estava quase concordando.


Sesshoumaru estava em um escritório de um prédio comercial no centro de Tóquio. Dinheiro não é exatamente um problema para esse infeliz.

Uma secretária engomadinha nem hesitou quando eu disse meu nome, apenas se levantou e me guiou para o escritório de Sesshoumaru, abrindo a porta e me deixando entrar — gostei da moça, o.k. Não vou mentir que fiquei surpresa com toda essa hospitalidade.

Mal a porta havia se fechado atrás de mim, e eu já sabia que havia algo muito errado. Kazuki estava pálido (ainda mais que o normal), e parecia muito frustrado. Sesshoumaru era apenas a pedra de sempre.

— Mas o senhor tem que ir. — enfatizou Kazuki. Sesshoumaru apenas ergueu o rosto por um breve momento, denunciando que ele não era apenas uma estátua ali na sala. — O senhor entende que não pediria algo que não fosse realmente necessário ser feito. Precisamos cuidar da imagem da empresa, a publicidade com esse gesto reverte de forma consideravelmente boa.

— Acredito que eu saiba melhor do que ninguém o que é necessário para a empresa. — respondeu Sesshoumaru. Kazuki ficou vermelho por causa da resposta que recebera e foi quando finalmente me notou.

Ele demorou alguns segundos, mas logo havia voltado à sua postura diplomata normal.

— Senhorita Kagome. — ele disse, com um sorriso. Sorri para ele também, admirada de seu profissionalismo.

— Não vim atrapalhar. — falei para ele, tirando o cartão de crédito da bolsa e estendendo para Kazuki (sim, eu estava ignorando Sesshoumaru) — Só vim devolver isso. Acredito que já o usei o suficiente.

— Senhorita Kagome… — Kazuki começou a negar, mas eu empurrei o cartão nas mãos dele. — Esse cartão foi feito para a senhorita.

— Então posso deixá-lo onde achar mais adequado, bom, já vou indo. Desculpe interrom...

— Kazuki irá acompanhá-la até o térreo. — Sesshoumaru disse, levantando-se — E nossa conversa está encerrada, Kazuki. — Após dizer isso, ele ajeitou o terno e saiu da sala.

Aturdida, apenas olhei para Kazuki, que estava consternado.

— Está tudo bem? — perguntei.

— Desculpe-me por ter de presenciar essa pequena cena deplorável… Infelizmente o Senhor Sesshoumaru às vezes é muito inflexível. — ele comentou, sem hesitar — Lembra o baile beneficente que o Tai Group ofereceu? As doações arrecadadas já foram repassadas para o Hospital Hokkaido, especializado em câncer infantil. Eles conseguiram montar uma nova ala de quimioterapia, e querem que o Senhor Sesshoumaru compareça à inauguração para agradecê-lo publicamente. Mas como poder ver o Senhor Sesshoumaru não quer ir. — Kazuki suspirou, dirigindo-se para a porta, e abrindo-a para mim.

Ele me guiou pela torre, deixando-me na porta do carro onde Raiden esperava. Abri a porta, e então, num ato impulsivo, virei-me para Kazuki:

— Quando será a inauguração?

E foi quando vi o sorriso satisfeito de Kazuki que eu percebi que tinha sido manipulada mais uma vez. Maldição.


— Você é muito fotogênica. — comentou minha mãe observando pela milésima vez minhas fotos que foram tiradas pelos jornalistas no dia em que fui à inauguração da nova ala de quimioterapia do Hospital Hokkaido. — E quando seu noivo vem jantar?

— Um dia nesse milênio, prometo. — respondi, concentrada no bolo que minha mãe havia feito. Claro que ela não perderia a chance de me alfinetar sobre a visita do meu noivo fantasma. Se bem que depois que fui à inauguração em nome dele, ele podia ao menos me devolver o favor vindo aqui para ter uma conversa amigável com a minha mãe.

Engasguei com o bolo e comecei a rir. Ai, só sonhando!

Mamãe nem percebeu que eu quase havia morrido engasgada e ficou apenas sorrindo como boba para as fotos. Eu havia saído em várias revistas. Parecia realmente elegante e acessível, usando um terninho azul-claro. É claro que ela estava orgulhosa de mim.

Eu mesma estava orgulhosa de mim!

Se bem que os meus irmãos não estavam. Daiki havia comprado todas as revistas que conseguira para queimar no nosso jardim, dizendo que era uma blasfêmia que qualquer repórter incompetente juntasse meu nome ao de Sesshoumaru numa frase. Aika deu uma surra em Daiki por causa disso.

Apesar disso, eu havia gostado de ter participado da inauguração do hospital. Foi solene, claro, mas também foi algo gratificante, porque eu estava vendo algo de bom para o mundo acontecer diante dos meus olhos, e acho que isso me incentivou a ser educada e graciosa. Deixei uma ótima impressão nas autoridades que haviam participado e muito mais nos administradores do hospital, por causa do meu interesse pelos equipamentos e os métodos médicos utilizados.

Por um momento, eu pensei no meu estágio no Aiiku, onde eu vivia me matando para agradar médicos esnobes que viviam apenas pelo status de trabalhar num hospital de prestígio, enquanto em lugares como esses os profissionais viviam para salvar vidas. E se sacrificavam para isso.

Cheguei até a contar a experiência para Nagi, e embora o sorrisinho de canto dele tivesse me irritado, eu não me importei de me mostrar apaixonada pelo que tinha visto. E mais estranho ainda é pensar que, indiretamente, eu tinha vivido uma boa experiência por causa de Sesshoumaru.

— Uma pena não ter uma foto sua com seu noivo. — Saí dos meus devaneios e observei minha mãe. — Aquelas fotos de vocês estavam lindas.

— Sesshoumaru não gosta dessas coisas.

— Você o relata como um antissocial antipático, filha.

— É o que ele é. — respondi dando de ombros. Mamãe me lançou um olhar inquisitivo. — Não estou sendo má com ele, estou sendo sincera.

— Às vezes a forma que fala de seu noivo faz parecer que não gosta dele — Ela me encarou.

— Ele consegue ser bem irritante a maior parte do tempo. — Dei de ombros. — Admito que não gosto nadinha desse lado dele.

— E o lado amoroso, como é?

— O quê?

— Você entendeu. Ele é carinhoso? Sedutor? Como é o beijo?

— Me recuso a falar isso com a senhora, tchau. — Agarrei mais um pedaço de bolo e saí correndo da casa da minha mãe antes que ela pudesse me impedir.


Ao entrar no carro, ouvi o celular apitar dentro da bolsa, o apanhei e me deparei com uma mensagem de Kazuki pedindo que eu fosse até a casa de Sesshoumaru, já que ele queria conversar comigo. Meu noivo idiota poderia ao menos uma vez na vida me mandar uma mensagem ou ligar... Às vezes acho que usa o pobre Kazuki como pombo correio.

Dessa vez eu era esperada quando cheguei à casa de Sesshoumaru. Ryuuji havia me recebido e me levado até o escritório no qual eu havia estado anteriormente, quando tive aquela explosão de fúria do tipo "cortarei sua jugular, maldito". Dessa vez pude observar melhor o escritório, já que eu não estava puta da vida.

Era bastante tradicional, o que era de se esperar. Com chão de madeira nobre, estantes de livros, quase nenhuma decoração inútil, e três espadas penduradas em bases de madeira negra atrás da mesa de Sesshoumaru. Era a Tenseiga. A Bakusaiga. E a Tessaiga.

Meu coração quase saiu pela boca. Era impossível não reconhecer a lâmina enferrujada e o cabo gasto. Ali, na minha frente, estava a amada arma de Inuyasha — uma parte dele, algo que o tempo não havia levado.

Engoli em seco, sentindo meu corpo tremer de leve.

Ao abrir os olhos, percebi que Sesshoumaru me observava, sentado à sua mesa como senhor daquela casa. Pela sua arrogância, poderia ser senhor do mundo inteiro. E era.

— Você me chamou? — perguntei devagar, tentando soar calma. — Pensei que eu tinha falado sobre me ligar se quisesse algo de mim.

Ele me ignorou. Isso não é uma novidade.

Sesshoumaru se levantou e colocou o cartão de crédito em cima da mesa.

— Isso é seu. É inútil para mim. — ele disse, fazendo-me perceber que aquele era o cartão que eu havia devolvido alguns dias antes. Ele também apontou para uma revista aberta, mostrando uma foto minha no evento de inauguração da ala de quimioterapia do Hospital Hokkaido. — E não era necessário fazer isso.

— Apenas um obrigado já seria suficiente. — reclamei, revirando os olhos. Aproximei-me e peguei a revista, ignorando o cartão de propósito. — Você deveria ter ido.

Ele apenas me encarou. Sim, claro que ele não aceitaria uma repreensão de mim. Aliás, duvido que aceite de qualquer criatura, já nascida ou não.

— Aposto que você pensou "já dei o dinheiro, por que preciso ir lá receber agradecimentos?", não? — eu ri — Mesmo assim, você deveria ter ido.

— Pensei que a inauguração do Hokkaido seria uma das melhores experiências da sua vida. — ele disse ironicamente.

Ergui os olhos para encará-lo, estranhando que ele tivesse repetido a frase da mesma forma que eu tinha dito para Nagi. Resolvi não cair na armadilha e retruquei, no mesmo tom:

— Ele fala! Quem diria? Estava começando a ficar preocupada.

Sesshoumaru apenas se afastou, pegando o cartão e estendendo-o para mim. Tive a impressão que ele me forçaria a aceitá-lo, então apenas estendi a mão e peguei a contragosto. Vou enfiá-lo em alguma gaveta e esquecer sua existência. Ou quem sabe, se ele me irritar mais, posso dá-lo ao Daiki, ele saberia usar como ninguém.

— Me chamou apenas para devolver o cartão. — Entendi o silêncio dele como um sim, então me levantei. — Sendo assim, vou indo. — Sesshoumaru não fez menção de me impedir... Não que eu esperasse que ele fizesse isso.

Eu dei um passo em direção à porta e então parei. Num mísero segundo, um pensamento correu por minha mente. Um pensamento que até então eu nunca havia vislumbrado, mas que, de uma forma estranha, eu havia me preparado, e sendo preparada, para tê-lo.

Virei-me, encontrando Sesshoumaru ainda me observando. Olhei de relance para a Tessaiga, o que foi doloroso, levando em consideração o que eu falaria a seguir:

— Você vai me forçar a te aturar por muito tempo, não é? — Sesshoumaru ficou em silêncio. — Não há nenhuma chance de você desistir da ideia de casamento?

Sesshoumaru demorou alguns segundos para responder de forma categórica:

— Não.

"O relacionamento de vocês é apenas um negócio, um acordo", havia dito Nagi. Sem sentimentos. Sem previsão de me apaixonar. Sem chance de ter aquele que eu amava de volta. Ficar me remoendo a cada vez que tiver que lidar com isso nunca vai me trazer paz. Brigar incessantemente sem nunca vencer não vai me deixar satisfeita. Eu simplesmente estava numa situação da qual não podia correr e, talvez, a forma como eu me comporto diante disso mude completamente o modo como me afeta.

Respirei fundo.

— Eu tentarei ser civilizada. — prometi para Sesshoumaru, embora eu não tenha certeza se faz alguma diferença dizer isso para ele. — Em troca… Apenas seja um pouco menos irritante.

Sesshoumaru ficou em silêncio. Vou encarar isso como uma concordância. Virei às costas e saí daquele escritório me obrigando a aceitar de uma vez por todas que casar com Sesshoumaru era algo inevitável.