Capítulo XXV — E o Lobo entra em cena

Hideo surtou. Sim, ele realmente surtou. Quando cheguei em casa, encontrei meu irmão mais velho gritando aos quatro ventos que castraria o tengu vagabundo que não estivesse na rua procurando pela irmã sequestrada.

Sim, sequestrada, ele usou essa palavra.

Mas não foi o Hideo que me viu, mas sim Daiki, que veio sabe-se lá de onde me abraçando e começando a chorar. Não estou exagerando, ele realmente estava chorando, dizendo coisas desconexas sobre como era terrível ir ao meu quarto e não se deparar com a linda visão de minha camisola na barriga.

— Pervertido, não fale essas coisas para minha irmã! — ouvi Hideo dizer. Acho que ele bateu no Daiki; não tenho certeza, pois meu rosto estava sendo amassado contra o peitoral daquele louco.

— Sua irmã!? Ela é minha irmã também!

Fui puxada dos braços de Daiki, bati o nariz no peito do Hideo. Malditos de peitorais que parecem verdadeiras pedras.

— Queremos esquecer disso, certo, Kagome?

— Sim. — falei de forma nasalada, contra o peito de Hideo.

— O quê!?

— Agora. — Cada mão de Hideo foi para uma das minhas bochechas, e, então, veio o beliscão. — Onde você estava? Com quem você estava? E como ousa não deixar um bilhete dizendo aonde ia?

— Casa do Shippou; com ele; esqueci de avisar por conta do sono.

— Aquela raposa velha desgraçada! — esbravejou Hideo.

— Missão nova, vamos pichar o prédio daquele safado! — gritou Daiki. — Yuri, vamos comprar tinta!

— Certo!

— Parem com isso. Hideo, faça algo. — pedi ao meu irmão. Hideo entregou o cartão de crédito para o Daiki e saiu andando. — Hideo! Meu deus. Daiki volta aqui!


Não foi fácil começar a trabalhar no Hokkaido. Antes de fazer meu pedido de residência, eu conversei com o Nagi várias vezes para ter certeza dessa decisão.

Não é como se eu nunca tivesse visto ninguém morrer antes. Vamos lá, eu já vi barbaridades quando ia para a era Sengoku. Mas era… diferente. Quando eu passava por aquele poço, era mais como se estivesse indo para um mundo paralelo, algo distante da minha realidade. E ver youkais sendo mortos era diferente de ver humanos morrerem, por que eu nunca compreendi a mortalidade dos youkais, não quando eles vivem por tanto tempo. Parece até que o errado é eles estarem vivos — mesmo hoje em dia, eu não compreendo a perenidade dos youkais.

Ver crianças tendo que lutar contra o câncer era uma coisa totalmente diferente.

No Hokkaido os médicos não estavam apenas engajados na eficiência do tratamento, mas também em transformar a experiência no menos traumática possível. O hospital tinha projetos com uma dezena de ONG's, inclusive uma de voluntários que se vestiam de personagens de mangás e vinham conversar com as crianças.

Um dia eu passei mal de rir ao ver uma Erza correndo furiosa pelos corredores atrás de um Gray só de calças. Ele entrava em todos os quartos pedindo ajuda das crianças para convencer Erza de que ele não havia tirado a roupa por querer, mas por ser amaldiçoado — por algum motivo isso me lembrou de Miroku e Sangô.

Hoje era dia de trazerem os animais. No dia de ontem eu ajudei a equipe responsável de listar as crianças que estavam saudáveis o suficiente para receber a visita de seis cães superdóceis para brincar. Era muito divertido. Tinha uma garotinha chamada Kayanno que era simplesmente apaixonada por um husky siberiano chamado Bau. Ela passava uma semana ansiosa antes da visita, e enchia os olhos de lágrimas quando via o cachorro.

Eu pretendia comprar um filhote de husky para ela assim que ela tivesse alta da internação e fosse para casa, mas o quadro dela ficava mais complicado a cada semana, e eu vivia com medo de nunca ter a oportunidade de dar o presente para ela.

Era no quarto dela que eu estava, acompanhando a visita dos cães, quando Himiko, uma das enfermeiras do andar, apareceu na porta, sorrindo para mim. Himiko era uma das pessoas que mais me agradava no Hokkaido. Ela era baixinha, curvilínea, negra, e de olhos e cabelos escuros. Ela tinha um sotaque engraçado, também, talvez sul-americano, e era tão doce que às vezes dava vontade de abraçar e simplesmente não soltar.

Fui na direção dela.

— Oi, Doutora Higurashi. — ela me cumprimentou — O Doutor Motomya estava procurando você, então imaginei que você estivesse aqui.

Eu sorri e saí do quarto com ela, seguindo até a recepção, onde o Diretor do hospital, o Senhor Motomya, esperava-me. Segui na direção dele, sem compreender qual o motivo de o próprio Diretor vir a minha procura, ao invés de simplesmente me chamar nos alto-falantes.

— Aconteceu alguma coisa, Doutor Motomya? — perguntei, preocupada.

Ele apenas sorriu e me tranquilizou com um gesto de mão.

— Não, querida, é que eu acabei de receber uma ligação do financeiro… Seu noivo fez uma doação de 2 bilhões de ienes para a nossa ala de cirurgia por radiação pesada. Ele também enviou uma proposta de financiamento do projeto. É simplesmente… incrível… Eu queria agradecê-lo de alguma forma, Doutora Higurashi. — Ele sorriu mais uma vez, um sorriso de satisfação tão absurda que era quase contagiante — Eu realmente tenho muito que agradecer pelo que sua família faz por esse hospital e por sua dedicação em seu trabalho.

— É um prazer. — falei, sorrindo, mas franzindo o cenho ao mesmo tempo. — O senhor tem certeza que foi Sesshoumaru quem fez a doação?

— Sim, filha, tenho. — Ele segurou minha mão e a apertou em agradecimento. — Por favor, diga a ele que eu quero agradecê-lo pessoalmente pela generosidade.

Ele saiu andando, deixando a mim completamente confusa. Sesshoumaru? Generoso? É verdade que ele conta como um dos doadores frequentes do Hokkaido (junto com Shippou e Hideo), mas isso é por que EU faço as doações em nome dele. O novo projeto de substituição de cirurgia por radiação pesada é extremamente caro, ao ponto de eu não ter coragem de falar dele para Sesshoumaru, muito embora esteja tentando aliciar Hideo para o projeto.

Então o que significava isso?

Cruzei os braços, inquieta, sabendo que eu tinha que tirar essa história a limpo. O quanto antes.


Eu de fato queria falar com Sesshoumaru, mas não esperava que fosse encontrá-lo naquela mesma noite, e por um motivo tão... estranho.

Aliás, era um assunto tão irritante, desconfortável, enervante, e imagine aqui qualquer adjetivo ruim, que eu simplesmente me recusava a responder as perguntas estressadas de Ryuuji, que me acompanhava até a entrada da casa, onde tirei meus sapatos encharcados.

— Senhorita Kagome? — Kazuki se aproximou, observando-me. Ryuuji deu de ombros, expirando rudemente, e foi embora. — Por que está molhada?

— Meu irmão. — resmunguei enquanto olhava de forma desolada a mancha escura que eu estava deixando no carpete. — Falei que necessitava conversar com Sesshoumaru, e ele resolveu que precisava o apagar meu fogo. — Lancei um olhar a Kazuki que o fez ficar mais rígido. — Como pode ver, o jeito mais rápido que ele achou para isso foi me jogar água fria. Não quero ver o Daiki nem pintado de ouro. — Suspirei audivelmente — Vou dormir aqui essa noite. — E saí andando.

— Espere, vou lhe acompanhar ao seu quarto. — Kazuki se adiantou na minha frente e me guiou pela casa.


Não é como se eu tivesse dormido aqui muitas vezes. Talvez duas, uma quando Sesshoumaru me arrastou para Cingapura e eu tive que ficar aqui por chegarmos inesperadamente de madrugada e a outra para irritar Hideo quando ele tentou me impedir de ter contato com Sesshoumaru — não que eu faça questão disso, mas não podia deixar Hideo comandar minha vida em todos os aspectos.

Ainda assim, Kazuki mantinha um quarto sempre a postos para mim, com caríssimos artigos de higiene e beleza, roupas de grife que eram do meu tamanho exato, e até alguns dos meus livros favoritos, todos novos e intocados.

Sério, às vezes parece que estou noiva do Kazuki, e não do Sesshoumaru. E até que isso não seria ruim, já que ao contrário do chefe dele, Kazuki é sensível e tem um bom coração. Ainda me pergunto o que faz uma criatura tão boa quanto ele trabalhar para aquela cria de capiroto do meu noivo.

Como eu estava "vida loca" hoje, não sequei meu cabelo e saí do quarto vestindo a calça de um pijama azul-claro e uma camiseta preta de lycra. E sem sutiã! Me sinto uma rebelde! Para me converter completamente numa ovelha-negra falta apenas não lamber a tampa metálica do pote de iogurte. Nagi ficaria orgulhoso desse nível de sociopatia.

Entrei no escritório de Sesshoumaru sem bater, esperando encontrá-lo lendo algum documento ou enviando ondas malignas pelo telefone para algum empregado idiota que não tivesse feito algo exatamente como ele queria, mas, estranhamente, ele não estava. Isso chega a ser absurdo, porque ele sempre está aqui.

Respirei fundo, sem saber ao certo o que fazer. Como Kazuki estava em casa, imaginei que Sesshoumaru estivesse, mas talvez eu tivesse me enganado.

Sentei na poltrona dele, decidindo o que fazer. Estava tentada a deixar um recado, mas me peguei encarando a Tessaiga presa à parede enquanto pensava no que escrever.

Eu já estive tantas vezes nessa sala, que às vezes quase esqueço que ela está ali. Quase. Era impossível não sentir uma pequena pontada de desconforto e nostalgia.

Engraçado que nesses dois anos muita coisa que eu tinha como certa acerca do que eu sentia sobre as minhas viagens à era Sengoku haviam mudado, mas a sensação de ficar frente à frente com a espada de Inuyasha, não.

Levantei-me da cadeira, ficando mais perto da parede e da Tessaiga, que era a espada que ficava mais no alto. Pouca coisa havia mudado nela. Como estava em sua forma comum, era apenas uma espada enferrujada e suja. Estiquei a mão e toquei o punho dela. Meus dedos formigaram de leve, mas se limitou a isso.

Lembro de oito anos atrás, quando toquei na Tessaiga pela primeira vez. Naquela época, eu era mais sacerdotisa que hanyou, e a espada não tinha recusado meu toque... Agora, mesmo que meus valores não tivessem mudado desde aquela época, a Tessaiga estava me rejeitando levemente.

Sorri amargamente.

— Essa espada não lhe serve. — sobreveio a voz de Sesshoumaru atrás de mim — Ela só pode ser usada por um hanyou da linhagem de Inutaisho.

Virei-me para ele, surpresa.

— Eu sei. — respondi, enquanto suspirava.

Mas não era para eu saber. Observei Sesshoumaru, procurando desconfiança na expressão dele, mas não encontrei nada. Típico. Não fazia diferença, de qualquer forma. Sesshoumaru parecia incapaz de se importar com essas coisas. Mesmo agora eu tinha muita vontade de dizer a ele toda a verdade, poder conversar com ele sobre tudo o que aconteceu no passado… Mas eu nunca achava espaço para fazer tal revelação.

Sesshoumaru era completamente intransponível.

— É muito tarde para você estar aqui. — ele disse. Observei que ele estava usando calças moletom preta e camiseta branca e sorri jocosamente.

— Você parece muito relaxado. — Sentei-me na cadeira dele — Não esperava que eu estivesse aqui?

— Qualquer youkai em Tóquio sabe que você está aqui. — ele respondeu, referindo-se à minha presença.

— Estou escondendo minha presença, Sesshoumaru. — garanti enquanto cruzava os braços.

O olhar que ele me lançou foi de escárnio tão claro que por um momento eu me questionei se de fato estava escondendo minha presença.

Balancei a cabeça. É melhor deixar o assunto para lá. É impossível ganhar dele. Mesmo que eu esteja certa, ele vai agir como se não, e aí fico em dúvida, ele percebe minha hesitação e trucida meu orgulho.

Nunca ganho dele nessas situações.

— Não vai perguntar por que vou dormir aqui? — perguntei.

— Sua família é inconveniente.

— Isso foi uma pergunta?

Sesshoumaru lançou um olhar para mim. Não, foi uma afirmação mesmo.

Bom, deixa para lá, tem coisas mais importantes para ser discutidas.

— Você vai patrocinar a ala de alta radiação do Hokkaido. — falei, levantando-me — Por quê?

— Por sua culpa eu recebo cartas de agradecimentos do Diretor do Hokkaido toda vez que faz uma pequena doação. — ele respondeu — Tive que dar um jeito no seu comportamento inconsequente. Antes ter que tolerar a condescendência daquele humano apenas uma vez do que uma dúzia de vezes a cada trimestre.

— Que exagero! — exclamei. Ele me olhou novamente. 'Tá, talvez nem tanto. — Eu sabia que tinha algum motivo muito egoísta por trás da boa ação. Custa ser bom apenas por ser bom?

Ele desperdiçou dez segundos de seu tempo precioso para me olhar como se eu fosse um verme. Bom não fazia parte do vocabulário dele.

Suspirei, observando ele sentar na cadeira e tirar um tablet da gaveta.

— Você não vai trabalhar a noite inteira, né? — perguntei — Você nunca dorme? Não venha me dizer que não precisa dormir, porque eu moro numa casa com onze youkais que não sabem lidar muito bem com um longo período insone. Sei disso por que Nagi fez esse experimento não faz nem cinco meses.

— Vá para o seu quarto.

— É muito tarde para trabalhar.

Ele me ignorou. É uma habilidade realmente assombrosa essa dele de me ignorar. Sentei pesadamente no carpete. Não vou ser ignorada por esse idiota. Não é saudável trabalhar dessa forma. Ao contrário do que muitos pensam, os youkais não são espíritos que podem viver apenas de chi e clarividência.

— Não vou sair daqui até você ir dormir. — falei, cruzando os braços. Se ele acha que pode ser teimoso, então ele encontrou alguém que pode ser mais turrão ainda.


Era manhã. Não que eu saiba disso por que meu celular tenha me despertado apesar da minha resistência de sair de uma cama confortável. Eu sabia que era manhã por causa da luz solar que escapava por uma fresta nas janelas e acertava exatamente o meu rosto — era incrível como o Sol estava a milhões de quilômetros da Terra, e ainda assim tinha uma mira perfeita.

Ouvi a porta do escritório de Sesshoumaru se abrir e, logo após, passos de alguém adentrando o cômodo. Apesar de estar acordada, eu não me movi. Meu corpo estava dolorido e pesado, já que eu havia dormido numa posição desconfortável no carpete do escritório de Sesshoumaru.

— Os irmãos da hanyouzinha passaram a madrugada inteira nos ameaçando por todas as vias de comunicação possíveis. — Ryuuji disse, irritado — O que o senhor acha de devolvê-la em pedaços?

Ele realmente é um amor de criatura. Dá para perceber?

— Fique em silêncio. — Sesshoumaru disse, parecendo completamente alheio ao fato de Ryuuji estar furioso com a minha presença ali, e as ameaças que recebeu em razão disso.

Eu imaginei perfeitamente quando Ryuuji prendeu a respiração. O fato de Sesshoumaru mandar que ele se calasse havia quase o tirado do sério. Era incrível como ele sempre parecia uma bomba-relógio.

Sentei-me devagar, bocejando.

— Não é necessário ficar em silêncio. — resmunguei, passando a mão no rosto para ter certeza de que, sei lá, não tinha babado durante a madrugada — Já estou acordada.

— Então que tal ir embora? — Ryuuji questionou. Dei de ombros, ciente de que Sesshoumaru não iria repreendê-lo por ser grosseiro. Apenas me levantei e fui ao meu quarto trocar de roupa, voltando meia hora depois, para avisar que já estava saindo — embora não ache que Sesshoumaru se importasse em absoluto.

... não foi minha culpa. A principal instrução era de que fôssemos discretos. — ouvi Ryuuji falar.

— Faça o trabalho devidamente. — Sesshoumaru disse.

Eu tive a impressão de que Ryuuji iria responder algo, mas foi silenciado. Não faço ideia do motivo, já que eu estava escondendo minha presença, mas eu não duvidaria nada se Sesshoumaru de fato conseguisse me perceber, apesar das técnicas de camuflagem.

Arrumei a bolsa no ombro e entrei no escritório de Sesshoumaru.

— Já estou indo! — falei animadoramente. Encarei Ryuuji e seu sorriso irônico/maníaco, e não me segurei antes de acrescentar — Acho que também venho dormir aqui hoje. Até mais tarde.

Quase ouvi Ryuuji rosnar enquanto eu virava as costas e me retirava.


— Kagome, — Ruri perguntou, tocando meu braço de leve — você está sendo seguida?

Sim, eu estava. E não me surpreendo de Ruri ter notado isso.

Seria impossível não perceber se uma muralha como Ryuuji estivesse te seguindo. Ele sequer fazia esforço para disfarçar.

— É o guarda-costas de Sesshoumaru. — expliquei para Ruri — Meu noivo às vezes pode ser bastante neurótico. — Tentei convencê-la. Nem mesmo eu acreditei que no que dizia. — Como dormi na casa dele ontem... talvez ele tenha percebido que sou tão importante na vida dele que mereço ter cada segundo da minha existência protegido. — Eu ri, a imagem de um Sesshoumaru apaixonado e preocupado era hilariante.

— E o... guarda-costas vai nos acompanhar até a loja de lingerie? — ela perguntou, ruborizada.

— Pensei que estivéssemos indo para o lançamento do livro do professor Harada. — comentei, franzindo as sobrancelhas.

— Yuri e eu vamos comemorar três anos de namoro semana que vem. — ela disse, agora praticamente roxa de vergonha. — Então queria que você me... ajudasse a escolher... Você pode até achar algumas para você e Sesshoumaru... Eu... — ela se calou, nervosa, percebendo que talvez tivesse falado demais.

Eu também ruborizei.

— Bom... então... Hum... — pigarreei — Vamos a alguma loja depois de sairmos da livraria.

Ela lançou um olhar embaraçado para mim, e então sorrimos.


Entrei em casa carregando meia dúzia de sacolas. Grande parte era de livros, o resto era de lingerie. E sim, daquelas sensuais que fariam sua avó ter um enfarte.

Não havia nada que eu pudesse fazer quanto a isso. De repente Ruri estava envergonhada, tímida para escolher o que seria a "indumentária perfeita para sua noite de sonhos com o Yuri" — sim, ela usou essas palavras –, e eu quase vomitei. Então, para ajudá-la a perder a vergonha, acabei comprando algumas. Embora eu duvide seriamente que sequer tenha coragem de olhar para elas.

— Que merda deu em você para ir dormir na casa de Sesshoumaru?! — berrou Hideo, assim que me avistou.

— Culpe seu irmão.

— Eu já o culpei. — Foi quando vi Daiki amarrado numa poltrona na sala de estar.

— Por que você amarrou ele?

— Para me contar que havia acontecido, chego de viagem e onde está minha irmã?! E meu irmão, esse inútil — ele olhou de esguelha para Daiki. —, estava de samba-canção correndo pela casa gritando que estava completamente louco, que não podia imaginar o Cão Sarnento colocando as mãos em sua pobre e doce irmã.

— Ele ainda está de samba-canção? — questionei o olhando, sim ele estava, soltei um suspiro e fui soltá-lo.

— Viu! Você não me abandona dessa forma! — Daiki me abraçou. — Ele me maltrata, aliás, todos me maltratam, isso é complô contra o Daiki!

— Calado! — esbravejou Hideo. — Ainda não terminei com você, Daiki. E quanto a você Kagome, se for sair de casa sempre que o Daiki fizer algo errado, não conseguirá morar aqui.

— Eu vou me comportar! — choramingou meu irmão se ajoelhando e abraçando minha cintura. — Nunca mais te jogo água para apagar o fogo da sua perseguida, Kagome. Eu juro!

— Daiki, calado.

— Estou me desculpando com a nossa irmã. Me deixa expor meus sentimentos!

Hideo respirou fundo e eu desviei olhar de um para o outro, e repeti o gesto algumas vezes enquanto ambos respiravam, procurando a sanidade que ainda poderia estar em seus corpos. Foi quando o olhar de Hideo foi para as sacolas que eu carregava. Não eram sacolas chamativas, mas pareceram prender a atenção dele. E isso me fez lembrar que eram da mesma loja em que Aika comprava as lingeries dela, e se havia algo que meu irmão mais velho sabia de cor e salteado, era as roupas íntimas de Aika.

— Compras? — perguntou, desconfiado.

— Sim.

Foi quando Daiki me soltou e abriu a sacola, começando a mexer nas lingeries que eu havia comprado. Pronto, o circo estava armado novamente.

— Por que você precisa disso?

— An...

— Hideo, olha as indecências que ela comprou! Cancela o cartão dela!

— Está cancelado!

Eles estavam surtando novamente com aquele ciúmes doentio, então, resolvi dar o troco.

— Foi com o cartão do Sesshoumaru. E, sinceramente, não acho que ele vá cancelar o meu cartão sendo que estou adquirindo algo do qual ele se beneficia mais do que eu. — E saí divando.

Pronto, me sentia realmente vingada. E fui para o meu quarto enquanto Daiki e Hideo começavam a berrar ameaças contra Sesshoumaru.


Fui acordada por um Hideo emburrado. Ele ainda estava magoado por eu ter ido dormir na casa de Sesshoumaru. Aliás, não apenas ele. Daiki estava bebendo saquê há dois dias, berrando sobre o fato de Sesshoumaru ter me seduzido e me desvirginado. Chorava como um bebê só de pensar que eu já estivesse grávida. Isso sem falar de que algo havia acontecido entre ele e Hiroko entre esses dias e ela não podia ver a cara dele que tentava aleijá-lo.

— O que foi? — perguntei para Hideo, sonolenta.

— Você vai passar o dia comigo.

— Mas hoje é minha folga. — reclamei. Havíamos combinado que pelo menos duas vezes por mês eu poderia tirar folga do meu trabalho na Empreendimentos Tsubasa que conciliassem com as minhas folgas da residência.

— Arnya solicitou assistência em sua missão nos Estados Unidos. Enviei Raiden, o que significa que não tem ninguém para proteger você. E como você não é de confiança, vai ser protegida por mim ou algum dos outros rapazes durante esses dias.

— Você resolveu que não sou de confiança apenas por eu ter ido dormir com Sesshoumaru? — Eu sei que isso soou sugestivo, mas foi proposital. Hideo ficou pálido e saiu do quarto desesperado, ordenando que eu estivesse pronta em quinze minutos.

Caí pesadamente sobre o meu travesseiro, imaginando a tortura que seria ser seguida para cima e para baixo por Yuri, Ryo, Nagi, ou pior, por Daiki.


— Você não consegue ficar com raiva de mim por tanto tempo, Hideo. — falei, enquanto ele estava concentrado lendo e assinando memorandos internos. A única reação dele ao que eu havia dito foi um leve erguer de sobrancelhas. — Não precisa fingir que está irritado, eu sei que você quer sorrir.

Ele ergueu os olhos para mim, sério.

Desde que havíamos chegado ao escritório dele, Hideo estava me dando gelo. O máximo que ele fez foi me explicar em resmungos que Ren ficaria com Sajia em Sapporo enquanto Raiden e Arnya estivessem fora do país. Eu ainda brinquei sobre como Arnya iria castrá-lo por deixar o bebê dela sem o pai também, mas Hideo não entrou na brincadeira.

Dessa vez, no entanto, ele parecia disposto a conversar, mesmo que fosse para ralhar comigo:

— Você me deixou preocupado.

— Me desculpe, eu prometo que aviso da próxima vez. — sorri — E Sesshoumaru e eu não fizemos nada, eu juro. Passamos a noite inteira no mesmo cômodo e ele sequer tocou em mim!

Hideo fechou a cara de novo, enquanto eu caía na risada.

— Até casar com aquele infeliz, você continua unicamente sob minha proteção. — Ele disse — Eu sei que vocês têm uma história, Kagome. Entendo isso perfeitamente, mas não confio nele.

— Sesshoumaru é uma pessoa boa. — prometi — Ele não faria mal algum para mim, disso eu tenho certeza.

Hideo suspirou.

— Você é a única que acredita nisso.

— Não está mais com raiva de mim? — perguntei, quase fazendo manha.

— Não, não estou. — ele respondeu — Mas trate me avisar se resolver sair com o seu noivo. Não gosto dele, mas prefiro saber o que está acontecendo. E trate de trabalhar direito. Ah, e eu não vou mudar de ideia quanto ao fato de você ser protegida por um dos rapazes todo o tempo.

— No fundo parece que você está fazendo isso para me manter longe do Sesshoumaru. — resmunguei, suspirando.

Hideo não respondeu à minha acusação. Arregalei os olhos, percebendo que essa era de fato a intenção dele. Hideo lançou um sorriso torto para mim. Desgraçado!

Tentei não ralhar com ele e continuei meu trabalho, como ele havia instruído. O turno da manhã já estava acabando quando recebi uma ligação de Himiko, a enfermeira do Hokkaido.

— Alô.

— Doutora Higurashi? — ela perguntou, ansiosa.

— Sim, Himiko, sou eu. Está tudo bem?

— Kayanno está na UTI. O corpo dela está rejeitando a quimioterapia, de acordo com o Doutor Gin. Acho que é melhor a senhorita vir ao hospital imediatamente.

Imaginei aquela garotinha que era apaixonada por um husky chamado Bau morrendo numa maca, e de repente eu só sentia desespero.


Lembro de dizer a Hideo que queria café. Ele perguntou se eu estava bem, e respondi que era apenas fome e que procuraria algo para comer na cozinha corporativa. Acho que ele não acreditou em mim, mas me deixou sair do escritório.

Desci pelo elevador, rígida, mas aparentando calma. Garanti que minha presença estava camuflada e, assim que saí do prédio, eu comecei a correr, tentando achar algum táxi que me levasse até o Hokkaido.

Por todo o percurso, eu só conseguia pensar como era injusto que uma criança estivesse morrendo. Em como parecia que os bons sempre se iam primeiro. Em como era cruel que criaturas como eu tivessem uma capacidade de cura tão eficiente, enquanto crianças como Kayanno morriam traídas pelo próprio corpo.

Algo dentro de mim estava furioso com o destino.

Cheguei às portas do Hokkaido, paguei o táxi e abri a porta com afobação.

Mal havia dado um passo à frente quando uma mão segurando um pano encharcado de clorofórmio foi empurrada contra o meu rosto. Senti o cheiro forte da substância, pensei que deveria parar de respirar, mas aí já era tarde demais... Tudo ficou negro.


— Ela já está acordando. — soou a voz de Himiko. Abri os olhos devagar. Minha visão estava embaçada, mas consegui reconhecer o rosto dela bem perto ao meu. — Eu disse que o corpo de um hanyou absorve o clorofórmio mais rápido.

— Himiko? — perguntei, com voz pastosa.

— Desculpe, Kagome, eu não queria fazer isso, mas é importante. — Ela iluminou meus olhos para analisar a dilatação das minhas pupilas e eu desviei o rosto, incomodada — Sua visão vai voltar ao normal logo, logo. Não se preocupe, não vou deixar ninguém machucar você.

— Você está falando demais, Himiko. — soou uma voz masculina. Ergui os olhos, mas só consegui ver um homem de cabelos escuros atrás dela. — Saia... Eu preciso conversar com ela. Vai ser rápido.

Aquela voz provocou minhas lembranças. Algo remexeu em minha mente, e a nostalgia tomou conta de mim. Demorei alguns segundos, enquanto minha visão melhorava um pouco mais, e percebi vagamente que o homem tinha olhos claros.

Meu queixo caiu de surpresa, e deixei escapar, num ofego, uma pergunta assombrada:

— Kouga?!


E AEW GALERINHA DO MAL!

Então, estamos pouco mais de um dia atrasadas com a postagem do capítulo, mas não foi por que esquecemos, mas por que finais de semanas são complicados para nós. s2

Enfim, não vou me estender muito hoje, só vou dizer para apertarem os cintos, que agora a história começa a deslanchar de verdade. *risada maligna*

Não esqueçam de comentar!

Se foram boazinhas e comentarem bem muito, muito, muito, a gente posta capítulos no dia 24. S2 E sim, talvez CAPÍTULOS, no plural! Divirtam-se! BJS!

P.s.: vamos postar os capítulos 06 - 11 revisado nos próximos dias. Então fiquem de olho! S2