Capítulo XXXI — Sendo uma esponja

Ele me venceu pelo cansaço. Eu simplesmente não aguentava mais desorganizar aquele maldito escritório. Por isso fiz o que uma pessoa com tédio faria, levei uma televisão e um videogame para lá durante a madrugada, instalei e fiquei jogando até Sesshoumaru aparecer na manhã seguinte para mais um dia de trabalho.

Foi muito difícil conseguir levar a televisão e o videogame para aquele lugar já que esse maldito estava praticamente morando lá; mal acreditei quando ele finalmente saiu. Mas como eu sou uma pessoa desocupada, cheia de tempo para gastar, não me importei de esperar.

Aposto que ninguém teve uma lua de mel como essa. Trancada numa casa, sem poder fazer ligações ou entrar em redes sociais (da última vez que tentei, alguém craqueou meu computador e unitilizou completamente os meus navegadores), simplesmente por que seria muito estranho que uma recém-casada entrasse no facebook para curtir as fotos dos amigos. Eu estava isolada do mundo, e o fato de Sesshoumaru estar na mesma situação que eu não era consolo, por que estávamos isolados juntos.

E se não fosse suficiente, um de nós estava ainda muito puto pelo outro ser um cretino maldito. Mas tudo bem, esse cretino iria ficar igualmente puto por ter seu escritório "sagrado" violado.

Segurei o sorriso quando vi Sesshoumaru adentrar no escritório. Ele não fez careta de quem estava surpreso. Claro, imaginar Sesshoumaru com a boca entreaberta, incrédulo quanto ao que seus olhos viam, realmente não era algo que aconteceria nem aqui e nem em um milhão de anos. A reação dele foi bem simples até, afinal, Sesshoumaru apenas parou de andar e direcionou seu olhar a mim.

Sim, ele apenas fez isso, parou de andar e me olhou.

O que fez em seguida?

Nada, apenas voltou a andar e sentou na cadeira, como se fosse a coisa mais normal do mundo ter uma mulher jogando videogame em seu escritório.

Ele se acha inatingível?

Aumentei o volume do videogame ao ponto de eu mesma estar ficando irritada com o som alto. Mantive-me forte, esperando que ele demonstrasse fraqueza. Mas ele nunca demonstrou. Na verdade, parecia que aquele local era o mais silencioso da casa, pois o maldito nem mesmo erguia a vista quando eu gritava por causa dos bosses malditos que eu combatia no jogo.

E assim foi o dia todo. Confesso que nunca joguei tanto videogame em minha vida — e olha que para alguém que mora com seis tengus pirados isso não é pouco. Houve um momento que Kazuki entrou no escritório e ficou um par de minutos olhando de mim para Sesshoumaru, com uma expressão demonstrava claramente a incredulidade de ver aquela cena. No final ele fechou a porta sem nem ao menos falar o motivo de ter ido lá para começo de conversa.

Ótimo, eu deveria ser menos competitiva. Afinal, o que era para irritar Sesshoumaru se tornou uma meta de vida, pois eu queria zerar aquela porcaria!

Quando dei por mim, Sesshoumaru não estava mais no escritório, simplesmente assim, quando percebi eu já havia me envolvido tanto com o jogo que havia esquecido completamente o motivo que comecei a jogar. Tudo por culpa daquela maldita caverna infestada de zumbis na qual morri sete vezes! SETE!

Passar aquela quest se tornou algo para redimir minha honra, então fiquei simplesmente tão compenetrada no jogo que esqueci completamente o que estava acontecendo a minha volta. Na verdade, só voltei a mim quando salvei o jogo e notei a marcação de que 65% estava concluído. Não sou uma gamer profissional, portanto, enrolava muito em algumas partes sem saber ao certo o que fazer, sendo assim, se tudo aquilo já havia sido jogado significava que fiquei horas e mais horas na frente da televisão.

65% concluido?

Vou terminar essa bagaça logo, estou sem sono e não tenho o que fazer mesmo!

Pouco tempo depois, eu me senti ser puxada pelo cotovelo, e nem mesmo voltei minha atenção para quem estava me puxando, apenas exclamei:

— Espera eu salvar!

Claro que não esperou, afinal, era Sesshoumaru que estava me puxando pelo braço e ele apenas parou quando me fez sentar à mesa de jantar, onde se via várias travesas com comida. Foi quando notei que estava de noite e eu havia passado o dia todo sem comer absolutamente nada.

Olhei por sobre o ombro enquanto Sesshoumaru saía da sala de jantar, e quase gritei "Ainda estou com raiva de você!", mas me controlei.

— Boa noite. — falou Dmitri ao meu lado, servindo-me o arroz, virei-me para olhá-lo. Nossa, eu estou morrendo de fome.

— Obrigada.

— O Senhor Kazuki disse que você encontrou uma distração. — Encarei Dmitri, estranhando o fato de ele estar tão falante. Geralmente ele era tão mudo quanto uma porta, e só falava quando era para causar.

— É. Preciso me distrair de alguma forma. Não tem nada para fazer nessa casa.

— Em Kyoto temos uma área de lazer. Com piscina, quadra de tênis e basquete. Você teria mais o que fazer por lá.

— Parece uma casa ocidental.

— Não, na verdade é uma casa tradicional reformada. Dizem que existe há quatro séculos. Temos uma área muito grande, com uma pequena floresta e uma piscina natural. O local é reservado e bem amplo para treinos. — Ele esboçou um sorriso amigável. Tenho que dizer que achei estranho ele estar tão gentil, mas não vou reclamar. Não estava em posição de achar ruim que alguém estivesse se esforçando para me deixar confortável. — Acredito que a senhora iria gostar muito de lá.

— Senhora? — resmunguei, sentindo um calafrio. Já bastava Raiden para me intimidar, eu não precisava de outro hanyou para ocupar esse lugar. — Dmitri, sinceramente, me chame apenas de Kagome.

— Mas...

— Que mas o quê? Esse é meu nome, me chame por ele. Que coisa...

Ele pareceu pensar por alguns segundos, e eu fiquei tentada a dar uma surra nele. Bom, comporte-se, Kagome, ele está tentando ser amigável.

— Enfim… Estou entediada aqui. — Comentei, coçando a nuca — Sequer posso entrar na internet, porque alguém fica bloqueando os meus acessos.

Dmitri lançou um sorrisinho irônico. Arregalei os olhos.

— É você?!

Ele negou com a cabeça.

— É Jinx, a minha irmã. Ela é quem cuida dessas… coisas.

Franzi o cenho, lembrando-me vagamente de uma garota magra de cabelos negros na minha cerimônia de casamento. Provavelmente era dela que ele estava falando.

Dei de ombros. Era o que menos importava agora.

— Obrigada pela comida. — disse enquanto me levantava.

— Boa noite, Kagome.

— Não vou dormir. — respondi, sentindo-me uma grossa em seguida, então emendei a frase: — Tenho um reino para conquistar e governar.

— Voltará ao videogame?

— Odeio deixar as coisas interminaveis.

— Qual o jogo?

— Você não conhece. — ele deu de ombros de forma displicente.

— Como sabe que não?

— Vem comigo.

Foi um sufoco para convencer Dmitri a entrar no escritório de Sesshoumaru sem a permissão dele. Na verdade, eu não o convenci, apenas disse que ele estava ali para me vigiar e garantir que não ia ficar mais horas e horas compenetrada naquele bendito RPG, a ponto de até esquecer de comer. Ou seja, eu disse que ele estava lá para ficar de olho em mim e ele achou a desculpa boa e acatou. Acho que debaixo desse hanyou há um verdadeiro nerd.

— Não acredito que você não consegue combinar os elementos para fazer a espada. — resmungou Dmitri ao meu lado. Sorri para ele, e depois estava apenas sorrindo para mim mesma, percebendo que Dmitri era daqueles "calados até conhecer melhor, depois fico insuportável". — Combina o metal negro com... ah! Não confirma! Não!

— A arma é minha, vou usar ela assim!

— Você perdeu pontos de destreza!

— Tenho ataque.

— Mas o oponente tem ataque maior, você precisa de mais destreza para desviar.

— Me deixa jogar, seu coisado!

A cada golpe que eu tomava era um murro que Dmitri desferia na almofada que estava em seu colo. Aquele ato apenas me mostrou como ele era um nerd enrustido.

— Você morreu! — Ele levou a mão à cabeça e começou a bagunçar o cabelo. — Eu avisei que ele tem ataque maior e que você precisava de destreza! Mas você me deu ouvidos?

— Ai, para de agir como uma mulher menstruada, que saco. — resmunguei me ajeitando para tentar novamente derrotar o lider e conquistar o castelo que era ponto estratégico para a batalha que começaríamos na próxima fase do jogo.

— Me dá isso aqui.

Ele tomou o controle de minha mão. Fiquei olhando de minha mão para o controle por alguns segundos, sem acreditar. Aquele maldito! Tentei pegar o controle, no entanto Dmitri ficou em pé e, bom... ele não precisava fazer muito para deixar o controle fora do meu alcance.

— Ei!

— Com licença, preciso conquistar um castelo aqui.

— O jogo é meu.

— Pode levá-lo embora se quiser, mas primeiro vou matar esse líder.

— Dmitri!

— Você é noob, perdeu a chance que teve, agora deixa um profissional lhe mostrar como se constrói uma arma adequadamente e como se faz uso das magias.

— Oh, poderoso nerd, me mostre seus segredos. — resmunguei sentando-me. Sabia que ele não me deixaria jogar enquanto não conquistasse aquele castelo. Ele estava com o mesmo olhar doentio e determinado que Daiki usa quando quer tomar cerveja em uma reunião importante da empresa.

— Observe e tente aprender alguma coisa.

Certo, ri com o comentário, ainda mais quando ele sentou todo pomposo e começou a recitar devagar como deveria combinar os elementos na construção da arma e que espécie de feitiços deveria deixar acessível e cada personagem que seria utilizado no confronto.

Ele estava indo muito bem contra o lider, admito que fiquei realmente chocada com as combinações que havia feito e por um par de minutos fiquei me questionando se ele realmente sabia que estava fazendo, para que então o visse simplesmente lutando como se aquele fosse um moob qualquer do jogo e não um boss.

Maldito! Quando ele terminou eu soltei um "viva" enquanto ele me lançava um sorriso vitorioso, que sinceramente ficou muito bem nele. Homens calados e sérios ficam lindos sorrindo, não sei ao certo a onde ouvi ou li essa afirmação, mas tenho que falar que concordo plenamente.

— Viu como se faz?

— Oh, grande mestre, por favor, me ensine mais de seus segredos.

— Pequena gafanhoto, observe e aprenda.

— Serei uma esponja, mestre.

Rimos como dois idiotas e voltamos atenção ao videogame. Era bom não se sentir sozinha, para variar.

— O quê? — questionei quando Dmitri se levantou bruscamente, ele até mesmo deixou o controle no chão. Curiosa, olhei na direção da porta. — Sesshoumaru?

Eu havia esquecido completamente que estava no escritório de Sesshoumaru e acredito que o mesmo havia ocorrido com Dmitri que ficou completamente estático e pálido.

Por um momento acreditei que Sesshoumaru fosse nos repreender já que havíamos perdido a noção do tempo e passamos a noite toda jogando RPG. Contudo tal bronca nunca ocorreu. Tudo que meu "atencioso" marido fez foi pegar algumas pastas, um bloco de folhas, seu notebook e sair pela porta, como se não houvesse ninguém ali.

Desviei o olhar da porta para Dmitri que continuava pálido. Senti-me culpada, não deveria ter induzido ele a vir comigo para jogar videogame. Estava mais que claro que naquela casa era tudo regrado e não havia qualquer movimento de anarquia.

— Dmitri? — chamei começando me preocupar.

— Preciso ir. — Ele se curvou levemente em uma reverência. — Com licença.

Respirei fundo. Sem acreditar direito que sem falar nada Sesshoumaru havia conseguido apavorar o Dmitri.

Mais uma vez, tomei ar, então saí determinada e com passos duros em direção ao quarto de Sesshoumaru — o qual não sabia onde era, e essa era uma oportunidade maravilhosa para aprender.


Levou algum tempo, mas finalmente tomei ar e entrei no quarto de meu "amado" marido, deparando-me com a mesma cena que estou acostumada: ele bem alinhado, sentado, trabalhando como um louco, viciado, cretino. Adjetivos que o descrevem perfeitamente, tirando apenas o "louco".

— Você está trabalhando aqui? — questionei sem entender, pois não consigo acreditar que ele desistiria do escritório e viria trabalhar em seu quarto. Acredito que seria mais real ele me expulsar de lá, na verdade era o que estava esperando que acontecesse e o fato de vê-lo aqui trabalhando meio que me desconcertou.

— Preciso trabalhar e você tem feito do meu escritório seu antro pessoal.

— Está me dizendo que desistiu de lá?

— Desistir? — Ele desviou o olhar dos papéis que lia e me encarou. — Havia alguma disputa por aquele cômodo? — Abri a boca para responder, mas fechei em seguida; não sabia o que falar. — Se queria ficar lá deveria ter dito desde o começo.

Tipico.

Ele realmente não dá a minima de eu violar seu lugar sagrado? Bom, ao menos finge com uma maestria de ator que não se importa.

Observei o quarto de Sesshoumaru. Era tão espartano quanto o escritório. Extremamente funcional, bem organizado e bonito. Tinha uma cama de casal gigantesca que eu tinha certeza absoluta que ele quase nunca usava, mas esse era o único móvel que dava a entender que o dono daquele cômodo era um bilionário esnobe e não algum monge beneditino.

Eu não devia estar aqui. Acabei de perceber isso. E ao mesmo tempo… por que não? Era tolo ficar irritando Sesshoumaru. Mas tolice era algo que eu dominava com ninguém. Então sentei-me pesadamente na cama dele, pegando um travesseiro e abraçando-o enquanto encarava Sesshoumaru trabalhar.

Ele ergueu os olhos por um segundo, virando o rosto para me encarar com expressão séria. Sorri de forma inocente para ele.

Naquela noite, eu dormi na cama do meu marido, enquanto ele trabalhava a menos de quatros metros de mim.


Ladie

Oi, gente.

Bom, primeiro eu queria agradecer a todas as reviews que nos deixaram, principalmente as longas e cheias de surtos. Amamos vocês. Infelizmente a Fkake está viajando e vocês vão ter que lidar comigo... Infelizmente eu não estou tão bem, então talvez não seja uma boa companhia hoje.

Enfim, vamos ao que interessa! Surgiram algumas perguntas interessantes nas reviews do capítulo anterior e Mary e eu responder.

Sobre a categoria HUMOR em vez de MISTERY. Eu sei que foi mais uma brincadeira, mas a gente achou legal trazer isso a tona. Principalmente por aa gente ficou se sentindo mal por ser pessoas ruins de deixar esses mistérios truando na história - mentira, a gente adora deixar esses mistérios. Enfim, é humor em vez de mistério por que é o gênero mais presente na fic de forma genérica.

Sobre o dia em que a Kagome é humana. A gente falou disso no capítulo 12, salvo engano, que a Kagome é humana durante a lua minguante. Foi interessante nos lembrar disso, até para usarmos mais na fic (a gente vive sem embaralhando com tanta informação e com tanto personagem para guiar).

Sobre os descendentes do Miroku e da Sangô. Eles existem. UAHUAUAHUHAA Mas é muito provável que eles não apareçam na história.

Sobre a filha do Sesshoumaru. Vieram nos perguntar inbox se não tinha sido um erro nosso, e a gente tencionava escrever "Fique longe da minha mulher" em vez de "Fique longe da minha filha". Não, gente, nós queríamos escrever exatamente isso. Fiquem aí imaginando o que isso quer dizer. (Plantando tretas)

Sobre esses capítulos serem a calmaria antes da tempestade. Momento vidência, gente. UHAUAUAHA SIM, É A CALMARIA ANTES DA TEMPESTADE. No próximo capítulo a gente já começa a acelerar o ritmo mais uma vez. Aliás, preparem seus corações, certo? Há previsão de fortes emoções nos próximos capítulos.

É interessante falar sobre o romance Sesshoumaru e Kagome nesse ponto. Eu aposto que muita gente tem desejos secretos de algo mais apimentado, mais romântico entre eles... E acreditem, estamos tentando, só que é muito complicado lidar com o relacionamento deles por que a gente não consegue achar espaço para coisas como "tensão sexual" ou "olhares pimpões". Nós começamos a tratar disso agora (por volta do capítulo XXXIII) e está sendo bem lento, já que estamos falando dessas duas mulas. Mas esperamos que todos sejam pacientes para lerem um relacionamento convincente entre eles dois. Enfim, bjs, pessoas.