Capítulo XXXII — Mamãe e sua mensagem
Essa sou eu acordando quase meio-dia. Tudo bem, sou digna de perdão... Estou de lua de mel, tenho direito de estar exausta e de poder descansar meu belo corpo o quanto eu queira. E daí que o meu marido passou a noite trabalhando de novo? Está tudo certo, uma garota pode suportar esses detalhes, principalmente depois de dormir tão bem e se está querendo fazer o cônjuge pagar por ser um filho-da-mãe.
Tudo bem qu e na verdade é Sesshoumaru que tem vencido essa pequena batalha que comecei por causa do tédio nessa casa... O que me dá mais anseior para chegar o dia dessa lua de fel acabar, para por fim eu poder voltar a minha vida normal e afundar no trabalho no Hokkaido. Até a perspectiva de começar a trabalhar como Administradora do Leste parecia tentadora agora.
Mas ainda faltam quase duas semanas para que eu possa sair do cativeiro. Sinto como se eu fosse uma prisioneira.
Suspirei, voltando a fechar os olhos. Estou acordada, mas isso não implica na coordenação motora necessária para me levantar e sair da cama; não mesmo. Não tenho a mínima intenção de sair daqui. Estou tão confortável que isso está até me deixando meio entorpecida. Soltei um suspiro prazeroso enquanto me espreguiçava. Abracei o travesseiro e abri os olhos novamente, recordando que não estava em meu quarto, mas sim no do meu nada atencioso marido.
Preciso ir para o meu quarto ao menos, mas a preguiça se manifestou em mim e se refugiou, construindo um forte que está difícil de derrubar. Bocejei, voltando minha atenção para uma porta aberta.
Não havia notado aquele lugar quando entrei no quarto na noite passada, acredito que seja o closet a julgar pelo grande espelho ao fundo. Tive vontade de ir lá averiguar, mas acabei ficando na cama, contando mentalmente até três no intuito de me levantar quando chegasse no três.
Fracassei em todas as vezes que tentei me levantar e me mantive ali por mais algum tempo, permitindo a mim mesma aproveitar o conforto. Era quase um pecado uma cama tão confortável pertencer a alguém que praticamente nunca dorme. Afundei o rosto no travesseiro e me espreguicei mais uma vez, começando a me sentir incomodada por estar a tanto tempo no quarto de Sesshoumaru.
Com esse pensamento me veio a verdadeira coragem para sair daquela adorável cama e ir para meu quarto — ou quem sabe o escritório, já que ainda não terminei o jogo.
Quando virei o rosto, no intúito de soltar um último suspiro e com isso ter as forças necessárias para me levantar, algo prendeu minha atenção. Por todo aquele tempo que fiquei enrolando para me levantar não me passou pela mente que Sesshoumaru poderia estar no quarto... mas ali estava ele, dentro do closet, vestido apenas numa calça social cor de chumbo. Sesshoumaru era atlético, tinha costas largas e músculos definidos. Não sei porque estou dando atenção a isso, mas não me julguem por fazê-lo.
Por algum motivo que não sei explicar agora, prendi minha respiração, enquanto o observava. Acho que foi para que não percebesse que eu estava acordada, embora ele estivesse completamente alheio à minha presença.
Isso foi algo estranho de se ver. Sesshoumaru passa essa impressão de ser um homem que não segue nenhuma lei do universo. Do tipo que acorda completamente vestido, que não precisa dormir ou comer. Do tipo que não tem sentimentos de espécie alguma.
Perdi tanto tempo digerindo essa sensação estranha, que foi uma sorte ter notado que ele iria se virar após ter terminado de vestir a camisa e colocar a gravata ainda folgada no colarinho.
Fechei os olhos fingindo estar dormindo, e meu sangue congelou quando senti o colchão da cama ceder ao meu lado. Por um momento cogitei a ideia de que ele poderia estar me observando, pensando se deveria me acordar ou não.
Claro que ele não estava fazendo isso e me senti incrivelmente estúpida por pensar que Sesshoumaru seria capaz de fazer algo assim.
A verdade era que ele havia sentado na cama para calçar os sapatos, já que depois ele saiu do quarto, seus passos soando bem audíveis agora. Abri um olho e depois o outro, aliviada por ver que estava sozinha. Sentei-me lentamente na cama e puxei o cobertor até a altura do rosto, ficando nessa posição até finalmente ter coragem de levantar e sair dali.
— Por que eu treinaria com você? — questionou Ryuuji virando-se para me encarar, precisei me segurar para não sair correndo do olhar dele.
— Está ocupado?
— Não.
— Aí está um motivo, para começar.
Ryuuji me lançou um olhar enervado, de quem estava disposto a me esganar, contudo não deixei que ele me abalasse.
Era mais que óbvio que essa não era a melhor ideia que eu já tive. Mas é que depois de sair do quarto de Sesshoumaru — e zerar o maldito jogo — eu fiquei sentindo um vazio tão grande que até mesmo a ideia de dar meu corpo como saco de pancadas para Ryuuji pareceu interessante.
— Não me amole. — ele rosnou, enquanto voltava sua atenção para a geladeira que estava aberta desde o começo da nossa conversa.
O tédio me consome completamente. Sesshoumaru estava mais uma vez no maldito escritório, já que eu havia terminado o jogo e começado a ir em seu quarto fazer perguntas aleatórias sobre a casa e seus cômodos e também sobre quem morava ali, não consegui fazer mais de três perguntas até ele dizer que Dmitri ou qualquer outro youkai ou hanyou da casa poderia me ajudar. Quando Kazuki entrou no escritório aparentemente bastante nervoso, eu acabei deixando de lado o novo jogo de horror survivorque tinha começado para ir achar algo para fazer. Não que tenha encontrado, o que é comprovado pela minha nova empreitada de convencer Ryuuji a me treinar.
Ainda tentei apelar para Dmitri, mas depois do que aconteceu ontem à noite, ele voltou para o seu já conhecido estado de mudez seletiva. Quando tentei convencê-lo a comprar algum RPG de mesa para jogarmos, ele apenas deu de ombros e me deixou sozinha na cozinha. Será que Sesshoumaru brigaria comigo se eu surrasse o Dmitri?
Foi aí que Ryuuji chegou com todo o seu mau-humor e arrogância. De primeiro momento achei uma besteira essa minha ideia, afinal, estava ali presa para manter o disfarce de que estou em lua de mel, o que poderia ir por água abaixo se eu descuidasse da barreira que escondia minha presença... Mas depois lembrei que eu já dominava a barreira há anos, e estava acostumada a treinar e mantê-la ao mesmo tempo.
— Está com medo de eu lhe dar uma surra? — questionei em um truque idiota de psicologia reversa. Sinceramente, é até patético ver como é fácil manipular o Ryuuji, pois apenas essa frase foi suficiente para que ele voltasse sua atenção para mim.
— Serei esfolado vivo quando Sesshoumaru descobrir sua morte.
— Desculpe, imaginei que você gostaria de uma desculpa para descontar sua raiva de mim em mim. — Foi quase palpável o interesse dele no que eu estava falando. — Vai me dizer que não gostou da ideia?
— Sabe o que é suicídio, sua estúpida?
Pensei em dizer que ele era o único nessa casa que sei como manipular, mas me calei a tempo e sorri, fazendo-o erguer a sobrancelha, todo irritadinho.
— Até onde sei, você é o único nessa casa que realmente lutaria comigo sem me dar uma colher de chá.
Ele me encarou com olhos estreitos enquanto fechava a geladeira, em seguida deu de ombros.
— Por sua conta e risco. Vamos ao jardim dos fundos e nos manter afastados da casa.
Sorri, sentindo-me vitoriosa, embora não por muito tempo, pois quando Ryuuji parou de frente a mim com a expressão mais sanguinária que já vi no rosto de alguém senti meu sangue gelar e comecei a me arrepender da maldita ideia que havia tido.
Ele ia me matar e fazer com que fosse um acidente para que Sesshoumaru não pudesse se queixar... Como se ele fosse. Acredito que ele seria até mesmo grato se de fato Ryuuji desse cabo da minha vida. Bom, não tão grato pois meus irmãos iam iniciar uma guerra, mas enfim.
Estava acostumada a lutar contra Raiden e não querendo me gabar, havia ficado realmente forte nesses anos em que recebi o treinamento que meus irmãos instruíram ele a me dar. E acredito que apenas por esse motivo consegui ver a mão de Ryuuji um milésimo antes de ser atingida no estômago.
Droga.
Meu corpo arqueou com o golpe enquanto que meus olhos ficaram arregalados com a surpresa da velocidade de meu oponente. Dei alguns passos para trás tossindo e levando a mão direita até o estômago, meus joelhos cederam com a dor e quando dei por mim, estava com as mãos na cintura abraçando a mim mesma. Ergui a vista para Ryuuji que ainda estava parado com a mão esquerda erguida, ele estava sério e com um olhar distante, piscou duas vezes quando notou meu olhar e ficou ereto.
— Seu tutor não lhe ensinou direito. — Respirei fundo, ficando em pé. — Ele foi displicente em seu treinamento.
— Raiden me treinou bem.
— Claro, você nem mesmo suportou um soco. Acredito que depois que juntou os trapos com a outra hanyou ele nem mesmo lhe treinou novamente.
Ele não estava completamente errado. Desde que eu havia começado o estágio nas empresas do meu irmão os meus treinamentos começaram a ficar raros. E assim que Raiden descobriu a gravidez de sua esposa, meu treinamento foi extinto.
Mesmo assim, eu não esperava que Ryuuji fosse começar com um golpe tão veloz. Eu simplesmente não estava preparada. A veia competitiva em mim pulsava loucamente. Eu não podia aceitar uma derrota assim tão simples.
— Não deveria ter me chamado para treinar se não consegue suportar nem mesmo um segundo. — Abri a boca para responder, mas as palavras ficaram presas, junto com meu orgulho destruído. — Assim que essa besteira de lua de mel terminar, começaremos um treinamento rígido. — Ele colocou as mãos dentro do bolso da calça e começou a caminhar na direção da casa. — Como uma Taisho você deve ao menos conseguir derrotar seus subordinados.
Fiquei ainda algum tempo processando o que ele havia dito, peguei o meu orgulho despedaçado e segui para meu quarto. Eu estava furiosa. Nem tanto com ele, mas comigo mesma. Eu estava completamente fora de forma, mas não era motivo para estar tão fraca. E daí que Ryuuji era mais forte? Raiden havia me treinado para ser ágil, esquiva.
Até a lua de mel acabar e Ryuuji resolver me treinar, havia tempo para eu voltar à parte da minha força. O Muralha estava enganado se achava que eu seria uma oponente fácil quando o dia chegasse.
E daí que meu marido é um viciado em trabalho, que Dmitri está me ignorando? Eu tinha um novo objetivo de vida. Fazer um idiota engolir suas palavras.
Entrei no meu quarto. Meio irritada, meio animada, traçando planos de como treinar escondida. Por enquanto eu não podia ir para o escritório de Sesshoumaru. Por mais que eu A-DO-RE irritá-lo, eu não queria atrapalhar Kazuki no que diz respeito ao trabalho dele. E se a cara de preocupação com a qual entrou no escritório mais cedo era uma dica, havia algo muito importante acontecendo.
As opções então eram jogar puzzle no meu notebook (eu não podia usar a internet) ou fruits ninja no celular (o qual eu não podia usar para fazer ligações ou enviar mensagens). Olhei para meu celular, e resolvi jogar fruits ninja, pelo simples motivo de estar mais de acordo com o meu espírito de luta.
"Você tem uma nova mensagem de texto", eram as palavras na tela do meu telefone. Arregalei os olhos, surpresa. Eu estava há tanto tempo sem poder me comunicar com as pessoas que chegava ser estranho pensar que elas poderiam fazer isso.
"Kagome, querida, como você está? Bom, não quero atrapalhar nada. Assim que você chegar em Tóquio, venha conversar comigo, sim? É urgente.
Mamãe."
Dez segundos depois eu saía do meu quarto às pressas.
— Onde você pensa que vai?! — Ryuuji perguntou às minhas costas. Eu estava me equilibrando em um único pé enquanto tentava calçar as botas na entrada da casa. Dei um pulo, como se tivesse sido pega fazendo algo errado, e virei-me para ver Ryuuji, Kazuki, Dmitri e Sesshoumaru. Todos vestidos para sair.
— Eu… — comecei, respirando fundo — Eu vou… hum… ver minha mãe. Juro que vou ser discreta, Sesshoumaru, ninguém vai me ver, mas parece urgente e…
Calei-me, surpresa.
Algo mudou na expressão de Sesshoumaru. Foi tão rápido que eu quase recuei quando ele andou na minha direção e segurou meu braço, balançando-me uma única vez com força.
— Não se atreva a sair dessa casa. — ele disse entredentes. Eu apenas o encarava, de olhos arregalados, completamente assombrada com a intensidade da reação dele. Sesshoumaru soltou-me, e eu cambaleei, mal percebendo quando ele passou ao meu lado e saiu, batendo a porta da frente com força.
Ryuuji respirou profundamente, e acompanhou o meu marido com Dmitri. Kazuki que ficou para trás, também surpreso com o que havia acontecido.
Por fim ele lançou um sorriso tímido e se aproximou.
— Desculpe, Kagome. O senhor Sesshoumaru está apenas nervoso.
— Espere… Por que ele saiu? Por que ele pode sair e eu não?! — exclamei, encarando assombrada a porta fechada atrás de mim. — Kazuki!
— Temos uma emergência. — explicou Kazuki — Vamos para Kyoto. Devemos voltar em uma semana ou duas. Até lá, não saia da casa, por favor.
— Emergência? — perguntei, preocupada — Aconteceu alguma coisa?
— Invadiram nossa fronteira. Sesshoumaru precisa cuidar disso pessoalmente. Mas não se preocupe, vai ficar tudo bem. Jinx vai ficar na casa, então peça para ela qualquer coisa que precisar. — Kazuki fez menção de sair também.
— Tem algo a ver com os yaoguais? — perguntei, lembrando-me de dois anos atrás, quando Sesshoumaru havia enfrentado aquele yaoguai no estacionamento de um prédio em Taiwan. Lembro perfeitamente de Sesshoumaru ter dito que havia encontrado espiões invadindo a fronteira do leste.
O olhar de Kazuki ficou subitamente sério, mas logo depois ele sorriu, dizendo que não era nada sério. Lembro de uma vez que Nagi falou que de todos os youkais de Sesshoumaru, Kazuki era o que mais o deixava desconfortável. Era verdadeiramente gentil, sem ego, com uma capacidade forte de empatia. Nas palavras de Nagi, essas eram características para o espião perfeito.
Bom, ali estava uma pequena prova de como Kazuki era sagaz em suas reações. Vi ele sair de casa e voltei a calçar minhas botas. Independente do que meu marido queria, eu não podia deixar de ir ver minha mãe se era algo importante. Eu não tinha medo de Sesshoumaru.
Ergui a mão para a maçaneta e parei. Minha mãe questionaria porque eu estava em Tóquio e não em lua de mel. Teria uma reação catastrófica de fúria se descobrisse que eu havia mentido para ela sobre qualquer coisa.
Recuei. Tirei minhas botas. Fui para o meu quarto. Eu podia não temer Sesshoumaru, mas me pelava de medo da minha mãe.
Fkake
Bom, se me recordo bem nao há questionamentos novos, portanto não vou dar muitas explicaçoes, garanto que estamos surtadas e escrevendo loucamente esse mês. Preparem o coração de vocês.
Comentários sobre que estão achando da lua de mel deles, pf.
Beijos e até a próxima cambada.
